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Ser beijado pelo desporto

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Andy Irons, um dos melhores surfistas que já existiu, morreu há 10 anos

Andy Irons, um dos melhores surfistas que já existiu, morreu há 10 anos

Kirstin Scholtz/Getty

Não terá sido na areia, à vista de todos, imagino que se tenham cruzado algures dentro da estrutura erguida na praia, era o segundo ano (2010) dos alicerces montados em Peniche e plantados na praia de Supertubos, por fim Portugal anfitriava uma paragem da volta ao mundo em surf e se houve êxodo feito por milhares para verem as ondas do oeste foi porque lá estava quem, neste planeta, melhor uso lhes podia dar. Andy foi ter com Kelly e disse-lhe o quão orgulhoso estava por ele estar "quase a garantir o título", confessou até estar "maluco" com a proeza, brincaram que estender a indecisão até Portugal aconteceu por a versão tubular do congratulador ter vencido o hegemónico congratulado no Taiti, nesse ano.

Abraçaram-se, chocaram palmas das mãos e foi a última vez que se viram. No mês seguinte, Andy Irons estava morto num quarto de hotel em terra firme, sozinho e longe do mar onde, no mesmo dia em que Kelly Slater não o viu em Puerto Rico, alguém lhe dissera que estava doente, tentou e tentou ligar-lhe, tocava o telemóvel mas ninguém atendia, enviou mensagens deixadas sem resposta antes de ir para a água, onde garantiu o décimo título mundial. Nem meia hora depois, soube-se que o havaiano de infância passada a idolatrá-lo e a ver cassetes de vídeo dele para lhe copiar tinha morrido. Andy Irons morreu faz hoje uma década.

Era um gaiato de seis anos, imagino um daqueles putos loiros e pequenotes sempre de pé descalço na areia, o pêlo queimado pelos ultravioleta como o imaginário do Havai exige, quando recebeu uma prancha de surf no Natal. O pai mudara-se há pouco tempo para uma casa cujo quintal era a praia e ele começou a surfar, no mar fugia dos problemas, em terra ficava a incapacidade em concentrar-se nas aulas, em estudar ou em estar quieto com a quietude que afasta as crianças dos disparates, não se sabia se o puto disparatava pela hiperatividade ou se era o intelecto a miná-lo nos estudos, mas no mar curava-se e no surf encontrou um escape e lá foi ele.

É um dos resumos possíveis de como o surf apanhou Andy Irons e, em troca, o havaiano mudaria o surf para sempre quando adulto se tornou e graúdo de ondas ficou, ganhando três títulos mundiais seguidos em 2002, 2003 e 2003, tríplice conquista que não mais se viu. E quando aconteceu levou as pessoas a esfregarem a vista porque antes de Andy havia Kelly Slater, o careca carismático, incrível e usurpador de sonhos alheios, a autoritária calvície que tudo ganhava e parecia ser o crónico vencedor de qualquer prova vindoura. Kelly era seis vezes campeão do mundo quando Andy Irons apareceu para devolver à terra quem lendário já era no mar.

Entre ambos cresceu uma rivalidade que o surf nunca tivera, dois génios deslizantes em mandíbulas de água que fizeram fãs serem adeptos e entusiastas polarizados, havia que escolher um lado pois o intocável Kelly parecia não ser capaz de tocar em Andy, um campeão dos campeões juntou-se aos comuns derrotados e acreditou-se que viria aí uma nova lenda do surf da magnitude de Slater.

Só que, antes e depois de engatilhados os três títulos, Andy Irons era um humano falível, ou falível como todos os humanos são, falindo-se em coisas que jamais humanizaram o rival: Andy era um bipolar diagnosticado e o seu feitio oscilava sem aviso; era um viciado em opióides e uma pessoa depressiva; um competidor de 20 etapas ganhas no circuito mundial e várias sob a influência de drogas; e alguém cujo coração o travou a fundo durante oito minutos porque, a bordo de um barco e na festa do seu 21.º aniversário, snifou uma linha de morfina pensando que era cocaína e a substância interrompeu-lhe a pulsação.

Mas a vida de Andy Irons continuou porque tinha o surf e o desporto para carregar no botão de pausa.

Getty Images

Estava longe do mar e perto do aeroporto de Dallas, no Texas, quando morreu, sozinho na cama de hotel onde se deitou o corpo de barriga para o teto, tapou-se com o lençol e cobriu até à cabeça, tê-lo-ão encontrado estando ele como se estivesse a dormir, sereno e descansado, quando o que mais se ouviu desde então foram relatos próximos de uma vida vivida inquietamente e com punhos cerrados, sempre levantados para se esmurrar a ele próprio. O sublime que Andy Irons era com os pés descalços na prancha contrastava com o turbilhão mental que lhe centrifugou a existência e a limitou a 32 voltas ao sol, mas sem desporto talvez a vida o tivesse dado mais voltas.

