Tribuna Expresso

Perfil

Hamilton, sete vezes campeão, tantas outras vezes campeão

Partilhar

Sorridente, por entre confettis de todas as cores: Hamilton é sete vezes campeão da F1. Agora quer mudar o desporto por dentro

Sorridente, por entre confettis de todas as cores: Hamilton é sete vezes campeão da F1. Agora quer mudar o desporto por dentro

Bryn Lennon/Getty

Já lá para o final da cerimónia do pódio do GP Turquia, Mark Webber entrevistava um ensopado Lewis Hamilton e este, talvez já relativamente enxugado das primeiras emoções às quais qualquer sete vezes campeão da Fórmula 1 tem direito a sucumbir, dizia ao antigo piloto australiano que à noite talvez fosse “rever a corrida, comer um minestrone e beber um vinho”.

Rever a matéria dada, comer uma sopinha e beber um copito. Não será a comemoração mais usual para alguém que acaba de igualar um recorde hercúleo, sete vezes campeão do Mundo de F1 como Michael Schumacher foi um dia. Menos usual ainda para um rapaz moderno como é Hamilton, livre, desimpedido, apreciador de festas, de roupas e música da moda.

Mas 2020 também não é um ano normal. E talvez seja isso o mais relevante na vitória do britânico neste campeonato encolhido devido à pandemia: estatisticamente, Hamilton é o melhor de sempre, tem igual número de campeonatos que Schumacher, mas mais vitórias, mais poles, mas isso pouco interessa. Como escreveu o jornalista britânico Will Buxton, Hamilton é um campeão do e para o nosso tempo, porque num ano tumultuoso, ele foi a consciência.

Face a uma pandemia que tantos colocam em causa, dizendo-se “pela verdade”, como se dela fossem donos, Hamilton recolheu-se na sua bolha, sem queixumes ou saudosismos, vivendo na sua motorhome durante o inclemente calendário, na companhia apenas do seu cão Roscoe, não parecendo particularmente enraivecido por ter de andar de máscara ou comemorar o título com uma sopa e um copo de vinho. É o que é.

E quando as imagens da televisão nos mostraram polícias com joelhos em cima de pescoços negros, Hamilton agigantou-se. Sem ele, a Fórmula 1 nunca se teria enchido de slogans, we race as one, end racism. Sem ele, não haveria, a cada corrida, uma cerimónia protocolar com um momento dedicado à luta contra o racismo, com vista para milhões e milhões de casas por esse planeta fora. Sem ele, a Mercedes não teria pintado o carro de negro. Sem ele, é possível que nenhum dos outros pilotos da F1 que se têm manifestado pela justiça social e igualdade o tivesse feito - o capacete que Vettel usou na Turquia, e também por ser na Turquia, é particularmente simbólico.

Na conversa com Webber, Hamilton pareceu um desportista já concretizado, satisfeito com as taças que tem em casa. Mas um homem ainda com um propósito. Depois de uma semana em que deixou que se semeasse a dúvida sobre uma possível continuidade na F1, na Turquia - e que sítio para o fazer - Hamilton falou num trabalho que ainda há a cumprir, de tornar a “Fórmula 1 socialmente mais responsável”, uma Fórmula 1 “sustentável” para o planeta e que possa “ajudar os sítios por onde vai passando” em questões de direitos humanos, afirmação particularmente poderosa depois do anuncio de um futuro GP Arábia Saudita para 2021.

Negro num desporto de brancos, remediado num campeonato de dinastias, Lewis Hamilton sabe o que é o privilégio, ou a falta dele, e é por isso que é muito mais do que um piloto com sete campeonatos do Mundo: é uma daquelas figuras que pode mudar um desporto por dentro. E está a fazê-lo, muitas vezes a expensas próprias, imune às críticas de quem acha que um piloto serve apenas para enfiar um capacete e correr.

Isso sem que possa ser retirado um pingo de valor ao feito desportivo: muitos despreciam os sete campeonatos de Hamilton porque está sentado talvez no melhor carro que a Fórmula 1 já viu correr, mas em 2020, o britânico, o piloto, foi absolutamente dominador, até em corridas onde teoricamente parecia estar em desvantagem. No GP Portugal, numa pista técnica e de características inéditas no Mundial, terminou a corrida 25 segundos à frente do colega Valtteri Bottas, que durante todo o fim de semana havia sido mais rápido. Na Turquia, este domingo, dominou o tempo e o espaço. Partiu de 6.º, a pior qualificação do ano, com um Mercedes que nunca pareceu tão competitivo à chuva quanto os Red Bull. Mas errou menos que toda a gente, controlou a temperatura e a durabilidade dos pneus, definiu ele próprio a melhor estratégia com a equipa, quando arriscar, quando meter o pé na tábua, quando parar, quando não parar.

