Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE

Simplesmente, falar e estar sem problemas

Partilhar

Petit é treinador do Belenenses SAD há quase três anos. A perceção pública que recebe talvez seja contrária à postura que costuma ter

Petit é treinador do Belenenses SAD há quase três anos. A perceção pública que recebe talvez seja contrária à postura que costuma ter

Nuno Botelho

Erro meu, que não dei uso ao polegar e ao indicador para me beliscar enquanto tinha relva do Jamor nos pés, era manhã de quase verão e eu feito intruso, a sentir o soslaio dos olhares a fitarem sem piedade mesmo com o possível fato de despercebido vestido, mas o inusual é ás de trunfo. Tem a força do desábito por trás. Assistir a um treino de uma equipa da I Liga, na íntegra, desde a caminhada dos jogadores do balneário até ao campo, às brincadeiras durante os alongamentos à sombra, no fim de tudo, é como avistar um lince ibérico em Lisboa.

A raridade de estar um jornalista, um fotógrafo e dois repórteres de imagem a vaguearem pelo terceiro treino de campo após o primeiro dos confinamentos foi regalia concedida pelo Belenenses SAD à Tribuna Expresso, o ano passado. Sei lá eu que palavras teve Armando Gonçalves Teixeira a dizer sobre esta concessão, por certo algumas terá dito o treinador para autorizar aquela presença invasora. Com certeza, foi dono de toda uma postura relaxada, sem comichões durante as mais de duas horas em que houve do tipo de convivência mais limitada que há por estes dias.

O que saiu dali não destapou segredos de Estado, desvendou zero artimanhas ou evidenciou coisas que ninguém poderia saber, se as havia por descobrir também não sabemos, mas, até quando o trato virou direto com Petit, à sombra do descanso, ele foi o oposto ao que anos e mais anos enquanto jogador foram colando na perceção pública que hoje receberá — foi sempre um tipo afável, brincalhão, jocoso de si próprio sem se levar demasiado a sério, a falar do que faz e quer fazer no futebol.

Por momentos, toda a gente baixou a guarda e descansou as defesas, um pouco como o mesmo treinador fez no sábado, em Alvalade, com o mesmo clube embora sem a mesma equipa. A que tem agora vai sôfrega pela debandada de muita gente batida e com qualidade (Silvestre Varela, Mateo Cassiera, Rúben Lima, Miguel Cardoso e Gonçalo Silva foram todos embora) e Petit, mesmo não sendo questionado exatamente sobre isso, lamentou a juventude a que tem de recorrer e falou do "bocadinho anjinhos" que os jogadores tinham sido "em alguns pormenores".

O treinador falou na ressaca imediata ao jogo, logo na flash interview, cada vez mais um dos pouquíssimos lugares onde se consegue aceder a quem anda no futebol, onde o ângulo das poucas perguntas deveria ser restrito ao jogo, mas é quase sempre expandido pela raridade de os apanhar a jeito. E Petit deixou-se ficar nesse jeito e ajeitou-se, também, para lá do que hoje as empresas de agenciamento dizem a jogadores e treinadores para acautelarem.

O chamado media training existe e não é de agora, nem é o único dono da custódia da culpa sobre de onde terá vindo esta reclusão dos protagonistas (vem também dos clubes, jornalistas, meios de comunicação e por aí fora). Diz quem está na área que se trabalha com futebolistas e técnicos para certos soundbytes e fios à meada serem passados de acordo com o tipo de mensagem que se define para o caso de cada pessoa, independentemente das perguntas, às quais também se ensina a responder, não respondendo.

Até pode ter sido estrategicamente combinado por alguém com Petit, ou magicado pelo próprio treinador como recado para quem lhe desmantelou a equipa, e perdoem-me por já esticar as teclas para o lado de lá da fronteira das suposições, mas o que se ouviu do treinador foi um falar sem filtro, um não-prudorismo aparente e zero problemas em sincerizar o discurso, sem vir mal ao mundo por isso: "É nestes pormenores em que ainda somos muito anjinhos, no bom sentido da palavra (...) os jogadores têm de conhecer os jogadores que vão encontrar, têm de viver e conhecer mais o futebol, olhar mais para o campeonato, não basta chegar e treinar uma hora e meia".

