Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE

O lugar das grandiosas aberrações da humanidade

Partilhar

A derradeira aterragem de Oksana Chusovitina, a ginasta de 46 anos que se despediu em Tóquio, ao fim de oito participações olímpicas

A derradeira aterragem de Oksana Chusovitina, a ginasta de 46 anos que se despediu em Tóquio, ao fim de oito participações olímpicas

LOIC VENANCE/Getty

Duvido um grande pedaço de que Oksana Chusovitina soubesse do que a vida é feita quando tinha 17 anos, sabê-lo com essa idade, normalmente, é sintoma maior de agruras indesejáveis, hiperativas na sua urgência em bater de frente na ingenuidade com que todos nascemos e carregamos adolescência fora, se tivermos sorte. Em 1992, a então rapariga estava em Barcelona a competir pelo que restava da colada União Soviética e a ganhar uma medalha de ouro, na prova coletiva da ginástica artística.

Este domingo, Oksana era o corpo estranho entre muitas raparigas e várias jovens adultas em Tóquio, no pavilhão onde algumas já sabiam o quão invernosa pode ser a vida, cheia de nuvens de um gordo cinzento a choverem cascatas, a fenomenal Simone Biles ciente disso é e só tem 24 anos. Está longe dos 46 de Chusovitina, que em ginástica-artistiquês é como se um dinossauro tivesse resistido aos milénios.

A uzbeque é extraordinária apenas pela sua presença no Japão e dourada sairia sempre dos Jogos mesmo antes de lá ter chegado. Devido à idade, porque se dedica à modalidade em que ultrapassar as duas décadas é confundido com velhice e se querem corpos ainda na agilidade da puberdade, mas, sobretudo, pela história que carrega nas rugas, que pisa nas sapatilhas brancas de outra era.

Oksana Chusovitina competiu pela URSS, pela Seleção Unificada (Jogos de 1992), pelo Uzbequistão (1996, 2000, 2004 e 2016) e, durante muitos anos, pela Alemanha (2004 e 2008), para onde se mudou em 2002 quando a vida a esbofeteou sem piedade: ao filho, Alistair, foi diagnosticada uma leucemia e a ginasta trocou de país em conseguir ganhar dinheiro que lhe pagasse os dispendiosos tratamentos.

Oksana Chusovitina nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona. Tinha 17 anos

Oksana Chusovitina nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona. Tinha 17 anos

JEAN-LOUP GAUTREAU/Getty

Foi resistindo ao atrito do tempo nos seus trintas e quarentas treinado só duas a três horas por dia, bebendo muito café e comendo chocolate negro para aguentar as manhãs que odeia. Lidou, apenas, com duas cirurgias ao ombro e uma rutura no tendão de Aquiles, tem cinco movimentos batizados com o seu nome, ganhou 11 medalhas em 17 mundiais e, em 2008, levou a prata na prova do salto, a sua especialidade - 16 anos depois de estrear o seu medalheiro olímpico -, ao contrário das barras assimétricas, que desaprovou animadamente ao segurar um cartaz no qual se lia "I Do Not Like Bars", durante o evento The Superstars of Gymnastics, em 2019.

A raríssima Oksana Chusovitina é uma aberração esplendorosa. Esteve em oito edições das olímpiadas e não estará em nove, agora quer "ser uma mãe" para o filho que é mais velho do que a grande maioria das adversárias da mãe, quer ser "uma mulher" para o marido, também olímpico na luta grego-romana. Ela é o tipo de história incrível que ciclicamente vemos nos Jogos Olímpicos, o terreno mais fértil no mundo para a exposição da grandeza que há no desporto, valha medalhas ou não.

Nunca é demais relembrar que para a grande vasta maioria dos milhares de atletas qualificados, na maior parte das modalidades, os Jogos são o pináculo da sua existência atlética, o motivo-último que os alimenta nas vidas de eunuco para o desporto e a nós, como Bruno Vieira Amaral explica melhor do que eu, jamais nos compete julgar ou apontar o dedo se, por acaso, não regressam das olímpiadas com medalhas.

E isto vale para todos, seja para a quarentona Oksana Chusovitina ou para a dor chorosa de Telma Monteiro; para o norueguês Kristian Blummenfelt, que caiu sobre os joelhos e vomitou mal cruzou a meta após ser o mais rápido a fazer os 1,5km de natação, os 40km de bicicleta e os 10km de corrida do triatlo; para o tunisino Ahmed Hafnaoui, o mais lento a qualificar-se para a final dos 400 metros livres que acabou com o espantoso; para todas as atletas capazes de competirem até Tóquio depois de terem sido mães ou para tantos outros exemplos estava condenado a não mencionar, exatamente por serem tantos.