Uma vitória da inteligência. É que, embora quem sabe para lá caminhemos, os carros ainda não têm cérebro.

O que se passou

Portugal não irá defender o título na Liga das Nações, depois da derrota em casa com a França, apenas a quarta em jogos oficiais da era Fernando Santos. Já os sub-21 apuraram-se para o Europeu da categoria.

Depois do brilharete no Giro, Portugal deu nas vistas agora no ciclismo de pista, com dois títulos no Europeu de Plovdiv e mais quatro medalhas.

No MotoGP, Joan Mir foi o mais constante num Mundial sem Marc Márquez. Apesar de ter apenas uma vitória na temporada, sagrou-se campeão em Valência, dando à Suzuki o primeiro título em 20 anos, numa corrida em que Miguel Oliveira foi 6.º.

No golfe, o número 1 mundial Dustin Johnson é o novo dono do mítico blazer verde entregue todos os anos ao vencedor do Masters de Augusta.

No futebol feminino houve dérbi e com vitória para o Sporting frente ao Benfica.

“Resultados ao Intervalo pela Verdade”, o comentador dos gráficos implacáveis e a voz de cangalheiro de outro: o pós-jogo Portugal - França

Não vi nenhum regresso ao passado, aos tempos em que a seleção entrava a perder contra equipas mais fortes, em que os jogadores tremiam e se não tremiam era só para se aguentarem de pé enquanto pediam o autógrafo a italianos, alemães ou franceses. Esses tempos não voltam

“O prof. Alexandrino queria que eu fosse com ele ao programa do Herman José, para tocar piano e mostrar que os futebolistas não são burros”

Nandinho cresceu a conhecer as casas de fado, onde os pais trabalhavam, aprendeu sozinho a tocar piano e a ler, entretinha os turistas do Porto para ganhar alguns cobres e sonhava com um futuro no futebol. Começou no CD Candal, chegou ao Benfica e acabou por abandonar a carreira, diz ele, prematuramente. Voltou a estudar e tornou-se treinador, função que desempenha hoje em Espanha, na equipa B do Almería. Pelo meio viveu muitas histórias e aqui conta algumas, que metem bruxos, "trapadas", percebes, água com limão e um "malta"

Se o Trincão tem passado mais algum tempo em Portugal teria percebido a importância de se atirar para o chão (por Um Azar do Kralj)

Na sua análise humorística à derrota de Portugal frente à França (0-1), Vasco Mendonça lamenta que Ronaldo não tenha chegado mais perto do iraniano Ali Daei: "A FPF devia marcar uma bateria de jogos com San Marino à melhor de 3"

Houve “beaucoup de porrade dans las pérnes” e gritos de “arrete”, mas nem assim Portugal parou a França (por Diogo Faro)

Diogo Faro, na sua análise humorística ao Portugal-França (0-1), lamentou a derrota da seleção, particularmente por Rui Patrício, que “deu os túbaros pela Nação”

Diogo Jota não foi titular, não fosse estragar o recolher obrigatório da qualidade de jogo a partir das 13h (por Lá em Casa Mando Eu)

Na sua análise humorística à derrota de Portugal frente a França (0-1), Catarina Pereira lamenta que Fernando Santos não tenha apostado em Diogo Jota, "o jogador português em melhor forma" e, também, em João Cancelo: "Quando Portugal se soltou e atacou, portou-se como um lateral de Premier League. Até esse momento, pareceu-me um lateral de uma equipa de José Mota"

Diogo, o Jota que nunca foi amor à primeira vista

Diogo Jota tem 7 golos marcados em 11 jogos pelo Liverpool, que o contratou esta época ao Wolverhampton por cerca de €45 milhões. Estreou-se na Seleção Nacional em novembro de 2019 e já marcou 3 golos

Os primos já não nos gozam

Manuel Neves recorda tempos que já lá vão, em que a seleção francesa se superiorizava sempre a Portugal: "Para a nova geração da seleção portuguesa, os franceses são um primo como os outros, com os quais fala a mesma língua (provavelmente cheia de tiques da internet que eu já não apanho) e de quem não tem medo nenhum"

