Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE

Estes gajos são fantásticos

Partilhar

Jorge Braz entrou no futsal para manter a forma que lhe fugia entre o futebol e os estudos. Acabou por ficar e, agora, é campeão da Europa e do Mundo

Jorge Braz entrou no futsal para manter a forma que lhe fugia entre o futebol e os estudos. Acabou por ficar e, agora, é campeão da Europa e do Mundo

Alex Caparros - FIFA

É comum ouvir dizer que é na bola mais pequena e pesada, no piso rápido que muito adere ao que o pisa e nesse estilo de pisar em vez de apenas tocar que está a melhor forma de algodenizar o trato que se pode dar, com os pés, a qualquer objeto redondo. É uma carta com raízes impregnadas dentro do baralho do futebol, como as gargantuescas que se desconfia estarem a sustentar aquelas árvores milenares que se avistam durante um passeio na floresta: quem andou no futsal antes do futebol conseguiu aprimorar a técnica

Houve um tempo não há muitos tempos em que os distúrbios de personalidade de uma modalidade à procura do que era antes de o ser ainda divida as atenções pelo futebol de cinco, o futebol de salão e o futsal. Na década de 90, existiam os três tipos de chutos na bola dentro de um pavilhão, todos com regras distintas, até à FIFA se fixar na última das versões e andor, toca a empurrá-la em direção à globalidade possível, alavancando-se nas semelhanças com o futebol das relvas e dos estádios.

Por muito rebatida e repetida que seja a conceção de no futsal estar um meio de utilidade extrema para não se sair da infância com lacunas no trato de uma bola, as modalidades são apenas parentes. Ser bom numa não equivale a ter perícia na outra e uma boa amiga que tenho a sorte de ter, com vida dedicada a jogar futsal, resume que "o mais difícil é ser rápido na leitura e na execução, porque ambos têm de ser no mesmo timing" e esse nem sempre é o caso no futebol, onde há reinados de quem tem pausa, calma e temporização no jogo. Mas, há muitos anos, alguém recorreu ao tempo o pavilhão para compensar a falta de vagar para os relvados.

Jorge Braz era um adolescente a querer proteger um retângulo gigante na nesga de oportunidade que lhe deram na equipa principal do Desportivo de Chaves, onde o tinham como terceiro guarda-redes e ele tinha para si que o caminho de vida também poderia ser no curso de Desporto e Educação Física, na Universidade do Porto. As viagens de ida e volta de autocarro mastigavam-lhe o tempo, fomentavam preocupações com a benfeitoria do físico e Jorge experimentou o futebol de salão universitário para segurar os arames da sua forma.

É a síntese possível de uma história que desaguou, no domingo, em Kaunas, segunda maior cidade da Lituânia que ficou cravada com um pionés no mapa de vida de um homem nascido em Edmonton, no Canadá, mas com as raízes profundas em Sonim, aldeia transmontana onde dá nome a uma rua e reside a essência de quem fez da seleção nacional de futsal uma campeã da Europa e agora do Mundo.

A choradeira emocionada de Ricardinho, que dedicou o verão a curar uma lesão para tentar chegar ao Mundial e ali embalou os sentimentos com o hino nacional, antes da final; os segundos de João Matos curvado sobre a medalha, já no púlpito, encaracolado num momento só dele e do tudo que terá vivido até estar a viver aquilo; os pulos de alegria de Bebé, a fazer do chão do pavilhão um trampolim de êxtase. Estes e outros 13 jogadores-ganhadores têm estórias dentro e a de Jorge Braz deu-lhes o fim condutor das lendas.

Os novos campeões mundiais de futsal

Os novos campeões mundiais de futsal

Alex Caparros - FIFA

Diz quem o conhece que Portugal tem um homem pacato e de coração cheio para o despejar nos outros a tomar conta da seleção de futsal e fico-me com ele, que do pouco à-vontade e parca habilidade a lidar com momentos de falatório público evoluiu, desde 2010 — quando virou selecionador principal —, para ser o fabricador de tiradas que constariam num manual de como mover jogadores para uma causa quando tudo o que pertence ao técnico, ao tático e ao trabalho de campo já foi preparado.

