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A melhor pátria de todas

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Haverá, na escala da miséria, algo acima de um miúdo ser agredido num estádio de futebol por celebrar um golo da sua equipa?

Haverá, na escala da miséria, algo acima de um miúdo ser agredido num estádio de futebol por celebrar um golo da sua equipa?

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Estranhamente, o campo não tinha balizas. As bancadas eram de uma rude pedra e estavam por encher. O calor era ainda abrasador, gentilmente dissimulado pelo vento, como se dissesse ao sol que não tem maneiras nenhumas. Os gelados que moravam no sótão dos cones de bolacha choravam mais do que nunca o adiantar daquele domingo. Despreocupado com o mundo que o rodeava (como se houvesse algum…), de um lado para o outro naquele sintético ao lado da praia, estava um miúdo com a camisola do Atlético Madrid a afinar o toque — na verdade, estava só a divertir-se (e, assim, ia afinando o toque). Outros acabariam por chegar, como chegam sempre para a deslumbrante e alegre festa organizada pela menina mais bonita do mundo, a bola de futebol.

Alguém indicou que estava na hora dos penáltis, como se fosse algo imperioso. Os chinelos eram os postes, cuja altura, já se sabe, pertence sempre ao bom senso ou aos deuses do debate eterno. Aqui e ali notava-se alguma tensão, talvez fabricada. O miúdo do Atlético beijava a bola antes de bater. Um rapaz, mais velho, tentava imitar o saltinho de Bruno Fernandes (que teve um senhor fim de semana). Outro, que estivera sempre na baliza, quis finalmente saber a que sabia aquele bem-aventurado momento.

Não se sabe se o fez por glória pessoal ou para agitar as partes imortais dos seres humanos, um deles angustiado a dar conta de um quilométrico pão com chouriço: o rapaz picou a bola com a certeza que só os magos têm. Saiu um pouco alto, é certo, mas ninguém ousou questionar, até porque numa baliza a sério seria perfeito. É um código entre os que sonham, não se arruína um momento daqueles a ninguém. O rapazinho foi Panenka. Ele, canhoto, e tudo fica sempre mais belo com canhotos, talvez nem saiba quem foi Antonín, mas sabia que o gesto era grandioso o suficiente para lhe reservar a imortalidade num domingo santo. Nem que fosse por um segundo. E o que ele sorria.

Viemos todos dali. A nossa pátria é a infância e eles, os miúdos, ainda operam num mundo que já não é o nosso. Depois tornamo-nos cínicos, sérios, descrentes ou imbecis. Ou tudo ao mesmo tempo. Há muros por todo o lado, desamor e desconfiança. Menos tolerância. Não há sonhos, só matéria cinzenta. Lidamos mal com quem ainda vê algodão-doce nas nuvens do céu. Mesmo os futebolistas são mais felizes, no relvado, quanto mais perto estiverem da criança que foram. Trago a melhor pátria do mundo para esta newsletter porque no domingo, no estádio do Famalicão, um garoto do FC Porto foi agredido depois de celebrar um golo da sua equipa. A história foi contada pelo diretor do "ZeroZero", no Twitter. Haverá, na escala da miséria, algo acima disso? Nunca será um cartão do adepto a varrer esse comportamento e ignorância, certo? Como podemos escapar a essa vil rota?

Que sonhem, os miúdos. Que vivam os seus clubes e paixões. Que joguem à bola em todo o lado. Que tenham, como todos tivemos, o seu Maradona. Que imitem gestos delirantes como aquele de Fábio Martins, quando tentou marcar de letra a Adán. Que peçam uma fotografia ou a assinatura a um ídolo, como fez Gerard Piqué com Ronald Koeman, em 1992. Que esperem 74 anos para voltarem a ver a equipa deles na I Divisão como Derek Burridge, um adepto do Brentford.

Que se apaixonem pelo que não é útil, mas que emociona, que se percam de amores por dribles e por golos, que os marquem em balizas que não existem, que os berrem, como certamente acontecia em Munique, nos anos 60 e 70, por causa do senhor Gerd Müller, o bomber dos bombers, que morreu este domingo aos 75 anos. Que a rapaziada de Paris suspire agora por um futebolista que parecia impossível e personagem distante de um qualquer conto mirabolante de Julio Cortázar.

Ontem, já não sei se durante ou depois dos penáltis com tão ilustres espirituais convocatórias, alguém chamou o rapaz com a camisola do Atlético Madrid pelo nome. “Eu não sou o Pedro, sou o João Félix”, disse. E assim vivem os meninos e as meninas, descobrindo e imaginando, enquanto não chegam à fronteira inevitável que os separa dos desprezíveis e esmorecidos.

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Zona mista

É o gesto que nos tocava fazer. Estive em contacto com o resto dos capitães para o corte salarial e eles também vão dar esse passo em breve. Isto é uma família. Fui o primeiro por uma questão de timing, já que era necessário agora. Nasci aqui em Barcelona, fui criado aqui, venho ao estádio desde miúdo e levo muitos anos como jogador

Gerard Piqué, futebolista do Barça, marcou o primeiro golo do clube na La Liga, frente à Real Sociedad (4-2), e depois do jogo falou sobre a situação precária em que se encontram os catalães (que culminou na saída de Messi) e a sua decisão de baixar o salário para que companheiros como Memphis Depay e Eric Garcia pudessem ser inscritos a tempo.

