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Falta uma vacina contra a estupidez

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Passaram 315 dias desde que Moussa Marega pediu para ser substituído por ouvir insultos racistas durante o Vitória-FC Porto

Passaram 315 dias desde que Moussa Marega pediu para ser substituído por ouvir insultos racistas durante o Vitória-FC Porto

MIGUEL RIOPA/Getty

Há qualquer coisa nos olhos e na expressão que emanam, o cabelo é reminiscente, o formato da cara parece esculpido à semelhança dele e cedi logo a essa conformidade visual, não sei se Elio Germano já apanhou um avião para o Brasil e se atreveu a passear a face lá pelas ruas, foi certo ou sê-lo-á um dia que as gentes lhe vão frenar o caminho por onde ele passar, pelo menos no ecrã as parecenças com o piloto partido cedo demais hipnotizam e foram elas que me agarraram primeiro ao filme.

É sobre um excêntrico engenheiro italiano que levou a sua avante e, nos anos 60, construiu uma plataforma a pouco mais de 10 quilómetros ao largo de Rimini, em águas internacionais, para funda um estado e fazer o que lhe desse na real gana.

Nos pecúlios da película, ele - e todo ele é interpretado como um daqueles génios idealistas e bons chanfrados - entra na sala da faculdade onde a sua advogada amada dá aulas, senta-se e ouve o resumo cinematograficamente encurtado do conceito de direito natural: "É o sentido inato de justiça que existe em cada um de nós, lembrando-nos do que é mais importante: dar prioridade ao que é justo. Porque as leis mudam. O que é justo é sempre justo".

As ocasiões não coincidiram, mas, uns sóis depois, no meu ecrã de telemóvel surgiu algo sobre Marega e Guimarães, esse jogador e essa cidade que há 315 dias se encontraram pela última vez num estádio onde o maliano saiu de campo bravo com as pessoas nas bancadas, a exigir ser substituído enquanto a dureza de assobios o envolviam e, às tantas, até um uníssono se ouviu a mandá-lo para o sítio onde quem o vocalizou conhecerá bem, só pode, se resolveram gritar aquilo, naquele momento.

Já passou quase um ano desde que um futebolista, em Portugal, abandonou o campo durante um jogo da Liga NOS por ouvir insultos racistas a serem-lhe dirigidos injustamente. Não há justiça possível para que alguém os tenha de ouvir.

Não é que o caso tenha voltado à baila, o esperto do telemóvel notificou uma notícia sobre a forma como o Vitória reagiu à reação de Pedro Proença a uma outra notícia. Era a "estranheza" do clube a dirigir-se à catalogação de "incompreensíveis e lamentáveis" feita pelo presidente da Liga de Clubes, em relação a "decisões" como a do Tribunal da Relação de Guimarães, que anulou uma multa de 750 euros imposta a um adepto por se encapuçar no Estádio D. Afonso Henriques, devido à regra que proíbe a "ostentação de qualquer utensílio ou apetrecho que oculte, total ou parcialmente, o rosto do espetador no espetáculo desportivo".

O capuz serviu a esse adepto durante a partida do racismo dirigido a Marega, a 16 de fevereiro, faltam 50 dias para assinalarmos o ano cumprido e amanhã faltarão 49, no dia em que FC Porto e Vitória se reencontram em Guimarães, na reedição de um jogo sobre o qual esta decisão judicial se refere e tem a ver, mas não ao que realmente de grave se passou. Quem é bom da cabeça, tem os valores no sítio e não manda alguém para o tacanho lugar da ofensa fácil quando esse alguém está a agir contra alegados insultos baseados na cor de pele, saberá que ainda pouco ou nada de justo se fez relação a quem insultou Moussa Marega.

A investigação do Ministério Público de Guimarães identificou mais de 20 pessoas e indiciou quatro, por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência. Uma delas nem estava no estádio e foi pelo que escreveu no Twitter - aceitou o pagamento de uma multa de 400 euros e está proibido de frequentar recintos desportivos durante um ano -, as outras três começaram a ser ouvidas, em setembro, como arguidas no processo relativo ao caso Marega, o jogador virou nome de caso judicial quando o problema está no que lhe dirigiram, mas desde o nono mês deste 2020 que não há notícias sobre o andamento desse processo.

E está quase a passar um ano desde o sucedido.

A Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto, que aplicou a multa relativa ao adepto encapuçado, insurgiu-se, na altura, em apoio ao jogador e condenação de quem seja que imitou sons de macaco no estádio quando Marega tocava na bola, juntando-se às entidades ou figuras que também o fizeram prontamente: a Liga de Clubes e Pedro Proença; a Federação Portuguesa de Futebol e Fernando Gomes; o primeiro-ministro, António Costa; o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa; o secretário de Estado do Desporto e da Juventude, João Paulo Rebelo.

A lista, quanto mais se googlar para recordar, continua justamente e com razão, sem as infelizes poucas vozes que, no próprio dia, se apressaram a desvalorizar o que se passou.