Dele ouvimos, contra a Espanha, que está "há 20 anos a dizer que somos melhores do que eles", e noutro desconto de tempo, frente ao Cazaquistão, a sair-lhe um "gente, já ganhámos isto" diante dos jogadores. Quem já pernoitou em casa da mãe de Jorge Braz para dar descanso ao esqueleto durante um périplo de bicicleta fala que as pessoas de Sonim têm a aldeia como a capital do Mundo e que lá corre qualquer coisa na água, acreditam que é diferente por dar capacidade às pessoas de tocarem na matéria dada nos seus sonhos.

Jorge Braz regressa a Sonim sempre que pode e da próxima vez retornará como campeão planetário de futsal, "é um gajo que tem esta paixão pela aldeia" e quem o disse não se importará com a informalidade quando foi o próprio selecionador, no maravilhoso que é ver alguém a repousar as defesas devido à alegria, a dirigir-se aos barulhentos portugueses presentes no pavilhão em Kaunas com o mesmo coloquialismo acariciador da alma. "Estes gajos são fantásticos", desabafou, virado para a bancada, quando bem podia estar a desmanchar-se em elogios aos seus jogadores.

Um tipo da mesma estirpe será Jorge Braz, que acabado de juntar o Campeonato do Mundo ao da Europa teve a elevação de lembrar que vem aí um estágio da seleção sub-19 de futsal e também da equipa nacional feminina. Foi o senhor futsal que percorre quilómetros para estar presente em jogos de todos os escalões, um pouco por todo o lado do país, a completar a aterragem de volta à Terra e a dar uma pista de uma evidência — é fantástico para Portugal tê-lo dedicado ao futsal.

O que se passou

Leia também

Ralhetes, puxões de orelhas e confissões de impotência

Depois de uma primeira jornada da Champions em que só se ouviu falar do ADN e do <em>pedigree</em> do FC Porto, ainda custa mais ter de explicar uma goleada em casa: é o mesmo que andarmos a elogiar o nosso filho aos vizinhos pelos excelentes resultados escolares e na semana seguinte ele aparecer em casa com um 6 a Matemática. Três goleadas consecutivas em casa, mesmo contra um super-Liverpool, é coisa para tirar qualquer um do sério, sobretudo alguém que se tira frequentemente a si mesmo do sério, escreve Bruno Vieira Amaral

Leia também

Portugal voa até ao topo do mundo nas asas de Pany Varela

Dois golos do jogador do Sporting deram a vitória (2-1) à equipa de Jorge Braz frente à Argentina e levaram Portugal a vencer, pela primeira vez, o título mundial de futsal, o qual junta ao Europeu conquistado em 2018

Leia também

Brenda Pérez: “A mente trabalha melhor numa rotina do que no caos"

Aos 28 anos, a espanhola Brenda Pérez vive a primeira experiência no estrangeiro, e não está a correr nada mal, depois dos golos ao Benfica e da conquista da Supertaça. Em tempos, num programa de televisão, mascarou-se de rapaz para combater o machismo e os estereótipos no futebol. "Está melhor hoje, são conscientes de que é um desporto de miúdos e miúdas"

Leia também

“Em Espanha, meteram o meu Smart quase dentro do balneário. O capitão disse-me: ‘um jogador do Bétis não pode vir com um carro destes’”

Primo de Afonso Martins, ex-jogador do Sporting, Salvador Agra cresceu nas Caxinas e sempre carregou ao peito o Varzim SC, o primeiro clube onde jogou e formou-se homem. Em Olhão conheceu o treinador com quem mais trabalhou e por quem tem grande admiração: Sérgio Conceição. Estreou-se lá fora no Bétis de Sevilha, antes de rumar ao Siena de Itália. Voltou a Portugal, para o SC Braga, passou pela Académica e fez duas épocas no Nacional da Madeira antes de ser comprado pelo Benfica, onde nunca jogou e nem pré-época fez. Mas diz não guardar mágoa

