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O salsifré com Peng Shuai

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A 2 de novembro, a tenista Peng Shuai denunciou ter sido vítima de assédio sexual da parte de um antigo vice-primeiro-ministro da China. Esteve 20 dias sem comprovadamente aparecer em público

A 2 de novembro, a tenista Peng Shuai denunciou ter sido vítima de assédio sexual da parte de um antigo vice-primeiro-ministro da China. Esteve 20 dias sem comprovadamente aparecer em público

CARL DE SOUZA/Getty

Hu Xijin é chinês, nasceu em 1960, deu-lhe para se versar e formar em literatura russa e esteve na Bósnia, a palavrear de lá a sua visão sobre a Guerra dos Balcãs. Hu é jornalista e tem direito a página de Wikipédia, da qual se espreme o resumo sintetizado de uma das não muitas pessoas autorizadas a terem um perfil de Twitter na China, onde a rede social está bloqueada à população em geral. Mas, na sua página e em baixo do nome, escrito em alfabeto latino e caracteres chineses, está o símbolo de um púlpito.

O "China-stade affiliated media", escrito mesmo ao lado, é obra da empresa do passarinho azul que assim etiqueta certas contas ou pessoas quando as considera "meios em que o Estado exerce controle sobre o conteúdo editorial por meio de recursos financeiros, pressões diretas ou indiretas e/ou controle sobre produção e distribuição". Este domingo, Hu Xijin, cuja foto de perfil o mostra sentado à beira de uma estrada, ainda jovem, com tigelada capilar e a escrevinhar num bloco de notas (diz ele) em Sarajevo, dedilhou a última de uma série de nesse formato de papel digital:

Desde que o que a Peng Shuai diga não tenha correspondência na expetativa dos media ocidentais, eles não vão acreditar. Só acreditam na história sobre a China que imaginarem. Estou surpreendido que não tenham dito que a senhora que apareceu nestes dois dias seja uma falsa Peng Shuai, uma dupla 😃

Sendo editor do Global Times, tabloide chinês ligado ao Partido Comunista Chinês, a etiqueta surge no perfil de quem, por essa internet fora, é comum ser descrito como um megafone ressonante do governo do país. Escrevendo em inglês, o pedaço opinativo de Hu Xijin incidia sobre a foto e o comunicado partilhados pelo Comité Olímpico Internacional (COI) no mesmo dia: numa sala luminosa e com uma planta jovialmente verde ao fundo, o seu presidente Thomas Bach aparecia de perfil, a olhar para o ecrã de uma televisão onde está uma mulher ao centro da imagem, sorridente, diante de uma fileira de peluches virados para a câmara e uma moldura do que aparenta ser uma fotografia dela própria.

Era Peng Shuai, supostamente em casa, alegadamente "segura e bem" e vagamente pedinte de que "a sua privacidade seja respeitada durante este tempo".

Ao vigésimo dia contado desde a sua denúncia de ter sido assediada sexualmente, em 2018, por Zhang Gaoli, antigo vice-primeiro-ministro da China, a tenista, de 35 anos, foi revista em público, mesmo que à distância. Sobretudo e simplificando, alguém do lado de cá da simplória divisão entre ocidente e oriente pôs a vista em cima da jogadora cujo silêncio, desde 2 de novembro, e silenciamento na Weibo — rede social chinesa onde publicara a denúncia, prontamente apagada pela empresa — levou os EUA, o Reino Unido, a França, as Nações Unidas e a WTA, entidade que manda no ténis feminino, a exigirem respostas ao governo de Pequim.

Não só o desporto e a política se misturam, como existem braços de ferro com diplomacia férrea a ser bombeada nas veias. As potências do ocidente foram-se pronunciando em dominó sobre o tema, encadeando-se à semelhança das respostas da China, ou vindas da China, sobre o paradeiro de Peng Shuai.

Na sexta-feira e sempre pelo Twitter, a CGTN Europe, outro meio com direito àquele símbolo de púlpito, partilhara um suposto e-mail enviado pela tenista à WTA, logo tido como dúbio na veracidade; ao longo de sábado e domingo, Hu Xijin e Quing Chen, outra jornalista chinesa, publicaram vídeos de Peng Shuai a jantar com amigos, a assinar bolas de ténis gigantes a crianças e a pousar numa suposta cerimónia de abertura de um torneio juvenil em Pequim. Todos foram encarados como barrentos e descredibilizados por não mostrarem datas, nem serem verificáveis.

A foto e os três parágrafos escritos pelo Comité Olímpico Internacional foram a primeira prova de contacto oficial entre a tenista e algum dirigente desportivo não chinês. A videochamada durou meia-hora, Peng Shuai terá dito que tem estado na sua casa, em Pequim e jogo feito, nada mais. O comunicado nunca a cita, não explica o que foi conversado e jamais refere, sequer ao de leve, talvez a única coisa que é factualmente inegável no salsifré cada vez mais ruidoso que é este caso — as alegações de assédio sexual publicadas no perfil da jogadora na Weibo contra um antigo governante da China.