Entre o pouco que, até agora, se fez quanto ao sucedido com Marega, o Conselho de Disciplina da FPF multou o Vitória com três jogos à porta fechada (aplicáveis quando os estádios puderem voltar a abri-las) e uma multa de 714 euros, que são muito menos euros do que os 4017 aplicados por "arremesso de engenhos pirotécnicos" na mesma partida, e os 7140 pelo "arremesso de cadeiras". O que se arremessa com a voz e magoa onde a vista não vê parece não merecer tanta punição, mas era justo que merecesse.

Faltam 50 dias para o aniversário do que aconteceu a Marega e amanhã serão 49, quando a bola voltará a rolar no local do sucedido. São dias em que se discute mais a primeira toma da vacina contra o bicho virulento que começou a afetar tudo não muito tempo depois do jogo em Guimarães. O génio humano, a ciência, o dinheiro e a urgência juntaram-se para desenvolver algo injetável para nos livrar de uma pandemia. Houvesse uma vacina para curar a humanidade da estupidez que é julgar e insultar alguém apenas pela cor de pele ou do sítio onde nasceram e este mundo teria menos dificuldades em ser mais justo para toda a gente.

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Zona mista

Sou duro com ele, por vezes, pois ele bebe refrigerantes e fico irritado com ele. Come batatas, fritos, coisas assim, e eu não gosto. Mesmo os mais pequenos, quando comem chocolate, olham logo para mim.

Palavras de Cristiano Ronaldo, no Dubai, onde foi receber o prémio dos Globe Soccer Awards para melhor jogador do século, porque como todos sabemos este ciclo de 100 anos está quase a acabar e já vimos tudo, mas pronto, aconteceu em 2020 e há que dar todo o desconto a este ano.

O que vem ai

Segunda-feira, 28

⚽ Como é costuma nesta vida de bola pandémica, a semana arranca com jogos em todo o lado e aqui ficam três sugestões: o Chelsea-Aston Villa (17h30, Sport TV2), onde estará Jack Grealish e isso basta; o Everton-Manchester City (20h, Sport TV2), agora que a equipa de Pep Guardiola parece estar a reencontrar a chama; e o Boavista-Braga (21h, Sport TV1) por cá, com o xadrez do regressado Jesualdo Ferreira a jogar com a equipa que talvez melhor joga em Portugal.

Terca-feira, 29

⚽ Há ação na Premier League e La Liga, mas a Liga NOS terá grandes em campo: o Benfica recebe o Portimonense (18h, BTV) e o FC Porto vai a Guimarães defrontar o Vitoria (21h, Sport TV1) a bela hora em que o operador televisivo continua a agendar jogos.
🏀 Brooklyn Nets-Memphis Grizzlies (00h30, Sport TV1) e Denver Nuggets-Houston Rockets (2h, Sport TV3).

Quarta-feira, 30

⚽ Centrando a lupa nos conterrâneos, e dia do Tottenham de José Mourinho receber o Fulham (18h, Sport TV1) e do Atlético Madrid de João Felix jogar com o Getafe (18h15, Eleven Sports1).
🏀 Detroit Piston-Golden Stade Warriors (00h, Sport TV5) e Miami Heat-Milwaukee Bucks (00h30, Sport TV1).

Quinta-feira, 31

⚽🇪🇸 Para encerrar esta volta ao sol que muito afetou o futebol, sai um dérbi basco que, sorte a nossa, envolve uma das equipas cujo estilo de jogo mais tem feito arregalar olhos esta época. E a Real Sociedad, que será anfitriã do Athletic Bilbao (13h, E1).
🏀 Boston Celtics-Memphis Grizzlies (00h30, Sport TV1).

Sexta-feira, 1

⚽🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿 A espreguiçadela inaugural do novo ano falará estrangeiro e - aviso: informação surpreendente - será dada em Inglaterra, pois claro. Everton-West Ham (17h30, Sport TV1) e Manchester United-Aston Villa (20h, Sport TV1) são as partidas escaladas para ver se auguram coisas boas para o que será o resto de 2021.

Sabado, 2

O Sporting sai de Lisboa para defrontar um dos outros Sporting, o de Braga (18h, Sport TV1), no primeiro grande jogo do ano. Antes, há o fervilhante dérbi de Sevilha (15h15, E1), só que sem publico, portanto lá se vai quase todo o fervor. E valera a pena sintonizar as atenções também no Tottenham-Leeds (12h30, Sport TV+).

Domingo, 3

Na Liga NOS, há o Santa Clara-Benfica (17h, Sport TV1) e o FC Porto-Moreirese (21h, Sport TV1). A Serie A desperta após a passagem de ano e a AS Roma de Paulo Fonseca recebe a Sampdoria (14h, Sport TV3), antes de a Juventus de Cristiano Ronaldo dar as boas-vindas a Udinese (19h45, Sport TV3).

Hoje deu-nos para isto

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Se é o melhor ou não fica para o julgamento de cada adepto, também porque a discussão importará realmente apenas ao umbigo de cada um, mas Jorge Nuno Pinto da Costa será certamente dos líderes de clube mais impactantes da história do futebol. Ele cumpre 83 anos esta segunda-feira, chegou à presidência do FC Porto em 1982 e as contas fazem com que já haja mais de uma geração de pessoas a verem futebol que nunca viram o clube portista com outro pessoa lá a mandar.

Que entre feliz, com saúde e em paz neste 2021, seja justo/a e tenha uma boa primeira semana e siga a Tribuna diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.