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Um soco em quem já levou muitos e, por isso, está no lugar certo

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Rui Jorge está há 10 anos nos sub-21 de Portugal. Ontem perdeu a segunda final de um Europeu

Rui Jorge está há 10 anos nos sub-21 de Portugal. Ontem perdeu a segunda final de um Europeu

Damjan Zibert - UEFA

Esta vida que vivemos é feita de impressões, não conhecemos alguém até que essa pessoa tenha partes da sua vida entremeadas na nossa vivência e Rui Jorge, da única vez que privei com ele, já lá vai mais de meia década, não me pareceu ser um alguém de precipícios e decisões extemporâneas, quanto mais de pensamentos. Não, tudo o que emanou era calma, cautela, serenidade e um gozo tremendo em trabalhar com miudagem que ainda têm coisas de esponja nestas idades.

O tipo que ficou conhecido pelo primeiro e segundo nome carrega nele várias desilusões, amarguras, tristezas, o que lhe queiram chamar de entre as coisas que cabem dentro do grande chapéu da derrota que só quem conhece bem é capaz de usar para ganhar (já dizia a Mariana, a semana passada).

Quando Rui Jorge era canalha como os que com quem hoje trabalha, não foi convocado para um Europeu sub-21 porque levou um cartão vermelho no último jogo da qualificação, apanhou três jogos de suspensão (os dois do play-off e o primeiro da fase final) e Nelo Vingada não o levou. Foi em 1994, no primeiro dos três em que Portugal chegou à final.

Mais tarde, ele estava em campo a ver a mão de Abel Xavier que precipitou a eliminação de Portugal nas meias-finais do Euro dos graúdos, em 2000; quatro anos mais tarde, presenciou do banco de suplentes o desgosto da seleção perder a final caseira da prova, com um estádio cheio de expetativa a tombar sobre eles.

Rui Jorge tem a sua quota-parte de tragos dados em seco por causa da bola, especialmente de bolas pontapeadas pelo país. Não sei se esta que é uma evidência da vida do treinador - ele já é mais um selecionador de profissão - pesou no processo de escolha de quem, já lá vão 10 anos, decidiu colocá-lo como o responsável pelos sub-21 de Portugal. Fará sentido se tiver contado bastante.

Entre a carreira de jogador e treinador, Rui Jorge já esteve em três finais de seleções. Perdeu todas.

Entre a carreira de jogador e treinador, Rui Jorge já esteve em três finais de seleções. Perdeu todas.

DeFodi Images

Os sub-21 são o último degrau de separação do trigo do joio que, para a maioria dos jogadores, pode bem ser a derradeira oportunidade da carreira em representar uma seleção nacional. A vida da bola dá muitas voltas e para aqui ainda é chamada gente que não tem necessariamente de render titularidades, destaques ou protagonismos em equipas principais de clubes de topo - entre os 11 que começaram a final de ontem, contra a Alemanha, só havia 165 jogos entre as equipas principais dos clubes onde jogam. Quem tinha mais (31) era Dany Mota, avançado do Monza, da Serie B italiana.

("O que tem de começar a acontecer é eles afirmarem-se em equipas da Primeira Liga, de topo, para a competição ser mais forte e começarem a disputar provas internacionais, como a Liga dos Campeões", disse Rui Jorge, em 2015.)

Rui Jorge é quem toma conta da seleção em que o ganhar já importa tanto quanto formar, ou se calhar até mais para os olhos de muita gente agora crítica dos comportamentos coletivos sem bola da equipa, da facilidade com que era atraída para um lado e deixava o adversário circular passes para o outro ou das opções que o selecionador tomou, na final, de jogadores para lançar no jogo. Quando tudo acabou, o selecionador falou que levaram "um soco dos grandes". Julgo que terá sido um soco maior para ele.

Porque esta geração envelhecerá, como a de 2015 prosseguiu nas voltas ao circuito da vida, Rui Jorge perdeu finais com ambas e porventura chegará a mais decisões, outras fornadas de talento virão e encontrarão um treinador que sabe os nós e as costuras do que se sente na derrota, quando se perde o que muito se quer ter. E isto é valioso para qualquer miúdo que pára tão novo numa seleção nacional enquanto cresce no futebol, um mundo onde ganhar coisas é para as minorias.

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O que vem aí

Segunda-feira, 7

⚽ Companheira de Portugal no Grupo F do Euro, a Alemanha joga com a Letónia em mais um encontro de preparação (19h45, Sport TV1).
🎾 Arranca a segunda semana de Roland Garros (9h55/11h, Eurosport 1/Eurosport 2)
🥋 Siga mais um dia do Mundial de judo, com vários portugueses em ação (9h e finais às 16h, Sport TV5).

Terça-feira, 8

⚽ Com o Euro à porta, este é dia de muitos jogos de preparação, com duas das equipas que estão no grupo de Portugal em ação: a Hungria recebe a Irlanda (19h, Sport TV5) e a França joga com a Bulgária (20h10, Sport TV2).

Quarta-feira, 9

⚽🇵🇹 Derradeiro teste da seleção nacional antes do Euro: Portugal - Israel (19h45, RTP1).

Quinta-feira, 10

👟 Futsal: terceiro jogo da final do campeonato, entre Sporting e Benfica (20h30, 11). Para já, tudo empatado.

Sexta-feira, 11

⚽🏆 Chega o grande dia: o Euro 2020 começa com o Turquia - Itália, em Roma (20h, TVI)

Sábado, 12

⚽ Euro 2020: País de Gales - Suíça (14h, Sport TV1), Dinamarca -Finlândia (17h, TVI) e Bélgica - Rússia (20h, RTP1).
🎾 Roland Garros: final feminina (13h30, Eurosport 1).

Domingo, 13

⚽ Euro 2020: Inglaterra - Croácia (14h, TVI), Áustria - Macedónia do Norte (17h, Sport TV1) e Holanda - Ucrânia (20h, Sport TV1).
⚽ Começa a Copa América, com o Brasil - Venezuela (22h, Sport TV2).
🎾 Roland Garros: final masculina (13h30, Eurosport 1)

Hoje deu-nos para isto

A lendas das balizas, a segurar uma impressão do momento que o ajudou a elevar a esse estatuto, em 1970

A lendas das balizas, a segurar uma impressão do momento que o ajudou a elevar a esse estatuto, em 1970

Tom Stoddart Archive

As minhas memórias de bola são nubladas, se fossem uma jornada nesta nossa dimensão de espaço-tempo seriam um dia cinzento, feiote e taciturno, não me recordo bem das banais lembranças do primeiro jogo visto, o primeiro golo causador de galinha na pele, o primeiro jogador-fetiche, desses ganchos de interesse que prendem almas à bola para nunca as largarem enquanto andarem neste mundo.

Do que me recordo, isso sim, é de passar horas e horas à frente do monólito de televisão que, às tantas, os meus pais arranjaram para os filhos, por nela ter descoberto um canal de seu nome "Eurosport", que tinha um programa chamado sei lá eu, maldita memória, mas que me lembro bem do que passava: futebóis de torneios passados, jogos de Europeus e Mundiais mostrados na íntegra ou resumidamente.

Até o preto e branco me fascinava, como podiam os homens jogar assim, há tanto tempo, até aquilo chegar a 1970, já sabia quem era o Pelé e de repente estava um tipo inglês, de luvas, a desconjuntar-se todo na relva e com mais de meio corpo dentro da baliza, desmontado com a queda a que se submeteu para impedir que a bola feita míssil pela cabeça do rei dos brasileiros se elevasse para lá da barra da baliza.

Chamaram-lhe a defesa do século e faz hoje 51 anos.

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