Tribuna Expresso

Perfil

Ele já fez todas as coisas que não devem ser feitas. Mas só fora do campo

Partilhar

Jack Grealish já fez de tudo e mais alguma coisa que um profissional não deve fazer. Mas isso foi fora do campo

Jack Grealish já fez de tudo e mais alguma coisa que um profissional não deve fazer. Mas isso foi fora do campo

Peter Powell - PA Images

Parece ter entrado a abrir e sem critério numa rotunda, sentado ao lado do Professor McFly e o volante descontrolado, ninguém a saber para onde iam, mas para ele foi um regresso ao futuro no carro que bobina e rebobina no tempo e parou agora, neste tempo, quando ele é tão parecido com alguém fora de tempo, se não olhem, vejam como ele se apresenta e como leva a vida de futebolista como, antigamente, talvez fosse comum os jogadores da bola levarem.

O cabelo rapado nos lados da cabeça, acima das orelhas, o restante deixado comprido e puxado atrás, a brilhantina a fixar cada fio que nem palha de aço, parece um mafioso familiar do gangue de Birmingham que guardava lâminas nas boinas para cegar incautos quando brigas houvesse na cidade pelos mais desonestos motivos, a cidade onde nasceu Jack Grealish, o cabelo espalmado para trás e ele muito para a frentex, a jogar com as meias em baixo, as caneleiras junto aos tornozelos e às chuteiras, os músculos dos gémeos descobertos e ali à vista para levar umas cacetadas, óbvio sinal de quem se está a marimbar para o que os outros lhe possam fazer.

Primeiro está o que ele bem capaz é de lhes fazer.

Um marimbanço que Jack Grealish exibiu já muitas vezes, a última nem buço de adolescente tem: em março, menos de 24 horas depois de usar as redes sociais para pedir aos ingleses que ficassem em casa e protegessem o serviço nacional de saúde, foi fotografado com o seu Range Rover estampado em vários carros estacionados na rua. Apeteceu-lhe sair para ir visitar um amigo quando a pandemia mais escalava nas preocupações de toda a gente. Pediu desculpa, quando era mais novo já pedira por ser o anfitrião de uma festa até às tantas no quarto de hotel onde estagiava com o clube; outra vez, porque antes já fora filmado a inalar balões de óxido nitroso com os amigos; e uma outra vez, por aparecer deitado no meio da rua, em Tenerife, embriagado nas férias com amigos e engolido pelos ébrios prazeres dos quais deve fugir quem faz vida do futebol.

Jack hoje é capitão do Aston Villa, está com 25 anos, fora a última escapadela primaveril parece estar mais calmo, mas malandro ainda deve ser, porque a primeira coisa dita por Dean Smith, o treinador, após garantirem a permanência na Premier League à última jornada, foi que "iam apanhar uma bebedeira juntos" e tê-la-ão apanhado sem muito esforço, bem menos do que pareceram gastar este fim de semana, em que o futebol pareceu ter endoidecido mais um pouco - ou, se calhar, apenas puxou por algumas coisas inexplicáveis que tem e que o fazem ser a modalidade mais ilogicamente apreciada que já foi inventada por humanos.

E Jack Grealish podia personificá-las.

Os três primeiros golos que o Aston Villa marcou no domingo foram passados pelo inglês. Ele próprio marcaria dois, a contagem chegou aos sete, ficou 7-2 e a humilhação só parou de escalar por o tempo ser finito, mas este Aston Villa, onde Grealish joga desde os 6 anos, humilhou o campeão Liverpool como há 67 anos ninguém denegria os donos do título em Inglaterra com tantos golos, quase há tantos anos como aqueles de onde o médio parece ter sido teletransportado.

E não descolo de Jack Grealish, perdoem-me a insistência, porque ele exemplifica o estou-me-nas-tintas-para-vocês-todos, a improbabilidade e a saudosa ausência de linhas retas no futebol.

No dia em que a sua equipa dá 7-2 ao Liverpool e o Tottenham do José Mourinho cada vez mais afamado de defensivo ganha por 1-6 ao United, em Manchester - uma semana depois de o City da mesma cidade sofrer cinco golos em casa e, pela primeira vez em mais de 600 jogos, dar uma dessas humilhações a Pep Guardiola -, Grealish, a quem os espartilhos de hoje têm como rebelde, bad boy ou irreverente, foi o maior dos destaques entre craques birrentos (Pogba), capitães circenses que derrubam os próprios companheiros na própria área (Harry Maguire), atacantes assustadores (só Salah e Firmino, Mané não jogou) e defesas que já pontapearem um adversário por se atirar para o chão (Pepe), mas dizem ser "uma vergonha" quando, alegadamente, um guarda-redes está no chão e a perder tempo no Estádio do Dragão.