Leia também

No futebol também foi dia de Portugal

À oitava jornada, depois de sete vitórias, o Benfica perdeu no Estádio da Luz diante de um Portimonense (0-1) que contou sobretudo com a tarde maravilhosa de Samuel Portugal, o guarda-redes que escreveu com a mão esquerda o melhor trecho deste conto heróico. Ou trágico, dependendo do ponto de vista

Leia também

Daniel e a banda dos canhotos

Debaixo de chuva, o Arouca-Sporting foi um belo jogo de futebol. Venceu a equipa de Rúben Amorim, que tocou a música saída da canhota de alguns rapazes, principalmente de Daniel Bragança e Pablo Sarabia

Leia também

Diogo Faro queria que Pedro Porro adorasse bacalhau e bagaço e explica a ideia de meter Palhinha atrás de Rendeiro

Na análise humorística de Diogo Faro ao Arouca-Sporting, tira o chapéu a Pablo Sarabia e deixa duas palavras para Rúben Amorim: "De nada".

Leia também

"No Dubai, o Fábio Coentrão apanhou-me a dormir à beira da piscina, pôs um calamar na minha cabeça e de repente fui atacado por um corvo"

Nos últimos 10 anos, Salvador Agra jogou em 11 clubes de quatro países diferentes, mas o facto de "andar sempre com a tralha atrás" é para ele sinónimo de ter atingido o que milhões no mundo não conseguem alcançar. O "baixinho", avançado do Tondela que gosta de ir à pesca com os amigos e que repetiu há um mês a sensação de ser pai, não sabe o que quer fazer após pendurar as chuteiras e confessa que não gosta que o chamem "sem pescoço"

Leia também

Wendell Nascimento Borges, muito prazer, estou aqui

O FC Porto, que chegava de uma derrota pesada na Liga dos Campeões, até começou a perder, mas Luis Díaz e Wendell tratariam de juntar as linhas que cosem o orgulho. Vitinha e Francisco Conceição foram titulares

Leia também

Chapa ganha, chapa gasta: apostas desportivas, um hobby de risco

O jogo online atrai cada vez mais pessoas, mas crescem os pedidos de ajuda: 93,6 mil pediram a autoexclusão nos últimos três meses

Zona mista

A lei que impede que alguém bêbedo conduza não foi feita para proteger o condutor que bebeu, mas os outros condutores. E todos aceitamos isso como lei. Eu não me vacinei apenas para me proteger a mim, mas também para proteger os outros. Por isso, não percebo como pode ser visto como uma limitação da liberdade. Se é uma limitação, então beber e conduzir também é.

Jürgen Klopp é treinador de futebol, um treinador, por sinal, bastante bom no que se dedica a fazer e não apenas pelo que ganha ou conquista, mas pelo que alcança. E quase tudo se deve a quem o alemão é enquanto pessoa: sensato nas opiniões, ponderado nas falas, empático nas posturas e, depois, sem problemas em pronunciar-se sobre temas para lá do que escolheu para profissão. Desta vez, foram a pandemia e as vacinas.

O que vem aí

Segunda-feira, 4

🌊 Continua o MEO Vissla Pro na Ericeira, etapa do Challenger Series que vale 10.000 pontos para o circuito mundial de qualificação da World Surf League. O período de espera do evento vai até domingo.

Terça-feira, 5

🎾🧠 Sendo mais uma semana sobretudo dedicada a jogos de seleções e aproveitando que este dia — fora o Viana-Sporting (16h, Sport TV2) a contar para o campeonato nacional de voleibol — é parco em desporto a acontecer em Portugal com transmissão televisiva, pode ser altura para assistir a "Ponto Decisivo": Mardy Fish, um ex-tenista e atleta profissional americano, a falar abertamente sobre as toneladas de peso que o lado mental tem no desempenho de quem faz do desporto, vida.

