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O futebol está pieno di vita

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A Itália, a seleção mais cheia de vida deste Europeu, levou mesmo a taça. O futebol agradece

A Itália, a seleção mais cheia de vida deste Europeu, levou mesmo a taça. O futebol agradece

Laurence Griffiths/Getty

Aqui há uns anos passei uns dias valentes lá onde Itália é mais a sul, na Sicília, onde pessoas que mal me conheciam me abriram as portas das suas casas, me chamaram para os seus almoços de domingo, onde me gozaram por pôr o cinto no banco de trás do carro e onde gente me serviu o que de melhor há para comer e beber enquanto me contava magnanimamente as suas histórias e pedia de pagamento muito menos do que tudo aquilo valia.

Mesmo que o epicentro do futebol italiano esteja no norte mais escuro e de cara fechada, sempre me perguntei porque jogavam os italianos à bola de uma maneira que pouco ou nada parecia ter a ver com aquela generosidade e sorriso na cara, com aquelas noites quentes em pleno outubro, com o aparente caos organizado das cidades e do seu trânsito.

De repente, em 2021, tudo começou a fazer mais sentido.

Como um nascer do sol em Ortígia, o futebol italiano tornou-se mais luminoso. A bola, antes controlada à distância e roubada apenas para ações estritamente necessárias, passou a ser tão bem-vinda nos pés dos italianos como um fresco copo de malvasia num final de tarde de verão. A variabilidade do ataque tinha a destreza das mãos italianas que falam e o controlo do meio-campo dado por Jorginho, Verratti e Barella eram o ponto de equilíbrio para que a Vespa chamada Insigne pudesse contornar o trânsito adversário - neste último mês, a Itália foi a equipa que mais consistentemente olhou para a frente e por isso ninguém merecia tanto ganhar este Europeu.

E as dificuldades que sentiu frente à organização austríaca, frente a uma Espanha que lhe roubou aquilo que agora mais gosta, a bola e, na final, aquela 1.ª parte em que estrategicamente a Inglaterra foi mais forte, só tornam o triunfo italiano ainda mais enfático. Porque a cada dificuldade, Mancini respondeu com uma solução quase sempre coletiva e não individual. Não houve jogadores para abanar, não houve uma substituição seja-o-que-deus-quiser. Houve planos B e C sem que praticamente nunca a nova ideia italiana fosse abandonada. Quando a Itália não teve bola, e isso só aconteceu frente a Espanha, não foi porque não a quis, foi porque o adversário foi melhor a ficar com ela.

A vitória italiana é, portanto, a vitória da recusa do medo e do anti-jogo, é a vitória que diz não ao jogar na expectativa, à espera daquilo que o adversário vai fazer. E isso são sempre boas notícias, até porque muitas outras equipas o fizeram neste Europeu.

Esta noite lembrei-me algumas vezes de uma canção que me acompanhou sempre nesses tais tempos na Sicília. Não por escolha minha, mas porque por esses dias era omnipresente na televisão, nas rádios, nas instalações sonoras dos supermercados e cafés. Chamava-se “Pieno di Vita” e nunca cheguei a perceber se era uma canção alegre ou triste, ou até alegremente triste, como são, aliás, quase todos os finais de verão. “È un estate bellissima, è finita di giá”, diz o refrão e sim, foi um verão belíssimo e já acabou mas o futebol, esse, para bem dos nossos pecados, está pieno di vita.

O que se passou

Enquanto na Europa se festejou a vitória do futebol positivo, cá dentro o Benfica vive na incerteza: Luís Filipe Vieira suspendeu as suas funções como presidente do Benfica, Rui Costa autoproclamou-se presidente do Benfica, o juiz Carlos Alexandre não disse que Luís Filipe Vieira não pode ser presidente do Benfica, mas ao mesmo tempo impediu-o de contactar com outros administradores da Benfica SAD.

Uma situação, no mínimo, bizarra.