Há 25 anos, Pedro Lamy conquistou o primeiro ponto português na F1: "Um 6.º lugar naquela altura sentia-se como uma vitória"

A 12 de novembro de 1995, com um modesto Minardi, Pedro Lamy era um dos oito pilotos que terminava um caótico GP Austrália, na altura a prova que encerrava o Mundial de Fórmula 1. À <strong>Tribuna Expresso</strong>, o piloto de 48 anos recorda o feito, aquele 6.º lugar que para lá de fazer Portugal pontuar pela primeira vez na categoria, ainda fez a sua equipa poupar muitos milhões na temporada seguinte

“Eu e o Chalana éramos a melhor ala esquerda do país. Calei, caladinho o Eduardo Luís”: o França - Portugal de 84, por Álvaro

O primeiro encontro entre Portugal e França na fase final de um Europeu aconteceu em 1984, com vantagem para os franceses que passaram à final. Álvaro Magalhães recorda a estreia dos 'Patrícios' na competição e a boa figura que fizeram, apesar das guerras internas. E se achava que todas as histórias desta competição estava contadas, leia este testemunho do antigo defesa-esquerdo

Zona mista

"Obviamente lidamos mal com a derrota. Amanhã vamos estar um bocadinho aziados"

Fernando Santos após a derrota com a França que deixa Portugal fora da fase final da Liga das Nações. Este "amanhã" era domingo, assim que hoje, segunda-feira, esperemos que já tenha passado o mal do estômago, porque amanhã, terça-feira, há jogo na Croácia

O que aí vem

Segunda-feira, 16

🎾 ATP Finals: Novak Djokovic - Diego Schwartzman (14h, Sport TV4) e Daniil Medvedev - Alexander Zverev (20h, Sport TV4)

Terça-feira, 17

⚽️ Liga das Nações: Croácia - Portugal (19h45, RTP e Sport TV1), França - Suécia (19h45, Sport TV2), Espanha - Alemanha (19h45, Sport TV3), Suíça - Ucrânia (19h45, Sport TV5)

⚽️ Qualificação Mundial 2022: Uruguai - Brasil (23h, Sport TV1), Peru - Argentina (0h30, Sport TV2), Paraguai - Bolívia (23h, Sport TV3)

🎾 ATP Finals: Rafael Nadal - Dominic Thiem (14h, Sport TV4) e Stefanos Tsitsipas - Andrey Rublev (20h, Sport TV4)

Quarta-feira, 18

⚽️ Liga das Nações: Cazaquistão - Lituânia (15h, Sport TV1), Albânia - Bielorrússia (15h, Sport TV2), Geórgia - Estónia (17h, Sport TV2), Arménia - Macedónia (17h, Sport TV3), Inglaterra - Islândia (19h45, Sport TV1), Bélgica - Dinamarca (19h45, Sport TV2), Polónia - Holanda (19h45, Sport TV3), Bósnia - Itália (19h45, Sport TV5)

⚽️ Qualificação Euro sub-21: Portugal - Holanda (19h30, 11)

⚽️ Taça de Portugal Feminina: Estoril Praia - Sp. Braga (14h30, 11)

Sexta-feira, 20

⚽️ Taça de Portugal: Oleiros - Gil Vicente (14h30, 11), Feirense - Amora (17h30, 11), Leiria - Portimonense (21h, 11)

⚽️ La Liga: Osasuna - Huesca (20h, E2), Espanyol - Girona (20h, E4)

⚽️ Ligue 1: Rennes - Bordéus (18h, E1), Mónaco - Paris Saint-Germain (20h, E1)

🏍️ MotoGP: GP Portugal - treinos livres 1 (9h, Sport TV2)

Sábado, 21

⚽️ Taça de Portugal: Oriental - Famalicão (11h15, 11), Fabril - FC Porto (14h30, Sport TV1), Arouca - Vitória Guimarães (16h30, 11), Trofense - Sp. Braga (19h30, E2), Paredes - Benfica (21h15, TVI)

⚽️ Premier League: Newcastle - Chelsea (12h30, Sport TV+), Aston Villa - Brighton (15h, Sport TV2), Tottenham - Manchester City (17h30, Sport TV2), Manchester United - West Bromwich (20h, Sport TV2)