Quarta-feira, 6

⚽ A fase final da Liga das Nações, prova da UEFA que veio apimentar e dar mais sentido aos jogos entre seleções, cujo primeiro vencedor foi Portugal, começa com a meia-final entre Itália e Espanha (19h45, Sport TV1).

Quinta-feira 7

🎾 Arranca o Indian Wells, nos EUA, penúltimo torneio do Masters 1000 da temporada (Sport TV).
⚽ Joga-se a outra semi-final da Liga das Nações: Bélgica-França (19h45, Sport TV1).

Sexta-feira, 8

⚽ Venha mais uma fornada de partidas de qualificação rumo ao Mundial invernoso de 2022. De entre as várias agendadas para este dia, há o Alemanha-Roménia (19h45, Sport TV3) e o Letónia-Países Baixos (19h45, Sport TV2).

Sábado, 9

⚽ É a vez de a seleção nacional ir a jogo no Estádio do Algarve, mas apenas para um jogo de preparação frente à equipa do país anfitrião do próximo Campeonato do Mundo. O Portugal-Catar arranca às 20h15 (RTP1).

Domingo, 10

⚽ Dia da final da Liga das Nações (19h45, Sport TV1). Mais tarde, joga-se igualmente um Colômbia-Brasil, a contar para a fase de qualificação rumo ao Mundial do próximo ano.
🏎️ Realiza-se o Grande Prémio da Turquia em Fórmula 1 (13h, Eleven Sports).

Hoje deu-nos para isto

Raymond Goethals é um dos grandes no que toca a treinadores de futebol e passou um ano em Portugal

Raymond Goethals é um dos grandes no que toca a treinadores de futebol e passou um ano em Portugal

Alain Gadoffre

O cigarro era como um penduricalho do corpo, omnipresente no repouso nos lábios, enquanto o belga se mantinha de pé, diante do banco de suplentes, a assistir ao jogo no qual uma equipa sua estivesse a participar. Assim se foi pintando o retrato que ficou de um treinador icónico, carismático como poucos.

De entre os 16 títulos que preenchem a pegada deixada por Raymond Goethals, um é a Liga dos Campeões de 1993 com um Marselha recheado de muita qualidade per capita. Ordenados pelo senhor do cigarro sempre aceso, tipos como Fabien Barthez, Marcel Desaily, Didier Deschamps, Abedi Pelé ou Rudi Voller conquistaram o troféu mais cobiçado na Europa e ergueram-no com a força do espanto geral.

Goethals faria 100 anos nesta semana (7 de outubro) em que Bernard Tapie, o homem então a presidir ao clube francês, deixou este mundo onde se escreve, lê ou recorda a história que ambos deixaram cravada no futebol. Parte dela foi contada aqui na Tribuna Expresso pelo Hugo Tavares da Silva, que há uns meses pediu a Manuel Machado para lhe esmiuçar a sua fatia de vida com o treinador belga e assim compôs um pequeno conto sobre o percurso deixado feito por ele.

Leia também

"O Goethals andava sempre com um blazer onde tinha guardanapos para fazer táticas e bonequinhos": a época de Raymond 'La Science' no Vitória

Manuel Machado conta à <strong>Tribuna Expresso</strong> como o acaso de ter "um francês de liceu" o levou a ser adjunto de Goethals, em Guimarães. Já Laureta, um canhoto daquele plantel de 1984/85, recorda com saudades o "mago da bola" que antes via na revista "Onze". Esta sexta-feira há Bélgica-Itália (20h, SIC), por isso trazemos um pedaço da história deste homem polémico e apaixonado pelo jogo

Tenha uma boa semana, se puder fique longe de cigarros e tabaco e siga a Tribuna diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter e Facebook: @TribunaExpresso.