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Vamos ter saudades do desporto, deste desporto

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Chegar aos Jogos e, com 32 anos, saltar pela primeira para lá dos 15 metros valeu a prata a Patrícia Mamona

Chegar aos Jogos e, com 32 anos, saltar pela primeira para lá dos 15 metros valeu a prata a Patrícia Mamona

CHRISTIAN BRUNA/LUSA

Dez mil e trezentas e cinco pessoas é um maralhal de gente e pelo menos eu, mas arrisco julgar que muita gente será assim, sofro de mamarrachismo agudo. Estivessem essas dez mil e trezentas e cinco pessoas juntas no mesmo lugar, à frente dos olhos, e diria apenas que são muitas, que está ali uma multidão, humanos aos magotes ou outra expressão fácil para fugir à dificuldade em apalpar quantidades com alguma precisão.

Prezado seja quem inventou os números e o conforto de passarmos a 10.305, assim já roçamos a noção do aglomerado em questão, embora continuemos a pescar patavina do que é, durante três semanas, estarem os melhores homens e as melhores mulheres de cada uma de trinta e três modalidades no mesmo país. São 33, desta quantidade não custa termos ideia, mas sermos donos da noção do que é sequer alcançar uns Jogos Olímpicos é como queremos fugir da própria sombra.

A não ser que se compita e se treine quem o faça, ou se seja familiar, ou seu amigo para a vida, é impossível compreender o que um e uma atleta suportou para estar em Tóquio, em Londres, em Pequim, em Atenas, em Sydney e todas as cidades antecessoras na hospedagem do mais excelso que existe no desporto. Que não é o futebol, lamento. Pode ser a mais gostada, praticada e seguida forma de exercício físico no mundo, é incrível em muitas coisas como tantas outras formas, mas até ousadia teve em considerar-se o desporto-rei quando o desporto é um todo, uma árvore da qual crescem tantos ramos.

A cada quatro anos (foram cinco, neste caso) vêm os Jogos Olímpicos focar a atenção em indivíduos e gente singular, puxar anos de sacrifícios para a merecedora ribalta e historiar acerca de atletas sobre quem demoramos segundos, talvez minutos, a embelezar com elogios de ocasião ou a rebaixar com a presunção de lhes podermos cobrar alguma coisa. Mas o que distingue os humanos de todas as espécies também é a linguagem falada e ela deixa-nos discorrer sobre o que nos der na real gana - e depois, só depois, costuma vir a noção das coisas.

O abraço de amizade e euforia partilhada entre Patrícia Mamona e o italiano Gianmarco Tamberi

O abraço de amizade e euforia partilhada entre Patrícia Mamona e o italiano Gianmarco Tamberi

Richard Heathcote/Getty

Eu não a tinha sobre o facto de Patrícia Mamona trabalhar com um biomecânico para lhe perscrutar os saltos com a lupa da Física, nem sabia do anel que coloca todas as noites, antes de dormir, para vigiar a temperatura do corpo e os ciclos de sono, "porque já estás num ponto em que gastaste as tuas fichas todas e tens de procurar algo novo para melhorar".

Tinha zero noção de que a recém-medalhista portuguesa era amiga de Gianmarco Tamberi, o italiano que correu a abraçá-la com ela envolta numa gigante bandeira de Portugal, que levou o gesso da perna partida que o retirou do Rio 2016 para o Japão e que, pouco antes, comemorou efusivamente Mutaz Essa Barshim - ele e o qatari concordaram em partilhar o ouro no salto em altura em vez de continuarem a tentar desempatarem-se contra a gravidade.

Assim, em coisa de poucos minutos deste domingo, houve o exemplo de três das 10.305 pessoas que esmiúçam tudo o que há de atlético nelas, a mostrarem o que é o desporto e desportivismo através do cocuruto do icebergue das suas histórias. Os sacrifícios, o abdicar de coisas e o sofrimento suportado durante anos para apanharem a única vez em quatro anos que o comboio olímpico pára no seu apeadeiro serão comuns a todas essas pessoas, que escolheram modalidades fora da que reclama reinados.