Grealish não é, de todo, um coitadinho. A cada semana, o Aston Villa transfere-lhe 140 mil libras para a conta bancária, prémio por se ter mantido no clube da terra quando transborda de talento e desplante para jogar com outras companhias, as que a época passada lhe visaram o corpo e o tornaram o jogador que mais faltas sofreu na Premier League. Porque tirar-lhe a bola é obra, ele irrita e frustra quem ousa tentar por ter algo que poucos têm, muito menos numa equipa como a sua de Birmingham: a vontade implícita em ter a bola nos pés quando as coisas apertam. Nem preciso é que a peça. É um íman que atrai o passe em toda a gente, não pensa na afronta que isso é quando a maioria dos jogadores acusa em demasia o pensamento nestes momentos. Nas alturas em que a equipa "faz tudo o que não se deve fazer no campo de futebol".

O cândido Jürgen Klopp disse esta frase para tentar resumir o descalabro inesperado do Liverpool que treina. Não há muito tempo dissera que os seus jogadores são "monstros de mentalidade" no campo, mas um dos problemas para ele, e muitas equipas, em Inglaterra como em Portugal, é que agora os campos já não são estádios. São apenas campos, um hectare de relva onde duas equipas se encontram e já não jogam com o barulho, os aplausos, os cânticos e os assobios dos adeptos que balanceiam qualquer jogo com pressão. É por isso, fora tantos outros elementos como o plano de jogo, a estratégia, expulsões ou a sorte e o azar que também jogam sempre, apesar de nem sempre querermos tê-los em conta, que o Leicester, o Tottenham ou o Marítimo vão ganhar nos quintais de City, United e FC Porto.

Klopp elogiou, também, "que jogador" é Jack Grealish. Disse-o apenas assim. Afirmou "que jogador" ele é, não perguntou que jogador é ele. Basta vê-lo a jogar descaradamente como o faz, o cabelo empalhado até à nuca, as meias recolhidas em baixo, os pés a praticarem um futebol que já supera o Aston Villa mesmo que muitas coisas já ele tenha feito que não devia fazer fora do campo.

Mas, no campo, é do melhor que a Premier League tem. É a prova de que o futebol não é apenas para os meninos bem comportados.

O que se passou

O FC Porto perdeu por 2-3 no Dragão contra a equipa que passou uma semana a ser acusada de perder tempo quando lhe convém, tendo perdido já esta segunda-feira o capitão Danilo e podendo estar à beira de perder Alex Telles. O Benfica perdeu alguns nervos, mas ganhou (3-2) ao Farense. E o Sporting, que também se diz estar quase a perder Wendel, que tem sido dos melhores jogadores da equipa, foi vencer (0-2) a Portimão.

Depois de vergados serem nos dois jogos da casa figurada (as finais jogam-se sempre no estado da Florida) e deixarem muita gente a antever um desequilíbrio rompante, os Miami Heat ganharam aos Lakers e reduziram a desvantagem no terceiro encontro à melhor de sete para ver quem conquista esta NBA pandémica.

O nosso tradicional antijogo

"Tal como o cante alentejano nasce da paisagem e das duras condições de vida dos trabalhadores, o antijogo, denominação de origem demarcada, peça em filigrana artesanal de engano e esperteza que usa os atrasos na reposição da bola e a simulação de lesões como matéria-prima, nasce dos estádios sem espetadores, da luta sem tréguas pela sobrevivência e dos salários em atraso", escreve Bruno Vieira Amaral

Diogo Faro pede cláusula de €500 milhões para Nuno Mendes. Como sabemos que isto é o Sporting, é possível que seja vendido amanhã por €1500

O Sporting venceu o Portimonense, por 2-0, na 3ª jornada da Liga portuguesa, e Diogo Faro ficou encantado com Nuno Mendes - só tem medo que o vendam a troco de uns vales de desconto numa determinada superfície comercial

Rui Pinto: um mês de julgamento em 10 ideias-chave

O julgamento do autor de Football Leaks começou a 4 de setembro e até agora ainda só ouviu duas testemunhas da Polícia Judiciária. Pelo tribunal passaram muitos pormenores que sustentam a acusação contra Rui Pinto, algumas inconsistências na atuação das autoridades, e a certeza de que ainda muita tinta vai correr

Rúben Dias chegou a Manchester e pareceu que jogava ali há anos; Otamendi chegou a Lisboa e pareceu que não jogava futebol há anos

