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O Jedi, a mosca, o seixo e os aforismos do João Pinto

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Mike Hewitt

Como a foto é explícita, deixo de parte a contextualização e passo diretamente à action, no sentido da palavra que se ouve quando bate a claquete no cenário:

A história de Rúben Amorim e de Jorge Jesus corresponde à grelha de análise da narrativa mais consensual entre estudiosos do cinema. Parece cumprir a preceito os quatro atos, setup, complication, development e climax, na medida em que se conheceram no Belenenses e posteriormente trabalharam no Benfica, a seguir as coisas complicaram-se entre eles e foi cada um à sua vida e os seus caminhos separaram-se; agora, mais ou menos 15 anos depois, reencontram-se para um confronto indireto, vivido através das equipas que lideram – o Sporting e o Benfica – no dérbi mais celebrado do país.

Se fosse um filme, seria mais um da longa tradição cinematográfica do pupilo e do mentor, Obi-Wan e Skywalker, Yoda e Skywalker, Professor Keating e alunos, Sean Maguire e Will Hunting, Tyler Durden e o Narrador, Mr. Miyagi e Daniel LaRusso, Vito e Michael Corleone, Master Kan e Kwai Chang Caine. Há um arco narrativo comum às personagens; passa por vários estágios, de insolência, treino, recusa, conflito e, por fim, há o rito de passagem: Skywalker torna-se o mais poderoso dos Jedi, LaRusso apanha uma mosca com os pauzinhos e Caine rouba o seixo da mão de Kane e isso diz a ambos que o primeiro está pronto.

Rúben Amorim preparou-se para momentos assim desde que deixou de jogar futebol: trabalhou com psicólogos, fez cursos de treino e formações, esteve com outros treinadores e ouviu várias vezes o cunhado Antero Henrique. Mas embora reconheça ter aprendido com Jesus, diz ele que não se vê como um discípulo de Jesus e, tal como Sérgio Conceição, rejeita haver um ascendente que o técnico mais velho terá sobre ele; aliás, dos seus ex-jogadores, apenas Silas assume sem problemas ter em J.J. o seu mestre.

Amorim separa muito bem as águas: “Somos muito diferentes”.

Por outras palavras, o jovem do Sporting tem um relacionamento diferente com os seus futebolistas, uma liderança certamente mais próxima e menos furiosa da que Jesus promove e que já faz parte do anedotário futebolístico português. É o que dizem Cândido Costa, António Sousa e Carlos Janela neste artigo da Tribuna Expresso: Amorim apanhou com tudo de Jesus durante sete anos, retirou-lhe as camadas que considerou dispensáveis e ficou provavelmente com a “exigência” do treino e as suas ideias defensivas.

Há outra forma de olhar para isto: Rúben Amorim é um produto do seu tempo, um tempo em que o treinador não tem apenas de saber do ofício mas dominar várias ferramentas, acima de todas, a comunicação.

Nesse aspecto, Jorge Jesus vive no passado, e os resultados e as exibições pouco entusiasmantes do Benfica – em absoluto contraste com a bravata da apresentação megalómana – sublinham o contrassenso que é o de ter um treinador à antiga num clube apostado na internacionalização da marca e na über profissionalização dos processos. Mas, bom, o futebol não deixa de ser um jogo, e Jesus é um multititulado e astuto player desta indústria, capaz de surpresas como a de colocar Nuno Tavares e Grimaldo para bloquear o FC Porto, no Dragão.

O jogo desta noite, entre uma equipa de muitos miúdos portugueses treinada por um tipo de 35 anos e uma equipa de variados talentos planetários treinada por um homem de 66 anos, é então um confronto de ideias, um embate geracional, um reality check à gestão de expectativas - e um teste de stress aos impactos da covid-19 no Benfica.

Em abstrato, e olhando aos nomes e aos investimentos dos clubes, se no início nos fosse perguntado quem era o favorito a ganhar todos os dérbis em 2020/21, só um grupo de espertalhaços do Reddit apostaria contra esta previsão: o Benfica.

Estaríamos todos assim em setembro, mas entretanto o Benfica falhou a entrada na Champions, envolveu-se na rábula Cavani, vendeu Rúben Dias para o Manchester City, perdeu a Supertaça, empatou em três jogos e foi derrotado em dois na Liga, foi eliminado pelo Braga na Taça da Liga e ficou a seis pontos do Sporting – e lidou um surto de covid-19, que atingiu o staff, 10 jogadores e a estrutura, incluindo o presidente e o treinador, que não estará sequer em Alvalade.

No outro lado da segunda circular, a covid-19 impossibilitou a continuação do cisma entre a claque e a direção, depois veio o Natal e o Natal passou-se e a seguir o Ano Novo ficou para trás, conquistou-se a Taça da Liga e assegurou-se uma liderança confortável e inimaginável no arranque da época.