Petit não é tão encadeado pela luz dos holofotes, nem recebe tanto tempo de ecrã se comparado com outros, o que é compreensível, e talvez isso também possa explicar como, simplesmente, está e fala sem meias-respostas quando é a sua vez de o fazer. Como não deveria haver, nunca, qualquer problema.

O que se passou

Leia também

João Patrão com oxímetro nos pés

É obrigado a conceder ao amigo que o “patrão” soa a exagero. Bruno Vieira Amaral diria que em Palhinha está um supervisor de turno bastante competente, que põe ordem na linha de montagem e faz com que os restantes operários pareçam um bocadinho melhores. O mesmo amigo trouxe à baila João Mário, o transplante cerebral ocorrido este verão que, quando tem a bola, os companheiros e até os adeptos parecem mais inteligentes. E respiram melhor

Leia também

As Intermitências da Relva

No relvado dos Barreiros, como Sérgio Conceição já duvidara, não se viu um grande jogo, nem sequer um bom. Taremi marcou e depois Bruno Xadas empataria com um golo melhor (1-1), mas, num jogo em que a iniciativa foi sempre do FC Porto, as bolas deixaram de morrer na relva e todas espernearam com a vida de ressaltos e sobressaltos, o que explica muita coisa, mas não desculpa tudo

Leia também

O salto de Pichardo ainda não parou: português vence primeiro meeting da Diamond League após o ouro de Tóquio

Pedro Pablo Pichardo ficou com o ouro na primeiro <em>meeting</em> da Diamond League realizada após ser o melhor nos Jogos Olímpicos de Tóquio. O português chegou aos 17,63 metros no triplo salto

Leia também

“No Cazaquistão, tinha de soprar no balão no balneário. Às vezes, os nossos jogadores estavam bêbados. Eram muçulmanos, mas bebiam muito”

Nesta segunda parte da entrevista, Abel Camará fala da passagem pelo Chipre, do azar que teve em Itália, dos muçulmanos que bebiam álcool no Cazaquistão, da desorganização do clube turco onde jogou e de como ficou sem passaporte e a treinar à parte no Irão, ante do regressar a Portugal. Depois de uma época no Feirense, resolveu ficar perto da família e aceitou representar o CD Mafra até 2022. Ainda há tempo para revelar os negócios que já tem em Cabo Verde e na Guiné e para dizer como é bom cozinheiro.

Leia também

Os talibãs “andam a bater de porta a porta” e as afegãs que jogam futebol “não podem confiar em ninguém”

Shabnam Mobarez, capitã da equipa, e Haley Carter, ex-treinadora-adjunta da seleção feminina do Afeganistão, contam como as jogadoras no país tiveram de fugir de casa para se esconderem dos talibãs

Leia também

O tempo e o espaço, coisas do Sporting

Durante a primeira parte, sobretudo, tudo o que o Sporting tem mecanizado (as saídas da área, acelerações por fora com os alas e também já o uso de Paulinho como apoio ou parede) desmantelou o Belenenses SAD. A equipa fabricou mais oportunidades do que os golos (2-0) que marcou e fez, provavelmente, a melhor partida da ainda curta e pouco testada época

Leia também

Ver um jogo diferente quando o jogo não difere muito

O Benfica demorou quase 84 minutos a marcar um golo em Barcelos, insistindo na redundância de ir tentando entrar na área quase sempre por fora e com cruzamentos. Acabaria por vencer (0-2) o Gil Vicente com a esperteza de Lucas Veríssimo e uma bomba de Grimaldo

Leia também

A rapidez de Elaine Thompson-Herah não tinha só a ver com a pista trampolim de Tóquio

