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João Almeida é um prazer cheio de dor irracional

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O ciclista português, de 23 anos, ganhou a Volta ao Luxemburgo no sábado. Foi a segunda corrida por etapas que conquistou este verão

O ciclista português, de 23 anos, ganhou a Volta ao Luxemburgo no sábado. Foi a segunda corrida por etapas que conquistou este verão

Tim de Waele/Getty

Se há inevitabilidade que me incomoda é a poeira da memória e a sua indiferença, não a entendo, haverá neurocientistas com mente dedicada a estudar as manigâncias de outras mentes que o saibam explicar. Nunca serão os porquês extraídos de neurónios e massas cinzentas a soprarem todas as partículas de frustração que sinto por me lembrar das tardes de verão em que me sentava no chão da sala, mais perto da televisão, pernas cruzadas pelo espanto, sem me recordar do que o meu avô ia dizendo para seduzir os meus ouvidos, tanto quanto os olhos eram surripiados pela admiração do que estávamos a ver.

Quando a televisão ainda era uma caixa, a pessoa que genuinamente gostava de desporto e não apenas de me ver praticar desporto chegava lá a casa, sentava-se no cadeirão que lhe amparava os joelhos carcomidos por cirurgias e plantava-me a semente do ciclismo. Eram os verões da Volta a França, de Marco Pantani, Jan Ullrich, Alexander Vinokourov, Carlos Sastre e de Lance Armstrong, antes de o mundo cair com a fraqueza nos braços do americano que se encharcou em doping durante tantos anos, mas não aqueles, os das tardes a ver ciclismo com o meu avô.

Não lhe sei precisar as palavras, sei apenas que me explicava, com a voz grave e cheia de paciência, estarmos a presenciar homens em plena suportação do extraordinário. O meu avô vendia-o como das coisas mais admiráveis ao alcance de um humano — fazer mexer uma gerigonça de duas rodas apenas com a força das pernas e, com ela, escalar montanhas a pique. Há lugares onde a natureza não quis ter pessoas e esses sítios ficam nos picos do mundo, de outra forma não seriam assim, gargantuescos na ascensão e dilapidadores de corpos.

Há muitos anos que se foi a voz que era o meu desporto, felizmente ainda tivemos tempo para me dar, sobretudo para me ensinar, um gosto que é impossível de perder. Mas, sumido ele e aparecido o escândalo que foi saber que Armstrong era o imperador dos batoteiros, confesso ter virado um derrotado do ciclismo. Acabaram as tardes de Volta a França, a Itália ou a Espanha, o acompanhamento de genuíno interesse passou a interesseirice obrigatória devido à profissão, duas coisas que só voltaram a estar juntas quando um certo português apareceu.

Desconhecia João Almeida quando se adornou de rosa durante 15 dias, o ano passado. Foram duas semanas do Giro a ser liderado por um rapaz a pedalar no ano de estreia enquanto profissional e o inglês, idioma engenhoso, tem uma palavra para o que isto poderia ser: um fluke. Um acaso, as estrelas combinadas entre si para se alinharem. Mas não, o ciclista de A-dos-Francos voltou a Itália para acabar no 6.º lugar depois do 4.º de 2020, depois foi aos Jogos Olímpicos para uma 16.ª posição no contrarrelógio e no que restava deste verão ganhou duas voltas, primeiro à Polónia e, este sábado, ao Luxemburgo.

Portugal teve muitos ciclistas, o meu avô enchia-me o depósito do ideário da vida sobre dois pedais com histórias do que vira Joaquim Agostinho, o maior deles todos, fazer em França. O país continuará a ter ciclistas depois de João Almeida, mais almas cairão nesse caldeirão de dor suportada e sofrimento acumulado entre homem e máquina em que ele é o motor, o ano passado ouvi o ciclista que é dos arrabaldes das Caldas da Rainha dizer que "a dor física é tolerável, mas a mental é complicada", que quando termina a dos músculos e começa a do cérebro é que o corpo se ressente — "aí é que temos de ir além dos limites".

O ciclista português vai sair da Deucenik-Quikstep no final desta época. Passará a pedalar pela UAE Emirates

O ciclista português vai sair da Deucenik-Quikstep no final desta época. Passará a pedalar pela UAE Emirates

Stuart Franklin/Getty

Agora que conquistou o Luxemburgo, o português disse não ser um super-herói, lamentando-se por não ser "possível responder a toda a gente" no alcatrão quando as pernas viram brasas de carvão e berram estridentemente para que lhes seja concedido algum descanso. João Almeida só tem 23 anos, na escala da vida é uma ninharia, mas estará opulento de saber o quão sofre um ciclista para pedalar até onde ele já foi, ainda por cima tendo os dotes de trepador já evidenciados e a queda pelas subidas íngremes que até fazem carros ficarem com os bofes de fora.

