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Quando a pandemia nos rouba até a memória coletiva

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Foram precisos mais de 100 anos para Real Sociedad e Athletic Bilbao se encontrarem na final da Taça do Rei. Uma história que ninguém teve a possibilidade de ver

Foram precisos mais de 100 anos para Real Sociedad e Athletic Bilbao se encontrarem na final da Taça do Rei. Uma história que ninguém teve a possibilidade de ver

Quality Sport Images/Getty

Acontece amiúde nas séries e nos filmes americanos: quando pais e filhos não conseguem falar do que lhes vai lá dentro, falam de basebol ou de futebol americano, da equipa local que está pelas ruas da amargura, *daquele* homerun, do quarterback que não tem nada a ver com o quarterback da década passada, da vez que foram ao estádio e viram a estreia daquele pitcher especial.

Mesmo quando tudo nos separa, ou quando simplesmente não conseguimos comunicar, há o desporto. E ainda que muitos queiram fazer dele outra coisa, ele foi inventado para nos juntar. E para criar memórias.

É claro que isso não faz dele a coisa mais importante do mundo. Num contexto de pandemia, não poder ir ao estádio ou juntarmo-nos no café para ver um jogo torna-se mais ou menos insignificante quando do outro lado estão escolas fechadas, empregos perdidos, vidas friamente amputadas.

Mas a injustiça do milimétrico vírus também está no fim dos pequenos prazeres, nas narrativas coletivas que ficam por criar. Esta segunda-feira é o dia em que podemos voltar a sentarmo-nos numa esplanada e pedir um café ou uma cerveja, gesto banal que não sabíamos ser tão essencial até nos fecharmos todos de novo em casa. E como por estes dias já nada é garantido, desta semana não passa: com todos os cuidados vou sentar-me e beber um fino - pedirei imperial porque é assim que se diz aqui - e lamentar-me-ei das conversas à volta de uma mesa que se perderam sobre coisas que nunca vivemos, sobre memórias que nunca iremos ter.

E recordarei seguramente algo que me passou pela cabeça este fim de semana: que daqui a muitos anos, numa qualquer mesa de café na orla do Golfo da Biscaia, entre uns pintxos, uns copos de txakoli e uns shots de patxaran, nenhum pai e nenhuma mãe vão poder dizer a um filho ou a uma filha que estiveram *Iá* e por lá leia-se no dia em que pela primeira vez na centenária história da Real Sociedad e do Athletic Bilbao os dois maiores representantes do País Basco jogaram uma final da Taça do Rei de Espanha.

A pandemia deixou as bancadas vazias a 800 quilómetros do País Basco e ninguém viu ao vivo o golo de Mikel Oyarzabal, miúdo feito nas escolas dos txuri-urdin, que é como eles chamam lá na língua deles à Real Sociedad, equipa de San Sebastián que, ao contrário dos rivais de Bilbao, permitem uns quantos não-bascos no plantel. E isso equivale a dizer que o vírus não deixou que alguém visse in loco um dos momentos mais marcantes para a cultura e para o sentimento do que é ser basco de que há memória, ainda para mais um jogo em que houve glória dos vencedores e honra nos vencidos - e não sei se nós, portugueses, poderemos perceber o bocado de história que se roubou àquela gente porque somos um estado-nação e por cá um minhoto não é assim tão diferente de um beirão, ao contrário do que se passa do outro lado da fronteira.

Poeticamente, quero eu pensar, aquela chuva inclemente que se abateu sobre a geralmente soalheira Sevilha foi o cosmos a dizer que os mais de 2 milhões de bascos estavam ali, de uma maneira ou de outra, mas faltaram os olhos, os gritos e as caras, sobrou o vazio nas bancadas e as histórias que tantos pais e filhos, quando não conseguirem falar do que lhes vai lá dentro, não vão poder contar uns aos outros daqui a uns anos. E até estas pequenas coisas a porcaria da pandemia nos roubou.

Posto isto, em podendo, aproveitem o sol, saquem de uma cadeira e vão a uma esplanada, voltem a ver aquele amigo que não vêem desde janeiro, ou então vão praticar um desporto, mas com todos os cuidados, porque queremos voltar a construir memórias coletivas. E para isso precisamos de estar todos bem e de saúde.

O que se passou

A pandemia roubou-nos as memórias e infelizmente não nos trouxe mais dignidade e o que se passou no Cádiz-Valência de domingo é só mais um sintoma de tudo o que continua mal: Diakhaby (Valência) terá ouvido um insulto racista de Juan Cala (Cádiz), saiu do campo, os colegas foram atrás mas cinco minutos depois já estavam de novo no relvado, mas sem Diakhaby, que ficou na bancada enquanto o alegado perpetrante continuava a jogar. O Valência perderia o jogo - e é possível que tenha perdido mais qualquer coisa.

