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Ter sempre obrigado e por favor na boca

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Este é Dário Essugo com 16 anos e seis dias de vida, quando se estreou na equipa principal do Sporting, no sábado

Este é Dário Essugo com 16 anos e seis dias de vida, quando se estreou na equipa principal do Sporting, no sábado

Gualter Fatia/Getty

Atticus Finch é um homem bom, justo e civilizado, ainda não o acabei de ler mas as qualidades que ingenuamente podemos ter como os mínimos exigíveis de uma pessoa digna são, nele, a luz fulminante do farol que rasga o horizonte de escuridão mesquinha da Maycomb dos anos 30 americanos, ele parece elevar-se à época, às gentes e ao lugar que Harper Lee vai pintando de racistas, tacanhos, preconceituosos e com prontidão peso-pluma para julgar.

Às tantas, outra personagem descreve Atticus Finch aos filhos e fá-lo assim: "se há algo que caracteriza o vosso pai é o facto de ser civilizado, do fundo do coração (...) sabem, é preciso praticar muito para atingir a perfeição, só que andar aos tiros é bastante diferente de tocar piano ou outra coisa parecida. Penso que ele colocou a arma de lado quando percebeu que Deus lhe tinha dado uma vantagem injusta sobre a maioria dos seres vivos".

Desconhecia quem era, de onde vinha e como jogava Dário, no futebol hiperbolizado de hoje exagera-se o que miúdos com jeito para a bola são antes de realmente o serem e nunca ouvira que vinha aí Dário Essugo, provavelmente é falha de quem vos escreve, ou se calhar foi uma benesse que a máquina trituradora de expetativas concedeu aos 16 anos e seis dias que, no sábado, ficaram como o mais jovem da história a estrear-se na equipa principal do Sporting.

Vendo e perguntando, Dário é um miúdo, simplesmente um miúdo, ou "um puto super humilde, com uma família humilde também", diz-me quem o treinou em dois dos últimos três anos, João Tudela situa-o no "tipo de miúdos que se deixa ensinar tanto pelo treinador principal como pelo motorista" e "tem sempre as palavras obrigado e por favor na boca". Dário Essugo é como Atticus Finch.

A civilidade não é esquisita com áreas brutas e pode morar em qualquer lugar, as lágrimas caídas dos olhos de Dário no final do Sporting-Vitória poderiam ter justificações várias, presumir a história é tentação do desconhecimento, mas era mesmo emoção do momento, "emoção e gratidão", ele até "andou a mandar mensagens de agradecimento a antigos colegas e treinadores". Dário Essugo "está no topo da fama na vida dele e só pensa em agradecer".

Até ontem, e possivelmente apenas por enquanto, a pegada visível do adolescente é-lhe semelhante, ainda alheia a formatações do futebol: há 15 fotografias soltas no Instagram, sem legendas para lá da linha ou duas, coisas esporádicas; é mais ativo no Twitter, com um rol descontraído de frases curtas a elogiar jogadores do Sporting, do Benfica ou do FC Porto, ou a proclamar como "o melhor do mundo digam o que disserem" quem, neste país, parece ser pecado preferir publicamente.

Dário Essugo só esteve seis minutos em campo diante das câmaras, foram os únicos seis minutos de competição que jogou no último ano porque é juvenil, portanto nem pelos juniores ou sub-23 passou antes de assinar contrato de profissional, treinar com os seniores e estrear-se na equipa principal do Sporting. Ele é a rotunda onde entroncam várias circunstâncias.

O trabalho e o talento incluídos - "é um 6 incrível, que lê muito bem o jogo, está sempre no sítio certo, antecipa-se com facilidade [e] com bola não inventa, procura o jogador livre e entrega, seja curto, seja longo" -, a par da pandemia e da inação que esta tem causado em quem manda e governa, porque o desporto de formação está parado em Portugal há muito (só a Federação Portuguesa de Futebol registou uma quebra superior a 75% no número de jogadores inscritos esta época).

Uma história destas nesta altura, em que podemos estar a perder uma geração de atletas para o sedentarismo competitivo, era inesperada.

Aconteceu com Dário, um aparente caso de humildade, genuidade simples e civismo, no mesmo dia em que o vernáculo e as ofensas andaram à solta em Portimão entre dois treinadores da I Liga, bem audíveis para todos os miúdos que não podem jogar futebol mas poderiam estar em casa a assistir pela televisão. Disse Sérgio Conceição que "são coisas de quem vive de forma apaixonada, às vezes exagerada, mas nada de especial". Mas deveríamos especializar atenção nisto.

Porque durante os minutos em que houve ofensas ao alcance das câmaras, a sensação que passou foi que só não estalou pancadaria por ter havido gente a colocar-se no meio dos técnicos do FC Porto e Portimonense no momento que, de civilizado, teve pouco. Posso ser traído pelas páginas que faltam ler, mas a elevação moral de Atticus Finch seria a primeira a reprovar isto.

Que haja um Dário Essugo a irromper de cada vez que apareça um episódio destes a exemplificar o que não faz falta ao futebol. Ele que "vai correr até cair para o lado pelos companheiros" e, arrisco, é como a cotovia que o pai no livro de Harper Lee alerta aos filhos ser pecado matar: "não fazem nada a não ser cantar belas melodias para nós". A história de Dário Essugo é uma delas.

