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Caçar ou ser caçado

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O futebol de ataque de Itália tem encantado. E não só: também ganha

O futebol de ataque de Itália tem encantado. E não só: também ganha

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Daqui a uma semana, quando chegar aos vossos e-mails mais uma newsletter da Tribuna Expresso, já saberemos quem é o novo campeão europeu de futebol. De futurologia pouco ou nada sei: não sei ler as cartas, nem jogar os búzios, não consigo olhar para uma mão e ver as linhas da vida, mas há algo que parece mais ou menos aceitável do ponto de vista do método científico: entre Itália, Espanha, Inglaterra e Dinamarca, quem vencer não será um vencedor cínico.

Ou pelo menos ideologicamente cínico. Qualquer uma destas quatro equipas teve os seus momentos de olhar para trás, porque assim são as contingências do futebol, mas a ideia sempre foi positiva. Foram equipas que em boa parte do tempo preferiram caçar a evitar serem caçadas, equipas que, mais do que esperar pelo erro do adversário, provocaram-no.

Itália talvez seja a equipa mais consistentemente de ataque entre as quatro: dominou os adversários na fase de grupos e só pareceu desconfortável na sua ideia em partes do jogo com a Áustria. Equipa defensiva só vimos nos últimos 10 minutos frente à Bélgica, numa altura em que era preciso segurar o 2-1 e manter o controlo emocional depois da lesão gravíssima de Leonardo Spinazzolla.

Espanha teve um problema de falta de eficácia nos dois primeiros jogos do Euro, mas sempre olhou para a frente. Marcou cinco à Eslováquia, mais cinco à Croácia. Falta-lhe, quiçá, a maturidade emocional para segurar as vantagens - porque, lá está, uma equipa de ataque pode ser cínica em alguns momentos.

Já a Inglaterra parece ter deixado todo o seu cinismo naquele jogo miserável com a Escócia, em que teve medo de ganhar. E quando se tem medo de ganhar, está-se mais perto de, efetivamente, não ganhar. Southgate parece ter aprendido a lição e desde aí que as exibições têm sido em crescendo. Frente à Alemanha, nos oitavos de final, soube ler o jogo na 1.ª parte para tratar do assunto eficazmente na 2.ª. A conexão Kane-Sterling já aparece mais e frente à Ucrânia, equipa frágil no momento defensivo, os ingleses marcaram quatro vezes e volume de ataque chegou a ser ofegante. Pelo caminho, ainda não sofreram nem um golo.

A Dinamarca, por seu turno, deu a volta ao choque que foi o incidente com Christian Eriksen, mas o que se vê em campo não é só uma equipa com algo mais a puxar por si, com algo que as outras não têm e que já é quase do campo do esotérico. Porque as soluções para o ataque são variadas, é uma equipa que sabe ser vertiginosa mas também pegar no jogo e com um selecionador astuto, que tem sabido ler os momentos do encontro como nenhum outro neste Europeu. Quando a Dinamarca pareceu mais perdida no controlo do meio-campo, frente à Rússia na fase de grupos e nos quartos de final com a Rep. Checa, foram as alterações de Kasper Hjulmand que voltaram a trazê-la à vida. Os dinamarqueses não têm a nossa simpatia só pelo que passaram: também a têm porque são uma grande equipa de futebol.

Posto isto, vale a pena ir a caça, vale a pena dominar. Não há nada mais estrutural que isso. Tudo o resto é circunstancial, pode resultar uma vez, duas, não resultará mais. Que nos sirva também para refletir.

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O que aí vem

Segunda-feira, 5

🎾 Em Wimbledon é dia de Manic Monday, com Novak Djokovic e Roger Federer em campo (11h, Sport TV2 e 3)

⚽️ Não há Euro, mas pela noitinha há Brasil - Peru, nas meias-finais da Copa América (0h, Sport TV2)

Terça-feira, 6

⚽️ Itália e Espanha disputam a primeira meia-final do Euro 2020 (20h, TVI/Sport TV1)

🚵 Ao longo da semana siga a edição 2021 da Volta a França (12h, Eurosport 1)

⚽️ Já noite dentro, a segunda meia-final da Copa América: Argentina - Colômbia (2h, Sport TV2)

🏀 E também para os noctívagos, arrancam as finais da NBA, entre Phoenix Suns e Milwaukee Bucks (2h, Sport TV4)

Quarta-feira, 7

⚽️ Inglaterra e Dinamarca disputam um lugar na final do Euro 2020 (20h, Sport TV1)

🎾 Segue o torneio de Wimbledon (11h, Sport TV2 e 3)

Quinta-feira, 8

🏐 Andebol: Portugal e Espanha enfrentam-se num jogo de preparação para os Jogos Olímpicos de Tóquio (18h, 11)

⚽️ 🇵🇹 Siga o sorteio da I Liga (18h, Sport TV+)

Sexta-feira, 9

🏅 A poucos dias do início dos Jogos Olímpicos, acompanhe a Liga Diamante do Mónaco (19h, Sport TV5)

⚽️ Os derrotados das meias-finais da Copa América jogam pelo 3.º lugar (1h, Sport TV2)

Sábado, 10

🎾 Final feminina de Wimbledon (13h45, Sport TV2)

⚽️ Copa América: final (1h, Sport TV1)

Domingo, 11

⚽️ Euro 2020: Itália ou Espanha, Inglaterra ou Dinamarca estarão na grande final (20h, RTP1/Sport TV1)

🎾 Final masculina de Wimbledon (13h45, Sport TV2)

Hoje deu-nos para isto

Southgate, no momento em que falha o penálti que impediu a Inglaterra de chegar à final do Euro 1996

Southgate, no momento em que falha o penálti que impediu a Inglaterra de chegar à final do Euro 1996

Ross Kinnaird

Ele há coisas. Há 25 anos andava o it’s coming home na boca de todo o inglês, o futebol regressava de facto a casa nesse Euro 1996 e a Inglaterra estava nas meias-finais. E esteve tão perto de marcar nesse prolongamento agónico com a Alemanha. Paul Gascoigne esteve a centímetros do golo, Darren Anderson enviou uma bola direitinha ao poste. Nesses tempos havia a regra do golo de ouro e aquelas caprichosas bolas seriam o passaporte para a final caso tivessem inclinado um bocadinho para o lado, mas tal não aconteceu.

E nas grandes penalidades quem falhou foi o homem que, um quarto de século depois, pode dar a volta a esta dolorosa memória inglesa, e sabemos que é dolorosa porque quando se vingou da Alemanha nos quartos de final deste Euro, Gareth Southgate lembrou-se dos colegas de 1996 e de como não pode desfazer os efeitos daquela grande penalidade falhada, que colocou os germânicos na final.

Não pode, mas pode dar a cara por um momento de redenção daqueles que só o futebol nos oferece. E se chegar à final do Euro, aquele pontapé falhado de Southgate de há 25 anos será apenas uma memória. Muito menos dolorosa.

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Uma lesão ameaçou a oportunidade de jogar um Campeonato da Europa em casa, mas Terry Venables contou sempre com ele. Anderton, um médio do Tottenham, então com 24 anos, conta à <strong>Tribuna Expresso</strong> sobre o mês em que se ouviu a toda hora "football is coming home". E, claro, sobre aquela noitada em Hong Kong e Gascoigne: "É um génio, é tão, tão divertido e um bocado louco às vezes"

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