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As intermitências da vida

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Romain Grosjean a fugir às chamas que o envolveram na metade do seu carro que se incendiou, no domingo, durante o GP do Bahrain em Fórmula 1

Romain Grosjean a fugir às chamas que o envolveram na metade do seu carro que se incendiou, no domingo, durante o GP do Bahrain em Fórmula 1

Peter Fox/Getty

Diziam-nos para não corrermos nos corredores da escola, afinal chamavam-se assim para quê, se sempre nos queriam a caminhar com calma?, isso para recém-adolescentes em busca de uma porta destrancada com televisão lá dentro dizia pouco e continuámos, creio que num intervalo de almoço, a bater, a rodar maçanetas e a importunar quem sabíamos ser dono de chaves que escancarassem o nosso objetivo: ver o primeiro jogo do Mundial de 2002 a acontecer do outro lado do mundo. As longínquas coordenadas e os fusos horários antipáticos a stressarem putos salivantes por futebol até, finalmente, alguém ter piedade de nós e deixar que ligássemos um pedregulho como as televisões ainda eram na maioria.

E o quê, como é possível, já estava 1-0 para o Senegal e a culpa era de Papa Boupa Diop, alguns já o tínhamos visto nos cromos da caderneta e aí se esgotava o conhecimento sobre o grandalhão de colar de missangas apertado à volta do pescoço, que esticou a camisola na relva para dançar em seu redor com outros jogadores, um círculo celebratório do golo que derrotaria a França, então campeã do mundo.

Conheceríamos melhor este bom gigante senegalês nos anos seguintes, jogou no Fulham e no Portsmouth da Premier League, alcunharam-no de "O Armário" pelo arcaboiço de 1,96 m e nós íamos troçando de vez em quando com um dos nossos por o ter como um dos jogadores preferidos, mais pelo que lhe rendia no Football Manager do que pela arte real que lhe reconhecia.

Este domingo trouxe-nos Papa Boupa Diop ao mesmo tempo que o levou, nós longe dele há muito e mais afastados que nunca ficaremos, uma doença prolongada parou-o aos 42 anos e a morte, outra vez, no falatório dos vivos. Parece cerimonioso esperar pelo fim da vida para sermos apologistas de quem parte quando já não lerão ou ouvirão a eulogia, e, na semana que findou, vários se foram, todos provavelmente mais próximos do que nos bombeia sangue e sentimentos cá dentro do que o senegalês.

Um inocente passeio em Matosinhos indispôs Vítor Oliveira no sábado e culpou-o de algo cedo demais, morreu a calvície e o bigode mais sapientes do futebol em Portugal, neste treinador havia mais do que um depósito de bem-dizer, era um repositório das coisas acertadas e ponderadas que tinham de ser ditas sobre o meio e a profissão que o envolviam, sem necessitar de palavras caríssimas para ser ouvido porque de propriedade sobre o assunto estava ele cheio. Vítor Oliveira nunca estava com merdas, levar-me-ão a mal o calão, mas, sem o conhecer, duvido que ele se chateasse pelo uso de uma expressão entendível - por tão basilar ser - para descrever quem sempre dizia o que era certo, errado ou corrigível sem palavras caras.

Muito menos se encareceu, em vida, o Diego Armando Maradona que a morte tão flagrantemente roubou na quarta-feira, porque é um roubo sem misericórdia levar o mais humano dos génios que só uma bola de futebol tornou um bocadinho menos falível e errante. Não foi um roubo abstrato, fomos todos nós os roubados porque os 60 anos de existência do argentino também foram vividos sem o termo do calão que não vale a pena repetir e essa atitude teve-o, sempre, mais próximo dos nós, os roubados e plebeus da bola que o vimos a jogar em direto ou diferido pela televisão e acompanhámos a sua história decadente. A morte seria sempre a ladra que o levaria de repente para nos recordarmos de como vivemos Maradona.