Qualquer atleta que subsista a anos e mais anos de sacrifícios e provação, que enchem cada lágrima vertida em Jogos Olímpicos, merece o orgulho de quem partilhe pátria com eles e jamais deveria levar com dedos de reprovação por causa de seja qual for o resultado. Tóquio é o lugar mais recente onde as sublime aberrações da humanidade se juntam e nós, os comuns na visão das lunetas desportivas, deveríamos simplesmente apreciá-los.

O que se passou

Leia também

Ela errou, fez caretas, esgares de insatisfação, mas até uma Simone Biles assim-assim dá para ir a todas as finais

Em dia de qualificação da ginástica, a norte-americana, provavelmente a grande estrela destes Jogos Olímpicos de Tóquio, errou onde não costuma errar, revirou os olhos, bufou. Mas é tão superior aos comuns mortais que mesmo assim se qualificou para todas as finais. São seis medalhas que estão ao alcance de Biles, que só precisa de quatro para se tornar na ginasta mais medalhada da história

Leia também

Telma Monteiro: "Não sei o que vai ser o futuro, mas se eu quiser ir a Paris, eu vou"

Judoca portuguesa sublinhou a tristeza de deixar os Jogos de Tóquio tão cedo na competição, com uma adversária que apostou numa estratégia defensiva, obrigando-a a longos momentos de ataque, mas aos 35 anos não descarta uma ida a Paris 2024

Leia também

Isto já não é tudo à maneira de Ledecky nas piscinas. A crónica de uma das mais esperadas finais olímpicas da natação em Tóquio

Manteria Katie Ledecky o domínio olímpico nas disciplinas de média e longa distância? Ou Ariarne Titmus tomaria o seu lugar nos 400 metros, depois de já a ter derrotado nos Mundiais de há dois anos? As perguntas redundaram numa manhã de emoções fortes no Centro Aquático de Tóquio (onde já foi uma aventura daquelas para chegar), numa prova decidida nos últimos metros

Leia também

Ainda bem que vieste, Yolanda Hopkins: está nos quartos-de-final do surf olímpico após eliminar vice-líder do ranking mundial

Na praia de Tsurigasaki, em Chiba, a portuguesa foi melhor do que Johanne Defay, a francesa vice-líder do circuito mundial de surf onde Yolanda Hopkins nunca esteve. Mas, com esta vitória, está entre as oito melhores surfistas dos Jogos e garante mais um diploma olímpico para Portugal

Leia também

A não tão dream team voltou a perder 25 jogos depois

Seleção norte-americana de basquetebol não perdia desde as meias-finais do torneio olímpico de 2004, em Atenas. Os EUA, ou a 'dream team' (uma eterna alusão à famosa equipa de 1992), ganharam a medalha de ouro em 2008, 2012 e 2016

Leia também

Hoje há festa na casa dos Abe: os irmãos Uta e Hifumi são campeões olímpicos de judo

A ideia de vencer como uma dupla de irmãos começou em 2018, quando ambos venceram os Mundiais de Judo de Baku. A partir daí, aquele tímido desejo passou a fronteira do impossível para o lado mais bonito do desporto, a arte das possibilidades e do sonho

Leia também

No melhor bar de Tóquio, o ombro de Gustavo Ribeiro não lhe permitiu pedir a última rodada. Mas o diploma ninguém lhe tira

Foi numa manhã de tórrido calor em Tóquio que Gustavo Ribeiro, embalado pela grande banda sonora do Parque de Desportos Urbanos de Ariake, chegou à final da prova de street, na estreia do skate em Jogos Olímpicos. Um 8.º lugar que poderia ter sido mais qualquer coisa, não fosse uma arreliadora lesão no ombro voltar para estragar os desejos de medalha do jovem de 20 anos

Leia também

Van Vleuten pensava que tinha vencido finalmente a prova de ciclismo de estrada e celebrou na meta. Mas o ouro era afinal prata

Sem rádio e com a austriaca Anna Kiesenhofer tão à frente, a holandesa Annemiek van Vleuten nunca sonhou que havia alguém para atacar, então não atacou. "Eu não sabia, eu estava errada. Eu não sabia", confessou no final da prova

Leia também

E agora Catarina, o que vais fazer depois deste 5.º lugar? “Dar um grande abraço ao meu treinador e à noite comer uma fatia de pizza"

