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A maré que leva é a maré que traz

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Xavi Hernández, de 41 anos, regressa ao clube que leva no coração e onde, passando a bola e descobrindo espaços, fez muita gente feliz

Xavi Hernández, de 41 anos, regressa ao clube que leva no coração e onde, passando a bola e descobrindo espaços, fez muita gente feliz

Matthew Ashton

Que um homem personifique algo por que suspira um clube não é coisa pouca. Não é vulgar. Afinal, viveu tudo o que os miúdos sentiram na pele na La Masia (ele chegou lá com 11 anos) e, mais tarde, conquistou o que a garotada somente se atreve a sonhar. Acima de tudo, qual diluente de números e estatísticas, está e sempre esteve o jogo. E a bola. A era Xavi Hernández no Barcelona começa esta segunda-feira, 8 de novembro. A banda sonora desta 12:45 é de Rodrigo Amarante ("Maré").

O perfil é, qual bóia de salvamento de qualquer cartola que se preze naquele clube, cruyffista, pois claro. Ainda assim, em Joan Laporta há alguma coerência. Obcecado pela bola, Xavi admite em todas as oportunidades que a quer ter sempre. “Quando não a tinha, sofria”, desabafou em tempos. Não dá para esquecer a forma como rodava e escondia a bola dos outros, famintos por aniquilar a glória de cada gesto daquele elegante centrocampista. Xavi, o futebolista, existiu para ser uma espécie de profeta: foi, é e será possível ver um médio pequeno, lento, sem músculos, que não desperdiça gotas de suor. Sempre que entrou em campo e lhe passavam a bola, levava a faca nos dentes… dentro das botas. Era ali a morada fiscal da coragem, inflamada pelas ideias e pelo binómio espaço-tempo. Tudo se desenrola à volta de espaço e tempo para este senhor. E dos rondos.

Jorge Valdano, um mago com a pena na mão, descreveu-o assim no “El País”: “Se se trata de ter convicção, o Barça acaba de comprar toda a que havia no mercado. (...) Vi jogadores mais rápidos, mais hábeis, mais desequilibradores, mas nunca vi ninguém que, como ele, controlasse os jogos como lhe desse na gana. (...) Governava os jogos como se fosse o proprietário”. No fundo, o Futbol Club Barcelona entregou a equipa a “alguém com as ideias claras como a água e redondas como uma bola”. Estamos perante um homem que, arrisco, será mais pepista do que Pep, o que é assinalável (e talvez necessário no Barcelona). E irónico: quando surgiu na primeira equipa do Barça, Xavi teve de sobreviver debaixo da sombra de Guardiola, de quem deveria ser o sucessor à força. Agora, tal como Pep em 2008, assume precocemente o monstro. As comparações não vão sofrer de fastio.

Guardiola e Xavi, em 2011, antes da semi-final do Mundial de Clubes contra o Al-Sadd

Guardiola e Xavi, em 2011, antes da semi-final do Mundial de Clubes contra o Al-Sadd

TORU YAMANAKA

Ainda houve uma ligeira novela, uma espécie de marca registada do novo Barça, mas Xavi acabou mesmo por se despedir dos jogadores do Al-Sadd e acertou tudo com a sua casa de sempre, onde esteve 24 anos (17 na equipa principal). Por ali, onde ganhou 25 troféus, fez 767 jogos, 42 deles contra o Real Madrid. Bebeu da torneira de nove treinadores no Camp Nou - Louis van Gaal, Llorenç Serra Ferrer, Carles Rexach, Radomir Antic, Frank Rijkaard, Pep Guardiola, Tito Vilanova, Gerardo Tata Martino, Luis Enrique - e abandonou, em 2015, com um triplete no bolso (o eterno "6" despediu-se num 6 de junho). Agora, passadas apenas duas temporadas e pouco como treinador no Catar (onde havia rumores de que poderia assumir a seleção local no Mundial 2022), está de volta.

Quando era miúdo, não disse a ninguém no colégio que jogava no Barcelona, não queria que mudasse a forma como o viam. Esse é um dos traços de Xavi, que segue na linha de Carles Puyol e Andrés Iniesta. Galáticos serenos. Depois, e voltamos sempre ao mesmo, diz frases como: “Despachar a bola é uma derrota intelectual”, “a bola não é uma bomba, é um tesouro”, “temos de melhorar a inteligência do jogo e focarmo-nos no talento” ou “a mente é a coisa mais importante a trabalhar no futuro no futebol”.

Tentando combater o encanto juvenil pelo Barça (culpa deste cavalheiro), e fingindo que aqui ninguém ouve o hino quando vai no carro para as futeboladas, decidi pegar no telefone e perguntar quem era afinal Xavier Hernández Creus. O perfil dos destinatários da mensagem, desafiados a dizê-lo numa frase, era tudo menos semelhante.

E recebi: “Amor e competitividade”; “É a personificação do ADN do Barcelona, tem em si o culto da posse, do controlo do jogo, da relação entre o espaço e o tempo”; “Assegura a identidade catalã que Joan Gamper projetou na fundação do clube, mas significa também a maior inspiração para o barcelonismo recuperar a essência cruyffiana e o entusiasmo em La Masia”; “Um dos melhores organizadores de jogo que vi jogar, sem dúvida um dos mais inteligentes. Um vencedor”; ”Melhor jogador de xadrez no futebol”; "É o maior símbolo do estilo que levou o Barcelona a dominar o futebol mundial".