E é pena que seja já no próximo domingo que a tocha olímpica se apaga e que Tóquio seja abandonada pelo que resta dos 10.305 espécimes de grandeza atlética. Não há quem saiba mais do que eles sobre as coisas que suportam, nem quem os entenda melhor do que eles próprios. Eles são o Desporto, através de como dedicam uma vida às suas modalidades para nelas se provarem, em muitos casos, sozinhos. Não há um desporto que seja rei, há é muitos reinados no Desporto.

O que se passou

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Patrícia Mamona é medalha de prata no triplo salto em Tóquio

Atleta portuguesa bateu o recorde nacional por duas vezes na prova e chegou pela primeira vez na carreira aos 15 metros. Mas mais importante que tudo: chegou à medalha olímpica, a segunda de Portugal nestes Jogos de Tóquio

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Quando chegou à zona do estádio de Tóquio onde a "RTP" a esperava, para a primeira auscultação à vice-campeã olímpica do triplo salto, claro que Patrícia Mamona estava ofegante, óbvio que reforçou as comportas para segurar as lágrimas, naturalmente que estava um pranto de emoção: “Tudo parece super surreal. Estou orgulhosa de todos nós. Disseram que Portugal é um país pequeno, mas conseguimos fazer coisas grandes”

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A oitava medalha de prata da história olímpica portuguesa fez-se de superação, de evolução constante e de um recorde pessoal batido por 35 centímetros. Não há melhor palco para o fazer do que uns Jogos Olímpicos e Patrícia Mamona sabe disso, mas ainda não consegue explicar aqueles saltos que lhe foram saíndo

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A atleta bielorussa Krystsina Tsimanouskaya disse aos jornalistas que foi levada para o aeroporto de Tóquio contra a sua vontade, depois de ter criticado os seus treinadores. O regime de Alexander Lukashenko é conhecido por não tolerar opositores e um desvio de avião há uns meses prova que a sua determinação é de aço. A velocista pediu asilo e não embarcou no voo que lhe era destinado

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Pardais e aves de rapina

A vitória na Supertaça também serviu para arrefecer os ânimos daqueles que justificaram a vitória do Sporting no campeonato com um conjunto irrepetível de fatores – pandemia, ausência de público nos estádios, calendário suave – e esperavam que, agora, com o pesado estatuto de campeão nacional, o Sporting aparecesse na sua versão pré-pandémica, cheio de dúvidas, hesitações, velhos temores

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No dia em que bateu (duas vezes) o recorde nacional no triplo salto, o que lhe deu a medalha de prata no Japão, republicamos esta entrevista com Patrícia Mamona, feita poucas semanas antes dos Jogos de Tóquio. O atletismo começou por ser o plano B, mas hoje está-lhe nos ossos marcados e no sono que falta. O apelido Mamona significa visionário, mas o nome não devia ser Patrícia. Ela chama-se foco e sacrifício, que estão no "desastre" em que tem uma tíbia, no centímetro que "são cinco anos de trabalho" e de "dizerem que [está] velha". Uma conversa sobre os valores da nova campeã olímpica de Portugal

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E, num instante, nada muda por aí além

Um golaço de Pedro Gonçalves de trivela, ainda na primeira parte, fechou a reviravolta do Sporting após o arranque pressionante do Braga. Na segunda, o campeão nacional jogou melhor, controlou quase tudo, agarrou a final pelos colarinhos para conquistar (2-1) a Supertaça de Portugal e mostrou como, no ápice que passou entre duas épocas, nada parece ter mudado

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“Não nos tratem como bárbaros que não se sabem comportar”, apelava um adepto antes de entrar para assistir ao vivo ao jogo da Supertaça, acompanhado pela filha, ela crente de que “não é o futebol que vai matar alguém, só se for do coração”. As preces dos fiéis do futebol foram ouvidas e a <strong>Tribuna Expresso</strong> acompanhou a romaria de 6.710 espetadores ao Estádio Municipal de Aveiro

