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Um peso, várias medidas

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Tenha sido, ou não, captado de lado, de frente ou de cima, houve 27.500 pessoas presentes no Autódromo Internacional do Algarve no domingo.

Tenha sido, ou não, captado de lado, de frente ou de cima, houve 27.500 pessoas presentes no Autódromo Internacional do Algarve no domingo.

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Os pais da minha mãe chegavam e o meu avô chamava-me à sala. Um de dois cadeirões dava-lhe pouso, tinha o comando na mão e era o ordenador da caixa gorda, pesada e profunda que atraía os olhares de uma divisão inteira. Sentava-me no chão, quase sempre ficava com o rabo no tapete, não sei bem porquê, creio que o fascínio pela ação a acontecer no ecrã era a razão e assim também estava a meio caminho entre o que me fazia vibrar na televisão e a pessoa que me ensinara a fascinar com horas seguidas de malta a pedalar, o meu avô.

Ele tinha uma voz grave e pausada, sem um sintoma de pressa que fosse possível descortinar, era das vozes anciãs que parecem guardar toda a sabedoria do mundo e basta colocar-lhe a pergunta certa para engatilhar o encadeamento de conhecimento. E não me lembro do como, nem do quando, neste momento odeio não me recordar das origens disto, não há músculo que se possa gabar de maior potência, ginástica e importância que o cérebro, só que nele é impossível mandarmos e roo-me por não chegar aos cantos da casa onde deve estar a reminiscência do meu avô e de tantas tardes que passou a mostrar-me que também devíamos vibrar com o ciclismo.

O meu avô ensinou-me as etapas planas, as chegadas ao sprint e os que pedalavam apenas para isso, como o Mario Cipollini. Passou-me o gosto que tinha pela montanha e quem as trepava, dizia serem eles os sofredores-mor, os tipos que realmente eram mais do que humanos a pedalar e isto era no tempo do Marco Pantani, do Jan Ullrich, do Alexandr Vinokourov, do Joseba Beloki e do ainda imaculado Lance Armstrong, que tiravam os capacetes nos Alpes e nos íngremes desafios da Volta a França que me fizeram cair aos trambolhões para o caldeirão do encantamento com o ciclismo. Os gostos desportivos do meu avô seriam sempre os meus, era a pessoa que mais desporto incutia num puto que ainda era uma esponja.

E disto lembro-me, se havia algo que fazia os frágeis e fustigados joelhos do meu avô abanarem no cadeirão era aquela gente toda a pisar o alcatrão nas subidas. Ele preocupava-se em elogiá-los, uma eulogia vibrante, explicava-me porque devíamos puxar pela gente que ali puxava pelos ciclistas, a meros metros deles, dizia o meu avô que não havia proximidade maior noutros desportos. Ali o adepto, o apaixonado, o fã ou seja qual for a designação podia viver de perto o sofrimento do profissional e até ousar sentir o que ele sentia, bastava pegar na bicicleta e tentar pedalar as inclinações desumanas quando a corrida passasse. A estrada é de todos e talvez pela falta de barreiras erguidas e por ser tão palpável é que tanta gente não tem noção, mas consegue imaginar o sofrimento que fustiga os ciclistas.

Ouvir a mãe de João Almeida ao telefone com os comentadores da "Eurosport", algures no alto das etapas do Giro d'Itália, a pedir desculpa por se afastar da conversa para gritar pelo filho, berros maternais de alento para o incrível filho que via a passar à beira da estrada, contrastam com a voz serena do meu avô, mas dão-lhe razão, obrigado avô e desculpa, porque também eu me desconsolei apesar de muito ocasionalmente ter de escrever sobre ciclismo, a batota drogadona de Armstrong que depois se soube não ser apenas dele afastou-me, mas o truque estava na voz orgulhosa de uma mãe a tentar dar combustível a quem andou 15 dias com a camisola rosa quando há duas semanas poucos saberiam quem era.

João Almeida só tem 22 anos e acabou em quarto lugar na sua primeira Grande Volta, fez melhor que todos os portugueses antes dele e teve a mãe a apoiá-lo bem de perto, uma de muitíssimas pessoas a vibrarem com a prova, distanciamento maternal nulo.

No mesmo fim de semana em que João engrandeceu o ciclismo com a grande ajuda - que ofuscou - de Rúben Guerreiro, primeiro português a terminar com uma camisola (a azul, da montanha) em provas-rainha do ciclismo, houve Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão com distanciamento social se não duvidoso, pelo menos discutível. Eram para ser 40 mil pessoas a assistir no Autódromo Internacional do Algarve, a Direção-Geral de Saúde cortou-as para 27.500, é uma catrefada de gente fosse qual fosse o número e claro que as críticas apareceriam sempre não tanto por ser mais milhar, menos milhar, sim porque há uma unidade chamada coerência.

