Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE

Estará Raducanu a começar aquilo que Djokovic não conseguiu acabar?

Partilhar

Está tudo a começar para Emma Raducanu. E tem tudo para acabar bem

Está tudo a começar para Emma Raducanu. E tem tudo para acabar bem

Al Bello/Getty

Vai soar a frase feita - e se calhar até é -, mas quando me perguntam o porquê de gostar tanto de desporto tendo a responder com “as histórias”, sejam elas narrativas ou feitos - e posto isto, bem sei que é um tema fraturante, mas parece-me que deveria ser mais generalizada a utilização do termo “estória”, um bocadinho como os anglo-saxónicos têm à mão o story e o history.

Porque a dupla grafia (e duplo significado) ajuda-nos a falar sobre o que aconteceu no US Open de 2021. O último torneio do Grand Slam do ano tenístico prometia-nos um quase certo encontro com a história, mas o que nos saiu na rifa do fortnight nova-iorquino foi uma extraordinária estória, tão extraordinária que também deu as mãos à história.

E não foi Novak Djokovic que a escreveu, mas sim uma tal de Emma Raducanu.

Sem Nadal e Federer em campo, o sérvio tinha praticamente na mão dois feitos: tornar-se no jogador com mais títulos do Grand Slam da história (21), e, mais raro ainda, imitar o que Rod Laver fez em 1962 e 1969 e conseguir o verdadeiro Grand Slam, ou seja, vencer os quatro majors na mesma temporada - no feminino, Steffi Graf fê-lo em 1988, juntando ainda o ouro olímpico. Mas o peso da história parece ter sido demasiado para Djokovic, nervoso, preso, inquieto, mesmo com o público, por uma vez, a seu lado. O sonho do Grand Slam ruiu espectacularmente como em 2015 já tinha se desmoronado para Serena Williams, inesperadamente afastada da final pela eléctrica italiana Roberta Vinci, quando parecia ter a passadeira vermelha estendida para a história.

O desporto tem destas coisas e faz até eternos pragmáticos (como esta que vos escreve) questionarem-se em matéria de destino e metafísica, porque às tantas era como se uma estória sobre uma miúda britânica de 18 anos, na sua inesperada e maravilhosa ascensão aos céus tenísticos, estivesse fadada para chegar mais ao coração do que a história prestes a ser feita por Djokovic, a prova que talvez estejamos mais nisto pelas emoções do que pelos números.

Pois é, a estória que se fez história do US Open deixou de se chamar Novak Djokovic para se chamar Emma Raducanu, a número 150 do Mundo que se tornou na primeira tenista vinda da fase de qualificação a vencer um torneio do Grand Slam, poucos meses depois de se estrear no circuito WTA e apenas na sua segunda aparição num major, depois de já ter aproveitado o convite que lhe ofereceram em Wimbledon para chegar à 4.ª ronda.

O circuito feminino está cheio de jovens quase desconhecidas a irromperem por um qualquer torneio do Grand Slam e a vencerem contra todas as expectativas. Jelena Ostapenko em Roland Garros em 2017, Bianca Andreescu no US Open de 2019 ou Iga Swiatek em Roland Garros há um ano, por exemplo. Mas talvez nenhuma delas como Raducanu, com a, digamos, compostura da britânica.

Porque Raducanu dá cabo de alguns dos estereótipos do ténis e isso, além de ser uma grande estória, são boas notícias. Ela até começou nos motores, nos karts e no motocrosse. Passou por uma série de desportos, até perceber que o ténis era onde mais brilhava. Aos 13 anos já ganhava torneios sub-18 mas nem por isso se fechou numa qualquer academia de ténis, longe do mundo. Continuou a estudar no seu liceu e durante a pandemia acordou com os pais que o melhor era não viajar, esquecer os rankings e os prize moneys e os títulos, a voragem do aqui e agora, e apostar em acabar o secundário - coisa que fez, com notas máximas a matemática e economia, poucos dias depois do torneio de Wimbledon.

Em Nova Iorque, aos boquiabertos jornalistas da ESPN, pouco habituados a adolescentes com mais do que ténis na cabeça, confessou que o que mais queria fazer em Nova Iorque era visitar Wall Street, herança familiar, já que os dois pais trabalham na área financeira. E em campo, Raducanu parece ser fruto da sua educação, mais do que de um qualquer talento sobrenatural, pela forma como usou o seu evidente QI tenístico para antecipar o jogo e adaptar-se às circunstâncias.

