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A humildade do enganche perante o sucesso

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A Atalanta é a equipa surpresa da final a 8 da Liga dos Campeões, que arranca esta quarta-feira em Lisboa

A Atalanta é a equipa surpresa da final a 8 da Liga dos Campeões, que arranca esta quarta-feira em Lisboa

Soccrates Images

Que me perdoe a DGS. Os secretários de Estado, os ministros. Que me perdoem os médicos, enfermeiros e os seus apelos e o seu incansável trabalho. Que me perdoem. Mas talvez também eles concordarão que a razão para que quase todos os portugueses tenham percebido ali algures em meados de março que isto da covid-19 era sério, muito sério, se chame Bérgamo.

Talvez só tenhamos percebido o que nos podia acontecer quando demos de caras com as reportagens da Sky News em hospitais em colapso, médicos em desespero. Quando vimos as imagens das filas de camiões do exército italiano, carregados de caixões amontoados, a levá-los dali para fora porque era impossível aos crematórios da pequena cidade italiana, a 40 minutos de Milão, darem conta de tantos mortos ao mesmo tempo. Ou quando olhámos para as páginas do jornal local “L’Eco de Bergamo”, em que às tantas o obituário passou das habituais duas páginas para onze. Onze páginas, sim, cheias de fotografias de pais, avós, filhos, tios.

Em toda a província de Bérgamo, com cerca de 1 milhão de habitantes, morreram oficialmente 3 mil pessoas com covid-19. O dobro que em Portugal. As autoridades acreditam que, entre o caos que foi aquele março, talvez os mortos sejam muito mais. Seis mil, pelo menos.

Passaram-se cinco meses. E na final a 8 da Liga dos Campeões, que arranca quarta-feira em Lisboa, muito boa gente irá torcer pela Atalanta, o modesto clube da cidade de 150 mil almas. Não é só porque Bérgamo merece uma alegria depois de todo o sofrimento dos últimos meses. É porque a Atalanta é a Cinderela no meio dos milhões da Champions, a equipa que Andrea Agnelli, presidente da Juventus, desdenhou quando defendeu a Super Liga Europeia, onde uma equipa sem histórico como a Atalanta não teria lugar – curiosamente, a Juventus ficou fora dos quartos-de-final da Liga dos Campeões e a Atalanta estará em Lisboa.

A Atalanta sempre foi uma equipa elástico, ora na Serie A ora a descer de divisão. A chegada de Gian Piero Gasperini, há quatro anos, tudo mudou. Esta época, voltou a repetir o 3.º lugar conquistado há um ano na Serie A e por isso na próxima temporada estará de volta à Champions. Tudo graças a um futebol atacante, a um coletivo sem estrelas, liderado em campo por um pequeno grande jogador, o homem que é um pouco a metáfora desta Atalanta: Alejandro “Papu” Gomez.

Este fim de semana li com prazer a entrevista que o argentino deu ao “Enganche”, uma espécie de suplemento literário de desporto que sai todos os sábados com o jornal “Pagina 12” de Buenos Aires, cujos conteúdos às vezes me fazem acreditar que em cada jogador argentino mora um filósofo ou um poeta. Papu Gomez é, ele próprio, um “enganche”, a palavra que na Argentina define um número 10, o homem que liga a linha média aos avançados, uma posição em vias de extinção e que a Atalanta de Gasperini recuperou, com as devidas adaptações ao futebol moderno.

“O futebol mudou e tenho outras responsabilidades. Joga-se de forma diferente de há 15 anos, quando o ‘enganche’ ficava ali paradito, com as mãozinhas na cintura à espera que lhe chegasse a bola. Agora tenho de defender, marcar o ‘5’, ir atrás à procura de protagonismo e chegar à área”, explica o jogador de 32 anos na entrevista. Papu, se fosse poeta, seria uma espécie de António Aleixo, desassombrado, com todo o conhecimento da vida na sua cabeça, sem precisar de explicações rebuscadas.

A caminhada de Papu Gómez é um pouco como a da Atalanta de Gasperini: muitos anos a fazer de equipas médias um bocadinho melhores. Chegou à Europa para jogar no Catania e com ele a equipa da Sicília, hoje afundada nas divisões inferiores, chegou a um inédito 8.º lugar na Serie A. Depois, Papu escolheu o dinheiro em vez da felicidade. Foi para o Metalurh da Ucrânia, de onde saiu fugido num voo de repatriamento, quando a região de Donetsk mergulhou na Guerra Civil: “É o meu único arrependimento. Perdi um ano na carreira e só ganhei dinheiro. Foi o único que levei dali”.

Depois disso foi comprado pela Atalanta e ali aprendeu que é preferível “deixar marca um clube pequeno do que ser apenas mais um num clube grande”.

