Responsabilidades, Covid-19, árbitros, dramatização, ação: o digest da entrevista de Vieira à BTV
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01.03.2021
Suponhamos então que há uma crise e que as coisas não estão a correr bem. Digamos, vá, que estão francamente mal e que nada disto tem a ver com as expectativas criadas numa apresentação rebuscada, onde até um postalito a dizer “Final da Liga Europa 2013>14” em cima de uma coluna serviu para efeitos de contabilidade de títulos. Quanto mais, melhor, é lógico, mas se a memória coletiva não nos atraiçoa o Benfica perdeu essa final com o Sevilha.
Acho até que aconteceu nos penáltis.
Mas como o presidente Luís Filipe Vieira disse na entrevista à BTV que aquela fora uma “final roubada”, imagino que tenha sido esse o argumento para lá pôr o galhardete “Final da Liga Europa 2013>14, ao lado de taças verdadeiras dispostas em fila a enquadrar o regresso de Jorge Jesus.
Naquele três de agosto, foram todos à cerimónia.
Socialmente afastados pela arquitetura da decoração, viram-se os capitães Pizzi, Rúben Dias, Jardel e Samaris, os adjuntos, o diretor de comunicação Luís Bernardo, o homem das finanças Domingos Soares de Oliveira, o team manager Tiago Pinto, o administrador Rui Costa, o presidente Luís Filipe Vieira. Também não faltou Júlio César, entretanto amigalhaço e consultor carioca de Jesus no Flamengo, nem tão pouco Eliseu, num dos seus números de escapismo que deixam sempre saudades aos jornalistas que gostam de jogadores carismáticos.
Por falar em carisma: o antigo-novo treinador também tem o seu, à sua maneira, e estava na hora de o pôr em prática subindo ao púlpito para se dirigir à nação benfiquista. E o que Jorge Jesus disse naquela tarde bastante agradável, apesar do vento que atrapalhou a cena, iria persegui-lo meses depois, pois só parte do discurso ficou para a história, o “arraso” e o “triplo”.
O que veio a seguir? A queda com o PAOK num golo de Zivkovic carregadinho de simbolismo; a venda de Rúben Dias; as derrotas com o Boavista e com o Braga, para a Liga, e com o FC Porto, para a Supertaça.
Se a memória também não me falha, estes acontecimentos tiveram lugar antes do surto de covid-19 que apanhou desprevenidos o plantel e a estrutura, o treinador e o presidente. Mas nem o treinador nem o presidente parecem lembrar-se disto quando chamados a justificar a época – até agora e sob qualquer prisma e por mais contorcionismos que se deem – desastrosa. Já todos sabíamos que a pandemia era a defesa de Jesus, cujos sintomas foram particularmente complicados; no domingo à tarde também ficámos a saber o que Vieira pensa disto.
Não diverge muito:
“Dez eram jogadores mas foi tudo [infectado], equipa técnica, motoristas, seguranças. Inclusive o meu motorista. A única coisa que os benfiquistas não deverão fazer é minimizar o que se passou porque se minimizarem é porque ainda não tiveram covid. Tirando em lares, nunca vi 26 casos num tão curto espaço de tempo”, disse na demorada entrevista à BTV.
Podemos resumi-la assim: o presidente assumiu responsabilidades, mas atribuiu o atraso pontual e o “fracasso” (expressão usada por Pedro Pinto, novo diretor de comunicação do clube) à covid-19 e à arbitragem; o presidente pôs o ónus na escolha dos jogadores em Tiago Pinto, Rui Costa e Jorge Jesus, que teve todos o que quis e dois que não quis, mas com os quais estava OK, a saber Otamendi e Vertonghen; o presidente pediu maior intervenção da Liga e da Federação Portuguesa de Futebol junto do Governo; e, claro, o presidente emocionou-se ao falar das críticas que considera injustas, recuperou os 20 anos de sofrimento pessoal e familiar, ameaçando abrir a boca e “denunciar muita gente” se estas continuassem.
Os argumentos esperados, mais a dramatização. Nada de substancialmente novo.
Os três únicos momentos off-script – na medida em que uma entrevista dada ao canal do clube do qual se é presidente nunca será verdadeiramente uma entrevista – sucederam quando Vieira concretizou enfim os erros dele; quer dizer, mais ou menos. Sempre num tom condicional, “talvez” e “se calhar”, mas que deram uma quase notícia: primeiro, reconhecendo que não terão levado em conta a adaptação dos futebolistas estrangeiros às idiossincrasias da bola à portuguesa; segundo, admitindo que poderia ter insistido mais por um jogador de meio-campo.
