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Um dia, calha a todos

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Tem cara de bebé porque nasceu em 2000, mas é piloto da AlphaTauri na Fórmula 1: Yuki Tsunoda

Tem cara de bebé porque nasceu em 2000, mas é piloto da AlphaTauri na Fórmula 1: Yuki Tsunoda

Peter Fox

Enquanto colocavam uma nova fechadura na porta do apartamento para onde me mudei recentemente, abriu-se a porta da frente. "Boa tarde, como está?" O nome da senhora não é para ser revelado, mas a sua idade é para ser relevada: 82 anos, há 45 a morar ali, tanta vida passada atrás da porta que agora fica diretamente em frente à minha. Dias depois do diálogo de cortesia, dificultado pela capacidade de audição de quem já tanto viveu, agravado pelas máscaras, a porta da frente voltou a abrir-se, enquanto subia as escadas para alcançar a minha nova porta preferida. "Olá, como está?" Era a filha da senhora da porta da frente, que não vive ali, mas também vive ali, porque há uma pandemia e ela precisa de cuidar da mãe, que já tem a idade que tem e que esperamos que venha a aumentar até um dia em que, disse ela, "calha a todos".

Pois calha e não há como escapar ao nosso definhar inexorável - sinto que o tom desta newsletter está demasiado lúgubre, e lamento, mas há dias assim, então numa pandemia - mas há como mitigar esse murchar e chama-se viver.

Pensei nisto esta manhã, primeiro porque não sabia o que escrever nesta newsletter, depois porque o árbitro do Sérvia-Portugal lá confirmou o que Fernando Santos tinha dito depois do jogo, que pediu desculpa a Portugal e não queria ser notícia desta forma, e isto tudo levou-me ao renascimento da Fórmula 1.

Quando era miúda lembro-me das tardes de domingo passadas a ver Fórmula 1, com Schumacher, Hill, Villeneuve e Hakkinen, e depois a Fórmula 1 desapareceu e eu cresci, ou talvez tenha sido ao contrário, mas, seja como for, a Fórmula 1 foi murchando e, ainda que mantendo sempre os verdadeiros fãs, afastando possibilidades de crescimento para novos públicos.

Não me atrevo a fazer suposições sobre as razões para tal, porque não conheço o suficiente da modalidade (deixo isso para a nossa Lídia Paralta Gomes e para o 'nosso' Pedro Boucherie Mendes), mas o que sei é que o renascimento da Fórmula 1 é bem percetível, desde que se juntou ao século XXI, e parece que toda a gente à minha volta, incluindo eu própria, agora aprecia Fórmula 1.

A isso não será alheio o facto de haver, desde o Mundial de 2018, um documentário anual da Netflix sobre a competição, mas também é fácil acrescentar outros fatores refrescantes, de um ponto de vista de um fã: os pilotos falam antes, depois e até durante as corridas nos respetivos rádios do carro (e há jovens como Yuki Tsunoda, nascido em 2000, a mostrarem que o talento não tem idade); os chefes das equipas idem; os problemas são decididos rapidamente e há castigos para serem cumpridos à risca; há mil e uma câmaras em todo o lado que nos permitem ver tudo; há uma F1TV que permite o acesso aos bastidores e a todas as corridas desde os anos 70 (!), etc, etc, etc.

E, agora, voltemos ao futebol. Há uma bola que entra mas ninguém viu, polémicas e acusações infinitas, ultrajes próprios do século passado, um acesso raríssimo aos intervenientes da modalidade, se eu quiser ver um jogo de há duas semanas não há maneira nenhuma de vê-lo... E os jovens (do Twitch e afins) ainda terão paciência para ver 90 minutos de uma modalidade assim? Um dia, calha a todos.

O que se passou

O voo da braçadeira de Cristiano Ronaldo ofuscou quase tudo, mas houve medalha de prata para Rochele Nunes; na Fórmula 1, uma corrida como há muito não se via; os sub-21 estão praticamente qualificados para a próxima fase do Euro; Miguel Oliveira começou o Mundial com um 13.º lugar; e os galeses conquistaram o Seis Nações.

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"Já não me lembrava como era o futebol antes do VAR e da tecnologia da linha de golo. Que emoção! Assim vale a pena. É assunto para semanas, uma polémica para a história, as gerações vindouras hão de falar do monumental roubo de Belgrado", escreve Bruno Vieira Amaral

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Maio está tão mais perto

Desta vez do banco só vieram coisas boas: depois de uma 1.ª parte chatinha, mas onde Portugal já tinha sido superior, a seleção nacional aproveitou as entradas de Trincão e Daniel Bragança para elevar o nível e marcar dois golos sem resposta à Inglaterra. A qualificação para a fase a eliminar do Europeu sub-21 ainda não é certa, mas está a um pequeno passo

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Hamilton ainda duvidou da estratégia da Mercedes, mas foi a estratégia que lhe deu a vitória no GP Bahrain

A primeira prova do Mundial de F1 de 2021 foi decidida nas paragens nas boxes, onde a Mercedes acertou na estratégia para bater a Red Bull e Max Verstappen. As voltas finais foram de luta em pista entre Hamilton e o holandês, com o britânico a conseguir segurar a liderança, no GP em que bateu mais um recorde de Michael Schumacher: o das voltas lideradas

