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Tentar remediar com talento quando já não havia outro remédio

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Há cinco anos, na vitória das vitórias, Fernando Santos muito falou em talento. Agora, deu-lhe rédea solta quando a derrota estava iminente

Há cinco anos, na vitória das vitórias, Fernando Santos muito falou em talento. Agora, deu-lhe rédea solta quando a derrota estava iminente

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

O tempo é inexorável e tem piedade de nenhum homem, nem um, o nosso corpo pode ter evoluído para durar, durar e durar mais um pouco, o maleável bambu que dobra e não parte, mas tão pouco esconde o rasto dessa durabilidade e a pele ser o maior órgão que temos e o mais visível é um sinal de como a natureza nos quer abrir a pestana e fazer ver onde estamos, já estivemos e como estávamos quando [inserir aqui o evento, ocasião ou dia].

Quase uns cinco anos passaram desde que captámos a rouquidão de um homem exacerbado pelas emoções, o êxtase de felicidade também é esgotante e drenara as energias de Fernando Santos, estava o selecionador caído sobre os cotovelos, exacerbado pela tomada de Paris por uma noite, ele um corpo não tão grisalho nas têmporas, menos gretado na testa franzida e falante de palavras como “não podemos fazer futurologia, mas temos de acreditar no talento, na vontade e na determinação”.

Antes de tudo, o selecionador mencionou a coisa que encapsula muitas outras coisas que nem fulano, nem catrano, alguma vez descreveram com precisão, há quem diga que se nasce com jeito e existe gente que preza a prática exaustiva como meio possível para se alcançar algo parecido, eu cá não sei, mas ciente penso que todos estamos quanto à enormidade de talento que abençoou Portugal em matéria de gente com habilidade para a bola.

Até a temos com fartura mais agora, neste 2021 em que jogámos um Europeu de 2020, do que em 2016, quando já estávamos empanturrados da sorte geracional que tem abastecido Portugal com tanta gente habilidosa para jogar à bola. O selecionador, homem de convicções tatuadas em todo o seu ser, sabe-o, cheio está de o saber, mas, desde a bandeira cravada no cume futebolístico da Europa que a seleção nacional ganhou dois jogos dos oito que fez entre a ida ao Mundial da Rússia e esta nova europeísta tentativa.

Em Paris, como em Sevilha, o treinador personificou a literalidade do argumentário. De entre as várias respostas dadas quando ganhou, havia a justificação de que a vitória surgiu devido ao golo que Portugal marcou a mais do que o adversário; perdendo, no domingo, lamentou o golo sofrido no único remate acertado pela Bélgica contra os vários tentados pela seleção. Disse que “a bola não quis entrar”, repetiu que “o futebol é um pouco isto”. Em 2016, dois dos três pontapés certeiros de Portugal na final surgiram na segunda parte do prolongamento; na bofetada puxada atrás pela realidade, agora em 2021, quatro das cinco bolas que foram à baliza da Bélgica surgiram na segunda fornada de 45 minutos.

Fran Santiago - UEFA/Getty

Foi só depois de a Bélgica marcar na dita pior das alturas (mesmo antes do intervalo) e, também, após outros 10 minutos de provação das evidências de que, nada alterando, a seleção não se melhoraria, que o selecionador atirou Bruno Fernandes e João Félix juntos para o campo, onde Bernardo Silva já não estava presente. Entraram os dois abençoados de jeito aventureiro no que o futebol tem de feridor para os outros, para quem joga contra Portugal.

E, mais do que tudo, aí a seleção lançou-se na vertigem atacante, pressionante, rematadora e arriscadora.

Aí jogou a fazer jus ao absurdo potencial que tem, muito rematou e fez por marcar, houve até um dos postes a ser do contra, pode-se concluir que o jogo foi desafortunado para Portugal, mas, muitas vezes, acordou-se que a fortuna lhe sorriu quando a seleção cruzou figas por ela. Há que repetir e repetir que ninguém ganha desprovido de sorte, que jamais alguém perderá sem alegar azar, que é do mais fácil que há cair sobre o colchão da crítica na derrota ou saltar para cima do trampolim elogioso quando é caso de vitória.

Mas aí, quando a seleção se atreveu com tudo, já era tarde, mesmo ganhando teria sido tardio, a seleção carregou sobre os belgas tentando remediar o jogo pelos talentosos, ousando dar-lhes rédeas para atacarem e inventarem coisas quando já não tinha outro remédio. E eu me confesso, que não estou nos treinos, desconheço a condição dos jogadores e como se sentem (têm arrelias familiares? sentem-se bem? algo lhes rouba o sono à noite?, são coisas que influem e quem fala de fora nunca sabe), mas faz confusão a vida de Portugal neste Europeu acabar e João Félix ir embora com apenas 35 minutos de jogo.