Dos três resultados disponíveis, o Sporting poderá aceitar dois e ao Benfica só interessa ganhar em nome da sustentabilidade da #reconquista. Dito isto, muitas vezes, a confiança conduz ao desleixo, e outras vezes é a lutar pela sobrevivência que se arriscam triunfos memoráveis, mas o contrário de tudo isto também é verdade, tal como é a teoria da equipa que chega pior é a que ganha, pelo que não sei bem como terminar. E é neste momento de bloqueio que tenho saudades dos aforismos do João Pinto.

ZONA MISTA
“É preciso rever a calendarização, principalmente para quem está na Europa. Não podemos ser carne para canhão”

Sérgio Conceição, treinador do FC Porto, avisando para a falta de descanso dos seus jogadores, um alerta que vários técnicos têm lançado a propósito das lesões musculares que se vão associando à cadência de jogos ininterrupta - e também às sequelas da covid-19.



O QUE SE PASSOU
Abel Ferreira
conquistou a Copa dos Libertadores pelo Palmeiras e tornou-se o segundo treinador português no espaço de um ano a vencer a celebérrima competição sul-americana. O jogo foi fraquinho durante mais de 90 minutos, escreveu a Lídia Paralta Gomes, mas a seguir a uma expulsão, houve explosão, adrenalina, fogo de artifício e um discurso emocionado de Abel. Outras coisas que se foram passando nos últimos dias: Benfica, FC Porto, Braga e Estoril asseguraram um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal, a Dinamarca conquistou o título mundial de andebol, o “El Mundo” revelou os valores absurdos da renovação de Messi e os adeptos do Marselha invadiram o centro de treinos. E um conjunto de entrevistas com a marca Tribuna Expresso e a crónica de Bruno Vieira Amaral.

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Nas palavras de Vieira, “o que passou-se”? Duas explicações: ou o arquiteto da hegemonia era Paulo Gonçalves ou há excesso de génios por m2

Confesso que gosto muito desta explicação e acredito que a maioria dos benquistas também. Quer dizer, é provável que desconfiem da bondade da mesma e se perguntem “será que o gajo está a dizer que o Benfica ganhou por causa de jogadas manhosas?” Mas, ao mesmo tempo, sorriem porque sabem que há aqui um fundo de verdade, é uma explicação que não explica tudo mas tem a sua graça e sempre explica alguma coisa. A outra explicação é o excesso de planeamento

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“Se nos apurarmos para Tóquio vamos todos fazer uma tatuagem com os anéis olímpicos, no mesmo sítio. Até o médico, com quase 80 anos”

Paulo Jorge Pereira é selecionador nacional de andebol desde 2016 e foi com ele que Portugal conseguiu os melhores resultados da sua história: 6.º no Europeu em 2020 e 10.º no recente Mundial de 2021. Mas antes disso teve de sair do país para se tornar 100% profissional, passou por Espanha, Angola, Tunísia, até regressar ao país para tentar mudar a mentalidade derrotista do jogador português. "Em 2016, quando entrei, eu sentia que os jogadores vinham à Seleção fazer um frete e agora a malta vem com aquele brilhozinho nos olhos. Porque antes vinham para perder", diz o treinador de 55 anos, em conversa com a <strong>Tribuna Expresso</strong>. O próximo desafio está quase aí: em março vai tentar apurar Portugal para os Jogos Olímpicos

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“Joguei no Braga, na Europa, perdi a casa, fiquei só com a roupinha. Emigrei, trabalhei no casino, servi o Cristiano e o Neymar à mesa”

Dentro de campo, Idalécio nunca passou despercebido: era grande, muito grande, 1,96m num corpo maciço. Chegou a jogar na Liga Europa, mas várias circunstâncias e equívocos deixaram-no sem casa, a aceitar 500 euros por mês em clubes de IIB e com uma família para suportar. Deixou o futebol, Portugal e seguiu para Londres onde arranjou empregos que os ingleses não querem. Um dia, um português reconheceu-o e a vida melhorou

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Num jogo pobre, mas que acabou cheio de emoção, como qualquer final da Libertadores que se preze, o Palmeiras bateu o Santos com um único golo aos 90'+8, com Abel Ferreira, em pleno Maracanã, a inscrever pela segunda vez consecutiva o nome de Portugal nos vencedores da prova de clubes mais importante da América do Sul

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Numa emotiva conferência de imprensa após a vitória do Palmeiras na Libertadores, Abel Ferreira falou do futebol brasileiro, dos seus problemas e virtudes, do seu grupo de trabalho, das dificuldades que sentiu no início no Brasil e das saudades que sente da família, que deixou em Portugal para abraçar a aventura brasileira. Acabou em lágrimas

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Na sua análise humorística à vitória do FC Porto sobre o Gil Vicente (2-0), Catarina Pereira ficou feliz por ver a sua equipa avançar para as meias-finais da Taça de Portugal, mas teme por Loum, que não foi convocado: "Não querendo lançar o pânico, já alguém viu o Loum depois de segunda-feira? Senti o Pepe muito calmo hoje, com ar de quem não tem assuntos pendentes"

O QUE AÍ VEM
Há muitos jogos de futebol e um jogo de futebol americano, no domingo, com o homem no centro de todas as luzes e parafernália do espectáculo do Super Bowl: Tom Brady levou os Tampa Bay Buccaneers à decisão da NFL que se disputa com os Kansas City Chiefs (23h30).

