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O calor do momento não pode ser o novo 'foi sem querer'

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Miguel Cardoso está na segunda passagem pelo banco do Rio Ave, onde, no sábado, mostrou piretes na reação a um golo

Miguel Cardoso está na segunda passagem pelo banco do Rio Ave, onde, no sábado, mostrou piretes na reação a um golo

SEBASTIEN SALOM GOMIS/Getty

Uma pessoa que me diz muito e muito me foi dizendo nesta única volta ao carrossel a que temos direito escreveu-me, há 10 anos, num pequeno retângulo de papel, que "viver é o que há de mais raro no mundo.", assim mesmo, pôs um ponto final, logo de seguida acrescentou "a maior parte das pessoas existem" e aqui deixou outro ponto, outro sinal declarativo de que estas primeiras duas frases no papel que tenho na mesa de cabeceira desde esse dia eram para levar para qualquer parte.

Esta pessoa a quem muito quero está hoje a levar de frente com os mais de 90 anos de uma vida, está a mentir quem diz entender a crueldade da existência em fazer titubear quem já viveu muito mais do que o que lhe resta viver, não há dia que não tenha esta minha pessoa na cabeça, o papel e tanto mais, e este fim de semana tive-a presente também pela aversão alérgica que sempre lhe vi a qualquer palavrão, vernáculo, asneira ou obscenidade.

Não sei se terá visto, no sábado, os braços erguidos por Miguel Cardoso e ambas as mãos com os dedos médios bem esticados, ele, o treinador do Rio Ave, a apontar dois piretes retilíneos na direção do banco do Boavista nos segundos seguintes à sua equipa empatar, nos descontos, e a televisão o enquadrar no plano. Nem preciso de imaginar o choque em quem conheço bem.

Na sua pegada pública até então, Miguel Cardoso resume-se na postura sóbria, eloquente e ponderada das suas intervenções, adornado pelo formalismo das suas vestes tal e qual se apresentou, no Estádio do Bessa, onde o gesto que teve rasgou com a imagem positiva de um treinador que prega uma forma de jogar futebol com positividade também em riste.

Poder-se-ia aplicar-lhe o que tão comum é quando imprudências destas surgem - foi um ato precipitado, foi um gesto de frustração, foi do calor do momento, foi [inserir aqui a culpabilização de forças maiores para o desleixo].

Mas o treinador do Rio Ave saberá que a televisão tudo capta e em todas a casa entra - hoje então, mais do que nunca, por ser a única forma de ver futebol - e nessas casas há crianças, miudagem ou adolescentes a fixarem conscientemente, ou na sua inconsciência, que é a terra onde tudo ganha raízes das mais tramadas de podar mais tarde, o que veem em quem anda lá em cima na vida futeboleira. Em quem deve dar exemplos que não estes.

Isto Miguel Cardoso sabe, certamente, pois lamentou o ato, pediu desculpa e retratou-se à primeira oportunidade (o Rio Ave também) que teve, fazendo-o de forma tão aplaudível (discordo quando classifica o gesto como "ínfima reação") quanto reprovável é o gesto que lhe saiu durante o jogo. Assumiu o que fez, lamentou-o e falou do que pessoas na sua posição devem ter presente:

"Não somos máquinas, somos homens, temos emoções. Obviamente que temos obrigação de controlar as nossas emoções, somos seres que temos responsabilidade social e tenho consciência plena da minha. E tenho imaculada a minha imagem. Aquilo que aconteceu não é mais do que um ato de frustração em função de um contexto de jogo que aconteceu. Em relação ao gesto, peço que percebam que foi apenas um gesto espontâneo."

À volta do gesto há uma nuvem de supostas faltas de fair-play, atrasos propositados nas reposições dos apanha-bolas, insultos e tentativas de agressão que entram no tal "contexto" alegado pelo treinador, lamentado pelo Rio Ave e negado pelo Boavista. A serem verdade, é tão feio, desnecessário e reprovável como o tal gesto; a serem mentira, é barulho ainda mais escusado.

Mas pronto, a coisa passaria sempre, desculpável com o proverbial 'foi sem querer', então está tudo bem, filosofia de bolso tão usada nesta vida para escudar reações não temperadas, como o futebol português vai tendo - além do citado, esta época já houve treinadores em vias de pancadaria e outro a dizer que um jogador entrou propositadamente para magoar um adversário - e são de evitar.

Quem hoje vê de baixo este tipo de episódios pode ser quem ande lá em cima amanhã. E se do mais verdadeiro é aceitar que toda a gente erra, é a vida, também é justo esperar que quem o faça não se limite a existir no conforto do sacudir os ombros de responsabilidade e culpe algo maior, mais forte e incontrolável. Pedir desculpa também é viver.