Precisamente os últimos jogáveis que houve, quando, no maior dos apertos, Fernando Santos recorreu ao curativo do talento. Mas, como acredito que qualquer médico preferirá, a melhor cura será sempre a prevenção. Se, há cinco anos, ouvimos o selecionador dizer na vitória que “temos grande talento, temos grande qualidade, isso vai marcar a diferença”, então que a derrota canalize as estratégias para, primeiro que tudo, jogar para atacar os adversários com a ousadia e atrevimento. Que seja eles a preocuparem-se em remediar coisas à pressa.

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A Bélgica acertou apenas um remate na baliza, Portugal perdeu (1-0) e foi eliminado do Europeu nos oitavos-de-final é o resumo possível de uma despedida. O outro, é contar como a seleção se atreveu a pressionar alto os belgas, a arriscar e a jogar com os mais amigos da bola ao mesmo tempo, durante 45 minutos. Tentou remediar-se, mas só quando já não havia outro remédio e, pelo segundo grande torneio seguido, Portugal fica aquém da sorte que tem: a de ter bastante potencial para poder fazer melhor

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O que aí vem

Segunda-feira, 28

⚽️ Seguem os oitavos de final do Euro 2020, com o Croácia - Espanha (17h, Sport TV1) e o França - Suíça (20h, TVI/Sport TV1)

⚽️ Na Copa América, já madrugada dentro, há Bolívia - Argentina (1h, Sport TV2) e Uruguai - Paraguai (1h, Sport TV3)

🎾 Arranca o torneio de Wimbledon (11h, Sport TV2/Sport TV3), a acompanhar nas próximas duas semanas

🚴 Volta a França, ao longo de toda a semana (12h05/14h35, Eurosport/RTP2)

Terça-feira, 29

⚽️ No Euro 2020 há Inglaterra - Alemanha (17h, SIC/Sport TV1) e Suécia - Ucrânia (20h, Sport TV1), jogos que fecham os oitavos de final da prova

Quarta-feira, 30

🎾 Siga o torneio de Wimbledon (11h, Sport TV2/Sport TV3)

Quinta-feira, 1

🏅 A poucas semanas dos Jogos Olímpicos, acompanhe a etapa da Diamond League de atletismo em Oslo (19h, Sport TV4)

Sexta-feira, 2

⚽️ Começam os quartos de final do Euro 2020. O primeiro jogo será entre França ou Suíça frente a Croácia ou Espanha (17h, Sport TV1). Às 20h, joga-se o Bélgica - Itália (20h, RTP1/Sport TV1)

Sábado, 3

⚽️ Mais dois jogos dos quartos de final do Euro: Rep. Checa - Dinamarca (17h, Sport TV1) e o duelo que sairá dos jogos Inglaterra - Alemanha e Suécia - Ucrânia (20h, Sport TV1)

🏎 Fórmula 1: qualificação GP Áustria (14h, Eleven 3)

Domingo, 4

🏅 Atletismo: Diamond League de Estocolmo (15h, Sport TV5)

🏎 Fórmula 1: GP Áustria (14h, Eleven 3)

Hoje deu-nos para isto

A última vez que Portugal saiu tão cedo de uma grande competições de seleções foi em 2008

A última vez que Portugal saiu tão cedo de uma grande competições de seleções foi em 2008

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Portugal nunca caíra nos oitavos de final de um Euro porque essa fase também só existe desde 2016, com o alargamento a 24 equipas. E por isso é preciso recuar até 2008 para ver uma eliminação tão precoce da Seleção Nacional no torneio continental. Talvez tenham sido caprichos de calendário ter-nos passado pelo caminho aquela Alemanha logo nos quartos de final: a nossa fase de grupos foi boa, fomos primeiros no Grupo A, a dos alemães bastante tremida e, por isso, passaram apenas como segundos no Grupo B. E vinha aí uma reedição do jogo de atribuição do 3.º lugar do Mundial de 2006.

Não impressionava no papel a Alemanha de então, mas tinha dois jogadores que na seleção se agigantavam: Miroslav Klose e Lukas Podolski. O primeiro marcou, o segundo deu a marcar, num jogo de grandes emoções, em Basileia, onde Portugal atacou mais, teve mais oportunidades, mas, como é mais ou menos imposição histórica, acabou ferido de morte pela eficácia alemã - 3-2 seria o resultado final e Portugal ia para casa logo ao primeiro jogo a eliminar. Tal como no Euro 2020.

Tenha uma boa semana e, mesmo sem a seleção nacional para ver jogar, siga a Tribuna diariamente - prometemos continuar de olho no Euro 2020 - no site, no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.

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