“Há um caminho definido em que temos de ter como objetivo chegar a determinados clubes e a determinados contratos. Eu não tive a oportunidade de ir para um clube de topo, ainda que tenha estado perto. Mas a vida neste desporto dá-te segundas oportunidades e a Atalanta é essa segunda oportunidade. E estou a aproveitá-la”, diz ainda o humilde "enganche". A Atalanta joga na quarta-feira com o milionário PSG e está longe de ser a equipa favorita à vitória na Champions. Mas Bérgamo quer uma nova oportunidade para ser feliz e o futebol está oferecê-la. Lá que era uma bonita história, isso era.

O que se passou

António Félix da Costa sagrou-se campeão do Mundo de Fórmula E, após um regresso quase perfeito na competição de carros elétricos, esta semana em Berlim: em quatro provas, venceu duas, terminou outra em 4.º e, no domingo, fechou as contas do título com um 2.º lugar. Bravo!

E como o fim de semana foi pródigo em bons resultados portugueses com motores, Miguel Oliveira conseguiu o melhor resultado de sempre no MotoGP, enquanto Filipe Albuquerque venceu as 4 horas de Spa.

No GP comemorativo do 70.º aniversário da Fórmula 1, a história foi escrita pelo futuro da disciplina: Max Verstappen teve a coragem de seguir os seus instintos e a ajuda da estratégia da Red Bull.

Rui Pinto já está numa residência segura após ser libertado – e com acesso à internet, apesar das dúvidas do Ministério Público.

O afastamento da Juventus nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões não demorou a fazer vítimas: Maurizio Sarri foi despedido, apenas um ano após chegar a Turim. Para o seu lugar segue um tal de Andrea Pirlo, que todos nós conhecemos de bola dos pés, mas não fazemos ideia do que vale num banco.

Ah, e lá mais no início da semana, Jorge Jesus foi apresentado no Seixal para a sua segunda vida no Benfica. E prometeu “arrasar”.

Iker Casillas disse definitivamente adeus ao futebol, um ano e quatro meses depois daquele maldito enfarte.

Guardiola e Zidane: um estratega minucioso e um assassino meticuloso à conversa

Diz-nos muito sobre a natureza do futebol que a imagem mais partilhada desta jornada da Liga dos Campeões sem adeptos tenha sido a de dois homens à conversa após o apito final. Apenas isso, um sentado numa geleira, o outro em pé, de mãos nos bolsos, com a postura descontraída de quem pode estar a falar sobre o tempo, sobre o passado, sobre a vida e tudo o que se ganha e que se perde na viagem

“Vou fazer dois excelentes anos no Braga e volto para a Premier League”

Carlos Carvalhal, treinador do Sporting Clube de Braga, em entrevista à <strong>Tribuna Expresso</strong>, não promete nada para a próxima época, mas quer uma equipa corajosa: "Não quero castrar a equipa com objetivos. O que quero é uma equipa que seja capaz de olhar para qualquer adversário, em qualquer estádio, para vencer"

“Uma vez fomos almoçar ao Barbas e bebemos demais. No treino da tarde alguns começaram a cambalear e o Toni mandou todos para o balneário”

Aos 55 anos, César Brito ainda recorda com orgulho os dois golos que marcou ao FC Porto e que deram o título ao Benfica e lhe valeram a fama. O percurso de vida e de jogador começou na Covilhã, para onde regressou assim que pendurou as chuteiras. Nesta entrevista fala também dos filhos que morreram e da amizade que ganhou a um açoriano goleador

Nuno é português, juiz de surf e vai estar nos JO a avaliar os melhores. Diz que surfa com eles, mas mantém a distância para ser “credível”

Começou a avaliar e a dar notas a ondas surfadas por outros em 2002 e, oito anos depois, estreou-se em provas da World Surf League, em Peniche. Nuno Trigo foi um dos quatro juízes da entidade escolhidos para os Jogos Olímpicos de Tóquio e, à <strong>Tribuna Expresso,</strong> contou como é estar 150 dias por ano a viajar pelo mundo, a ajuizar os melhores surfistas nas melhores ondas - entre as quais, a de Jeffreys Bay, na África do Sul, e Cloudbreak, em Fiji, as suas preferidas -, e, às vezes, a partilhar essas ondas com eles. Embora, em competição, faça sempre por garantir as distâncias: "Não só para manter a credibilidade, mas para não mostrar preferências, porque elas não existem"

Diogo Faro tem uma mensagem para todos os sportinguistas: este ano é que é!

