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Não estou preparada para o fim de Roger Federer enquanto experiência religiosa

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Federer faz 40 anos em agosto. Vai regressar agora após duas operações. Será o mesmo artista?

Federer faz 40 anos em agosto. Vai regressar agora após duas operações. Será o mesmo artista?

LAURENCE GRIFFITHS/Getty

Mais de 400 dias depois, Roger Federer vai voltar a jogar e eu estou com medo. Não sei bem se ele será o mesmo, o mesmo não será, com certeza, o suíço faz 40 anos em agosto e nem todos levam a vida de monge de Tom Brady. A dupla operação ao joelho direito de 2020, diz ele e diz o seu preparador físico, fez com que desaparecessem músculos onde eles deveriam estar, tocou-se ao de leve no assunto “retirada” porque o corpo já não recupera com a destreza dos 20 anos, mas no fim ganhou a paixão.

Nos entretantos, enquanto Federer recuperava na Suíça em plena pandemia, aconteceram muitas coisas em termos de números no ténis. Rafael Nadal ganhou o proverbial Roland Garros e chegou aos 20 torneios do Grand Slam, igualando o helvético. Djokovic vai a caminho e ainda esta segunda-feira ultrapassou o recorde de Federer de número de semanas (311) no topo do ranking mundial.

Mas nada disso me preocupa. Os números contam, claro, mas serão apenas dados, frios, calculistas, da mesma forma que Ayrton Senna será sempre o preferido da maioria apesar de ter menos de metade dos títulos mundiais de Schumacher e Hamilton. Não é isso que me faz ter medo.

Vejam: eu estou preparada para ver Federer perder, não estou é preparada para o fim de Roger Federer enquanto experiência religiosa.

O termo não é meu, nem sequer é de David Foster Wallace, que em 2006 escreveu um icónico ensaio para o “New York Times” sobre a experiência de ver Roger Federer a jogar ao vivo em Wimbledon chamado “Roger Federer as Religious Experience”. Foi um motorista do torneio britânico que cunhou a expressão, David Foster Wallace agarrou-a e bem fez ele, porque é capaz de dizer mais sobre a transcendência do artista (Federer, leia-se) em duas palavras do que o tal ensaio do autor norte-americano em milhentos caracteres - e perdoem-me os fãs de Foster Wallace, mas o que mais gosto no texto são mesmo as notas de rodapé.

É possível que Djokovic seja mais coeso, o homem é uma parede autêntica que tudo devolve, capaz de tornar a mais defensiva das jogadas num ataque venenoso, tudo seco naquele corpo. É natural que Nadal seja mais potente, que domine aquela linha de fundo como ninguém com os seus músculos. Qualquer um deles é mais atleta, no sentido de força bruta, de agressividade. Mas para mim nenhum deles é uma experiência artística, reparem, eu pagaria um bilhete para ver um jogo de Federer como pagaria, se ainda fosse possível, para ver Nureyev ou Baryshnikov a dançar.

Aquilo não é bem ténis, é outra coisa qualquer, a forma como se move, como que a caminhar sobre a água, todos aqueles movimentos são líquidos (esta é de David Foster Wallace), fluídos, graciosos, sem que uma pinga de suor lhe pareça alguma vez escorrer cara abaixo, sem esforço ou luta.

Foi por causa de Federer que aprendi a expressão souplesse e para mim ele será sempre a tradução em carne e osso desse conjunto de letras em estrangeiro.

O meu medo é esse: e se Roger Federer perder a arte? Se de repente as mazelas e as lesões e idade lhe tiram a graciosidade e ficamos entregues simplesmente ao atleticismo dos rivais, desportistas excecionais, claro, mas, aqui entre nós, não artistas da raqueta?

Eu estou preparada para a derrota, acho que aquela final de Wimbledon em 2019 foi o banho de realidade que me faltava, mas não estou preparada para ver o definhar de um prodígio em pleno palco e esse é o meu maior medo esta semana, quarta-feira, quando Roger Federer voltar a jogar uma partida oficial, no torneio de Doha, no Qatar. E se aquela esquerda a uma mão deixa de lhe sair? Se aquele jogo de pés deixa de estar sincronizado? Se lhe falharem os tweeners, o drop shot, o topspin, o slice, o volley, o sneak attack, enfim, todas essas palavras em estrangeiro que não são mais do que um acervo de pancadas e variabilidade de jogo talvez nunca antes vistas num court de ténis?