Foi à última, mas o FC Porto bateu o Santa Clara e está à espera do que vão fazer Sporting, Benfica e SC Braga esta segunda-feira.

Miguel Oliveira fez um arranque para figurar nos momentos do ano no MotoGP - passou de 12.º para 3.º -, mas um problema electrónico na KTM deixou-o apenas em 15.º no GP Doha.

Os sub-21 fizeram uma caminhada perfeita na fase de grupos do Europeu e voltam a jogar em maio para os quartos de final.

O desconfinamento está aí, mas António Costa confirmou: não haverá público no MotoGP, F1 e futebol.

Kun Agüero: o assassino profissional discreto e fatal que mudou a história do Manchester City (e mais 35 minutos de golos)

Nessa época de 2011/12, a primeira de Agüero no clube, o City chegou ao último jogo a precisar de ganhar em casa ao aflito Queen’s Park Rangers. A tarefa parecia fácil. Bastava carimbar. Mas nunca se deve menosprezar a força de uma maldição. A dois minutos do fim, o City perdia em casa e, com o United a triunfar no outro jogo, tudo indicava que a lendária boa estrela de Alex Ferguson e o eterno pé frio do segundo clube de Manchester iriam impor as suas regras. Depois, aconteceu futebol

Sérgio Oliveira bateu mal os livres, mas há que dar aquele desconto de quem acabou de passar quase duas semanas com o Cristiano Ronaldo

Catarina Pereira, metade portista do Lá em Casa Mando Eu, relativizou humoristicamente o ritmo de Uribe, porque "se tivesse que enfrentar o Kanté dentro de uns dias, também fazia tudo para poupar energia". E congratulou a "mais uma ou duas medidas abençoadas restritivas que impedem o empresário de Marega de vir tratar da renovação ao Porto"

Diogo é patinador de gelo e quer ir aos Jogos Olímpicos de Inverno. Como treina? Sobre rodas, no Algarve

Diogo Marreiros é campeão da Europa e vice-campeão do Mundo de patinagem no gelo e está na luta pela qualificação para os próximos Jogos Olímpicos de Inverno, em 2022, mas treina quase todos os dias em Lagos, na Escola Secundária Júlio Dantas, em cima de patins com rodas

“Na Arábia, entrei no banco com a minha mulher e filha e ouviu-se logo uma voz: ‘Ladies, out’. Elas tinham de entrar pelas traseiras”

João Carlos Gonçalves herdou a alcunha do irmão, Tuck, e fez carreira como médio, até aos 35 anos, em apenas dois clubes: Gil Vicente e Belenenses. Tornou-se treinador logo de seguida e ainda não conseguiu vingar na liga maior do futebol português, mas já teve uma experiência das Arábias, na equipa técnica liderada por Jorge Jesus, no Al-Hilal. Voluntário da Refood há três anos, Tuck revela que o seu talento escondido não tem nada a ver com futebol: é fazer bem limpezas

O râguebi da Nova Zelândia precisa de dinheiro e uma empresa americana quer investir. Mas os jogadores temem "apropriação cultural" do haka

Com perdas causadas pela pandemia a rondarem os €40 milhões, a Federação de Râguebi da Nova Zelândia está a negociar com a Silver Lake uma proposta que deixaria a gigante tecnológica dos EUA com 15% dos seus direitos comerciais. Os jogadores têm-se oposto porque temem, entre outras coisas, que a empresa se aproveite do <em>haka, </em>da sua imagem e de "bens geradores de lucro que assentam em práticas culturais que não estão à venda"

Pedro Martins: "Nós, treinadores, temos a mania de controlar tudo e todos. Tivemos que mudar. Praticamente não trabalhámos o processo"

É o treinador com maior longevidade no Olympiacos este século e falta pouco para bater o recorde de vitórias no clube. À terceira época na Grécia, Pedro Martins está, também, perto de ser o português com mais títulos conquistados no país. Isto no ano em que teve jogos a cada 72 horas, como muitos clubes com andanças europeias, mas apenas 15 dias de pré-época: "Se não fosse o mesmo treinador e, na grande maioria, os mesmos jogadores, que conhecem o processo e sabem como trabalhamos e o que é pretendido, as coisas seriam muito mais difíceis"

Zona Mista

Comecei a semana a ouvir que era arruaceiro, passou por javardo, por gentalha, por ordinário, delinquente

