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Elas não se estão a limitar a jogar futebol

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Cláudia Neto, capitã da seleção nacional feminino, a liderar a entrada em campo com Carli Lloyd, dos EUA, em agosto de 2019

Cláudia Neto, capitã da seleção nacional feminino, a liderar a entrada em campo com Carli Lloyd, dos EUA, em agosto de 2019

Brad Smith/ISI Photos

Imagine que, de repente, dezenas de jogadores por hábito convocados para a seleção nacional, ou que já foram internacionais, assinam não por baixo, mas em cima, logo a abrir, uma carta a protestar contra uma decisão tomada pelo destinatário, que no caso é a Federação Portuguesa de Futebol. São 132 nomes e lá para o meio escrito está o de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, capitão da equipa de Portugal que, como todos os outros, recebe um salário por representar a seleção, pago pela entidade contra a qual protesta.

Isso chamar-lhe-ia a atenção?

Seria gatilho fácil de premir assumir, pulando a galope da generalização, que basta trocar um nome e dizer que é precisamente o que está a acontecer com a seleção feminina portuguesa. Não é, mas é quase. Cláudia Teresa Pires Neto, a capitã da equipa, não tem e terá nunca a visibilidade de Cristiano Ronaldo. No dia de São Nunca à tarde será capaz de ganhar o mesmo dinheiro que ele. A sua voz é igual à dele no tom e na validade, mas será dez em cada dez vezes menos ouvida, partilhada e citada porque não jogam no mesmo campo, embora joguem o mesmo futebol. O contexto a separar as realidades é enormíssimo, até redundante seria explicá-lo.

Cláudia tem o nome completo entre o grupo de 132 jogadoras que se estão a opor à federação, acusando-a de violar o princípio de igualdade entre homens e mulheres consagrado na Constituição da República Portuguesa, ao propor uma massa salarial limite - elas chamam-lhe teto - de 550 mil euros para cada uma das 20 equipas que, na próxima época, joguem na Liga BPI. Defendem ser um caso de "discriminação de género institucional", algo que a FPF, nos seus estatutos, "não admite".

As jogadoras escreveram um direito de resposta, deram o contexto, argumentaram porquê, indicaram as razões e apresentaram motivos para tentarem convencer a federação a mudar de ideias em relação a uma medida, acreditam, que irá prejudicar o futebol feminino no país.

Trata-se, sobre simplificando, do caso de uma entidade que organiza uma prova achar uma coisa e jogadoras que nela competem, e não só, acharem outra. Tenham ou não razão, ninguém obrigado é a concordar com as convicções, opiniões ou ações do outro. Nem a pensar como o outro, ou a nada dizer se, por acaso, discordar do que o outro faz, diz ou pensa. Muito menos em Portugal, onde a mesma Constituição que as jogadoras invocam garante a todos os cidadãos "o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio".

Elas, as 132 jogadoras, estão a criticar e contestar uma medida por considerarem que prejudicará o futebol feminino em Portugal ao invés de o melhorar. A federação, mesmo que ainda não tenha explicado bem porquê - a Tribuna Expresso já enviou questões à FPF sobre o tema -, imagino que terá proposto essa medida por acreditar no contrário e crer que servirá para desenvolver a modalidade.

São opiniões e visões divergentes, como outras quaisquer, e algures no meio poderá surgir um entendimento. Mas, entretanto, lá apareceu a vontade destas futebolistas em fazerem algo em relação a isso. Como, há pouco mais de um ano, fizeram 28 jogadoras da seleção americana, quando processaram a federação do país alegando, também, discriminação de género.

O que chamou muito mais atenção.

As americanas correm atrás das mesmas bolas, jogam o mesmo futebol, mas também elas não o fazem no mesmo campo que as portuguesas. Hectares de relva há a separá-las, porque as americanas são profissionais a tempo inteiro, já conquistaram quatro Mundiais (incluindo os dois últimos), quatro torneios olímpicos e habitam num futuro longínquo, onde não todas, mas muitas já tinham a força mediática para se pronunciarem, individualmente, sobre o caso que as unia.

As jogadoras portuguesas, por enquanto e aparentemente, optam por não falar singularmente em entrevistas e preferem reagir sob a voz do movimento ("Futebol Sem Género") que criaram.

Megan Rapinoe e Alex Morgan, a cantarem o hino dos EUA antes de defrontarem Portugal, a 29 de agosto de 2019

Megan Rapinoe e Alex Morgan, a cantarem o hino dos EUA antes de defrontarem Portugal, a 29 de agosto de 2019

Hannah Foslien/Getty

Entre elas não há, nem Cláudia Neto é, uma Abby Wambach, uma Alex Morgan ou uma Megan Rapinoe. A primeira é a mais titulada jogadora de sempre da mais condecorada seleção que existe, a segunda era talvez a mais popularmente reconhecida jogadora do país até a terceira se catapultar com a honra de defender, publicamente, as causas nas quais acredita, fazendo uso da notoriedade que o futebol lhe granjeou.