Na vitória do Benfica sobre o Farense, Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj) teve de render-se às evidências sobre a estreia de Otamendi: "Depois de uma primeira parte positiva, milhares de utilizadores do Twitter viram-se obrigados a rever as suas convicções quando o argentino desatou a fazer merda"

“Debato com Vieira onde, quando e como ele quiser. Que não se esconda atrás dos três porta-vozes”

João Noronha Lopes tem 54 anos, é gestor e liderou vários departamentos da McDonald’s internacional durante anos. Agora, quer ser presidente do Benfica e conta com o apoio de Ricardo Araújo Pereira, Pedro Adão e Silva, Pedro Norton ou Pedro Ribeiro nesta campanha, que culminará com as eleições no final de outubro. Porque diz que o clube “não aguenta outro mandato de Vieira”

Lá em Casa Mando Eu percebe que Mbemba (e não só) não estivesse preparado para que uma equipa do Lito Vidigal atacasse

O FC Porto perdeu com o Marítimo (2-3), na 3ª jornada da Liga portuguesa, e Catarina Pereira agora já percebe aquela ideia do presidente do Lourosa: tudo a pé para casa

"O Cândido Costa para o Gaspar: ‘Ai o casaco é de pele de crocodilo? Então tem de estar na água’. E enfiou-o no aquário da marisqueira"

Desde um presidente que entra no balneário com uma mala e dois seguranças, aos berros de Jorge Jesus para 50 Cent, passando pela importância da avó paterna na ida para o estrangeiro, Gonçalo Brandão revela vários pormenores da sua carreira, que começou no clube do coração, o Belenenses, e passou por Inglaterra, Itália e Suíça, antes de regressar a casa. A uma semana de completar 34 anos, Gonçalo Brandão diz-se feliz na equipa B do FC Porto, onde é o jogador mais velho, e sonha com um futuro como treinador

A análise de Duarte Gomes ao FC Porto-Marítimo, "um jogo em que aconteceu um pouco de tudo"

Duarte Gomes, antigo árbitro internacional e comentador da <strong>Tribuna Expresso</strong> e da SIC Notícias, analisa os lances que marcaram o encontro entre FC Porto e Marítimo (2-3), da 3ª jornada da Liga

Rui viu o Santa Clara - Gil Vicente a 48 lugares de distância do filho

Cerca de 800 adeptos assistiram este sábado ao primeiro jogo de futebol da Primeira Liga onde foi autorizada a presença de público. Aconteceu nos Açores. Máscara, medição da temperatura e muita distância marcam o arranque do desconfinamento no futebol profissional

Zona mista

Primeiro que tudo, sou um adepto do United. Sinto muito, vocês merecem muito melhor do que isto. Hoje deveria manter-me afastado das redes sociais, mas vocês merecem ouvir-me nos altos e nos baixos, não me escondo. Sinto-me horrível, mas prometo-vos que vamos fazer melhor.

Marcus Rashford não é o capitão do Manchester United, a braçadeira não lhe está no corpo para mostrar às câmaras, mas, uma vez mais, mostrou-se publicamente após a equipa ser atropelada, em casa, pelo Tottenham de José Mourinho, mostrando, mais uma vez, a matéria da qual é feito, como o fez há uns meses, quando usou a sua imagem e exposição pública para criticar o governo inglês por suspender um programa de ajuda alimentar às famílias mais carenciadas do país (e, uns dias depois, recuar na decisão).

Segunda-feira, 5

📺 "The Playbook" está na Netflix e, fora José Mourinho, há episódios sobre Jill Ellis, bicampeão mundial de futebol feminino com os EUA, ou Patrick Mouratoglou, treinador de ténis que, entre muitos outros, já muito ganhou com Serena Williams.

Terça-feira, 6

🏄 Porque esta semana é toda ela redonda na bola em que vai ter, a diário, eis uma sugestão para um dia em que não há futebol, para não ser apenas só futebol: recomendo "Unnur" depois de me recomendarem no fim de semana (obrigado, Zé), filme com quase 20 minutos sobre um fotógrafo islandês que entre o cainoísta que foi e o surfista que é apanhou um susto de vida e a sua história, contada com planos surreais de tão bonitos que são. Vale muito a pena ver, nem que seja para não termos de imaginar e podermos mesmo ter noção do que é vestir fatos para tentar suportar as águas e ondas geladas lá bem a norte, pelas lentas de Chris Burkard, realizador habituado a isto.