O QUE VEM AÍ

Segunda-feira, 16

🏀 Portugal-Súecia, um jogo a contar para a qualificação para o Mundial de basquetebol 2023 (18h, RTP 2)

⚽ Boavista-Paços Ferreira (19h, Sport TV 1) e Belenenses SAD-Marítimo (21h15, Sport TV 1) encerram a segunda jornada da Liga.

🎾 O Masters 1000 de Cincinnati, nos Estados Unidos, arrancou no domingo e será jogado ao longo da semana.

Terça-feira, 17

🏀 Portugal-Luxemburgo (qualificação Mundial de basquetebol, 18h, RTP 2)

⚽ Supertaça da Alemanha: Bayern-Dortmund (19h30, Eleven).

⚽ Arrancam jogos do play-off de acesso à Liga dos Campeões: Mónaco-Shakhtar talvez seja o jogo mais interessante.

Quarta-feira, 18

⚽ Benfica joga, no Estádio da Luz, a primeira mão do play-off de acesso à Liga dos Campeões contra o PSV (20h, TVI).

⚽ Palmeiras de Abel Ferreira e São Paulo de Hernán Crespo discutem vaga na semi-final da Libertadores (1h30, de terça-feira para quarta-feira, Sport TV 1).

Quinta-feira, 19

⚽ Nani entra em campo de madrugada, às 1h30: Nashville-Orlando City (Sport TV 2).

Sexta-feira, 20

⚽ Moreirense-Sp Braga (20h15, Sport TV 1).

⚽ Brest-PSG (20h, Eleven): será a estreia de Lionel Messi?

Sábado, 21

⚽ Um histórico Estrela da Amadora-Farense pela manhã (11h, Sport TV 1), um Gil Vicente-Benfica pela tarde (18h, Sport TV 2) e mais tarde Sporting-Belenenses SAD (20h30, Sport TV 1).

⚽ Arranca a Serie A com um Inter-Genoa (17h30, Sport TV 4). Cristiano entra em campo no domingo, no terreno da Udinese (17h30, Sport TV 3), tal como José Mourinho (Roma-Fiorentina, 19h45, Sport TV 3).

⚽ Athletic-Barcelona (21h, Eleven).

Domingo, 22

⚽ Arsenal-Chelsea (16h30, Sport TV 2).

⚽ Marítimo-FC Porto (18h, Sport TV 1).

🚗 Nascar Cup Series - Michigan International Speedway (20h, Eleven).

HOJE DEU-NOS PARA ISTO

Messi e Barcelona pareciam uma história eterna, mas não foi. Qual é a lição e a utilidade do lembrete de Diego?

Messi e Barcelona pareciam uma história eterna, mas não foi. Qual é a lição e a utilidade do lembrete de Diego?

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É quase inevitável não lembrar as palavras dele. Ainda faltam uns meses agónicos para o primeiro aniversário da morte de Diego Armando Maradona, mas parecem 10 anos. É certo que já não era ninguém que nos desafiasse, fizesse sorrir ou que mudasse o futebol, mas a sua existência bastava para nos sentirmos mais amparados e sonhadores a ver um jogo de futebol, alguns de nós pelo menos. Como sempre, resgatamos algo do passado para tentar compreender qualquer coisa difícil ou bizarra que nos toca viver. Lionel Messi deixou o Barcelona e isso será sempre estranho, mesmo que Memphis Depay jogue como jogou no domingo. Não havia e não haverá camisola 10 e isso é tristemente assombroso.

Não faz falta dizermos que os maiores ídolos daquele clube parecem sair de uma maneira pouco graciosa. Recuperemos então as palavras de Diego, quando estava no México, como treinador do Dorados de Sinaloa. “Desde que o Messi joga no Barcelona, querem permanentemente que briguemos [risos]. Não sei o porquê dessa obsessão. Também podiam compará-lo com Ronaldinho. Ronaldinho fez chover em Barcelona e, no entanto, ninguém se lembra do Ronaldinho em Barcelona. É isso que tem o Barcelona: esquece os ídolos muito rapidamente. Perguntem por Rivaldo e pelo que fez. Esquece-se muito rápido.”

Não sei se alguém esquecerá ou desdenhará Lionel Messi, se haverá coragem para tal, com fortuna terá bastado aceitar cortar em metade o salário para escapar ao rótulo de pesetero. Mas o futebol dos nossos tempos está apresentado quando um clube e um futebolista (supostamente) querem o mesmo e não o podem validar num pedaço de papel.

Messi e Barcelona pareciam uma história eterna, mas não foi. Qual é a lição e a utilidade do lembrete de Diego? Desfrutemos diariamente dos futebolistas e lembremo-nos deles, mais tarde, pelos artistas que foram em tempos idos.

Ficam os votos de uma boa semana e a sugestão para seguir a Tribuna diariamente no site. Obrigado por nos ler e pode seguir-nos no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.