Mais de 400 dias depois, Roger Federer vai voltar a jogar e eu tenho medo que ele já não seja feito para este ténis. Ou então talvez me agarre às palavras de Toni Nadal, tio de Rafa, que diz que se Roger vai voltar é porque quer ir atrás de mais um major. Wimbledon, talvez, onde Foster Wallace o viu jogar em 2006, dois anos antes de escolher partir deste mundo, o que o fez não assistir aos momentos baixos de Federer. Como em 2016, quando os joelhos lhe começaram a dar problemas. Depois as costas. No ano seguinte voltou, ganhou o Open da Austrália e Wimbledon. Que Toni Nadal esteja certo.

E se não estiver, não faz mal, ao menos que continuemos a ver magia.

O que se passou

Portugal passou a conhecer o nome e a força de Auriol Dongmo (viram-na de punho cerrado no pódio durante o hino?) e saltou triplamente com Pedro Pablo Pichardo e Patrícia Mamona: foram três medalhas de ouro, três, em três dias de Europeus de pista coberta de atletismo, todas em disciplinas técnicas, num país em que até há bem pouco tempo só existia fundo e meio-fundo.

No campeonato, o Sporting ganhou graças a mais um milagre do padroeiro Coates e o FC Porto passou tranquilamente em Barcelos. O Benfica joga esta segunda-feira. Ah, e a Liga parece ponderar suspender Rúben Amorim de um a seis anos porque lhe falta um qualquer papel. Mais um caricato episódio do nosso futebol.

Abel Ferreira ganhou mais um troféu com o Palmeiras, agora a Taça do Brasil.

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O que aí vem

Segunda-feira, 8

⚽️ Na I Liga há dérbi lisboeta: BSAD - Benfica (20h15, Sport TV1)

⚽️ O Chelsea recebe o Everton na Premier League (18h, Sport TV2)

⚽️ Em Itália, o líder Inter recebe a Atalanta (19h45, Sport TV3)

🎾 No ténis siga ao longo da semana o ATP250 de Doha, que marca o regresso de Roger Federer à competição (11h30, Sport TV4)

Terça-feira, 9

🏆 Está de regresso 🎶 THE CHAAAAMMPIONSSSS: o FC Porto viaja até Turim para tentar frente à Juventus a passagem aos quartos de final (20h, TVI e Eleven1). No outro jogo da jornada, o Borussia Dortmund recebe o Sevilha (20h, Eleven2)

⚽️ Na I Liga, há dérbi minhoto: SC Braga - V. Guimarães (21h45, Sport TV1)

Quarta-feira, 10

🏆 Seguem os oitavos de final da Champions: Paris SG - Barcelona (20h, Eleven1) e Liverpool - RB Leipzig (20h, Eleven2)

⚽️ Na La Liga, o líder At. Madrid recebe o Athletic Bilbao (18h, Eleven2)

⚽️ Em Inglaterra, o Manchester City joga com o Southampton (18h, Sport TV1)

Quinta-feira, 11

🏆 Arrancam os oitavos de final da Liga Europa, com destaque para o Manchester United - Milan (17h55, SIC), Roma - Shakhtar (20h, Sport TV2) e Dinamo Zagreb - Tottenham (20h, Sport TV1)

Sexta-feira, 12

🇵🇹 Este é o primeiro daqueles que podem ser os três dias mais importantes da história do andebol português: a Seleção Nacional começa a qualificação para os Jogos Olímpicos. O primeiro jogo é com a Tunísia (17h30, RTP2)

⚽️ Começa mais uma jornada da I Liga, com o dérbi madeirense: Nacional - Marítimo (20h30, Sport TV1)

⚽️ Na Premier League, há Newcastle - Aston Villa (20h, Sport TV2)