Quarta-feira, 7

⚽ É a feijões, não sei quem arrastou o feijão para o pote da irrelevância, a analogia perde na boca de qualquer pessoa que já provou uma feijoada confecionada à portuguesa, por isso, o Portugal-Espanha (19h45, RTP1) nunca será, nem poderia ser, uma questão de feijões, por mais amigável que seja vendido e, no fundo, que é. Neste dia há outros jogos particulares entre seleções:
- Alemanha-Turquia (19h45, Sport TV)
- Andorra-Cabo Verde (19h45, Sport TV)
- Holanda-México (19h45, Sport TV)
- Itália-Moldávia (19h45, Sport TV)
- França-Ucrânia (20h10, Sport TV)
🏀 O quarto jogo das finais da NBA é o segundo em que os Miami Heat são anfitriões (2h, Sport TV) e tentarão manter viva a luta, para virar de vez o 2-1 que há no saldo e igualar o que os Lakers de LeBron James fizeram nos seus jogos caseiros.

Quinta-feira, 8

⚽ Neste dia já haverá bolas a rolarem que contam para a Liga das Nações: jogar-se-ão o Geórgia-Bielorrússia (17h, Sport TV1), o Noruega-Sérvia (19h,45, Sport TV1), o Escócia-Israel (19h45, Sport TV2), o Islândia-Roménia (19h45, Sport TV3), o Bulgária-Hungria (19h45, Sport TV4) e o Macedónia-Kosovo (19h45, Sport TV5).

Sexta-feira, 9

⚽👶 A seleção sub-21 treinada por Rui Jorge e, para não se estranhar, sortuda por ter mais uma fornada só condimentada com talento, joga contra a Noruega (19h30, Canal 11), a contar para a qualificação rumo ao próximo Campeonato da Europa da categoria.

Sábado, 10

⚽ A Liga das Nações continuará a ser jogada um pouco por toda a Europa:
- Luxemburgo-Chipre (14h, Sport TV2)
- Montenegro-Azerbaijão (14h, Sport TV3)
- Liechtenstein-Gibraltar (17h, Sport TV2)
- Ilhas Faroé-Letónia (17h, Sport TV1)
- Ucrânia-Alemanha (19h45, Sport TV2)
- Espanha-Suíça (19h45, Sport TV1)
🏀 O quinto jogo das finais da NBA tem os Lakers a jogarem em casa (2h, Sport TV).

Domingo, 11

⚽ Mais e mais Liga das Nações, agora com Portugal à mistura. E a seleção vai regressar ao lugar onde foi felicíssima:
- República da Irlanda-País de Gales (14h, Sport TV2)
- Cazaquistão-Albânia (14h, Sport TV3)
- Croácia-Suécia (17h, Sport TV2)
- Bósnia e Herzegovina-Holanda (17h, Sport TV3)
- Inglaterra-Bélgica (17h, Sport TV1)
- Noruega-Roménia (17h, Sport TV5)
- França-PORTUGAL (19h45, RTP1, no Stade de France, em Paris)
- Islândia-Dinamarca (19h45, Sport TV3)
- Polónia-Itália (19h45, Sport TV2)
- Rússia-Turquia (19h45, Sport TV4)
🏎️ Grande Prémio da Alemanha, em Fórmula 1 (14h10, Eleven 1).
🏍️ Grande Prémio de França, em MotoGP (13h30, Sport TV1)

Hoje deu-nos para isto

Mike Hewitt/Getty

Para haver algo de linear nesta newsletter e mantermos o foco em jogadores ingleses não glorificados como merecem, eis muitos golaços marcados por Matt Le Tissier, ou "Le God" para os adeptos do Southampton, de onde o médio se foi recusando a sair com os anos por não ver boas razões para tal, porque já tinha saído de Guernsey, umas das pequenas ilhas britânicas, em miúdo, e isso já lhe bastara.

Matt Le Tissier era o típico jogador-adepto, o jogador bem térreo e acessível a toda a gente, que ia ao pub do estádio confraternizar, no fim dos jogos, com quem o aplaudira nas bancadas durante hora e meia. Fartou-se de marcar golos bonitos, muitos quando já era portador de uma barriga de quem descurava a forma física por tanto talento e relaxamento ter no corpo. Não exatamente como Jack Grealish, mas um pouco como ele no ponto em que se cruzam - no quão fora da norma futebolística ambos são.

Que esta semana seja boa para eles e para todos. Acompanhe a Tribuna diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.

Matt Le Tissier. Ou "Le God", para os amigos do Southampton

O inglês foi o craque dos anos 90 no clube do sul de Inglaterra, de onde nunca quis sair e se fartou de marcar golaços