Catarina Costa ficou a um pequeno passo de logo ao primeiro dia dar uma medalha a Portugal nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Caiu já no combate de atribuição do bronze, depois de um percurso em que bateu, por exemplo, a campeã olímpica em título Paula Pareto. No final, desejos normais de quem passou todo um ciclo olímpico a fazer sacrifícios

Leia também

Tiros, valentia e 15 minutos fatais: seleção portuguesa de andebol estreia-se com derrota frente ao Egipto mas deixa bons sinais

Portugal perdeu por 31-37 com a seleção africana, que cavalgou a diferença no marcador nos últimos 15 minutos do jogo. "Neste tipo de jogos os erros pagam-se caro, errámos muito, perdemos algumas bolas", analisou no fim Pedro Portela. Portugueses voltam a jogar na segunda-feira

Leia também

Um dia de cada vez para ser melhor atleta, melhor médico e melhor pai. E dois anos para o próximo objetivo de Rui Bragança

O atleta do taekwondo chegou a Tóquio com o objetivo de melhorar o 9.º lugar no Rio, num ano em que se dividiu entre a qualificação olímpica, os treinos, os hospitais onde termina a formação de médico e outro emprego a tempo inteiro: ser pai de um recém-nascido. Perdeu ao primeiro combate, mas quer ir a Paris

Zona mista

A minha vida não acaba aqui, como é lógico. Mas, depois do 5.º lugar [no Rio 2016], posso dizer que tive um grande down psicológico, sabia que estava perto das medalhas, mas, naquela prova, não ia dar. Propus-me a conseguir trabalhar durante quatro anos e a tentar sonhar com uma medalha, como se, na altura, estivesse perto mas desperdicei, e agora que queria, não consegui. Mas a vida é mesmo assim dá-nos grandes lições. Sinto que quanto mais conseguirmos ser apoiados por parte do Estado, do IPDJ e do Comité Olímpico...

Sinto que temos uma vida bastante instável e que não nos dá muito segurança. O que nos vai salvando é os clubes, quem consegue entrar em grandes clubes e ir recebendo um ordenado. Se não, a vida no alto rendimento é muito complicada. Virmos para cá lutar por medalhas é irrealista a comparar com as condições que há noutros países. O que posso dizer é que somos sonhadores, as pessoas dão o máximo nas federações com o têm e o que não têm, até com investimentos próprios e longas horas a mais de trabalho. Com melhores condições, os atletas que hão-de vir serão melhores.

João Pereira, ainda a arfar, após terminar na 27.ª posição a prova de triatlo, que arrancou às 6h30 para tentar escapulir-se ao húmido calor de Tóquio, e ainda ter fôlego para encadear longas e eloquentes respostas às perguntas da "RTP", sobre o que é ser triatleta, fazer por esta vida e semear coisas para os desportistas do amanhã colherem.

O que vem aí

Segunda-feira, 26

🤾‍♂️ Perdido o primeiro jogo do torneio olímpico (frente ao Egito), a seleção nacional de andebol defronta o Bahrain (11h30, RTP).
🏅 Melanie Santos é a única portuguesa a nadar, pedalar e correr na prova de triatlo dos Jogos Olímpicos (22h30, RTP ou Eurosport).

Terça-feira, 27

🥋 Anri Egutidze é o judoca português que entra em prova na categoria de -81kg, entrando no tatami às 3h e às 9h (RTP ou Eurosport).
🚴‍♂️ Nélson Oliveira e João Almeida vão pedalar na prova de contrarrelógio (6h, RTP).
🏄‍♀️ Yolanda Hopkins entra nas ondas de Chiba para surfar nos quartos-de-final da prova olímpica (9h24, RTP).
🤸‍♀️ Há final da prova feminina por equipas de ginástica artística em Tóquio - ou seja, da provação medalhística de Simone Biles (9h45, RTP ou Eurosport), que chegou a esta fase qualificando-se em segundo lugar com os EUA, atrás do conjunto do Comité Olímpico Russo.
⚽ Haverá um dos jogos grandes do torneio olímpico: Espanha (que conta com seis futebolistas que estiveram no Europeu) e Argentina defrontam-se ainda a contar para a fase de grupos (12h, RTP1).

Quarta-feira, 28

🤾‍♂️ No andebol, Portugal enfrenta a Suécia (3h, RTP) no terceiro dos quatro encontros que fará na fase de grupos.
🥋 Bárbara Timo estará em prova na categoria dos -70kg do judo.
⚽ O FC Porto tem um jogo particular de pré-época com a AS Roma de José Mourinho, no Algarve (20h, Porto Canal).

