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João Félix 👏🏻👏🏻👏🏻

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Esta época não tem sido das mais felizes para João Félix, mas, sem ter jogado este fim de semana, o português deu um exemplo

Esta época não tem sido das mais felizes para João Félix, mas, sem ter jogado este fim de semana, o português deu um exemplo

Soccrates Images

Não sei de onde veio a estapafúrdia ideia de que os rivais, no futebol, têm de ser inimigos e não há cá amizades para ninguém, isso é que era bom. Eu, que nasci nos anos 80, nunca vi um ano passar sem ouvir o "Portugal é um país atrasado" ser debitado sobre tudo e mais alguma coisa, expressão resistente aos tempos, como a muleta que os nossos avós têm encostada à parede para o que der e vier, atrás de uma porta lá de casa que nunca se fecha e toca a ir lá buscá-la para qualquer lamúria que não se consiga explicar, ou justificar.

Um jogador do Sporting tem de estar contra um do Benfica e ai dele, por sua vez, que mostre afagos de cavaqueira com alguém do FC Porto, já agora, livre-se um futebolista vestido às riscas azuis e brancas de confraternizar com quem jogue por algum dos clubes de Lisboa e, só mais uma coisa, que jamais um jogador do Benfica manifeste simpatia pelo adversário-mor do norte. Neste parágrafo, que é irónico, está o novelo de nós que muitas vezes, desde há muito tempo, parece assente no futebol português, só porque sim.

Em nenhum contrato que peça a um futebolista para pegar na caneta, rubricar todas as folhas e assinar na última página está alguma cláusula ou uma alínea que os obrigue a comprometerem-se que irão acicatar relações com jogadores dos rivais diretos. Ou, porventura, haja muita ingenuidade deste lado. Afinal, Portugal é o país que, em 1984, levou a seleção nacional ao Europeu com quatro treinadores, supostamente porque os jogadores do Benfica e do FC Porto não se falavam e havia que serenar as quezílias a favor do bem comum.

Hoje em dia, é bem mais fácil notar de onde vêm as posturas do só-estamos-bem-se-estivermos-contra-o-outro e a origem não está apenas no tribalismo dos adeptos, mas no que contribuiu para que este exista — há diretores de comunicação dos clubes a defender a sua trincheira e a atacaram a alheia; newsletters desses mesmos clubes a criticarem decisões de árbitros; pessoas que apoiam esses clubes a falarem nos canais de televisão sobre coisas que não querem muito saber de jogo que é o futebol, jogado no campo.

Habituámo-nos a ouvir e ler jogadores que, às vezes, parecem a mesma pessoa. Há guarda-redes, defensores, médios, extremos e avançados e, muitas vezes, todos jogam à defesa, posição que assumem em comunhão para se protegerem de dirigentes, do modus operandi da comunicação interna ou dos adeptos em quem as redes sociais parecem, muitas vezes, estimular o pior (nisto, Portugal não está atrasado, mas bem a par do que se vê em outros países europeus). E uma das piores coisas que o futebol tem por estes dias é quem acha que um jogador da equipa que apoia não pode, nem deve, ter um gesto bondoso ou de afinidade com quem joguem por um rival direto.

Por isso os três emojis de palmas com que João Félix aplaudiu Ansu Fati, publicados este domingo, no Twitter, esse caldeirão cozinhador de ódio, insultos e mesquinhez em fervura onde qualquer pessoa se pode esconder no anonimato, são tão exemplificadores do que é normal entre futebolistas e deveria ser encarado de igual forma por quem não tem o futebol como profissão.

João é do Atlético de Madrid, atual campeão espanhol, Ansu joga pelo Barcelona, o clube que está com o seu processo de implosão em curso. Nenhuma equipa está a ser louvada por uma fase que justifique muitos sorrisos, mas, este fim de semana, ao menos Fati teve uns nove minutos para lhe recompensarem tantas agruras recentes: o jogador que escolheu herdar as toneladas da camisola 10 de Lionel Messi entrou aos 81', contra o Levante, e marcou um golo, jogando pela primeira vez ao fim de 10 meses e quatro cirurgias ao mesmo joelho.

O espanhol só tem 18 anos, o português está com 21 e, esta época, tem jogado pouco e até já foi expulso por gestualizar a dúvida quanto à sanidade de um senhor do apito. João Félix aplaudiu Ansu Fati e mostrou como é do mais natural que há dois jogadores separados por equipas que jogam para ganhar as mesmas coisas elogiarem-se, sem que venha mal ao mundo. Em Portugal, fora aquela vez, há uns dois anos, em que o sempre frontal e sem pudores Bruno Fernandes, do Sporting, elogiou uma exibição de Luís Miguel, do Benfica — no próprio perfil de Instagram de Pizzi — não me recordo de jogadores de clubes rivais terem este tipo de gesto.

Porque será?

O que se passou

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O Manchester United sofreu a primeira derrota na Premier League, perdendo (1-0) com o Aston Villa, num jogo em que Bruno Fernandes teve o empate nos pés já nos descontos, mas não conseguiu converter uma grande penalidade

Zona mista

Ninguém está mais frustrado e desiludido do que eu. Sempre assumi e abracei as minhas responsabilidades em momentos de pressão como este. Hoje, falhei. Mas dei um passo em frente e enfrentei o desafio (...) voltarei a assumir sem quaisquer medos ou temores sempre que for chamado a fazê-lo

Bruno Fernandes reagiu, por escrito, ao penálti que falhou nos últimos minutos do Manchester United-Aston Villa, no sábado, que poderia ter evitado a derrota (0-1) da equipa, e deu, mais uma vez, prova da fibra de que é feito, falando sem complexos sobre o que lhe aconteceu.