O rosa que já lhe pintou o cabelo, os pomposos gestos celebrativos em campo ou o vernáculo para desafiar Donald Trump podem ser ruído ofuscante das palavras que saem de Rapinoe a cada entrevista ou intervenção pública, como estas: “A minha, não sei, grande mensagem é que todas as pessoas têm a responsabilidade de serem participativas na sociedade e torná-la num sítio melhor para toda a gente, em qualquer capacidade que possam”.

Ou esta, quando lhe perguntaram se as jogadoras americanas, como os jogadores, deviam ser apolíticas e limitarem-se a jogar à bola, obedecendo ao infundado e vindo de nenhures cliché que, quase lei não escrita, diz que o desporto não se deve misturar com política, causas e lutas além campo:

“Não percebo, de todo, esse argumento. Querem que sejamos modelos para os filhos deles. Querem que apoiemos os seus produtos. Desfilam-nos por aí. Mas não estamos aqui para nos sentarmos numa montra e olharem para nós. Não é assim que isto é suposto funcionar.”

As 132 jogadoras que protestam contra o limite salarial da FPF não se estão a limitar a jogar futebol.

O que se passou

A primeira prova de surf a realizar-se, no mundo, no pós-confinamento, na Figueira da Foz, teve como vencedores Teresa Bonvalot e Frederico Morais. Outra boa notícia foi a conquista do campeonato ucraniano por parte do Shakhtar Donetsk, equipa liderada por Luís Castro. Infelizmente, também houve más notícias: a morte de Bobana Velickovic, campeã da Europa de tiro, que morreu ao dar à luz. No ténis, soube-se que Dimitrov está infetado com covid-19, depois de ter participado num torneio organizado por Djokovic, tal como Coric. No futebol, a crise fez alguns futebolistas apostarem numa nova carreira, como tosquiadores de ovelhas.

Ganhar, seja onde for, nunca é fácil. Mas difícil mesmo é fazê-lo com a elegância, a educação e o nível de Luís Castro

Bruno Vieira Amaral, escritor e cronista da Tribuna Expresso, discorre sobre a carreira de Luís Castro, acabado de conquistar o campeonato da Ucrânia

Teresa Bonvalot e Frederico Morais, os vencedores da primeira prova de surf a ser retomada no mundo

O primeiro campeonato de surf a regressar no pós-confinamento aconteceu em Portugal, na Figueira da Foz, para arrancar com a adiada Liga MEO. A etapa foi conquistada por Frederico Morais, que pediu autorização à World Surf League para participar, e Teresa Bonvalot, o e a surfista que mais tempo passam a competir lá fora

O que alegam as 132 jogadoras que protestam contra a FPF: teto salarial viola dois artigos da Constituição da República Portuguesa

A <strong>Tribuna Expresso</strong> teve acesso ao direito de resposta enviado à Federação Portuguesa de Futebol pelas jogadoras do movimento "Futebol Sem Género", no qual alegam que o limite salarial imposto pela entidade "incorre na violação" de dois artigos da Constituição da República Portuguesa que consagram o princípio da igualdade. Defendem, ainda, que a medida também viola "as regras do fair play financeiro da UEFA" e pode ser "judicialmente censurada pelos Tribunais Internacionais"

Jorge Costa, parte II: “Tive papagaios, passarinhos, peixinhos, tartarugas, um pavão. E coelhos... deitava-me com três, acordava com 20”

O menino que sonhava ser veterinário é, aos 48 anos, um homem de feitio mais refinado, como faz questão de dizer. O Bicho acalmou, mas continua com a mesma ambição de ganhar e confessa que um dia gostava de voltar ao seu FC Porto, a casa onde ganhou o seu melhor amigo, Sérgio Conceição. Se o regresso ao Porto está perto ou se o futuro próximo passa por continuar a ser treinador além fronteiras, isso ainda não sabe

Jorge Costa: “Fiz maldades ao Nuno Gomes e ele a mim, mas gosto muito dele e sou amigo do João Vieira Pinto e do Rui Costa”

Da infância no Porto, ao voleibol com Miguel Maia na Cortegaça e o acidente que o atirou decisivamente para o futebol, passando pelo ingresso no clube do coração, o gosto pela cozinha que o leva a ver programas de culinária para ter ideias novas, até às grandes conquistas, aquele que ficou conhecido por 'Bicho' abre um pouco o livro da sua história nesta entrevista, que tem continuação - Parte II, amanhã -, já na carreira de treinador

E vão quatro títulos seguidos conquistados por portugueses. Luís Castro é campeão da Ucrânia com o Shakhtar Donetsk

O treinador português conquistou, aos 58 anos, o primeiro título da carreira na primeira divisão, ao ser campeão ucraniano com o Shakhtar Donetsk. A equipa venceu, este sábado, o Oleksandria (3-2) e garantiu, a cinco jornadas do fim, o tetracampeonato para o clube

Zona mista

Crescemos muito em vários aspetos: temos os melhores jogadores do mundo, os melhores treinadores. Mas, depois, a base da pirâmide, a da educação, está muito aquém. Olha-se de forma fanática para o resultado e não se percebe que o último classificado pode roubar pontos ao primeiro. [...] Os adeptos que ameaçam de morte um jogador ou os seus filhos esperam mesmo que ele renda mais? Claro que não rende mais!