O fim de uma vida também reclama pedaços em quem continua a viver. As pessoas juntam-se e dão-se às outras com ombros de amparo quando são próximas de quem a morte leva, mas também quando não o eram, por isso lemos e ouvimos tanta gente a contar o que Vítor Oliveira ou Diego Maradona significam para si, o eu isto, eu aquilo, eu aqueloutro não é egoísmo, mas um exercício de afrontamento às memórias que construímos com figuras distantes cujos percursos nos tocaram, por qualquer razão. No mesmo dia do argentino também morreu Reinado Teles, que muito dirá especialmente a adeptos do FC Porto, e na terça-feira foi Christope Dominici, um dos melhores que o râguebi francês já teve.

No domingo, por momentos, temeu-se que a morte ainda não concluíra a porcaria da sua semana dedicada ao desporto quando o carro de Romain Grosjean embateu contra a barreira de pista no Bahrain, partiu-se em dois e logo se incendiou a metade que tinha o francês. A combustão trouxe todas as malogradas memórias que a Fórmula 1 guardou ao longo dos tempos durante o tempo em que o piloto demorou a sair das chamas, foram 28 segundos para viver no relógio de Grosjean contado pela "L'Équipe", ele escapou apenas com queimaduras nas mãos e nos pés e a vida ganhou às labaredas.

Porque, descontada a fatia da fortuna, a Fórmula 1 há muito que se agarrou ao ter de evoluir nas formas como poderia agarrar os seus à vida quando os tem dentro de carros que vão para lá dos 300 quilómetros por hora e ir rapidíssimo nunca parece ser o suficiente. Apostou nas tecnologias que há dentro desses carros, nos capacetes, nos fatos que lhes cobrem os corpos e na auréola que tão criticada foi ao ser inventada, por questões de estética e visibilidade (até pelo próprio Romain Grosjean), mas que pode interromper a mão da morte quando se vive a acelerar tão perto dela.

Ver o piloto francês a fugir das labaredas foi a vida a mostrar o dedo do meio à inevitabilidade comum a todos, a ganhar nas últimas de uma semana com perdas a mais e a mostrar como não interessa para nada uma coisa ficar bonita ou feia num carro quando nela pode estar o adiamento de uma desgraça que pode estar sempre iminente em quem escolheu praticar esta forma de desporto. Como os dias anteriores também mostraram, há modalidades que, infelizmente, só podem proteger os seus até certo ponto, até onde a vida os decide roubar para sempre.

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Zona mista

Não era a favor do halo há uns anos, agora acho que é a melhor coisa que trouxeram para a F1. Sem ele não estávamos aqui a falar.

No domingo à noite, um vídeo mostrou Romain Grosjean na cama de hospital com as mãos inchadas de ligaduras, a sorrir para a câmara para mostrar que estava bem e feliz por ter escapado apenas assim do acidente e poder aproveitar o facto para elogiar a auréola de titânio que está por cima da cabeça de cada piloto que se atreve a acelerar a fundo dentro dos monolugares.

O que vem aí

Segunda-feira, 30
⚽ É como se ainda fosse fim de semana e há bola a rolar em muitos sítios: antes do Marítimo-Benfica (19h, Sport TV1) há o Leicester City-Fulham (17h30, Sport TV2) na Premier League e, depois, ainda dá para apanhar um pouco do Real Bétis-Eibar (20h, E1), da La Liga, se estiver para aí virado.

Terça-feira, 1
⚽ É feriado para assinalar a restauração da independência de Portugal, mas o dia não se livra de jogos. A seleção nacional feminina recebe a Albânia (17h45, Canal 11) a contar para a qualificação rumo ao Europeu de 2021 e dez minutos volvidos começará a fornada de partidas da Liga dos Campeões. Às 20h, o FC Porto recebe o Manchester City (TVI). E à hora em que os jogos da Champions terminarem, haverá um encontro desta muito portuguesa Liga NOS a começar, às 21h45 (o Moreirense-Paços de Ferreira, que era suposto ter-se jogado no sábado, mas foi adiado devido a um surto de covid-19).

Quarta-feira, 2
⚽ Às 17h55 e 20h é quando os relógios dão horas de Liga dos Campeões e, entre os jogos do dia, destaque para o Sevilha-Chelsea e o Manchester United-PSG, ambos à noite (e com transmissão na Eleven Sports).

Quinta-feira, 3
⚽ Depois da competição da bola estrelada joga-se a Liga Europa, portanto jogará o Braga com o AEK, em Atenas (17h55, Sport TV1), e o Benfica contra o Lech Poznan, em Lisboa (20h, SIC).