Porque era ele criança e os pais divorciaram-se, a escola fazia-o sentir-se burro, os professores cercavam-no com castigos e as bulhas com o irmão castigavam-no em casa, mas a prancha desembrulhada naquele Natal dirigiu-o para o mar, de onde "voltava sempre a sentir-me melhor, independentemente do que se estava a passar", confessou, em excertos mostrados no documentário "Kissed By God" que lhe narrou a existência e a decadência progressiva, mas também mostrou que ser beijado pelo desporto pode ser a bóia de salvação quando se anda, ou não, à deriva na vida.

Não que tenha de ser surf, pode ser natação, futebol, ginástica, dança, basquetebol ou o que faça o corpo mexer, o ritmo cardíaco acelerar e o oxigénio ter de ser bombeado como tão benéfico é, comprovadamente, para a saúde física e mental. Quem entende os porquês recomenda a qualquer criança que "pratique diariamente, pelo menos, 60 minutos de atividade física de intensidade moderada a vigorosa" e um inquérito publicado pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência diz que 60% das crianças do 1.º ciclo em Portugal fizeram menos de duas horas de exercício por semana durante o ano letivo (2016/17) visado.

Pelos resultados do estudo, as crianças em Portugal não praticavam tanto desporto de forma espontânea ou organizada como deviam - fosse andar de bicicleta e ir para a rua correr, ou jogar uma qualquer modalidade em contexto de clube - quando era inimaginável que um bicho microscópico lhes trancasse a energia em casa, tivessem ou não tempo (26%), dinheiro (21%), anuência dos pais (21%), residência próxima do local da prática (13%) ou o simples jeito (9%) para se irem exercitar. Estes foram os motivos então apontados pelas crianças para não fazerem desporto e escritos no estudo no qual nem uma palavra se descortina sobre o lado mental de tudo isto.

Porque puxar pelo corpo a fazer o que seja não é apenas uma questão de músculos, pulmões, mobilidade ou benefícios cardiorrespiratórios, existe uma cabeça puxadora de tudo e se mundanidade havia em Andy Irons era na constatação óbvia que também ele fazia: "é quase como terapia". O surf não o salvou, mas o desporto manteve-o à tona. E se hoje a pandemia é difícil para o tico e o teco que têm morada nas nossas cabeças também é pela falta de exercício físico que tanto serve para as evacuar, por momentos, de tudo que nos esteja a maçar. Mais ainda para as crianças, que já há quem diga que "só exercitam os polegares".

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Zona mista

Cheguei à conclusão que tens 16-18 rapazes absolutamente comprometidos. Há quatro ou cinco que não têm esse entusiasmo. Treinam, mas deixam-se levar e se as coisas correrem bem, acrescentam, se não, ficam-se por ali. Depois, tens um ou dois que são complicados e retorcidos. Tive-os como companheiros e enquanto treinador.

Quique Setién, antigo treinador do Barcelona que ficará sempre marcado pelo desastroso 2-8 que jamais será esquecido, em entrevista publicada pelo "El País", na qual não foi entrevistado, mas sim conversou com o lendário Vicente Del Bosque, homem de Europeu, Mundial e Liga dos Campeões conquistados que o questionou sobre os oito meses passados na Catalunha e muito mais.

Segunda-feira, 2

⚽ A ressaca de ter Liga Europa a meio da semana dá nisto de ter dois jogos ao fim do dia para arrancar a semana: há o Sporting de Braga-Famalicão (18h45, Sport TV2) e o Boavista-Benfica (21h, Sport TV1). Se por acaso quiser desenjoar um pouco de futebol falado em português, pode espreitar o Leeds United-Leicester City, da Premier League, que arranca (20h, Sport TV3) entre as duas partidas.

Terça-feira, 3

The Chaaaampions!, ou o célebre final de canção que treme joelhos e abala corações está de volta para mais uma semana:

Shakhtar Donetsk-Borussia Mönchengladbach (17h55, E3)
Lokomotiv de Moscovo-Atlético de Madrid (17h55, E2)
FC PORTO-Marselha (20h, TVI)
Manchester City-Olympiacos (20h, E2)
Midtjylland-Ajax (20h, E6)
Atalanta-Liverpool (20h, E4)
Red Bull Salzburgo-Bayern de Munique (20h, E3)

Quarta-feira, 4

⚽ Mais versões da melodia da Liga dos Campeões se continuarão a ouvir pela Europa fora:

Basaksehir-Manchester United (17h,55 Eleven Sports)
Zenit S. Petersburgo-Lazio (17h55, Eleven Sports)
Ferencvários-Juventus (20h, E1)
Barcelona-Dínamo de Kiev (20h, E2)
RB Leipzig-PSG (20h, Eleven Sports)
Clube Brugge-Borussia Dortmund (20h, Eleven Sports)
Sevilha-Krasnodar (20h, Eleven Sports)
Chelsea-Rennes (20h, Eleven Sports)