A Fórmula 1 acabou por ser um evento para o qual se autorizou a presença regrada de gente, como antes o foram concertos, peças de teatro, touradas, jantares comício ou festivais partidários. E claro que a conversa acabaria por chegar ao futebol, a modalidade mais amada em Portugal onde, por acaso, o Governo Regional dos Açores deixou que 1.000 pessoas assistissem ao Santa Clara-Sporting depois de haver público nas bancadas de duas partidas que a seleção nacional jogou, em Lisboa, fruto do acerto de agulhas entre a DGS e a Federação Portuguesa de Futebol. Que, por sua vez, também acertou acordos com a UEFA para os primeiros encontros caseiros das equipas portuguesas na Europa poderem ter pessoas a assistir.

O Braga-AEK da última quinta-feira, para a Liga Europa, pôde ter 2.250 pessoas, mesmo número autorizado no Farense-Rio Ave deste domingo, o sexto teste-piloto feito para aferir se o distanciamento social é possível no futebol em que a desculpa dada pelo primeiro-ministro, em setembro, para andar a outra velocidade em matéria de público, é "todos sabermos que o comportamento é muito diferente num cinema do que aquele que temos num estádio de futebol".

É factual, mas, arrisco a escrever, só porque a imagem presente na cabeça de toda a gente é a de adeptos nas bancadas sem regras impostas por uma pandemia. Se houver regras, a forma como as pessoas se comportam não deverá ser, nem poderá ser, a mesma.

A proximidade a carros sónicos e barulhentos é incomparável aos metros que a mãe de João Almeida teve de guardar para o filho épico. E mais distante é do que um relvado está para os adeptos sentados na bancada de um estádio de futebol. O quase tato que o meu avô gabava ao ciclismo suscitava-lhe quase o mesmo entusiasmo na voz do que o futebol e os chutos na bola que também mexiam com ele.

Mas duvido muito que fosse capaz de explicar as medidas de (in)coerência que um bicho microscópico alastrado pelo mundo parece dar a quem tem poder para afetar a presença de pessoas em recintos desportivos. O meu avô, que lembrarei sempre como dono de explicações capazes de encantar quem o ouvia.

O que se passou

Um quarto só dele onde cabemos todos

Bruno Vieira Amaral escreve como um rapaz de 21 anos das Caldas da Rainha conquistou a gratidão de um povo inteiro e reconciliou muita gente amargurada com o ciclismo

GP de Portimão: o circo veio à cidade e o espectáculo foi ótimo para alguns e criticado por outros

À Tribuna Expresso, Paulo Pinheiro, administrador do Autódromo do Algarve, refuta acusações de incumprimento das regras de distanciamento social e faz balanço positivo do Grande Prémio de Portugal em F1. Mas há relatos de que algumas normas não terão sido cumpridas à risca nas bancadas

Lewis Hamilton ganhou uma corrida outra vez, e então?

Então que o britânico deixou Michael Schumacher para trás no número de triunfos (92) e está a caminho de igualar o alemão na quantidade de títulos conquistados: sete. Isto não pode deixar alguém indiferente e aconteceu em Portugal

Enfiar um circo dentro de uma bolha: como pôr 27 mil pessoas em bancadas em tempo de pandemia

Vinte e quatro anos depois, Portugal acolhe um GP de Fórmula 1 que será necessariamente diferente em função da pandemia

MotoGP. Quando a brincadeira do ioiô acabou, Miguel Oliveira passou às coisas sérias

Franco Morbidelli conquistou o GP de Teruel, em Espanha. O português Miguel Oliveira terminou em 6.º lugar, duas posições acima da que largou da grelha de partida, depois de ter estado envolvido num duelo demorado com Fabio Quartararo

FC Porto. Não houve eletricidade, apenas curto-circuito e alguns fogachos

O FC Porto bateu o Gil Vicente por 1-0, golo marcado por Evanilson. titular pela primeira vez. A exibição foi fraca na primeira-parte e melhorou substancialmente na segunda, porque Sérgio Conceição abandonou a defesa com três centrais e regressou ao modelo-matriz. Não se viu a fogosidade portista em campo

Zaidu acabou expulso em homenagem ao presidente do Sporting, que bem precisa de homenagens, não pode ser sempre assobios e insultos

Catarina Pereira, de Lá Em Casa Mando Eu, e a sua análise humorística aos jogadores do FC Porto que defrontaram o Gil Vicente no Dragão

Sporting. Então, isto é que é ir com sede ao Pote

O Sporting bateu o Santa Clara por 2-1, com dois golos de pé esquerdo do destro Pedro Gonçalves, marcados do lado contrário ao que costuma jogar, que é o direito. Pode parecer estranho, mas é merecido, valeu três pontos e fica a ideia de uma equipa com ideias arrumadas e madura, apesar da idade dos seus intervenientes. Até porque o maior disparate foi de Coates, que não é um jovem

Opinião. Isto aqui é uma cambada de ladrões, gatunos e de “bandidos”?