Não querendo extrapolar, resulta evidente que Vieira está a não-confessar que o planeamento desportivo não foi assim tão bem executado e que isso traz consequências. O modelo de Jorge Jesus, por exemplo, exige muito dos dois médios-centro e isso vem nos livros.
O terceiro momento inesperado foi quando Vieira pisou os terrenos da epidemiologia. “Se porventura no próximo ano não houver imunidade de grupo, garanto-lhe uma coisa: o Benfica nunca mais se equipa em balneário nenhum. Vai equipado do hotel, até a palestra vai ser dada dentro do campo.” Ou seja, a estrutura desconfia de que o surto de covid-19 terá aparecido num balneário de um adversário mal equipado para manter o distanciamento social.
Esta noite, este problema não se coloca pois o Benfica joga em casa com o Rio Ave (direto, crónica, reações e contracrónica aqui, na Tribuna Expresso). Se não vencer – e os encarnados não o fazem há quatro jogos – os problemas serão outros. Porque lutar enquanto for matematicamente possível pelo título é uma bonita premissa, mas apenas até ao momento em que passa a ser matematicamente impossível.
O QUE SE PASSOU
Houve um clássico jogado com muitos gritos e poucochinho futebol que terminou empatado mas com um vencedor: o Sporting segurou o nulo diante do FC Porto, passou no teste da maturidade e tem agora 9 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, que é o SC Braga (veja aqui a classificação).
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Um Clássico aos gritos
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ZONA MISTA
“Para o Sporting empatar no Dragão é uma alegria. Estejam um ponto atrás ou dez à frente, empatar aqui para eles é como vencer a Liga dos Campeões”
Sérgio Conceição, médio do FC Porto, após empate diante dos rivais
O QUE AÍ VEM
O campeonato prossegue, a meio da semana disputam-se os jogos decisivos das meias-finais da Taça de Portugal. Lá fora, Nuno Espírito Santo vai tentar travar a máquina impiedosa de Guardiola na Premier League, há um clássico alemão de sábado à tarde, as meias-finais da Taça do Rei, um dérbi de Manchester e um dérbi de Madrid.
Segunda-feira
Benfica - Rio Ave (19h, Liga, BTV)
Everton - Southampton (20h, Premier League, SportTV1)
Real Madrid - Real Sociedad (20h, La Liga, Eleven Sports 1)
Moreirense - Belenenses SAD (20h15, Liga, SportTV1)
Terça-feira
Juventus - Spezia (19h45, Serie A, SportTV2)
Manchester City - Wolverhampton (20h, Premier League, SportTV1)
Quarta-feira
Barcelona - Sevilha (20h, segunda-mão da meia-final da Taça do Rei, SportTV4)
FC Porto - Braga (20h15, segunda-mão da meia-final da Taça de Portugal, SportTV1)
Quinta-feira
Levante - Athletic (20h, segunda-mão da meia-final da Taça do Rei, SportTV3)
Liverpool - Chelsea (20h15, Premier League, SportTV2)
Benfica - Estoril (20h15, segunda-mão da meia-final da Taça de Portugal, SportTV1)
Sexta-feira
Sporting - Santa Clara (20h45, Liga, SportTV1)
Sábado
Bayern de Munique - Borussia de Dortmund (17h30, Bundesliga, ElevenSports1)
Gil Vicente - FC Porto (18h, Liga, SportTV1)
Juventus - Lazio (19h45, Serie A, SportTV3)
Boavista - Famalicão (20h30, Liga, SportTV1)
Domingo
Liverpool - Fulham (14h, Premier League, SportTV2)
Atlético de Madrid - Real Madrid (15h15, La Liga, ElevenSports 1)
Manchester City - Manchester United (16h30, Premier League, SportTV2)
Tottenham - Crystal Palace (19h15, Premier League, SportTV2)
Rio Ave - Farense (20h, Liga, SportTV1)
HOJE DEU-NOS PARA ISTO
O documentário "Pelé" não é brilhante nem inovador, mas permite-nos mergulhar no passado deste génio futebolístico que também se tornou um génio do marketing pessoal, conseguindo conciliar duas carreiras ao mesmo tempo como ninguém - até Cristiano Ronaldo o fazer também.
Do ponto de vista estritamente futebolístico, porém, importa reter todos os detalhes das imagens de jogo que são reproduzidas ao logo do doc para percebermos que Pelé via três jogadas à frente de qualquer outro e executava as fintas, truques e fazia golos a uma velocidade impressionante. Poucas vezes a genialidade psicomotora foi tão evidente como neste brasileiro indomável.