Sexta-feira, 4
🏄‍♀️ A tão adiada temporada dos circuitos mundiais de surf por fim despertará, neste caso com o Maui Pro, no Havai, com a primeira etapa feminina. O período de espera do evento vai até 15 de dezembro.
⚽ Os principais campeonatos de Alemanha, França (Nimes-Marselha, às 20h e na Eleven Sports, com André Villas-Boas ao barulho), Inglaterra (ou o Aston Villa-Newcastle, também às 20h e na Sport TV, para ver Jack Grealish, um dos maiores talentos que há na Premier League) e Espanha terão todos jogos a acontecer.

Sábado, 5
🏉 Às 8h45 arranca o derradeiro jogo do Torneio das Três Nações entre a Austrália e a Argentina. Cada uma ainda pode vencer a competição, mas precisará de vencer e marcar, pelo menos, quatro ensaios para ter o ponto bónus ofensivo e tentar recuperar a grande desvantagem que há na diferença de pontos para a Nova Zelândia, líder da classificação.
⚽ O futebol está ativo por todo o lado: em Portugal, é dia de Famalicão-Sporting (18h, Sport TV1) e FC Porto-Tondela (20h,30 Sport TV1); além-fronteiras, de realçar o Bayern de Munique-RB Leipzig (17h30, E2) e o Chelsea-Leeds United (20h, Sport TV2).

Domingo, 6
🏎️ Há o Grande Prémio de Sakhir de Fórmula 1, outra no Bahrain, no mesmo circuito onde aconteceu o terrível acidente de Romain Grosjean (17h10, Eleven Sports).
⚽ Uma semana depois de um dérbi londrino, sai outro para José Mourinho e o seu Tottenham, que defrontam o Arsenal às 16h30 (Sport TV2). Mais tarde, o Liverpool de Diogo Jota recebe ex da nova sensação da cidade dos Beatles e defronta o Wolves (19h15, Sport TV2). Na Liga NOS, há o Benfica-Paços de Ferreira à mesma hora (20h) do B-SAD-Braga.

Hoje deu-nos para isto

Mirrorpix

Hoje é o carisma em pessoa, a personificação de opiniões balanceadas na decência e ponderação da profissão que escolheu para o pós-futebol, para após ter passado uma carreira a marcar golos para acabar apenas a um dos 49 de Bobby Charlton na seleção inglesa. Durante muito tempo, uma bola chegar às redes da baliza no país que inventou a arte organizada de lhe dar pontapés foi sinónimo dele e de Gary Lineker, um avançado simpático e afável, que aproveitou a sua candidez e à vontade a comunicar para a sua figura seguir viva nos ecrãs de televisão até este dia, em que cumpre 60 anos e parece tão vivaço como um trintão.

No seu auge de letalidade com finalizações simples, muitas vezes executadas de primeira, Gary Lineker teve 11 épocas seguidas a marcar, pelo menos, uma dezena de golos a cada época, até chegando aos 44 na temporada (1985/86) em que representou o Everton, no fim da qual seria convocado para o Campeonato do Mundo do México. De lá sairia com seis golos, a Bota de Ouro e a consolação da camisola de Diego Armando Maradona, porque o argentino da mão endeusada e uma equipa inteira vergada a um drible cósmico fazia sempre questão de trocar de vestes com quem vestisse a 10 na outra equipa.

Na história dessa camisola cabe a estória do inglês com o argentino e a de Carlos Bilardo, o selecionador albiceleste de então que, dias antes, decidido a livrar-se do equipamento alternativo da seleção cujo material era grosso, pesado e sobreaquecia os corpos dos jogadores, obrigou responsáveis da federação a farejarem a Cidade do México por alternativas da mesma marca (Le Cop Sportif), da mesma cor, para que depois fossem cosidos os números e o escudo para os futebolistas irem para o campo mais leves.

Às tantas, apanhando Maradona a passear-se num corredor do hotel, Bilardo perguntou-lhe o que achava do improvisado manto. "Que linda essa camisola, com ela vamos ganhar à Inglaterra", terá respondido.

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