O que se passou

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Duvido que o que aconteceu no Portimonense - FC Porto seja assim tão mau, como oiço alguns dizer, para o espetáculo. Pois nem todos os espetáculos são edificantes, que o digam os cristãos que eram servidos aos leões em Roma. Talvez seja essa a única maneira de a nossa Liga competir com as ligas mais poderosas: garantindo que todas as jornadas têm o seu sururu ou, para usar um eufemismo do jornalismo desportivo, “uma troca de palavras mais acesa” comentada por psicanalistas, especialistas em leitura de lábios e técnicos da APAV. Em alternativa, todas as jornadas poderiam ter o seu momento “As Tardes da Júlia” em que não destoariam o abraço filial e as lágrimas do jovem que ainda há duas semanas tinha quinze anos

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De volta ao pódio

O Benfica venceu em Braga, por 2-0, aproveitando o facto de a equipa de Carlos Carvalhal ter ficado com menos um ainda na 1.ª parte, e está de volta ao 3.º lugar da Liga

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Zona mista

Não acho que haja algo como confiança: ou pensas de forma certa ou de forma errada; e na altura errada em que começares a prestar atenção ao veneno que se escreve nos media, esse veneno de rato entra nas cabeças dos jogadores.

Eddie Jones, o selecionador de râguebi de Inglaterra, concedeu a sua visão contra corrente e paradoxal do que é a motivação, ou do que ela não é para um jogador, arranjando forma de virar a agulha para o(s) jornalista(s) que lhe lançou o tema para o colo antes do jogo deste fim de semana a contar para o torneio das Seis Nações.

O que vem aí

Segunda-feira, 22

🏀 Pode arrancar a semana com um serão ocupado a ver os Cleveland Cavaliers jogarem contra os Sacramento Kings na NBA (23h, Sport TV) com uma bola acastanhada e saltitante entre mãos, já que depois vêm dias feitos, sobretudo, de pontapés noutro tipo de bola.

Terça-feira, 23

🏀 Mais NBA para se ver, entre os New Orleans Hornets e os LA Lakers (23h30, Sport TV1).

Quarta-feira, 24

⚽🏃‍♀️ É futebol do bom e em feminino: há o Wolfsburgo-Chelsea e o PSG-Lyon, ambos para a a 1.ª mão da Liga dos Campeões (16h e 17h, Canal 11).
⚽🇵🇹 A seleção portuguesa joga contra o Azerbaijãon (19h45, RTP1) e arranca a caminhada rumo ao Mundial de 2022, o tal que se vai jogar em novembro no Qatar.
🎾 É dia para arrancar o primeiro Masters 1000 da temporada, em Miami (supostamente seria o segundo, mas o torneio de Indian Wells, também previsto para este mês, foi adiado).

Quinta-feira, 25

⚽👶 Não que sejam tidos como criançada, mas Portugal dá início à participação no Europeu de sub-21 (sim, jogado agora, mesmo a meio da época) contra a Croácia (20h, RTP1).

Sexta-feira, 26

🏉 A França nada vence em râguebi desde 2010, mas se bater a Escócia por mais de 21 pontos e lograr um ponto bónus ofensivo no jogo em atraso relativo à 3.ª jornada (20h, Sport TV5, em diferido), ultrapassará Gales e conquistará o torneio das Seis Nações.
🏍️ A partir das 15h10 (Sport TV2) realizam-se as sessões de qualificação para a primeira corrida do ano do Mundial de MotoGP, no Qatar, onde estará Miguel Oliveira ao barulho para tentar melhorar a 9.ª posição com que terminou em 2020.

Sábado, 27

⚽🇵🇹 É a vez de a seleção defrontar a Sérvia, em Belgrado (19h45, RTP1), no segundo jogo da fase de qualificação para o próximo Campeonato do Mundo.

Domingo, 28

🏍️ O Mundial de MotoGP tem ordem de soltura no Qatar (18h, Sport TV2).
⚽👶 A segunda partida dos sub-21 portugueses no Europeu é contra a Inglaterra (20h, RTP1), uma das seleções com melhor fornada de talento disponível da competição.

Hoje deu-nos para isto

Treinadores e capitães do Sporting e Vitória de Setúbal juntos, em 2008, com o troféu da Carlsberg Cup

Treinadores e capitães do Sporting e Vitória de Setúbal juntos, em 2008, com o troféu da Carlsberg Cup

Inácio Rosa/Lusa

Ainda parecia brincadeira, mas já não o era, a nova competição até batismo de cerveja estrangeira tinha e inglesada estava no nome, estava-lhe na cara ser uma importação do visto lá fora.

Faltava-lhe, como hoje ainda falta, algum tempero mais (a sua conquista valer um lugar de qualificação para a Liga Europa, por exemplo) se a vida desse para se ter tudo, não dando, este pequeno alpendre do futebol português que é a Taça da Liga fica com as sobras, como se fosse para onde os caseiros deslocam atenções quando tudo se encontra já visto dentro de casa.

No início de tudo, porém, as coisas não eram assim. Neste dia há 13 anos, viu-se uma final entre o Sporting, de Paulo Bento, e o Vitória de Setúbal, de Carlos Carvalhal, de onde o menos possuidor ganhou ao possante nos penáltis e deu uma animada na habitual narrativa de serem sempre os mesmos clubes a tocarem em troféus em Portugal.

Tenha uma boa semana, aproveite o futebol de seleções e, se estiver para aí virado, acompanhe a Tribuna diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.