- João Henriques, treinador do Santa Clara, em entrevista ao jornal "A Bola" de hoje.

O que aí vem

Segunda-feira, 22
É uma questão de escolha, com tanto futebol. Há Liga portuguesa: Portimonense-Marítimo (21h, SportTV1); há Liga italiana: Bolonha-Juventus (20h45, SportTV4); há Liga inglesa: Manchester City-Burnley (20h, SportTV2); e há Liga espanhola: Villareall-Sevilha (21h, Eleven Sports)

Terça-feira, 23
Benfica e FC Porto voltam à luta pelo título: Benfica-Santa Clara (19h15, BTV) e FC Porto-Boavista (21h15, SportTV1). Em Espanha, há Levante-Atlético de Madrid (18h30, Eleven Sports) e Barcelona-Athletic (21h, Eleven Sports). Em Inglaterra, o Tottenham de José Mourinho recebe o West Ham (20h15, SportTV2).

Quarta-feira, 24
Num dia com muitos jogos, para quem quer experimentar algo diferente há Start-Molde, da 2ª jornada da Liga da Noruega (17h, Eurosport). Destaque para o Roma-Sampdoria (20h45, SportTV4), em Itália; para o Liverpool-Crystal Palace (20h15, SportTV2), em Inglaterra; para o Real Madrid-Maiorca (21h, Eleven Sports), em Espanha; e, por fim, para o Moreirense-Famalicão (21h15, SportTV1), em Portugal.

Quinta-feira, 25
O destaque vai para o dérbi entre Sporting de Braga e Vitória de Guimarães (21h, SportTV), mas também há um interessante Chelsea-Manchester City (20h15, SportTV2).

Sexta-feira, 26
É a vez do Sporting entrar em campo, na Cidade do Futebol, frente ao Belenenses SAD (19h15, SportTV1). A Juventus de Ronaldo recebe o Lecce (20h45, SportTV2).

Sábado, 27
É um dia recheado de jogos, começando com o Aston Villa-Wolves (12h30, SportTV+). Às 14h30, há quatro jogos da Bundesliga na Eleven Sports, com destaque para o campeão Bayern Munique, que defronta o Wolfsburg, e para os portugueses que jogam no Eintracht Frankfurt, equipa que recebe o Paderborn. Às 16h, também na Eleven, há Celta de Vigo-Barcelona.

Domingo, 28
Outro dia com inúmeros jogos. Destaque para o AC Milan-Roma (16h15, SportTV4) e para o Espanhol-Real Madrid (21h, Eleven). Há também quartos de final da Taça inglesa, com destaque para o Newcastle-Manchester City (18h30, SportTV1).

Hoje deu-nos para isto

A mão de um 'Dios' chamado Diego Armando Maradona

A mão de um 'Dios' chamado Diego Armando Maradona

Getty Images

"Houve um dia, no México, em que um homem se converteu num deus de proporções humanas e eu estava ali. Como apóstolo". A frase é do argentino Jorge Valdano, hoje, num texto publicado no jornal "A Bola" e no "El País", e descreve bem aquilo que foi Diego Armano Maradona, um dos melhores da história do futebol.

Faz hoje 34 anos desde que passámos a conhecê-lo como 'Dios', depois daquela mãozinha marota que marcou o primeiro golo frente à Inglaterra, nos quartos de final do Mundial 1986. Mas, além da "mão de deus", houve outro golo que ficou na história e que ainda hoje é considerado como o melhor de sempre em Mundiais: quando Maradona pegou na bola ainda no meio-campo e serpenteou, por ali fora, até ao golo que daria a vitória à Argentina.

Se ainda não o fez, vale a pena ver (ou rever) o jogo em questão, publicado na íntegra online pela FIFA.

A mão de um deus argentino e o melhor golo da história dos Mundiais

Completam-se hoje 34 anos: a Argentina vence a Inglaterra, por 2-1, nos quartos de final do Mundial 1986, com um bis de Diego Armando Maradona que ficou para a história. O primeiro golo teve a ajuda de uma mãozinha marota e o segundo é considerado o melhor golo de sempre em Mundiais. Veja ou reveja o jogo na íntegra

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