⚽️ La Liga: Levante - Elche (13h, E1), Villarreal - Real Madrid (15h15, E1), Sevilha - Celta (17h30, E4), Atl. Madrid - Barcelona (20h, E1)

⚽️ Serie A: Crotone - Lazio (14h, Sport TV3), Spezia - Atalanta (17h, Sport TV3), Juventus - Cagliari (19h45, Sport TV3)

⚽️ Bundesliga: Bayern Munique - Werder Bremen (14h30, E2), Borussia M’gladbach - Augsburgo (14h30, E4), Schalke 04 - Wolfsburgo (14h30, E4), Arminia Bielefeld - Bayer Leverkusen (14h30, E5), Eintracht Frankfurt - RB Leipzig (17h30, E2), Hertha Berlim - Borussia Dortmund (19h30, E2)

⚽️ Ligue 1: Marselha - Nice (20h, E3)

🏍️ MotoGP: GP Portugal - qualificação (12h35, Sport TV2)

Domingo, 22

⚽️ Taça de Portugal: Felgueiras - Tondela (11h, 11), Beira-Mar - Santa Clara (14h30, 11), Oliveirense - Paços de Ferreira (17h15, 11), Vizela - Boavista (20h, 11)

⚽️ Premier League: Fulham - Everton (12h, Sport TV2), Sheffield United - West Ham (14h, Sport TV2), Leeds United - Arsenal (16h30, Sport TV2), Liverpool - Leicester (19h15, Sport TV2)

⚽️ La Liga: Eibar - Getafe (13h, E1), Cadiz - Real Sociedad (15h15, E1), Granada - Valladolid (17h30, E1), Alavés - Valencia (20h, E1)

⚽️ Serie A: Fiorentina - Benevento (11h30, Sport TV+), Roma - Parma (14h, Sport TV3), Inter - Torino (14h, Sport TV5), Nápoles - Milan (19h45, Sport TV3)

⚽️ Bundesliga: Freiburg - Mainz (14h30, E2), Colónia - Union Berlin (17h, E2)

⚽️ Ligue 1: Nantes - Metz (12h, E2), Angers - Lyon (16h, E3), Lille - Lorient (20h, E2)

🏍️ MotoGP: GP Portugal - corrida (11h, Sport TV2)

Hoje deu-nos para isto

No ano anterior, Lewis Hamilton tinha chegado à F1 e a F1 ficou de boca aberta, pouco habituada não só a miúdos negros de bairros sociais ingleses como a talentos de impacto imediato: em 2007, Hamilton não foi campeão por um singelo ponto e a culpa talvez nem tenha sido sua, mas sim de uma paragem na box mal calculada pela McLaren no penúltimo GP do ano, em Xangai.

Em 2008, o sophomore Hamilton viu-se, de repente, na iminência de perder mais um campeonato por uma coisa de nada, mas o GP Brasil, então a última prova do ano, no circuito de Interlagos, sempre foi um sítio de drama. Felipe Massa, piloto da casa, foi o primeiro a cruzar a meta, Hamilton seguia mais atrás em 6.º ainda a meio da última volta e as contas diziam que o brasileiro era campeão. Mas enquanto já se festejava na box da Ferrari, família e mecânicos de Massa fundidos em abraços, o verde e amarelo misturado com o vermelho da equipa, Hamilton, naquele MP4-23 lindo, lindo, lindo, um dos mais bonitos carros que me lembro de ver na F1, ultrapassava Timo Glock numa das últimas curvas da última volta da última prova do ano. E com o 5.º lugar, Hamilton era campeão.

Tudo o que se passou nesse bocado de tempo que não terá tido nem um minuto ainda hoje é folclore: o lacónico “passou o Glock” de Luciano Burti, antigo piloto que comentava para a TV brasileira, a realização a filmar duas festas, uma de Nicole Scherzinger, a pop star que era então namorada do britânico, a outra da família de Massa, então ainda alheia ao que se tinha passado em pista, o violento murro de um mecânico da Ferrari nas paredes da box da equipa quando percebeu o que estava a acontecer, enfim, a glória e a desilusão caminham sempre lado a lado - e Timo Glock ainda hoje recebe insultos de brasileiros e italianos nas redes sociais.

O primeiro título de Hamilton e o pesadelo de Massa em casa

Foi em Interlagos, São Paulo, em 2008, que Lewis Hamilton conquistou o primeiro dos seus sete títulos. Da forma mais dramática posível