Quinta-feira, 5

⚽ Caberia aqui bem outra referência a sonoridades conhecidas, mas, lá está, a Liga Europa não é como a sua vizinha de cima e o hino que a UEFA inventou para a competição não cola no ouvidos:

BENFICA-Glasgow Rangers (17h55, SIC)
Ludogorets-Tottenham (17h55, Sport TV2)
Lech Poznan-Standard de Liège (17h55, Sport TV5)
AS Roma-Cluj (17h55, Sport TV3)
Leicester City-SPORTING DE BRAGA (20h, Sport TV1)
Celtic-Sparta de Praga (20h, Sport TV5)
AC Milan-Lille (20h, Sport TV5)
Arsenal-Molde (20h, Sport TV2)

Sexta-feira, 6

⚽ Os diferentes campeonatos de futebol também farão o que a Liga de Clubes faz por cá e colocam a dar uma música quando as equipas entram em campo, pedir que alguém tenha, sequer, uma ideia que canções são essas é fazer batota descarada:

Liga NOS

B-SAD-Rio Ave (20h30, Sport TV1)

Premier League

Southampton-Newcastle (20h, Sport TV2)

Bundesliga

Werder Bremen-Colónia (19h30, E2)

Série A

Sassuolo-Udinese (19h45, Sport TV3)

Sábado, 7

⚽ Segue jogo, que é como quem diz, mais uma jornada de futebol:

Liga NOS

Tondela-Santa Clara (15h30, Sport TV4)
Moreirense-Paços de Ferreira (15h30, Sport TV1)
Famalicão-Marítimo (18h, Sport TV1)
V. Guimarães-Sporting (20h30, Sport TV1)

Premier League

Everton-Manchester United (12h30, Sport TV+)
West Bromwich-Tottenham (15h, Sport TV2)

La Liga

Huesca-Eibar (13h, E1)
Sevilha-Osasuna (17h30, E2)
Atlético de Madrid-Cádiz (20h, E1)
Espanyol-Lugo (20h, E4)

Bundesliga

Mainz-Schalke 04 (14h30, E6)
Augsburgo-Hertha de Berlim (14h30, E5)
Estugarda-Eintrach Frankfurt (14h30, E3)
RB Leipzig-Friburgo (14h30, E2)

Série A

Cagliari-Sampdoria (14h, Sport TV3)
Parma-Fiorentina (19h45, Sport TV3)

Domingo, 8

🏍️ O circuito Ricardo Tormo, em Valência, recebe o Grande Prémio da Europa em Moto GP (13h, Sport TV1).
⚽ Mais bola a rolar um pouco por todo o lado:

Liga NOS

Farense-Boavista (15h, Sport TV5)
Nacional-Gil Vicente (15h, Sport TV1)
FC Porto-Portimonense (17h30, Sport TV1)
Benfica-Sporting de Braga (20h, BTV)

Premier League

Leicester City-Wolverhampton (14h, Sport TV2)
Manchester City-Liverpool (16h30, Sport TV2)

La Liga

Getafe-Villarreal (13, E1)
Real Sociedad-Granada (15h15, E1)
Valência-Real Madrid (20h, E1)

Bundesliga

Wolfsburgo-Hoffenheim (14h30, E2)
Bayer Leverkusen-Borussia Mönchengladbach (17h, E2)

Série A

Lazio-Juventus (11h30, Sport TV+)
Atalanta-Inter (14h, Sport TV3)
Bolonha-Nápoles (17h, Sport TV3)
AC Milan-Hellas Verona (19h45, Sport TV3)

Hoje deu-nos para isto

Uma das primeiras fotos tiradas ao Estádio da Luz, em 2003, pouco depois da sua inauguração

Uma das primeiras fotos tiradas ao Estádio da Luz, em 2003, pouco depois da sua inauguração

Mike Hewitt/Getty

Não era como a Luz antiga, não tinha a enormidade de assentos disponíveis, nem a aura de catedral que lhe ficou como alcunha, mas neste dia, há 17 anos, era inaugurado o novo Estádio da Luz com um primeiro golo de Simão Sabrosa e um resultado para o Benfica esquecer: perdeu 1-2 com o Beira-Mar.

A efeméride assinala-se apenas um dia após a morte de Mário Dias, antigo vice-presidente do Benfica que Luís Filipe Vieira recordou como o "grande impulsionador da construção" do novo recinto. Era tido como o pai do Estádio da Luz, morreu vítima de doença prolongada e, há pouco tempo, defendera a ampliação da capacidade do estádio.

Que tenha uma boa e tranquila semana e, se lhe apetecer, vá acompanhando a Tribuna no site, no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.