A bicampeã olímpica jamaicana tinha fixado um novo recorde dos Jogos Olímpicos e a proeza foi mais uma que ficou associada à tecnologia na pista de Tóquio, descrita como "um trampolim". Mas, no primeiro <em>meeting</em> da Diamond League após esse recorde, Elaine Thompson-Herah fez ainda melhor noutro piso: roubou sete centésimos de segundo à marca

Leia também

A liga “mais difícil onde podes jogar” está de volta. E a Serie A traz o balão de oxigénio de um “verão estranho”

A liga italiana começa este sábado com uma temporada cheia de mudanças, desde o desfalcado campeão Inter até à ambiciosa Roma de Mourinho, passando pelas dúvidas em torno de Cristiano e da Juventus. A <strong>Tribuna Expresso</strong> falou com Simone Perrotta, Damiano Tommasi e Nicola Amoruso para lançar a Serie A, que arranca 2021/22 depois de muitos sucessos postos na bagagem do desporto italiano. Com o balão de oxigénio de "um verão estranho", a Serie A volta cheia de incerteza

Leia também

“Uma professora foi para o meu Facebook incentivar ao racismo. Fiquei chocado porque está a ensinar crianças de sete e oito anos”

Abel Camará, de 31 anos, fez formação no Oeiras, mas o seu coração foi conquistado pelo Belenenses. Chegou a ter uma proposta do Borussia Dortmund, mas começou a aventura de jogar fora na Roménia e experimentou depois o calor da Arábia Saudita, onde jogou com a cabeça ligada para disfarçar um penteado e ficou chocado com a forma como as mulheres são tratadas no país

Zona mista

A nossa Serie A é sempre atrativa para os grandes jogadores. Na minha opinião, se não passas pela Serie A e não defrontas a tática italiana perdes a oportunidade de demonstrar o teu valor na liga mais difícil onde podes jogar.

Simone Perrotta, campeão do Mundo pela Itália em 2006, à Tribuna Expresso, ao comentar o que se pode esperar esta época da Serie A, onde para lá dos badalados Cristiano Ronaldo e José Mourinho, houve muitas trocas e baldrocas de treinadores nas melhores equipas e logo num ano em que o país conquistou o Europeu. Estará o foco do futebol a regressar a Itália?

O que vem aí

Segunda-feira, 23

⚽ A segunda jornada da I Liga fecha-se com o Paços de Ferreira-Estoril Praia, às 19h (Sport TV1) e o Boavista-Santa Clara, às 21h15 (Sport TV1), horário sempre agradável para os adeptos irem à bola a um dia de semana (alerta sarcasmo).

Terça-feira, 24

🌊 No sul de França ensanduichada entre Biarritz e Baione, começa o Rip Curl Pro Anglet, evento do circuito mundial de qualificação de surf onde vão estar vários portugueses: Vasco Ribeiro, atual campeão europeu no quadro masculino, Yolanda Sequeira e Teresa Bonvalot na prova feminina (Fuel TV).
📺 A cerimónia de abertura dos Jogos Paralímpicos decorre 16 dias após a tocha dos Olímpicos ter sido apagada, também em Tóquio (12h). A competição decorrerá até 5 de setembro.
🚴 Mais uma etapa na Volta a Espanha, cuja transmissão (Eurosport) arranca a diário pelas 13h50, no resto da semana.
⚽ O Benfica joga em Eindhoven a segunda mão do play-off contra o PSV, após o 2-1 conseguido em Lisboa. É decisão sobre quem seguirá para a fase de grupos da Liga dos Campeões.

Quarta-feira, 25

⚽ Há três jogos ainda do play-off da Champions e a nossa sugestão fica no Shakhtar Donetsk-Monaco (20h, Eleven Sports1), onde poderá ver o futebol que Roberto de Zerbi está a tentar incutir na equipa ucraniana.