O que aí vem

Segunda-feira, 27

⚽ A I Liga fecha com o Paços de Ferreira-Belenenses SAD (19h, Sport TV2) e o Boavista-Estoril Praia (21h15, Sport TV1).
🏆 Portugal joga os quartos-de-final do Mundial de futsal contra a Espanha (15h30, RTP1).

Terça-feira, 28

⚽ É semana para as equipas portugueses regressarem ao ativo para a segunda jornada da Liga dos Campeões: o Sporting vai a Dortmund defrontar o Borussia (20h, Eleven Sports 1) e, à mesma hora, o FC Porto recebe o Liverpool (TVI). Também poderá assistir à colisão entre o Paris Saint-Germain e o Manchester City (Eleven Sports 3), os dois clubes inflacionados pelos milhões vindos do Médio Oriente para andarem atrás da conquista desta competição.

Quarta-feira, 29

⚽ O Benfica joga com o Barcelona no Estádio da Luz (20h, Eleven Sports 1) e, por essa hora, destaque para um jogo dos grandes: a Juventus é anfitriã do Chelsea, em Turim (Eleven Sports).

Quinta-feira, 30

⚽ O Sporting de Braga recebe o Midtjylland, a contar para a segunda jornada da fase de grupos da Liga Europa (20h, Sport TV1).

Sexta-feira, 1

⚽ Arranca a 8.ª jornada da I Liga, com o Marítimo-Moreirense (19h, Sport TV3) e o Famalicão-V. Guimarães (21h15, Sport TV1).

Sábado, 2

🌊 Começa o MEO Vissla Pro, na Ericeira, segunda etapa do ano do Challenger Series, o mini-circuito dentro do circuito mundial de qualificação da World Surf League, composto por cinco provas que valem 10.000 pontos. O período de espera irá até 10 de outubro e muitos surfistas do melhor que há estarão em Portugal (transmissão no site da WSL, ou na Fuel TV).
⚽ Continua a I Liga: jogam-se o FC Porto-Paços de Ferreira (18h, Sport TV2) e o Arouca-Sporting (20h30, Sport TV1). Antes, na Premier League, pode ver o Manchester United de Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes e Diogo Dalot defrontar o Everton (12h30, Sport TV2).

Domingo, 3

🏍️ Há o Grande Prémio das Américas em MotoGP, nos EUA (Sport TV).
⚽ Mais I Liga: Belenenses SAD-Tondela (15h30, Sport TV1), Benfica-Portimonense (18h, BTV), Estoril Praia-Gil Vicente (18h, Sport TV1) e Sp. Braga-Boavista (20h30, Sport TV1). Lá fora, na Serie A e além do jogo da Roma de José Mourinho e Rui Patrício, frente ao Empoli (17, Sport TV3), destaque para o Fiorentina-Nápoles à mesma hora e o Atalanta-AC Milan (19h45, Sport TV3). Em Inglaterra, é dia de Liverpool-Manchester City (16h30, Sport TV2).

Hoje deu-nos para isto

Lewis Hamilton tinha 22 anos quando, em 2007, ganhou a primeira corrida na Fórmula 1. Este domingo, foi a centésima

Lewis Hamilton tinha 22 anos quando, em 2007, ganhou a primeira corrida na Fórmula 1. Este domingo, foi a centésima

Darren Heath Photographer

Era uma cara laroca de recém-adulto e tinha a pele impecavelmente barbeada, a vida ainda nem lhe gretara a face com rugas de expressão, lhe pintara o corpo com a tinta de tatuagens ou furara o nariz com um piercing. Lewis Hamilton era um jovem e um novato na Fórmula 1 e no calor do verão australiano estreou-se onde nunca uma pessoa negra se acelerara — Willy Ribs, em 1986 e no Autódromo do Estoril, foi o primeiro piloto negro a conduzir um monolugar destes.

Logo à primeira corrida do gancho a ser batido mesmo nos queixos da monocromática rainha do desporto automóvel, o inglês foi rápido, rapidíssimo. Em 2007, o tipo do sorriso gentil acabou o Grande Prémio da Austrália no 3.º lugar e tem vivido, desde então, a sinonimar-se com rapidez. Nesse mesmo ano, no Canadá, venceria a primeira corrida na Fórmula 1, na sexta em que participou. Tinha 22 anos.

Lewis Hamilton ainda é um jovem no grande sentido da vida, mas os dias de novatos já lá vão e foram muito antes deste domingo, quando conquistou a 100.ª vitória da carreira para acrescentar mais um recorde dos que realmente importam à enorme prateleira com que já teve de forrar uma enorme parede lá de casa: é o piloto com mais pole positions (101), pódios (176), corridas terminadas em posições de pontos (242) e voltas dadas a pistas no primeiro lugar (5.232).

Poderia estar aqui a escrever e aí desse lado a lerem por mais umas quantas linhas, embora esteja em crer que a ideia passou. Lewis Hamilton, hoje com 36 anos, é sete vezes campeão mundial de Fórmula 1 enquanto vai sendo um acumulador de excelência a 300 quilómetros por hora, usando o estatuto de influência que foi conquistado a abrir para ir falando sobre racismo, desigualdades sociais, destilação de ódio nas redes sociais e, no fundo, tentando ser um exemplo em algo mais do que apenas acelerar sem parcimónia no alcatrão.

Tenha uma boa semana, não se aventura em velocidades na estrada e, se puder, acompanhe a Tribuna diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter e Facebook: @TribunaExpresso.