Sábado, 13

⚽️ Dia de dérbi feminino para o campeonato: Benfica - Sporting (15h, 11)

⚽️ Continua a jornada 23 da I Liga: Farense - BSAD (15h30, Sport TV1), Benfica - Boavista (18h, BTV), Santa Clara - Portimonense (18h, Sport TV1) e Tondela - Sporting (20h30, Sport TV1)

⚽️ No campeonato inglês, o Leeds recebe o Chelsea (12h30, Sport TV2) e o Manchester City visita o Fulham (20h, Sport TV2)

⚽️ Na jornada da Bundesliga destaque para o Werder Bremen - Bayern Munique (14h30, Eleven2) e em Espanha, o Real Madrid recebe o Elche (15h15, Eleven1)

🇵🇹 Na qualificação olímpica de andebol, Portugal joga com a Croácia (17h30, RTP2)

🎾 No ténis, há final do ATP250 de Doha (15h, Sport TV4)

Domingo, 14

⚽️ I Liga: Moreirense - Rio Ave (15h, Sport TV1), V. Guimarães - Gil Vicente (17h30, Sport TV1) e FC Porto - Paços de Ferreira (20h, Sport TV1)

⚽️ Na Premier League há dérbi do Norte de Londres: Arsenal - Tottenham (16h30, Sport TV2). Mais tarde jogam Manchester United - West Ham (19h15, Sport TV2)

⚽️ Na Serie A, o Inter joga em casa do Torino (14h, Sport TV3) e a Juventus de Cristiano Ronaldo viaja até Cagliari (17h, Sport TV3)

⚽️ No campeonato alemão, o RB Leipzig recebe o Eintracht Frankfurt de André Silva (14h30, Eleven2) e na Ligue 1, o Monaco joga com o Lille (16h05, Eleven3) e o Paris SG com o Nantes (20h, Eleven2)

🇵🇹 No derradeiro jogo da qualificação olímpica de andebol, a Seleção Nacional joga com a França (20h, RTP2)

Hoje deu-nos para isto

Como é que se regressa a um balneário sabendo que um colega não estará, nunca mais lá estará? Não sei, não sei mesmo. Ainda na última semana vi os jogadores do FC Porto voltarem ao pavilhão pela primeira vez depois da morte de Alfredo Quintana, e logo para um jogo de Liga dos Campeões, vi a cara de desespero de Rui Silva, as lágrimas de Victor Iturriza, o olhar vazio de todos os outros e honestamente não faço ideia como é que conseguiram jogar, mais, jogaram e ganharam, limpinho, sem tremer.

É importante seguir em frente, mas que raio, como é que se olha para aquela baliza vazia, para o banco no balneário sem ninguém e mesmo assim se vai arranjar forças?

Esta semana, os andebolistas portugueses terão de encontrar novamente essas forças. Ainda há pouco mais de um mês andávamos a falar do Mundial onde esta Seleção voltou a brilhar, Paulo Pereira, o selecionador nacional, contou-nos como Quintana era a alegria do balneário, sempre a ouvir música, e de como acreditava que o público lhe fazia falta, porque Quintana precisava dessa força extra que vinha das bancadas para fazer as defesas impossíveis a que nos habituou e que tantas vezes foram o catalisador para vitórias.

Agora é sem público e, pior de tudo, sem Quintana, que a Seleção Nacional terá pela frente provavelmente o maior desafio da sua história, um torneio pré-olímpico que pode levar uma equipa de andebol portuguesa pela primeira vez a uns Jogos Olímpicos. E ele, que fez parte dessa transformação que nos permitiu chegar aqui, merecia mais que ninguém esse prémio.

Resta-nos desejar aos rapazes que encontrem as forças sabe-se lá onde elas estiverem, que a dor se transforme numa qualquer transcendência. Em França, a partir de sexta-feira, vai ser preciso ganhar dois de três jogos contra Tunísia, Croácia e França. Há pouco mais de um ano, quando no Europeu jogámos contra os bleus e, contra toda as expectativas, ganhámos e percebemos que somos uma equipa capaz de tudo, foi também porque Quintana fez defesas destas

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