Não tive forma de perguntar a este já super-ciclista — que, no próximo domingo, voltará à estrada nos Mundiais de ciclismo — sobre o que leva alguém a abraçar tal sofrimento, a querer sofrê-lo e a prosperar com a dor, tão pouco tenho o meu avô por cá para me explicar as nuances de algo tão humano como só ele era capaz de me fazer entender, por isso questionei a única alma que conheço e sei que experimentou a sério o equilíbrio da vida em duas finas rodas. Sorte a minha e, arrisco, também a vossa, por ele ser também uma pessoa que tem um ralenti de clareza na escrita para que possamos, mesmo só com ligeiros arranhões, tentar perceber o que é pedalar sabendo que a estrada nos condena a uma provação dolorosa:

Há um prazer muito específico que é certamente irracional e disfuncional mas viciante e alucinante e que por isso mesmo é um prazer contraditório, porque é um prazer cheio de dor, dor que sabe bem quando a dor devia saber só a dor, achar que a dor tem sabor a mau ou sabor a bom é complexificá-la e romantizá-la em vão porque a dor é uma perda de tempo perante a possibilidade do prazer, o prazer esse sim deve ser aclamado nos seus sabores e escalas diferentes, por exemplo: podemos ter o prazer-medíocre e o prazer-satisfaz e o prazer-bom e o prazer-excelente e porque não o superprazer, eis uma escala possível de prazer, cada um de nós terá a sua escala e nunca é perda de tempo viver e sentir esses escalões do prazer.

Peço perdão por usar "escalões" que é linguagem de IRS mas isto do ciclismo, que é disto que aqui falo embora não o pareça, isto do ciclismo tem a sua contabilidade também, é feito de dois pedais e uma forqueta e ainda um guiador e também uma corrente, é feito ainda de manípulos de velocidades e de múltiplas combinações de andamentos, 52x11 ou 42x23, esta é matemática do ciclista, os ciclistas falam com estes números entre eles e não tente perceber isto porque ninguém entende mesmo os ciclistas, a boca deles sabe-lhes a sangue no final de um contra-relógio de 50 quilómetros sob temperaturas de 40.ºC ou enquanto sobem uma montanha com inclinações de 20% ou por centos maiores, ninguém os entende no sacrifício apocalíptico deles, nem eles porventura se entendem a eles mesmos quando se tentam superar continuamente nesse ato extravagante mas definitivamente poético que é serem os motores de si próprios, as pernas a fazer de gasolina e o coração a bombear óleo da melhor qualidade.

A BMW ou a Tesla têm excelentes veículos mas nenhum é tão corajoso nem sexy como os veículos de calção de licra e camisola justa que atingem 190 ou 195 pulsações por minuto — não porque querem, mas porque precisam, afinal é um prazer irracional e disfuncional mas viciante e alucinante: por mais absurda que seja a dor, e é porque dói tanto, o ciclismo é um exercício contínuo de autossuperação e por isso um exercício contínuo de amor à vida, é rejeitar que há limites ao que podemos fazer e conquistar, no fundo o ciclismo é a prática dessa belíssima ilusão humana que é a crença de que não há limites para o que podemos conquistar, portanto o ciclismo é uma metáfora do progresso e isso é superprazer.

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O que vem aí

Segunda-feira, 20

🌊 Arranca o US Open of Surfing em Huntington Beach, na Califórnia, onde se realiza a primeira etapa do Challenger Series (de seis que valem 10.000 pontos) do circuito mundial de qualificação. Há cinco portugueses em prova (Frederico Morais, Vasco Ribeiro, Yolanda Sequeira, Teresa Bonvalot e Carolina Mendes) e o tempo de espera vai até domingo.
🎾 Começa também o Braga Open, torneio de ténis inserido no Challenger Tour, no qual vão competir diversos portugueses, entre eles Gastão Elias e Frederico Silva. Vai até domingo.
⚽ Para encerrar a 6.ª jornada do campeonato, o Benfica defronta o Boavista no Estádio da Luz (19h, BTV).

Terça-feira, 21

⚽ À mesma hora (19h45, Sport TV), jogar-se-ão duas partidas envolvendo grandalhões do futebol inglês, a contar para a Taça da Liga do país: o Manchester City recebe o Wycombe Rovers, da League One (III Divisão), e o Chelsea vai a casa do Norwich.