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Rúben Lima faz parte do role de jogadores que são "pescados" cedo pelo Benfica, mas que após vários anos de formação e de empréstimos não conseguem vingar na equipa principal do clube da Luz. Nesta primeira parte da entrevista, conta como foi crescer no clube, onde conheceu um treinador especial, Bruno Lage, e fala das aventuras que viveu em Vila das Aves - onde apontou uma espingarda pela janela do vidro de um carro para assustar um colega -, em Setúbal e Aveiro antes de partir para a Croácia

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Das aventuras na Croácia onde jogou em três clubes e esteve a treinar à parte alguns meses, ao regresso a Portugal, Rúben Lima, de 31 anos, fala nesta segunda parte da entrevista de um período em que esteve sem jogar porque o presidente do clube não queria. E de como a espera por clubes estrangeiros podem de alguma forma prejudicar a carreira. Diz que, se mandasse, o festejo dos golos com o tirar da camisola deixava de ser punido.

Zona mista

Há dias maus, mas ninguém acompanha, no fim toda a gente quer medalhas, quer éxitos

Patrícia Mamona, ainda atestada de adrenalina até ao tutano, ao falar aos jornalistas na zona mista após pairar na gravidade, saltar até à prata e evidenciar o défice de atenção do qual é comum padecermos quando confundidos gostar de desporto com gostar de uma ou duas modalidades que temos por hábito seguir, ou praticar.

O que vem aí

Segunda-feira, 2

🏃🏅 A final masculina dos 3.000 metros obstáculos arranca às 13h15 no Estádio Olímpico de Tóquio (RTP ou Eurosport), seguida da decisão dos 5.000 metros femininos, com início marcado para as 13h40.

Terça-feira, 3

🎽 Nélson Évora, Tiago Pereira e Pedro Pablo Pichardo iniciam a qualificação na prova do triplo salto (a partir da 1h, RTP). Ainda no atletismo, outros três portugueses arrancam a sua participação nos Jogos Olímpicos: Lorene Bazolo (12h50) nos 200 metros, Cátia Azevedo (00h45) nos 400m e Francisco Belo no lançamento do peso (11h15). E na canoagem, Fernando Pimenta vai pagaiar em K1 1000m (1h e 3h13), enquanto Teresa Portela e Joana Vasconcelos competem nos 200m de K1 feminino (00h30 e 2h30).
⚽ Às 8h e às 11h, acontecem as duas meias-finais do torneio olímpico de futebol masculino: México e Brasil jogam primeiro, o Japão e a Espanha defrontam-se depois.

Quarta-feira, 4

🎽🏅 As finais masculinas dos 200 (11h55) e 800 (11h05) metros realizam-se no Estádio Olímpico de Tóquio, como a decisão dos 400 metros barreiras femininos (00h30, RTP ou Eurosport).
⚽ A tentativa de o Benfica chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões arranca em Moscovo (18h, Sport TV), na primeira mão da 3.ª pré-eliminatória, contra o Spartak de Rui Vitória.
🛹 O evento feminino de park skate arranca às 23h42 (RTP ou Eurosport) e atenção a Sky Brown: tem 13 anos, é atleta britânica mais jovem a participar numas Olímpiadas e fá-lo como uma das candidatas às medalhas.

Quinta-feira, 5

🎽🏅 José Vieira vai marchar 50 quilómetros em Tóquio, a partir das 21h30 (RTP), ou seja, das 5h30 em Tóquio, para os atletas se tentarem esquivar o calor tórrido do verão japonês.

Sexta-feira, 6

🎽🏅 Muita coisa se decide na pista olímpica: os homens vão correr nos 5.000 metros (11h, RTP ou Eurosport) e nos 400 metros estafetas (13h50); as mulheres competirão na final dos 400m (10h35), dos 1.500m (10h50) e também dos 400 metros estafetas (11h50).
⚽ A primeira jornada da I Liga tem o seu primeiro jogo com quem acabou o último campeonato no primeiro lugar: o Sporting, recém-vencedor da Supertaça de Portugal, recebe o Vizela (20h15, Sport TV1).