Quinta-feira, 26

🤞🏻 É dia anúncio dos convocados (12h) de Fernando Santos para os próximos jogos da seleção nacional, que contarão para a qualificação rumo ao Mundial do próximo ano, no Qatar. Também haverá sorteio da fase de grupos da Liga dos Campeões (17h), seguido do relativo à Liga Europa.
⚽ O Santa Clara e o Paços de Ferreira jogam para entrarem na fase de grupos da nova Liga Conferência da UEFA: os açorianos vão a Belgrado (20h), depois de ganharem por 2-1 ao Partizan na primeira mão, e os castores jogam em Londres, frente ao Tottenham (19h45), com a vitória por 1-0 trazida de Portugal.

Sexta-feira, 27

⚽ Na I Liga, jogam-se o Belenenses SAD-Moreirense (19h, Sport TV1) e o Estoril Praia-Marítimo (21h15, Sport TV1).

Sábado, 28

⚽🏃‍♀️ A Supertaça de Portugal em futebol feminino é discutida por Sporting e Benfica (17h30, Canal 11).
⚽ Para apimentar o almoço, um Manchester City-Arsenal (12h30, Sport TV3) na Premier League, a que se seguirá o Liverpool-Chelsea (17h30, Sport TV1). Na I Liga portuguesa, há o FC Porto-Arouca (18h, Sport TV1) e o Famalicão-Sporting (20h30, Sport TV1).

Domingo, 29

🏎️ Gozadas as curtas férias de verão, em que ninguém podia sequer tocar nos monolugares, a Fórmula 1 regressa para o Grande Prémio da Bélgica (14h, Eleven Sports).
🏍️ O MotoGP pára no circuito de Silverstone, para o GP do Reino Unido (13, Sport TV).
⚽ É dia de dérbi minhoto entre o Braga e o Vitória (18h, Sport TV1), marcado sabe-se-lá porquê para a mesma hora do Benfica-Tondela (BTV). Depois, às 20h30, começarão o Santa Clara-Gil Vicente (Sport TV2) e o Portimonense-Paços de Ferreira (Sport TV1).

Hoje deu-nos para isto

Quando não está a ser treinador, Thierry Henry vai dando uma perninha no comentário televisivo

Quando não está a ser treinador, Thierry Henry vai dando uma perninha no comentário televisivo

VALERY HACHE/Getty

Frank Haise tem cara de ser um senhor simpático e descontraído, pelo menos aparentou-o quando, no domingo, pegou no microfone com uma mão e enfiou a outra no bolso diante das câmaras após o Lens que treina ter ganhado ao AS Monaco, no principado, e ele ter participado em algo mais do que a rotineira flash interview. Em Portugal, quem vê futebol só tem direito a ouvir os treinadores no relvado nesse momento. Em França, a história é outra.

Também o é pelo privilégio de quem consome a bola tem em escutar Thierry Henry como comentador, além de ser quem é, o antigo avançado francês entremeia as vezes como treinador (é adjunto na seleção da Bélgica) com estas aparições no falatório analítico, emprestando o carisma e à-vontade em dizer as coisas que se saúdam — e que tocam nas pessoas.

"No Lens, vi uma equipa para jogar aqui, não ali, mas aqui", disse, às tantas, Henry, já com Frank Haise a trincar os lábios no esforço para não se desmanchar. O treinador do Lens agradeceu as palavras de quem "conhece tudo do futebol", fixando o olhar em baixo, quase em reverência, deixando cair uma lágrima do olho, molhada pelas palavras que uma lenda juntou sobre a sua equipa.

Deixar quem é do jogo falar sobre o jogo e com pessoas do jogo, sem defesas automáticas no discurso ou técnicas para não responder, respondendo, pode dar momentos destes, de genuinidade.

Leia também

A entrevista e/ou conversa de Thierry Henry com o treinador do Lens

O antigo campeão do Mundo e da Europa, hoje a saltitar entre as vezes de treinador e de comentador, elogiou o trabalho de Franck Haise no Lens e levou o técnico a soltar umas lágrimas

Ficam os votos de uma boa semana e a sugestão para seguir a Tribuna diariamente no site. Obrigado por nos ler e pode seguir-nos no semanário Expresso e no Twitter, no Facebook e no Instagram: @TribunaExpresso.