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A saída de campo de Eriksen e a lição dos amigos de Christian

A saída de campo de Eriksen e a lição dos amigos de Christian

Friedemann Vogel - Pool

Outro dia fiz um amigo. Sentámo-nos à mesa e por ali ficámos algumas horas. O mar estava a fazer exatamente o que era suposto fazer e no areal estavam os jovens, despreocupados, a exibir aqueles rasos umbigos de uma forma arrogante. Visitámos muitas histórias, o futebol esteve em tudo, mas também houve alturas em que fraquejámos e insultámos homens, nomeadamente Jorge Valdano e Chico Buarque, que sabem jogar futebol, tocar, escrever e ainda são belos.

A certa altura, quando já não era um rumor que estávamos na mesma página, as histórias, os textos e as lembranças invadiram aquele metro quadrado. Até que ele diz algo como “o futebol é uma fábrica de memórias”. Não é só aquela coisa da memória coletiva, da felicidade e da agonia em tribo, é mesmo a possibilidade de nos fazer viajar até ao passado, revelando a capacidade de dizer onde estávamos, com quem e o que sentimos. Onde estavam quando Nuno Gomes fez o 3-2 à Inglaterra em 2000? Sozinho em casa, tremendamente apaixonado por aquela seleção e certamente a assustar os vizinhos com os berros mais primitivos que dei até então. E no golo de Eder? No chão, agarrado ao Palma, que não era o Jorge, ignorando a labuta por alguns segundos. E nos penáltis de Ricardo e Postiga? E no cabeceamento de Charisteas?...

Aquela ideia da fábrica continua a tilintar no pensamento. No domingo, durante o Ucrânia-Países Baixos, provavelmente o melhor jogo do Euro 2020 (ahh, como o futebol é belo quando o medo não engole a coragem), voltou a acontecer porque, quando surgiam no ecrã os treinadores, pensava naquele passe de Frank de Boer para Bergkamp, em 1998, ou no hat-trick de Shevchenko em Camp Nou, em 1997. Isso acontece quando vejo João Vieira Pinto no banco de Portugal.

Rapazito, saltando da cadeira na Luz, nunca mais olvidei aquela jogada eterna contra a admirável e então campeã europeia Alemanha, na caminhada para o França-98. Ensinou-me talvez a primeira lição das muitas que receberia do futebol: neste jogo fala a bola e não o tamanho dos corpos, tudo é possível.

Ao Rui Miguel Tovar, em 2017, Jürgen Kohler recordou aquele momento: “Aquele slalom é de um génio, marca-te a vida. (...) Felizmente para nós, o Köpke defendeu para canto. Lembro-me disso porque fui o primeiro a ser ultrapassado, ainda longe da área. Fiz-lhe um carrinho simpático e ele fugiu para o lado. Só depois é que começou a fintar em direção à baliza. Num segundo, com dois toques de bola, ultrapassou Ziege e Eilts. Na altura do remate, já eu estava pertíssimo, juntamente com o Sammer”. Ler uma das vítimas daquela manobra artística a desabafar engrandece ainda mais a memória. É por isso que os outros são importantes nas lembranças. Trazem sempre algo, há mais beleza, mais verdade.

Há, entre tantas e infinitas lembranças, uma que não terei. Não vi o momento em que o coração de Christian Eriksen parou e que o do mundo inteiro acelerou, apertado pela angústia. Não vi quando o trouxeram de volta, nem experienciei o desatino voyeurista. Quando finalmente desencantei uma televisão, o que observei foi a frieza e a decência dos companheiros a taparem o colega e a defenderem a dignidade do amigo. Vi Kjaer e Kasper a desempenharem o papel que os homens extraordinários desempenham. Registei a desumanidade da UEFA, que deixou nas mãos daquela gente sofrida a decisão de regressar ao campo, como se não estivessem dormentes e vulneráveis ao sentimento de jogar pelo compatriota caído. Michael Laudrup e Peter Schmeichel, duas lendas dinamarquesas, criticaram duramente a entidade que regula o futebol europeu. E bem.