Isto por si só faria de Emma Raducanu o sonho de qualquer marketeer, mas há mais: um pouco como Naomi Osaka, a britânica é uma espécie de mescla perfeita do mundo globalizado. Filha de pai romeno e de mãe chinesa, nasceu no Canadá e mudou-se para Inglaterra com apenas dois anos. É eloquente e ponderada, simpática e disponível. Tem estrela escarrapachado na testa e o apelo comercial é inesgotável.

Ainda antes de bater Leylah Fernandez - outra cidadã do mundo, canadiana filha de pai equatoriano e mãe de origem filipina -, já em Inglaterra se falava da alta probabilidade de Raducanu se tornar rapidamente na atleta britânica mais bem paga do país, entre os ganhos em campo e os contratos publicitários que, inevitavelmente, vão chover. É claro que tudo está dependente de uma premissa tão simples quanto complexa: vencer. Ainda é cedo para se saber o que será a carreira de Raducanu, até porque no US Open não teve pela frente nenhuma top 10 mundial. Ostapenko desapareceu depois da vitória em Roland Garros. Andreescu não se consegue livrar de lesões. E Swiatek não capitalizou em 2021 o sucesso de 2020. No ténis, o sucesso e a queda estão perigosamente perto e Djokovic, Nadal, Federer ou Serena Williams são fabulosas exceções.

Mas o grande espectro de pancadas de Raducanu, os poucos pontos fracos no seu jogo, a sua calma em campo, e, lá está, a compostura são sinais de que pode estar aqui algo verdadeiramente diferente. Para já, vimos a estória. A história que ela pode fazer talvez tenha acabado de começar.

O que se passou

O Clássico acabou empatado e, por isso, no sábado à noite quem sorriu foi o Benfica, depois das más notícias quanto às contas da SAD.

Sem Ronaldo, a seleção nacional ganhou no Azerbaijão e com o empate da Sérvia na Irlanda está mais perto do apuramento direto para o Mundial 2022.

Ah, e por falar em Ronaldo, o português voltou a jogar pelo Manchester United e parece que nem de lá saiu um dia.

Na Fórmula 1, o sorriso de Daniel Ricciardo (e da McLaren) voltou a abrir-se num acidentado (e a isso já lá vamos) GP Itália. Há três anos que o australiano não vencia. A seca da McLaren foi ainda maior.

Leia também

Bem-vindos ao mundo de Ronaldo, onde o lendário é óbvio e banal

Bruno Vieira Amaral escreve sobre o fardo que Cristiano Ronaldo carrega, do goleador incomparável que tantos vêem como o maior problema das equipas por onde vai batendo recordes

Leia também

"No Benfica, saímos à noite, comprámos uma garrafa de vodka preta para cada um e ficámos bêbados. Tivemos de pedir desculpa ao míster Lage"

Pedro Rebocho, de 26 anos, não esconde ter sido puto reguila. Quando saiu do Juventude de Évora para ingressar no Benfica, aos 12 anos, adorava provocar os mais velhos e entrar em todas as partidas que se faziam no Seixal, incluindo um roubo de bebidas energéticas. Nos sete anos que passou no clube do coração, nunca conseguiu vestir a camisola da equipa A, mas não guarda mágoa de um passado que depois seguiu caminho pelo Moreirense, antes da partida para França, capítulo da sua vida de que falamos no domingo, na segunda parte desta entrevista

Leia também

Quique Flores: “Tenho memórias extraordinárias do Benfica. Voltar seria um sonho”

Passados 13 anos da sua chegada ao Estádio da Luz, o técnico espanhol guarda o “carinho” dos adeptos, o “fascínio” por Eusébio e o “respeito” por Rui Costa. Em entrevista à <strong>Tribuna Expresso,</strong> Quique Flores elogia Rúben Amorim, que treinou no Benfica, tentou levar para o Atlético de Madrid e cujo sucesso enquanto treinador não o espanta. Fala, também, sobre Luís Filipe Vieira, que lhe "pareceu sempre um homem digno"

Leia também

Amaro Antunes: "Sem o carregador de água, a equipa não funciona. O ciclismo é uma escola para a vida"