Não sendo especialista em linguística, tenho quase a certeza de que “bandido” está acima de “criminoso” que está acima de “ladrão” que está acima de “gatuno” na tradição das ofensas em bom português. Bandido é ruim e por isso foi tão surpreendente tê-lo ouvido de Frederico Varandas

Zona mista

Quando estamos a avaliar de um evento com esta dimensão, só me falam do público... e a verdade é que, no geral, o comportamento foi correto. Não podemos fazer avaliações pelas imagens que apareceram nas redes sociais.

Paulo Godinho, o diretor do Autódromo Internacional do Algarve, respondeu assim na reportagem da Tribuna Expresso em Portimão, um espécie de encolher de ombros apalavrado que tentou reverter a lógica que, na realidade, é precisamente o contrário do que sugeriu: sim, o fulcral para o estado atual das coisas no país era a questão do público e do cumprimento de regras de distanciamento, segurança e higienização. Se foi tudo cumprido? Não sei. Mas desvalorizar essa questão não é resposta que se dê, seja o evento da Fórmula 1, do futebol, do ténis ou de qualquer outra modalidade.

O que vem aí

Segunda-feira, 26

⚽ O Benfica recebe o B-SAD no derradeiro encontro da jornada da Liga NOS (20h15, BTV). Na Premier League, o Brighton recebe o West Bromwich Albion, dos conhecidos Matheus Pereira e Flip Kroninovic. (17h30, Sport TV1). Mais tarde, o Tottenham de José Mourinho joga em Burnley (20h, Sport TV1). Na Série A, há jogo grande para a AS Roma de Paulo Fonseca, que defrontar o AC Milan (19h45, Sport TV2).

Terça-feira, 27

🚴‍♂️ Sétima etapa da Volta a Espanha (Eurosport).
⚽ Há um jogo de qualificação para o Campeonato da Europa de sub-21 em futebol feminino, entre Portugal e Chipre (18h, Canal 11) e o resto é venha a nós a segunda jornada da Liga dos Campeões:

Shakhtar Donetsk-Inter de Milão (17h55, E3)
Lokomotiv de Moscovo-Bayern de Munique (17h55, E2)
FC PORTO-Olympiakos (20h, TVI)
Atalanta-Ajax (20h, E6)
Atlético de Madrid-Red Bull Salzburgo (20h, E5)
Liverpool-Midtjylland (20h, E4)
Marselha-Manchester City (20h, E3)
Borussia Mönchengladbach-Real Madrid (20h, E2)

Quarta-feira, 28

🚴‍♂️ Oitava etapa da Volta a Espanha (Eurosport).
⚽ Mais uma fornada de partidas da Champions:

Krasnodar-Chelsea (17h55, E2)
Basaksehir-Paris Saint-Germain (17h55, E1)
Juventus-Barcelona (20h, E1)
Ferencváros-Dinamo de Kiev (20h, E6)
Sevilha-Rennes (20h, E4)
Borussia Dortmund-Zenit (20h, E3)
Manchester United-RB Leipzig (20h, E2)

Quinta-feira, 29

🚴‍♂️ Nona etapa da Volta a Espanha (Eurosport).
⚽ É dia para entrar a segunda competição europeia de clubes e estes são os jogos da Liga Europa que serão televisionados:

Zorya-SPORTING DE BRAGA (17h55, Sport TV1)
AEK de Atenas-Leicester City (17h55, Sport TV4)
Antuérpia-Tottenham (17h55, Sport TV2)
AC Milan-Sparta de Praga (17h55, Sport TV3)
BENFICA-Standard de Liège (20h, SIC)
Glasgow Rangers-Lech Poznan (20h, Sport TV5)
Real Sociedad-Nápoles (20h, Sport TV4)
AS Roma-CSKA Sófia (20h, Sport TV2)
Arsenal-Dundalk (20h, Sport TV3)

Sexta-feira, 30

🚴‍♂️ Décima etapa da Volta a Espanha (Eurosport).
⚽ Começa-se a jogar nova ronda de vários campeonatos:

Liga NOS

Paços de Ferreira-FC Porto (20h30, Sport TV1)