Sérgio Conceição, distribuindo alguns dos mais expressivos adjetivos alguma vez utilizados numa conferência de imprensa neste nosso Portugal. Tudo isto ainda sobre a, digamos, altercação entre o treinador do FC Porto e Paulo Sérgio, técnico do Portimonense

O que aí vem

Segunda-feira, 5

⚽️ Dia grande na I Liga com Farense - Sp. Braga (18h45, Sport TV3), Benfica - Marítimo (19h, BTV) e Moreirense - Sporting (21h, Sport TV1)

⚽️ Na Premier League siga o Wolverhampton - West Ham (20h15, Sport TV2)

Terça-feira, 6

🏆 Noite de CHAAAAMPIOOOOONS com o arranque dos quartos de final: Real Madrid - Liverpool (20h, Eleven1) e Manchester City - Borussia Dortmund (20h, Eleven2)

Quarta-feira, 7

⚽️ O FC Porto recebe em Sevilha o Chelsea, nos quartos de final da Champions (20h, TVI/Eleven1). Joga-se também o Bayern Munique - Paris Saint-Germain (20h, Eleven2)

⚽️ Na Serie A há guerra norte-sul: Juventus - Nápoles (17h45, Sport TV1)

⚽️ Na Libertadores, o Independente del Valle, treinado pelo português Renato Paiva, recebe o Grémio, em jogo da 3.ª eliminatória (23h15, Sport TV1)

🏐 No andebol, o FC Porto joga em casa do Aalborg na 2.ª mão dos oitavos de final da Champions (17h45, Porto Canal). Na 1.ª mão, os dragões venceram por 32-29. Mais tarde há dérbi de Lisboa para o campeonato: Sporting - Benfica (20h, Sporting TV)

Quinta-feira, 8

⚽️ Começam os quartos de final da Liga Europa, com destaque para o Granada - Man. United (20h, SIC) e para o Ajax - Roma (20h, Sport TV3)

Sexta-feira, 9

🇵🇹 A seleção nacional feminina joga a 1.ª mão do playoff de acesso ao Europeu de 2022, frente à Rússia (18h30, 11)

⚽️ Arranca a jornada 26 da I Liga, com o Portimonense - V. Guimarães (20h, Sport TV1)

Sábado, 10

⚽️ Na I Liga jogam-se o Marítimo - Farense (15h, Sport TV1), Boavista - Rio Ave (15h30, Sport TV4), Tondela - FC Porto (18h, Sport TV2) e Paços de Ferreira - Benfica (20h, Sport TV1)

⚽️ Na La Liga há clássico Real Madrid - Barcelona (20h, Eleven1)

⚽️ Premier League: Manchester City - Leeds (12h30, Sport TV2) e Liverpool - Aston Villa (15h, Sport TV2)

🏎️ Na Fórmula E, acompanhe a 1.ª corrida de Roma (15h, Eleven3/Eurosport)

Domingo, 11

⚽️ I Liga: Gil Vicente - Moreirense (15h, Sport TV1), Santa Clara - Nacional (15h30, Sport TV4), Sp. Braga - Belenenses SAD (17h30, Sport TV1) e Sporting - Famalicão (20h, Sport TV1)

⚽️ José Mourinho contra Bruno Fernandes no Tottenham - Manchester United, para a Premier League (16h30, Sport TV2)

⚽️ A Juventus de Cristiano Ronaldo recebe o Génova, na Serie A (14h, Sport TV3)

🏎️ Siga a corrida 2 do E-Prix de Roma, da Fórmula E (12h, Eleven3/Eurosport)

Hoje deu-nos para isto

Em 2016 dava ainda a Tribuna os seus primeiros passos quando tivemos o prazer de escrever sobre a histórica qualificação da seleção nacional feminina para o Europeu de 2017. Foi necessário ir ao prolongamento num emocionante playoff com a Roménia para lá chegar, marcou Andreia Norton esse golo logo na sua primeira internacionalização.

Agora, para estarmos no Euro 2022, em Inglaterra, a história tem de se repetir. Na sexta-feira, Portugal recebe na 1.ª mão do playoff a Rússia (a 2.ª mão joga-se na terça-feira seguinte), equipa com mais tarimba nestas coisas das grandes competições e com um ranking melhor que o de Portugal. Mas em 2016 também a Roménia era favorita.

Andreia e o golo que nos levou pela primeira vez a um Europeu

Já decorria o prolongamento em Cluj, na Roménia, quando Andreia Norton fez o golo que levaria Portugal ao seu primeiro Europeu. A equipa da casa ainda empataria o jogo, mas o golo marcado fora foi decisivo

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