Em entrevista à <strong>Tribuna Expresso</strong>, o vencedor das duas últimas edições da Volta a Portugal fala sobre a importância do coletivo na modalidade, dos sacrifícios inerentes à vida de atleta e do objetivo de deixar a sua “marca” no ciclismo português. E também das duas francesinhas que comeu logo após a vitória na Grandíssima no mês passado, algo que se está a tornar numa espécie de ritual

Leia também

Mourinho na Curva Sud

A crónica de um adepto português a ver o jogo mil do Mourinho é de Paulo Baldaia, que esteve no Olímpico de Roma onde o treinador português ganhou ao Sassuolo com euforia e nervos até ao fim — e até correu desalmadamente até à bancada mais icónica do estádio, quando a equipa fez o golo da vitória já nos descontos

Leia também

O bicampeão mundial, Pierre-Louis Costes: “O surf fez tudo para deitar abaixo o bodyboard quando percebeu que poderia ser ultrapassado”

Tem 31 anos e já foi duas vezes campeão mundial de bodyboard. Pierre-Louis Costes vive em Portugal há muito, mas nasceu em França e aprendeu a surfar em Marrocos, onde a família tentou seguir com um negócio do avô. Num português com sotaque, falou com a <strong>Tribuna Expresso</strong> durante o Sintra Pro e deu os seus quinhões sobre os porquês de o bodyboard estar atrás do surf em termos de visibilidade e mediatização, além de acreditar que "a porta está aberta" para que venha, em breve, também a ser uma modalidade olímpica

Leia também

Tristan Roberts, o campeão mundial de bodyboard que ficou preso em Portugal: “Estamos à espera de quem faça um duplo mortal para trás”

Tristan Roberts é o campeão mundial de bodyboard, só que já conquistou esse título em 2019 e só o poderá defender, na melhor das hipóteses, em 2022. O sul-africano, já um pouco aborrecido com a falta de competição, ficará durante quase três anos com esse prémio na cabeça e, na Praia Grande, onde até domingo decorre o Sintra Pro, conversou com a <strong>Tribuna Expresso</strong> sobre "o trabalho nos bastidores" para o corpo aguentar tantas aterragens de aéreos, a parte mental de estar tanto tempo sem competição e os quase cinco meses que acabou por ficar em Portugal, durante o primeiro confinamento

Leia também

Graças ao Coates, ficámos a saber que um uppercut mesmo nos queixos do muito correto Pepe não dá direito a penálti

Na sua análise humorística ao clássico, Diogo Faro também saúda o facto de Rúben Vinagre ter acabado o jogo com duas pernas e como Luís Neto parece o tipo mais afetuoso se comparado ao jogador a que se refere várias vezes. Pepe, que "temos muita sorte que tenha escolhido o futebol em vez do UFC"

Zona mista

Queria dizer que o FC Porto saiu mais prejudicado pelas viagens. E também que o Pote e o Inácio não vão estar no Clássico

O Sporting não ganhou o Clássico, mas Rúben Amorim ganhou seguramente o duelo das palavras. Depois de uma conferência de Sérgio Conceição em que até os minutos nas pernas e os quilómetros a mais que os seus jogadores tinham face ao adversário se contaram ao pormenor, depois de uma semana em que muito se falou das dispensas dos jogadores do Sporting das respetivas seleções, o treinador dos leões arrumou tudo logo à primeira resposta, com o seu sarcasmo tão subtil quanto acutilante. Ao longo da conferência de imprensa, ainda deixou mais duas ou três mensagens mais ou menos encriptadas, para quem quisesse entender, a mostrar que às vezes não é preciso spin, só inteligência

O que aí vem

Segunda-feira, 13

⚽ I Liga: Marítimo - Arouca (19h, Sport TV2) e Tondela - Estoril (21h15, Sport TV1)

⚽ Portugal estreia-se no Mundial de futsal, com a Tailândia (18h, RTP1)

Terça-feira, 14

⚽ Está de regresso 🎶 🎶 THE CHAAAAAAMPIONS 🎶 🎶 e a primeira equipa portuguesa a entrar em ação é o Benfica, frente ao Dinamo Kiev (20h, Eleven1)

⚽ Neste primeiro dia de fase de grupos, destaque para o Barcelona - B. Munique, do grupo do Benfica (20h, Eleven2) e para o Young Boys - Man. United (17h45, Eleven2), no regresso de Cristiano Ronaldo à Champions pelos red devils