Premier League

Wolves-Crystal Palace (20h, Sport TV2)

La Liga

Eibar-Cádiz (20h, E1)

Bundesliga

Schalke 04-Estugarda (19h30, E2)

Sábado, 31

🏉 A Austrália recebe a Nova Zelândia para o terceiro jogo (8h, Sport TV) entre as duas nações a contar para o Rugby Championship, que este ano apenas terá também a Argentina, já que a África do Sul se recusou a participar na competição devido à pandemia.
🚴‍♂️ Décima primeira etapa da Volta a Espanha (Eurosport).
⚽ Depois, mais futebol virá:

Liga NOS

B-SAD-Farense (15h30, Sport TV1)
Rio Ave-Moreirense (18h, Sport TV1)
Marítimo-Nacional (20h30, Sport TV1)

Premier League

Sheffield United-Manchester City (12h30, Sport TV+)
Burnley-Chelsea (15h, Sport TV2)
Liverpool-West Ham (17h30, Sport TV2)

La Liga

Real Madrid-Huesca (13h, E4)
Athletic Bilbao-Sevilha (15h, E1)
Osasuna-Atlético de Madrid (17h30, E1)
Alavés-Barcelona (20h, E1)

Bundesliga

Eintracht Frankfurt-Werder Bremen (14h30, E5)
Arminia Bielefeld-Borussia Dortmund (14h30, E4)
Colónia-Bayern de Munique (14h30, E2)
Borussia Mönchegladbach-RB Leipzig (17h30, E2)

Série A

Bolonha-Cagliari (19h45, Sport TV3)

Domingo, 1

🏎️ Feita a paragem em Portugal, a Fórmula 1 continuará no sul da Europa e seguir-se-á o Grande Prémio de Itália (13h10, Eleven Sports).
🚴‍♂️ Décima segunda etapa da Volta a Espanha (Eurosport).
⚽ Mais e mais futebol para fechar a semana:

Liga NOS

Portimonense-Santa Clara (15h, Sport TV1)
Gil Vicente-Vitória (17h30, Sport TV1)
Sporting-Tondela (20h, Sport TV1)

Premier League

Aston Villa-Southampton (12h, Sport TV2)
Newcastle-Everton (14h, Sport TV2)
Manchester United-Arsenal (16h30, Sport TV2)
Tottenham-Brighton (19h15, Sport TV2)

La Liga

Real Bétis-Elche (13h, E1)
Celta de Vigo-Real Sociedad (15h, E1)
Granada-Levante (17h30, E1)
Valência-Getafe (20h, E1)

Bundesliga

Friburgo-Bayer Leverkusen (14h30, E2)
Hertha de Berlim-Wolfsburgo (17h, E2)

Série A

Udinese-AC Milan (11h30, Sport TV+)
Hellas Verona-Benevento (19h45, Sport TV5)

Hoje deu-nos para isto

Ayrton Senna, fotografado no Autódromo do Estoril, em 1985.

Ayrton Senna, fotografado no Autódromo do Estoril, em 1985.

GABRIEL DUVAL/Getty

A pista encharcada, os pilotos a conterem-se no descaramento de acelerarem até na reta da meta, onde, às tantas, até se viram carros a aquaplanarem e fazer piões apenas por manterem a trajetória retilínea na alcatrão. Recordar o Grande Prémio de Portugal, em 1985, como molhado e escorregadio é pouco e não tanto pelos lençóis de água que foram cobrindo a pista do Autódromo do Estoril, mas porque foi a primeira vez que um lendário brasileiro ganharia uma corrida.

Ayrton Senna chegou a gesticular, a meio da corrida, para que esta fosse interrompida, tal era a chuvada que carregava de perigo a prova em que suposto é que os pilotos andem o mais rápido que possam. Terminaria mais cedo do que o previsto e com ele a gesticular e o comentador da corrida admirado por tamanha reação do brasileiro, por norma, "imperturbável". A primeira de 40 vitórias em Grandes Prémios surgiu no seu segundo ano de Fórmula 1.

O provável piloto mais carismático, entusiasmante, apaixonante e encantador de multidões que já existiu entrou na reta da sua história conquistadora em Portugal, onde a Fórmula 1 regressou este fim de semana, 24 anos depois da última vez. Nessa vez, e na vez de Senna, não havia vírus, pandemias e mais turbulência nas condições fora de pista (público, acessos, máscaras, distanciamentos, etc) do que, propriamente, dentro dela.

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A primeira vitória de Ayrton Senna foi em Portugal

O carismático piloto brasileiro venceu o seu primeiro Grande Prémio em 1985, no Autódromo do Estoril