Quinta-feira, 29

🤸‍♀️ A senhora a quem o Twitter já dedicou um emoji de um bode (GOAT, leia-se Greatest Of All Time) com uma medalha ao pescoço, participa na final feminina all-around de ginástica artística (9h50, RTP ou Eurosport).

Sexta-feira, 30

🎽 Começa a participação portuguesa no atletismo: Lorene Bazolo (100 metros), Patrícia Mamona e Evelise Veiga (triplo salto) e Auriol Dongmo (lançamento do peso) entram em prova às 3h40, 11h05 e 11h25 (RTP ou Eurosport).
🥋 É a vez da judoca Rochele Nunes competir (3h e 9h, RTP ou Eurosport).
🤾‍♂️ É dia de Portugal-Dinamarca, derradeira partida da fase de grupos do torneio de andebol (11h30, RTP).

Sábado, 31

🥇 Correm-se os 10.000 metros de atletismo (11h30, RTP e Eurosport) e também se discutem as medalhas em várias provas dos 100 e 200 metros em natação (RTP e Eurosport).
⚽ É dia de Supertaça de Portugal, que vai ser disputada entre o Sporting e o Braga, no Estádio Municipal de Aveiro (20h45, TVI).

Domingo, 1

🥇 É dia da final dos 100 metros femininos (12h50, RTP ou Eurosport) e da decisão da prova masculina do lançamento do peso (11h15, RTP ou Eurosport).
⚽ O Lille de José Fonte e Renato Sanches joga pela Supertaça de França contra o Paris Saint-Germain de Danilo Pereira (19h, Eleven Sports1).

Hoje deu-nos para isto

Carlos Lopes, em 1984, agarrado à bandeira de Portugal, após ser o mais rápido a correr a maratona e a dar a primeira medalha de ouro ao país em Jogos Olímpicos

Carlos Lopes, em 1984, agarrado à bandeira de Portugal, após ser o mais rápido a correr a maratona e a dar a primeira medalha de ouro ao país em Jogos Olímpicos

Getty Images

Diria muitos anos e dias depois que "deu a ideia" de ser "a coisa mais fácil do mundo" correr os 42 quilómetros e 195 metros nos alcatrões de Los Angeles. Nunca sequer tinha sido o mais rápido a percorrer uma maratona, era façanha desconhecida, mas "tinha quase a certeza de que ficava nos três primeiros lugares" e crenças destas não se explicam, primeiro trabalham-se e depois formam-se nas fundações dessa labuta.

Carlos Lopes foi o primeiro português a dar um círculo de ouro a Portugal em Jogos Olímpicos, já lá vão os anos. Em 1984, o maratonista foi o lobo paciente e astuto que esperou pelos últimos cinco quilómetros para dar um safanão na resistência dos adversários, pisar o acelerador e aproveitar a sapiência inabalável de ser "só o melhor atleta do mundo dos 10.000 metros e um dos melhores em 5.000. Tinha uma vantagem tremenda sobre todos. Com estes elementos é fácil gerir bem a coisa".

A Alexandra Simões de Abreu entrevistou-o em 2017, para a Tribuna Expresso, quando fez 70 anos. A conversa com Carlos Lopes arrancou precisamente em Los Angeles, na forma como deu às pernas na maratona, na sua mente de estratega para preparar a prova e como respeitou os adversários apesar da sua frescura lhe pedir um aproveitamento festivo do momento.

Leia também

Carlos Lopes: “Houve um momento em que decidi que o Mamede não era meu amigo e acabou ali”

Como ele próprio diz, a sua maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles foi tão perfeita que "deu a ideia que era a coisa mais fácil do mundo". Não foi, não é. Carlos Lopes sabe que "atletismo é um jogo de paciência" e conta como aquela medalha de ouro foi pensada ao pormenor. Em entrevista à <strong>Tribuna Expresso</strong>, o campeão olímpico admite que era sarrafeiro a jogar à bola, confessa que foi difícil sair debaixo das saias da mãe, recorda o dia em que, com sete anos, teve de ir à procura do corpo da irmã no rio que passava à beira de casa e levanta o véu sobre a zanga com Fernando Mamede

Saudações olímpicas e que tenha uma boa semana, siga a Tribuna diariamente no site (onde encontrará as reportagens da Lídia Paralta Gomes, que está em Tóquio, um guia dos 92 atletas que foram a Tóquio e uma contagem de medalhas por país, sempre em atualização), no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.