⚽ Liga Conferência: Maccabi Haifa - Feyenoord (15h30, Sport TV1)

Quarta-feira, 15

⚽ Continua a 1.ª jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões com a estreia do FC Porto, frente ao At. Madrid (20h, TVI) e do Sporting, com o Ajax (20h, Eleven1)

⚽ Acompanhe ainda o Liverpool - Milan (20h, Eleven6) e o Inter - Real Madrid (20h, Eleven5)

⚽ Liga Europa: Spartak - Legia (15h30, Sport TV1)

Quinta-feira, 16

⚽ É a vez do SC Braga se estrear na Liga Europa, frente ao Estrela Vermelha (17h45, SIC). Destaque também para o Galatasaray - Lazio (17h45, Sport TV3) e para o Leicester - Nápoles (20h, Sport TV2)

⚽ Na Liga Conferência, há treinadores portugueses em ação. O Tottenham de Nuno Espírito Santo joga com o Rennes (17h45, Sport TV2) e a Roma de José Mourinho recebe o CSKA Sofia (20h, Sport TV1)

⚽ Portugal - Ilhas Salomão no Mundial de futsal (16h, RTP1)

⚽ Apuramento para o Mundial feminino 2023: Turquia - Portugal (17h, 11)

Sexta-feira, 17

⚽ Começa mais uma jornada da I Liga com o Portimonense - Santa Clara (20h15, Sport TV1)

Sábado, 18

⚽ I Liga: Famalicão - Marítimo (15h30, Sport TV1), Belenenses SAD - Gil Vicente (18h, Sport TV1), Arouca - V. Guimarães (20h30, Sport TV1)

⚽ Premier League: Manchester City - Southampton (15h, Sport TV2)

⚽ La Liga: At. Madrid - Athletic Bilbao (15h15, Eleven1)

Domingo, 19

⚽ I Liga: FC Porto recebe o Moreirense (18h00, Sport TV2) e o Sporting joga em casa do Estoril (20h30, Sport TV1)

⚽ Premier League: West Ham - Manchester United (14h, Sport TV3) e Tottenham - Chelsea (16h30, Sport TV3)

⚽ Ligue 1: Paris SG - Lyon (19h45, Eleven3)

⚽ Portugal - Marrocos no Mundial de futsal (16h, RTP1)

⚽ Apuramento para o Mundial feminino 2023: Israel - Portugal (17h, 11)

🏁 MotoGP: GP São Marino (13h, Sport TV2)

🎾 Taça Davis: Portugal defronta a Roménia (10h, Sport TV6)

Hoje deu-nos para isto

A 17 de julho de 2015, Jules Bianchi partia depois de meses e meses de ausência, num coma irreversível após um acidente no GP Japão do ano anterior. O francês de 25 anos despistou-se e colidiu com uma grua que retirava outro carro acidentado, enfaixando-se debaixo do veículo. Foi a morte do francês que acelerou a introdução de novas medidas de segurança nos carros de Fórmula 1, levando à adoção do halo, a auréola que envolve o habitáculo e que tantas críticas recebeu quando se tornou obrigatório, em 2018.

Certo é que, daí para cá, é possível que o halo, bonito ou feio, invasivo ou não, já tenha salvado algumas vidas. Poderá ter salvado a vida de Charles Leclerc nesse mesmo ano, quando o monegasco, afilhado de Bianchi, viu o McLaren de Alonso passar-lhe por cima da cabeça. Poderá ter assegurado que a trágica morte de Anthoine Hubert, no GP Bélgica de F2 em 2019, tivesse sido a única fatalidade naquele infame acidente. E seguramente permitiu que Romain Grosjean saísse com vida da bola de fogo que se transformou o seu Haas no GP Bahrain de 2020.

Este domingo, o halo poderá ter dado mais uma oportunidade a Lewis Hamilton, como se pode ver pela foto abaixo, depois do incidente com Max Verstappen durante o GP Itália, em Monza. Ambos ficaram fora de combate mas, no fim de contas, ganhámos todos - há quatro anos poderíamos estar aqui a falar de uma tragédia.

ANDREJ ISAKOVIC/Getty

Tenha uma boa semana e siga a Tribuna diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter e Facebook: @TribunaExpresso.