Segunda-feira
Antes do dérbi desta noite (21h30, SportTV1, com live, crónica, reações e as análises humorísticas de Um Azar do Kralj e de Diogo Faro), há Santa Clara - Belenenses SAD (17h, SportTV3), FC Porto - Rio Ave (19h, SportTV2, com live, crónica, reações e a análise humorística de Lá Em Casa Mando Eu), Moreirense - Braga (19h45, SportTV3)

Terça-feira
Na nossa Liga, acontece o Gil Vicente - Paços de Ferreira (20h, 15, SportTV1). Na Premier League, há Sheffield United - WBA (18h, SportTV3), Wolverhampton - Arsenal (18h, SportTV2), Newcastle - Crystal Palace (20h15, SportTV3), Manchester United - Southampton (20h15, SportTV2). À noite, um competitivo Inter - Juventus (19h45, SportTV5) a contar para a Taça de Itália.

Quarta-feira
Na Premier League, recomendamos o Fulham - Leicester (18h, SportTV2) e o Burnley - Manchester City (18h, SportTV1), o Leeds United - Everton (19h30, SportTV3), o Aston Villa - West Ham (20h15, SportTV2) e o Liverpool - Brighton (20h15, SportTV1). Em Espanha, joga-se o Granada - Barcelona, para a Taça do Rei (20h, SportTV4), e em Itália o Nápoles - Atalanta (19h45, SportTV5), para a Taça de Itália.

Quinta-feira
Na Liga jogam-se o Farense - Santa Clara (15h, SportTV1), o Belenenses SAD - FC Porto (19h, SportTV1), o Braga - Portimonense (21h, SportTV2) e o Famalicão - Moreirense (21h30, SportTV1). Na Premier League, há o dérbi londrino entre o Tottenham e o Chelsea (20h, SportTV3) e em Espanha acontece o Bétis - Athletic Bilbao (20h, SportTV4), para a Taça do Rei.

Sexta-feira
Os jogos da Liga: Rio Ave - Nacional (17h, SportTV2), Marítimo - Sporting (19h, SportTV1), Benfica - Vitória de Guimarães (19h, BTV), Boavista - Gil Vicente (21h, SportTV2) e Paços de Ferreira - Tondela (SportTV5).

Sábado
Volta a Premier League, com o Aston Villa- Arsenal (12h30, SportTV2), o Newcastle - Southampton (15h, SportTV2), o Manchester United - Everton (20h, SportTV2). Na liga espanhola jogam o Huesca e o Real Madrid (15h, Eleven Sports1) e na Serie A um confronto com portugueses no Juventus - Roma (17h, SportTV1).

Domingo
Destacamos o Wolverhampton - Leicester (Premier League, 14h, SportTV2), o Athletic Bilbao - Valencia (La Liga, 15h15, Eleven Sports1), o grande Liverpool - Manchester City (16h30, SporTV2) - e ficamos à espera das marcações dos jogos da liga portuguesa.

HOJE DEU-NOS PARA ISTO

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Recordando Ricky van Wolfswinkel e o último triunfo do Sporting sobre o Benfica

É preciso recuar até abril de 2012 para contar a história da última vitória do Sporting diante do Benfica, em Alvalade, para a Liga. O golo foi marcado Ricky van Wolfswinkel, de penálti, os leões eram treinados por Ricardo Sá Pinto e as águias por Jorge Jesus. Aconteceu na jornada 26



E assim chegamos ao fim desta newsletter sem antes vos recordar de duas coisas: o fecho do mercado de transferências acontece entre hoje (até às 23:59,59) e a Tribuna Expresso irá estar atenta às movimentações com o live bem-disposto e livre do costume.

Esta foi a primeira coisa.

A segunda: leiam jornais e vejam boa TV; não partilhem o que não leram ou não viram e o que não verificaram com outras fontes; não confundam conceitos; não comparem restrições forçadas, limitadas no tempo e num contexto de pandemia, com totalitarismos, porque isso é perigoso; não alimentem teorias da conspiração sustentadas em organizações e movimentos muito precisos, com uma agenda extremista e anti-sistema que serve para dizer mal de tudo e um par de botas.

A Covid-19 não é uma gripezita; existe e ceifa vidas.