Sábado, 7

🥇 É só medalhas atrás de medalhas. À maratona feminina (23h), seguir-se-ão as finais de salto em altura das mulheres (8h35), dos 10.000 metros femininos (8h45), dos 1.500 metros masculinos (10h40) e dos 400 metros barreiras por estafetas de mulheres (11h30) e homens (11h50). Tudo para ver na RTP ou na Eurosport.
⚽ A I Liga regressa em força: Arouca-Estoril (15h30, Sport TV3), Moreirense-Benfica (18h, Sport TV1) e Marítimo-Braga (20h30, Sport TV1).

Domingo, 8

🔥😢 É dia de cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos, já depois de realizadas as finais de vários eventos (voleibol, polo aquático, andebol feminino, ginástica sincronizada, basquetebol feminino) e da tradicional maratona masculina.
⚽ Mais bola da principal divisão em Portugal para ser vista: Tondela-Santa Clara (15h30, Sport TV3), V. Guimarães-Portimonense (15h30, Sport TV2), FC Porto-Belenenses SAD (18h, Sport TV1) e Paços de Ferreira-Famalicão (20h30, Sport TV1).

Hoje deu-nos para isto

Em 2008, o ouro olímpico no triplo salto foi de Nélson Évora. Treze anos volvidos, ele ainda cá está

Em 2008, o ouro olímpico no triplo salto foi de Nélson Évora. Treze anos volvidos, ele ainda cá está

Stu Forster/Getty

Paremos por um momento e imaginemos. Temos 37 anos, milhentos saltos no corpo, cada vez que saltamos é a triplicar e escolhemos viver a fustigar progressivamente os ossos e as articulações, são muitos pés plantados em aterragens brutas para fazer da anatomia um trampolim, porque escolheu o triplo salto para desportizar a sua vivência e retirar metais preciosos dela: fomos campeões do Mundo (2007), da Europa (2015, 2017 e 2018), dos Olímpicos (2008) e, por instantes, da bulha que visa adiar a vitória do tempo.

Mas, nesses 37 anos, fazemo-nos de surdos e tapamos os ouvidos aos gritos do corpo, cujo último grito de dor é no menisco de um joelho a uns cinco meses de irmos competir aos últimos Jogos Olímpicos de uma carreira que já ignorou vários prazos feitos. Imaginemos, então, que somos Nelson Évora.

O tríplice saltimbanco português está em Tóquio, mas só aterrado no Japão divulgou que foi operado em março, tão pouco tempo antes de um derradeiro quero-lá-saber do tempo. Nelson Évora recuperou da lesão cuja existência não tínhamos noção, ninguém sabe bem a que estado conseguiu resgatar a musculatura e os 206 ossos, mas ele outrora partiu dois na mesma perna que por pouco não lhe amputaram e ainda está cá, campeão como é, campeão como ainda quer ser.

Quando as luzes de apagarem para as vénias da plateia, Nelson Évora merecerá mais do que as que vierem e a reportagem feita pelo Expresso com ele, em 2014, não está sete anos desatualizada, é um compêndio de espreitadelas à cabeça do homem resistente a agruras, maleitas e atestados de acabamento.

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O que se passa dentro da cabeça dele: como Nelson Évora não estava mesmo acabado

O que leva um tipo a quem iam amputando uma perna a regressar ao sítio onde os ossos se desfizeram, uma e outra vez, e testar os limites do seu corpo? Resposta: a busca pelo salto perfeito, que ele diz existir dentro dele e que ele encontrará mais dia menos dia. É a fé e a confiança que o movem e o levam a pular para lá do que é exigido a um campeão olímpico e mundial que não tem mais nada a provar a ninguém - a não ser a ele próprio. Este é um trabalho que publicámos em agosto de 2014, quando o saltador se preparava para os Europeus e falava das metas que tinha traçado para 2015 e 2016: mostrar que não estava acabado

Ficam os votos de uma boa semana, siga a Tribuna diariamente no site (onde continuará a encontrar as reportagens da Lídia Paralta Gomes, que está em Tóquio, tem um guia dos 92 atletas que foram ao Japão para limpar o pó à memória e, se quiser, também uma contagem de medalhas por país, sempre em atualização).

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