Quarta-feira, 22

⚽ Joga-se a primeira mão da meia-final brasileira da Copa dos Libertadores, entre o Palmeiras de Abel Ferreira e o Atlético Mineiro (2h, Sport TV1).

Quinta-feira, 23

⚽ A Roma de José Mourinho, que ainda só sabe o que é ganhar (seis jogos, seis vitórias), recebe a Udinese (19h45, Sport TV2) para a Serie A.

Sexta-feira, 24

🎾 Começa a Laver Cup, torneio anual que não dá pontos para o ranking, mas compensa com proporcionar que uma seleção de tenistas europeus defronte, em Boston, EUA, outra que congrega jogadores do resto do mundo.
⚽ Ainda não é oficialmente fim de semana e há logo dois dos ditos grandes em campo na I Liga: o Sporting recebe o Marítimo (19h, Sport TV2) e o FC Porto visita o Gil Vicente, este a uma hora (21h15, Sport TV1) em que se insiste marcar jogos em Portugal.

Sábado, 25

⚽ Há três jogos na I Liga, em Portugal: o Moreirense- Arouca (15h30, Sport TV2), o V. Guimarães-Benfica (18h, Sport TV1) e o Tondela-Famalicão (20h30, Sport TV2).
🚴 No Campeonato do Mundo de ciclismo, Daniela Ramos compete na prova de fundo feminina (12h20, Eurosport), que se realiza em Flandres, na Bélgica.

Domingo, 26

🚴 É a vez de João Almeida, Nelson Oliveira e Rafael Reis pedalarem na prova de fundo masculina (10h25, Eurosport) no Campeonato do Mundo de ciclismo.
🏎️ A Fórmula 1 regressa após um fim de semana de descanso com o Grande Prémio da Rússia (13h Eleven Sports).
⚽ Na Premier League, há um dérbi londrino para animar o fim de semana: Arsenal-Tottenham (16h30, Sport TV2). Pouco depois, José Mourinho tem o seu primeiro sabor do que é viver, bem por dentro, um dérbi do Olímpico da capital italiana: é dia de Lazio-Roma (17h, Sport TV3). Na Liga Bwin, há o Santa Clara-Braga (18h, Sport TV1) e o Portimonense-Vizela (20h30, Sport TV1).

Hoje deu-nos para isto

Fernando Pimenta é, há já alguns anos, sinónimo de pagaiar sozinho. Houve um tempo em que não queriam que o melhor canoísta português competisse por si só, em K1

Fernando Pimenta é, há já alguns anos, sinónimo de pagaiar sozinho. Houve um tempo em que não queriam que o melhor canoísta português competisse por si só, em K1

E pensar que já houve um tempo em que alguém, supostamente, não queria deixar Fernando Pimenta pagaiar sozinho por Portugal, com um caiaque só para ele, dando uso à artilharia pesada de músculos para deslizar em linha reta sobre a água contando apenas com ele próprio na letra maiúscula e o primeiro dos números inteiros.

Antes dos Mundiais de 2013, soube-se que o melhor canoísta português não iria à Alemanha por causa de uma zanga, um diz que disse que fervilhou até escaldar. A Federação Portuguesa de Canoagem alegava que o atleta se recusou a competir por ir contra "premissas definidas no início da época", que o teriam a partilhar pagaiadas em K2 ou K4; Fernando Pimenta defendia que foi nessa altura que comunicou a vontade em competir sozinho, em K1. Quatro anos antes, já algo parecido acontecera.

Disse ele, na altura, ser "muito desmotivante para um atleta que apresenta nível não poder competir individualmente", quando já tinha quatro medalhas (duas de ouro) internacionais conquistadas na categoria, em 2013. A quezília diferenciadora haveria de acender o cachimbo da paz e hoje, tantas primaveras vitoriosas depois, Fernando Pimenta está com 107 medalhas na carreira entre todas as categorias.

É, de longe, o melhor canoísta português e agora, pelos vistos, está com vontade de partilhar o caiaque com alguém. "Nunca fechei a porta a um trabalho de equipa. Espero estar a disputar excelentes resultados em duas finais olímpicas. (…) Há atletas que, provavelmente, também vão querer fazer a dobradinha em Paris. Assim espero e que algum deles se sinta desafiado e aceite”, revelou, já esta segunda-feira, arremessando o isco para o ciclo olímpico que aí vem.

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