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O sérvio é apenas o quinto tenista da história a conquistar os três primeiros Grand Slams de uma temporada (são quatro). Novak Djokovic venceu Matteo Berrettini em quatro <em>sets</em> (), virou tricampeão em Wimbledon e o jogo da apanhada com os outros dois monstros do ténis está, de novo, em pausa: como Federer e Nadal, também Djokovic chegou aos 20 <em>majors</em>

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O que vem aí

Segunda-feira, 12

🎾 Tendo livrado as sapatilhas dos tenistas da sujidade tijoleira com a passagem por Wimbledon, arranca neste dia um torneio que retorna à terra batida: o ATP 500 de Hamburgo, na Alemanha (11h30, Sport TV3).

Terça-feira, 13

🚵 A 16.ª etapa do Tour terá quatro contagens de montanha (uma de primeira e duas de segunda categoria) pelo meio dos 169 quilómetros entre Pas de la Casa e Saint-Gaudens (12h, Eurosport).

Quarta-feira, 14

⚽ O Palmeiras de Abel Ferreira joga a primeira mão dos oitavos-de-final da Copa Libertadores (da qual é o detentor do troféu) contra o Universidad Católica, do Chile (23h15, Sport TV1).

Quinta-feira, 15

🏀 Quarto jogo da final da NBA entre os Phoenix Suns e os Milwaulkee Bucks. Os primeiros vão com duas vitórias em ganhando esta partida, garantirão a conquista do título (2h, Sport TV).

Sexta-feira, 16

⚽ O primeiro jogo particular da pré-época do Benfica com direito a transmissão televisiva é contra o Paços de Ferreira (18h, BTV).

Sábado, 17

🚴 A penúltima etapa do Tour de France terá o habitual contrarrelógio (12h, Eurosport) que poderá remexer com a classificação geral e os temperamentos dos ciclistas quando for altura de beber um copo de champanhe enquanto pedalam nas ruas parisienses, no dia seguinte.

Domingo, 18

🚴 Termina a Volta a França com a costumeira chegada do pelotão aos Campos Elísios, em Paris (15h10, Eurosport).
🏎️ Que se aqueçam os motores para o Grande Prémio do Reino Unido em Fórmula 1 (15h, Eleven Sports).
🎾 Jogam-se as finais do torneio de Hamburgo: às 15h a feminina, às 16h a masculina (Sport TV3).

Hoje deu-nos para isto

Há coisas em que não há volta a dar. Tal como serei sempre mais Senna do que Prost, apesar do segundo ter ganhado mais do que o primeiro, também serei até ao fim dos dias mais Roger Federer que Novak Djokovic.

Mas aquilo que o sérvio anda a fazer nos últimos anos, e particularmente neste ano de 2021, é de outro nível no que aos ganhadores em série diz respeito. Este domingo, injustamente escondido na agenda mediática por ter tido o azar da final de Wimbledon calhar no mesmo dia e na mesma cidade da final do Euro, Djokovic chegou à vitória número 6 no terceiro major do ano e, mais importante e impressionante que tudo, igualou Roger Federer e Rafael Nadal na lista de maiores vencedores de torneios do Grand Slam. São 20 para cada um deles. Djokovic é mais jovem e vai seguramente fechar a carreira destacado no topo, isto quando parece que ainda há dias o vi pela primeira vez, no Roland Garros de 2006, a dar água pela barba a Guillermo Coria, um dos grandes especialistas na terra batida naqueles tempos.

Na altura já era intenso, já tinha uma energia incomum no fundo do court mas que se iria tornar **nisto** era impossível de prever. Não demoraria muito a vencer um torneio do Grand Slam: foi logo em 2008, no Open da Austrália. Tinha 20 anos e uma barba imberbe, como se pode ver pelo vídeo abaixo.

Agora, 13 anos depois, tem tudo para imitar Rod Laver e tornar-se no primeiro tenista depois do mítico australiano a vencer os quatro majors no mesmo ano. Passou a correr.

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Era apenas um rapaz de 20 anos, mas já número 3 do ranking e uma enorme atitude. Em 2008, Novak Djokovic começou a sua história de amor com o Open da Austrália. Daí até cá, ganhou mais oito vezes <em>down under</em>

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