Se houve uma coisa que aprendi ao ver a Birgitte Nyborg, em “Borgen”, foi a dizer obrigado em dinamarquês. Assim, quem sabe, estaria bem calçado para se um dia apertar a mão a Laudrup e aos génios da Danish Dynamite, que encantou nos anos 80; ou a do irmão de Michael, Brian, pela celebração mais cool que andou por aí; ou se um dia partilhar uma mesa com um senhor da tremenda seleção de 92. A palavra será ainda mais útil agora se, numa afortunada tarde de um verão qualquer, tropeçar em Kjaer ou Kasper, ou noutro futebolista que esteve naquele relvado de Copenhaga (os finlandeses aplaudiram o regresso dos rivais, quanta honra). Ou se encontrar a pessoa que ofereceu a bandeira da Finlândia para tapar o indeciso corpo de Eriksen, que descansava enquanto combatia o descanso eterno. Enfim, a todos eles, e principalmente aos que salvaram a vida de Christian, tak.

Tak, tak, tak.

Desta vez, a fábrica fabricou uma lembrança que nada tem a ver com a bola mas, sim, tudo com o futebol: amizade e dignidade.

O que se passou

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O que se faz em direto, com um microfone à frente e acontece o que aconteceu a Eriksen? "Vamos para o ar numa corda sem arnês"

Durante quase uma hora, entre o momento em que Christian Eriksen caiu inanimado e a retoma do Dinamarca-Finlândia, o jornalista André Silva foi o responsável pela narração do jogo, na "Sport TV". Quando a emissão (cuja responsabilidade é da UEFA) mostra "imagens que iam para o ar e que não deveriam ter ido", repetidamente, e as redes sociais estão "cheias de médicos de bancada", alguém tem de dar palavras ao que toda a gente está a ver

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O que aconteceu a Eriksen, visto por dois cardiologistas: “Como homem, está safo. Como atleta, tenho muitas dúvidas”

Victor Gil, médico cardiologista, diz que o jogador Christian Eriksen sofreu uma "paragem cardíaca" e que, se não houvesse uma equipa de reanimação no estádio, "muito provavelmente não teria sobrevivido". Para Miguel Mendes, o "homem está safo", mas "o atleta" muito dificilmente poderá voltar

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Zona mista

Não sei se foi a melhor decisão, tendo em conta o estado em que os jogadores estão hoje. Todos adoramos futebol, mas o futebol não é tudo. O mais importante são as pessoas que amamos.

Peter Møller, diretor-desportivo da seleção da Dinamarca, foi um dos dirigentes que deu a cara (os outros foram Kasper Hjulmand, o selecionador, e Morten Boesen, o médico da equipa) no domingo, para darem as explicações possíveis sobre o que aconteceu a Christian Eriksen - e por que razão os jogadores retomarem a partida com a Finlândia, quando o futebol já nada interessava.

O que aí vem

Segunda-feira, 14

⚽️ Mais um dia de jogos no Euro: Escócia - Rep. Checa (14h, Sport TV1), Polónia - Eslováquia (17h, Sport TV1) e Espanha - Suécia (20h, TVI/Sport TV1)

⚽️ Na Copa América há Argentina - Chile (22h, Sport TV2) e Paraguai - Bolívia (1h, Sport TV2)

🎾 Porque a vida não é só futebol, ao longo da semana, siga o ATP500 de Halle, na Alemanha (10h, Sport TV2) e o ATP500 de Londres (12h, Sport TV4)

Terça-feira, 15

⚽️ Chega o dia da estreia de Portugal no Euro 2020, frente à Hungria, em Budapeste (17h, SIC/Sport TV1)

⚽️ Também no Euro e no grupo de Portugal, há França - Alemanha (20h, Sport TV1)

Quarta-feira, 16

⚽️ Euro 2020: Finlândia - Rússia (14h, Sport TV1), Turquia - País de Gales (17h, Sport TV1) e Itália - Suíça (RTP1/Sport TV1)

Quinta-feira, 17

⚽️ Ucrânia - Macedónia (14h Sport TV1), Dinamarca - Bélgica (17h, Sport TV1) e Holanda - Áustria (20h, TVI/Sport TV1) são os jogos do dia do Euro 2020.