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Quando o golo não foi validado, Nuno Mendes optou por não fazer birra e manteve-se sereno. Tem muito para crescer (por Diogo Faro)

O jovem lateral entrou nos minutos finais a tempo de fazer o cruzamento que Cristiano Ronaldo transformou num golo que afinal não foi. Diogo Faro ainda viu Bruno Fernandes a pensar: “Sonho um dia vir a poder marcar um livre na Seleção, tendo em conta que atualmente sou quem marca melhor, mas duvido que isso aconteça antes de o Ronaldo se reformar”

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A seleção nacional empatou na Sérvia (2-2) depois de desperdiçar na 2.ª parte uma vantagem de dois golos que trazia após uns primeiros 45 minutos de grande qualidade. Tal como frente ao Azerbaijão, depois do intervalo a equipa partiu-se, desorganizou-se e nem os erros de arbitragem poderão maquilhar a realidade: Portugal tem muito mais qualidade que a Sérvia e desperdiçou dois pontos por erros (e atitude) próprios

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Zona mista

"De acordo com as políticas da FIFA, tudo o que posso dizer é que pedi desculpa ao treinador nacional, senhor Fernando Santos, e à equipa portuguesa, pelo que aconteceu. Como equipa de arbitragem, trabalhamos sempre muito para tomar boas decisões. Quando somos notícia desta forma, isso não nos deixa satisfeitos de todo."

- Danny Makkelie, árbitro holandês que apitou o Sérvia-Portugal, jogo em que não foi validado um golo marcado por Cristiano Ronaldo (e em que há havia nem tecnologia da linha de golo nem videoárbitro)

O que aí vem

Segunda-feira, 29
🏀 Tecnicamente já será terça-feira e não segunda-feira, porque já começa às 0h30: dose dupla de NBA na SportTV1 e 3, com Celtics-Pelicans e Knicks-Heat.

Terça-feira, 30
⚽ 🇵🇹 A seleção cumpre o terceiro e último jogo da paragem internacional, frente ao Luxemburgo, às 19h45, na RTP1.
🤾🏻 Na Champions de andebol, o Sporting defronta os polacos do Wisla Plock, 19h45, SportingTV.

Quarta-feira, 31
⚽ 🇵🇹 Os sub-21 voltam a entrar em campo no Euro, desta vez contra a Suíça, às 17h, na RTP1.
🏆 É dia decisivo na Liga dos Campeões feminina, com os jogos da 2.ª mão dos quartos de final: às 13h, Wolfsburg-Chelsea (1-2 na 1.ª mão); às 17h30, Lyon-PSG (1-0 na 1.ª mão), ambos no Canal 11.

Quinta-feira, 1
⚽ É dia de dérbi sub-23: Sporting-Benfica, às 17h, no Canal 11.
🤾🏻 Em andebol, o FC Porto recebe na Champions os dinamarqueses do Aalborg, 19h45, Porto Canal.

Sexta-feira, 2
⚽ 🇵🇹 Começa a 25.ª jornada da Liga portuguesa, com o Nacional-Portimonense, às 20h30 (SportTV).

Sábado, 3
⚽ 🇮🇹 Bom jogo para seguir na Serie A: Sassuolo-Roma (de Paulo Fonseca), às 14h, na SportTV.
⚽ 🇫🇷 Jogo entre líderes da Ligue 1: PSG-Lille, 16h, Eleven.
⚽ 🇵🇹 Na Liga portuguesa, o FC Porto recebe o Santa Clara, às 20h30 (SportTV).

Domingo, 4
⚽ 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿 Na Premier League, destaque para o Arsenal-Liverpool, às 16h30 (SportTV).

Hoje deu-nos para isto

Nigel French - EMPICS

"Insatisfeito? Só se for com ele mesmo, comigo não". Otávio Machado bem tentou desvalorizar o assunto depois do jogo, mas o caso da braçadeira já estava então criado.

Aos 40 minutos do FC Porto-Vitória de 22 de setembro de 2001, o treinador portista decidiu substituir Jorge Costa e o capitão não gostou nem um pouco: pegou na braçadeira, atirou-a para o chão, na direção de Capucho, e saiu a correr para o balneário.

Mais tarde, Jorge Costa explicou que ficou revoltado com a sua saída mas as pazes não se fariam: Otávio tirou-lhe a braçadeira e o ex-capitão saiu, por empréstimo, para o Charlton, à procura de minutos antes do Mundial 2002.

Meio ano depois, regressaria ao FC Porto, pela mão de José Mourinho. E o resto é história.

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Da infância no Porto, ao voleibol com Miguel Maia na Cortegaça e o acidente que o atirou decisivamente para o futebol, passando pelo ingresso no clube do coração, o gosto pela cozinha que o leva a ver programas de culinária para ter ideias novas, até às grandes conquistas, aquele que ficou conhecido por 'Bicho' abre um pouco o livro da sua história nesta entrevista, que tem continuação - Parte II, amanhã -, já na carreira de treinador

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