Nada mal, hein?

O primeiro treino e a apresentação de Xavi como novo treinador do FC Barcelona, um clube ferido de morte financeiramente e com o orgulho em farrapos, acontecem esta segunda-feira. Por ora, rapazes como Eric García, Pedri, Riqui Puig, Nico González, Gavi, Frenkie e Ansu Fati vão certamente respirando de alívio. É tempo de retirar os 30 quilos que carregam entre os pitons das botas. Ninguém sabe o que vai acontecer, mas não surpreenderia que ficasse curto haver apenas uma bola num jogo de futebol. Para os rivais.

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O que vem aí

Segunda-feira, 8

⚽ Nacional-Desportivo Chaves (18h, Sport TV+) e Académico Viseu-Feirense (20h15, Sport TV1) para a Liga Portugal 2

🎾 Durante a semana joga-se o Open de Estocolmo. Arranca às 13h desta segunda-feira (Sport TV4)

🏀 Chicago Bulls-Brooklyn (01h, Sport TV1)

Terça-feira, 9

🏒 NHL à meia-noite, com Tampa Bay-Carolina (Sport TV3)

🏀 NBA: Philadelphia-Milwaukee (00h30, Sport TV1)

Quarta-feira, 10

⚽ Futsal: Torreense-Benfica (21h, Sport TV1)

🏐 Liga dos Campeões de voleibol: Olympiacos-Hebar Pazardzhik (17h, Sport TV1)

🏒NHL: Philadelphia-Toronto (00h30, Sport TV3)

🏀 NBA: Phoenix Suns-Portland (02h, Sport TV4) e Chicago Bulls-Dallas (01h, Sport TV1)

Quinta-feira, 11

⚽ Qualificação para o Catar 2022: Irlanda-Portugal (19h45, RTP)

⚽ Brasil e Colômbia também se defrontam visando a classificação para a próxima Copa (00h30, Sport TV1)

🏈 NFL: Dolphins-Ravens (1h20, Eleven Sports1)

🏌🏻 Arranca o Aviv Dubai Championship para a European Tour de Golfe (08h, Sport TV4) e o Pelican Women's Championship (15h, Sport TV4)

Sexta-feira, 12

⚽ Angola-Egito (19h, Sport TV5) e Guiné-Guiné Bissau (16h, Sport TV5) para o apuramento para o Catar 2022

⚽ Uruguai-Argentina (23h, Sport TV1), caminhada para o Campeonato do Mundo

🏀 Euroliga: Fenerbahçe-Milan (17h45, Sport TV3)

⚽ La Liga: Sporting Gijón-Real Sociedad (20h, Eleven Sports 1)

Sábado, 13

⚽ Futebol feminino: Estoril-Benfica (11h, Sport TV5)

🏉 Escócia e África do Sul afinam as maquinarias num particular (13h, Sport TV4)

🏀 NBA: Utah Jazz-Miami (22h, Sport TV1)

Domingo, 14

⚽ Portugal-Sérvia (19h45, RTP) - apuramento para o Mundial 2022

🛵 MotoGP em Valência, a última corrida da temporada tem um bónus especial: a despedida de Valentino Rossi (10h, Sport TV2)

🏎️ Fórmula 1: Grande Prémio de São Paulo (17h, Eleven Sports 3)

🏈 NFL: Packers-Seahawks (21h25, Eleven Sports1)

Hoje deu-nos para isto

PEDRO UGARTE

O Tondela-Marítimo, de domingo, trouxe-nos algo mui raro: um futebolista marcou três golos de penálti. João Pedro, o capitão dos homens da casa, até marcou as três grandes penalidades nos primeiros 43 minutos. Este acontecimento levou a mente a bater asas até à Argentina, lembrando-nos de Martín Palermo, o bomber canhoto, que por acaso celebrou o aniversário exatamente neste domingo. Coincidências...

Na Copa América de 1999, ainda na fase de grupos, o avançado falhou três penáltis (5’, 76’ e 90’) e a Colômbia acabou por vencer, por 3-0, a Argentina de Marcelo Bielsa. Há pouco tempo, num programa de televisão, o agora treinador do Aldosivi foi questionado sobre como é que aquele filme se desenrolou na sua cabeça. “O segundo [penálti] é o normal, a vingança depois de um primeiro penálti falhado. E o terceiro foi uma questão de… [ri-se] ninguém ter vindo pegar na bola. Bielsa tinha sido expulso”, ia contando. Depois, um dos entrevistadores ou comentador perguntou-lhe se não era verdade que Ayala deveria ter marcado esse terceiro. “Ele disse-me: ‘vais bater?’. Sim, [respondi-lhe], se sou eu que bato os penáltis”, e assim se ia defendendo, pois na altura Bielsa chamou-lhe “egoista”. Segundo Martín, ninguém assumiu nem lhe disse que, de fora, haviam dito que teria de ser outro a bater o terceiro penálti do jogo.

Foi deste sufoco, que ainda dá sinais de vida passados mais de 20 anos, que se livrou João Pedro. O último a fazer tal proeza, na 1ª Divisão de Portugal, foi Jokanovic, no União da Madeira.