⚽️ Na Copa América há Colômbia - Venezuela (22h, Sport TV2) e Peru - Brasil (1h, Sport TV2)

Sexta-feira, 18

⚽️ No Euro 2020 siga o Suécia - Eslováquia (14h, Sport TV1), Croácia - Rep. Checa (17h, Sport TV1) e Inglaterra - Escócia (20h, SIC/Sport TV1)

⚽️ Chile - Bolívia (22h, Sport TV2) e Argentina - Uruguai (1h, Sport TV2) são os jogos do dia na Copa América

Sábado, 19

⚽️ Dia do segundo jogo de Portugal no Euro, frente à Alemanha (17h, TVI/Sport TV1). Antes há Hungria - França (14h, Sport TV1) e o Espanha - Polónia (20h, Sport TV1) fecha a jornada.

🏎️ F1: GP França, qualificação (14h, Eleven3)

🏁 MotoGP: GP Alemanha, qualificação (13h10, Sport TV2)

Domingo, 20

⚽️ No Euro 2020, Itália - País de Gales (17h, TVI/Sport TV1) e Suíça - Turquia (17h, Sport TV2)

⚽️ Do outro lado do Atlântico, na Copa América: Venezuela - Equador (22h, Sport TV2) e Colômbia - Peru (1h, Sport TV2)

🏎️ F1: GP França (14h, Eleven3)

🏁 MotoGP: GP Alemanha (13h, Sport TV2)

🎾 No ténis, final do ATP500 de Londres (13h30, Sport TV3)

Hoje deu-nos para isto

A 14 de junho de 2016, um certo guarda-redes que adorava calças de fato de treino à antiga virava o jogador mais velho de sempre a jogar em Campeonatos da Europa

A 14 de junho de 2016, um certo guarda-redes que adorava calças de fato de treino à antiga virava o jogador mais velho de sempre a jogar em Campeonatos da Europa

Jean Paul Thomas/Getty

Gábor Király tinha qualidades várias, só as poderia ter, não é por se ter uma figura engraçada ou um feitio cinco estrelas que se acumulam 108 jogos como a última barreira humana à frente da baliza quando tudo o resta falha. Ele ainda é o mais internacional da história da seleção húngara, é obra, que engrandeceu quando, faz neste dia cinco anos, também virou o jogador mais velho de sempre a participar em Campeonatos da Europa.

Tinha 40 anos e pouco mais de dois meses. Tinha igualmente muitas miras de questões postas em si, a curiosidade alheia nem despertava exclusivamente devido à idade que já tinha (quando começou a jogar à bola, em rapaz, ainda estava escrito nas regras que podia agarrar a bola com as mãos se lha passassem), mas até mais pela indumentária a que jurara fidelidade.

As calças de fato de treino largas e cinzentas, o tecido grosso, todo o visual de uma outra era que tinha este guarda-redes húngaro como o último porta-estandarte. E Gábor Király irritava-se amiúde com as vezes que lhe perguntaram, afinal, por que raio escolhia jogar assim. Há dias, em Budapeste, ele falou sobre isso com o nosso enviado especial ao Euro 2020, em Budapeste. Mas só no fim da conversa, já com a boleia lançada pela boa-disposição.

Tenha uma boa semana, a primeira completa do Europeu de 2020, que pode acompanhar na Tribuna - há oito dias que temos o Diogo Pombo na Hungria e não haverá dia em que não tenha uma história ou crónica para ler. Estamos diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.