Diogo Faro recorda as grandes vitórias da pré-época, "no torneio comemorativo do centenário da conquista do presunto ibérico, ou lá que o que era", que davam esperança aos adeptos sportinguistas

Foi voltar a ser criança e ver tudo o que há de bom no futebol: Lá em Casa Mando Eu despede-se de Iker "Fuera" Casillas

Catarina Pereira despede-se de Iker Casillas, um ídolo que surpreendeu tudo e todos no FC Porto: "Espero que saiba que marcou a nossa baliza, o nosso clube, a nossa cidade e o nosso coração"

Zona Mista

“Aqui temos excelentes analistas e jornalistas, extremamente conhecedores. Mas a forma de abordagem aos profissionais em Inglaterra é diferente. As aparições que eu tive na televisão e na rádio foram remuneradas e isso pressupõe logo uma relação profissional. Ninguém está a fazer fretes nem favores a ninguém. Vou à Sky porque me pagam, e bem”

Carlos Carvalhal, em entrevista a esta nossa/vossa casa, falando um bocadinho daquilo que nos separa dos ingleses. Como diria um antigo colega meu de outra redação num contexto que, na verdade, não tem nada a ver com este: “É a diferença”

O que aí vem

Segunda-feira, 10

Arrancam os quartos-de-final da Liga Europa, já na Alemanha: Manchester United – Copenhaga (20h, Sport TV1 e Sic online) e Inter Milão – Bayer Leverkusen (20h, Sport TV2)

NBA: Milwaukee Bucks – Toronto Raptors (23h30, Sport TV1) e LA Lakers – Denver Nuggets (2h, Sport TV1)

Terça-feira, 11

Liga Europa: Wolverhampton – Sevilha (20h, Sport TV1) e Shakhtar Donetsk – Basileia (20h, Sport TV2)

Final da MLS: Portland Timbers – Orlando City (1h30, Sport TV2)

NBA: San Antonio Spurs – Houston Rockets (19h, Sport TV3), Memphis Grizzlies – Boston Celtics (23h30, Sport TV1)

Quarta-feira, 12

Começa a final a 8 da Liga dos Campeões, em Lisboa com o Atalanta – Paris Saint Germain (20h, E1)

Fórmula E: Berlim (18h, Eurosport1)

Ciclismo: Criterium do Dauphiné (13h45, Eurosport2)

NBA: Houston Rockets – Indiana Pacers (21h, Sport TV1), Denver Nuggets – LA Clippers (2h, Sport TV1)

Quinta-feira, 13

Liga dos Campeões: RB Leipzig – Atlético Madrid (20h, E1)

Fórmula E: Berlim (18h, Eurosport1)

Ciclismo: Criterium du Dauphiné (13h45, Eurosport2)

Sexta-feira, 14

Liga dos Campeões: Barcelona – Bayern Munique (20h, E1)

Fórmula 1: GP Espanha, treinos livres 1 (10h, E3); treinos livres 2 (14h, E3)

MotoGP: GP Áustria, treinos livres 1 (a partir das 8h, Sport TV1); treinos livres 2 (a partir das 12h15, Sport TV1)

Atletismo: Diamond League do Mónaco (19h, Sport TV5)

Ciclismo: Criterium du Dauphiné (13h45, Eurosport2)

Sábado, 15

Liga dos Campeões: Manchester City – Lyon (20h, E1)

Fórmula 1: GP Espanha, treinos livres 3 (11h, E3); qualificação (14h, E3)

MotoGP: GP Áustria, treinos livres 3 (a partir das 8h, Sport TV1); qualificação (a partir das 11h35, Sport TV1)

Ciclismo: Criterium du Dauphiné (14h05, Eurosport2), Volta à Lombardia (15h30, Eurosport2)

Domingo, 16

Fórmula 1: GP Espanha, corrida (14h10, E3)

MotoGP: GP Áustria, corrida (a partir das 10h, Sport TV1)

Ciclismo: Criterium du Dauphiné (14h05, Eurosport2)

Hoje deu-nos para isto

Ontem, domingo, António Félix da Costa tornou-se campeão mundial da Fórmula E, um título merecido numa disciplina imprevisível, onde até 2020 nenhum piloto havia conseguido a proeza de se tornar campeão com ainda duas provas por fazer. Em 2013, a Red Bull preferiu Daniil Kvyat a Félix da Costa e não chegar à F1 por razões não meramente desportivas foi um baque para o português que soube depois reinventar-se. No DTM, na resistência e também na Fórmula E, onde chegou a andar num dos piores carros. Há uns meses, quando lhe chegou a oportunidade de correr na equipa campeã do Mundo da disciplina de carros elétricos, Félix da Costa dizia-nos estar mais que preparado para chegar e vencer, sem necessidade de se ambientar. E assim aconteceu.

Além disso, num ano tão estranho quanto este, em que a Fórmula E, tal como todos os campeonatos e desportos, esteve parada meses e meses, o piloto de Cascais nunca perdeu o humor e na “bolha” de Berlim, onde estão a decorrer as últimas seis provas do calendário, protagonizou um momento chapliano que arrancou muitos sorrisos no paddock da Fórmula E. Aqui entre nós, ainda bem que o António voltou a divertir-se.

O pequeno filme mudo de comédia de António Félix da Costa, o novo campeão do Mundo da Fórmula E

Com as regras muito apertadas para evitar as infeções pela covid-19, António Félix da Costa teve de fazer de tudo em Berlim: de cicerone a recetor da taça. E ficou um momento de humor à antiga