O que se passou

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Zona mista

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O que aí vem

Segunda-feira, 12

⚽ Há uma pitada de Premier League por ver durante a tarde (West Bromwich-Southampton, 18h, Sport TV1) e a noite (Brighton-Everton, 20h15, Sport TV1).

Terça-feira, 13

⚽🏆 É dia de decisões fulcrais para a bola cá do burgo: às 15h (Canal 11), a seleção feminina de Portugal joga com a Rússia a segunda mão do play-off de acesso à fase final do Europeu de 2022 (tendo perdido por 0-1 no primeiro jogo); 20h (TVI), o FC Porto está de novo em Sevilha para o segundo encontro contra o Chelsea (0-2) dos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Além do PSG-Bayern de Munique, claro.

Quarta-feira, 14

🌴⚽ Joga-se a segunda mão da Recopa, a Supertaça da América do Sul, entre o Palmeiras de Abel Ferreira - que ganhou por 2-1 o primeiro jogo - e o Defensa y Justicia, da Argentina (1h30, Sport TV1).
⚽🏆 Venha o resto da Champions a nós: também às 20h, há o Borussia Dortmund-Manchester City e o Liverpool-Real Madrid.

Quinta-feira, 15

⚽ Há logo quatro jogos a contar para a segunda mão dos quartos-de-final da Liga Europa, todos às 20h: Manchester United-Granada (SIC), Slavia de Praga-Arsenal (Sport TV3), Villarreal-Dínamo Zagreb (Sport TV5) e AS Roma-Ajax (Sport TV3).

Sexta-feira, 16

🏄🌊🏄‍♀️ Arranca o período de espera do Rip Curl Narrabeen Classic, terceira etapa dos circuitos mundiais de surf, também na Austrália, onde foi a anterior prova e serão, ainda, as duas seguintes.
⚽ Na I Liga, o Farense recebe o Sporting (21h, Sport TV1) e, na Premier League, o Tottenham de José Mourinho vai jogar a casa do Everton de Carlo Ancelotti (20h, Sport TV4).

Sábado, 17

⚽ Na I Liga terá para ver os seguintes jogos: o Moreirense-Tondela (15h30, Sport TV5), o V. Guimarães-Santa Clara (15h30, Sport TV1), o Nacional da Madeira-FC Porto (18h, Sport TV1), o Benfica-Gil Vicente (18h, BTV, e sim, são dois jogos dos grandes à mesma hora, sinal de excelente planeamento) e o Rio Ave-Sp. Braga (20h30, Sport TV1).

Domingo, 18

🏎️ Regressa a Fórmula 1 com o Grande Prémio de Itália (14h, Eleven Sports), não em Monza, onde é mais habitual, mas em Imola, terra em Itália, embora só por uma vez tenha tido a honra de receber uma corrida do mundial - e foi em 2020, o mais excecional dos anos - com a designação de GP de Itália (todas as outras vezes foi como GP de San Marino). O circuito chama-se Autodromo Internazionale Enzo e Dino Ferrari, só para colocar um poucaxinho mais de pressão na escuderia vermelha do cavalo.
🏍️ O Grand Prémio de Portugal em MotoGP (13h, Sport TV2) realiza-se, nem um ano depois, outra vez no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão. Há meses, o vencedor foi Miguel Oliveira.
⚽ I Liga: o Famalicão-Portimonense (15h, Sport TV1) é o único jogo do dia.

Hoje deu-nos para isto

Ayrton Senna, fotografado naquele 1 de maio de 1994

Ayrton Senna, fotografado naquele 1 de maio de 1994

Dario Mitidieri/Getty

Prazer não o há em recordar uma tragédia, mas, assim que recordei esta ao fazer a agenda pela qual passou um scroll acima e passei pelo Grande Prémio de Itália que será em Imola, a primeira coisa a aparecer na cabeça foi o 1 de maio de 1994, aquele 1 de maio de 1994 que nunca mais fez esquecer que há uma curva no autódromo de Imola chamada Tamburello.

Aí embateu Ayrton Senna com toda a violência infeliz, o seu Williams despedaçado e o mundo a assistir em direto à morte do piloto brasileiro que era do melhor que havia no desporto, genial a conduzir monolugares que distorcem a noção do que é possível um ser humano atingir e elegante, sempre, mesmo quando criticava alguém ou se virava contra situações que lhe desgostavam.

Ayrton Senna era dos desportistas e das pessoas do desporto que engrandecia o desporto.

Que tenha uma boa semana e, se ainda não o fez, lembre-se que pode consignar 0,5% do seu IRS a uma qualquer instituição de solidariedade. Não custa nada, literalmente. Acompanhe a Tribuna diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.