Andrew Wong/Getty

Escolher o silêncio ou o não pronunciamento é uma forma de tomar posição e o COI, que teve Peng Shuai como atleta olímpica em 2008, 2012 e 2016, optou por nem mencionar ao de leve a génese do que o levou a falar com a tenista. Quem acordasse de uma sesta de cinco anos e lesse o comunicado, pensaria que ao presidente da entidade simplesmente apeteceu, naquele dia, conversar com uma tenista chinesa. E a explicação estará nas amarras não palpáveis, nem visíveis, mas que têm a força do comprometimento: em fevereiro, Pequim recebe os Jogos Olímpicos de Inverno onde há contratos, publicidade e acordos de milhões já firmados.

O dinheiro fala onde não há palavras e a "diplomacia silenciosa" que, na sexta-feira, o COI garantira estar a fazer é o que o presidente da WTA, por contraste, está disposto a perder.

Steve Simon manda numa organização representativa de uma só modalidade, de muito menos atletas e de ainda menor número de países, só que já disse e repetiu poder retirar o circuito mundial de ténis feminino da China, incluindo o lucrativo World Tour Finals, evento de final de ano previsto para Shenzen, até 2028, com um prize money superior ao do torneio masculino. Feito o anúncio da videochamada, a WTA voltou a lamentar ainda não ter conseguido falar com Peng Shuai: "Isto não muda o nosso pedido por uma investigação total, justa e transparente, sem censura, à alegação de assédio sexual, assunto que motivo a nossa preocupação inicial".

Mas a WTA não tem, nem colocou um dos maiores eventos desportivos do mundo, nas mãos organizativas da China, país onde caem acusações de supressão de protestos contra o regime (Hong Kong), de genocídio de minorias (os muçulmanos uigures) e de silenciamento de críticos do regime. Omitindo o que levou à necessidade da sua manobra de apaziguamento, nem mencionando o problema tão gritado de tantos sítios, o Comité Olímpico Internacional fez figura de refém com as mãos atadas nas costas. Porque já as tinha, e assim fica difícil bailar.

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O que vem aí

Segunda-feira, 22

🏀 Os Golden State Warriors defrontam os Toronto Raptors (1h30, Sport TV3) na NBA.

Terça-feira, 23

🏓 Arrancam os Mundiais de Ténis de Mesa em Houston, nos EUA, com vários jogadores portugueses em prova: Jieni Zhao e Leila Oliveira no quadro feminino e Marcos Freitas, Tiago Apolónia, João Pedro Monteiro e João Geraldo na prova masculina.
🏀 Os Chicago Bulls recebem os Indiana Pacers (1h, Sport TV3) e, pouco depois, os San Antonio Spurs defrontam Phoenix Suns (1h30, Sport TV1).
⚽ Regressa a Liga dos Campeões e há logo um Barcelona-Benfica (20h, TVI), à mesma hora do Chelsea-Juventus (Eleven Sports 2).

Quarta-feira, 24

🏀 Há jogo entre os New York Knicks e os LA Lakers (00h30, Sport TV1) e outro que opõe os Detroit Pistons aos Miami Heat (00h, Sport TV3).
⚽ Nesta outra fornada de jogos milionários incluem-se o Liverpool-FC Porto (20h, Eleven Sports 2) e o Sporting-Borussia Dormund (20h, Eleven Sports 1). No infortúnio de tanta bola de alto nível acontecer à mesma hora também haverá um Manchester City-Paris Saint-Germain (Eleven Sports 4).

Quinta-feira, 25

🏀 Duas partidas da NBA arrancam (3h) à mesma hora: o Sacramento Kings-Portland Trail Blazers (Sport TV1) e o Golden State Warrios-Philadelphia Sixers (Sport TV3).
⚽ O Sporting de Braga prossegue a caminhada na Liga Europa e basta-lhe um empate contra os dinamarqueses do Midtjylland (17h45, Sport TV1) para garantir a qualificação para os 16 avos de final da competição. Mais tarde, a AS Roma de José Mourinho e Rui Patrício recebe os ucranianos do Zorya (20h, Sport TV1), a contar para a Liga Conferência.

Sexta-feira, 26

🌊 Começa o período de espera do Haleiwa Challenger, no Havai. Será a última prova do ano do circuito mundial de qualificação de surf e há duas surfistas portuguesas (Teresa Bonvalot e Yolanda Sequeira) em prova.
⚽ A 12.ª jornada da I Liga arranca com o Moreirense-Gil Vicente (20h15, Sport TV1).

Sábado, 27

🏆 Abel Ferreira e o Palmeiras jogam a segunda final consecutiva da Copa Libertadores, a maior e mais importante prova de clubes da América do Sul, contra o Flamengo (20h, Sport TV2).
⚽ Há o Benfica-Belenenses SAD (20h30, Sport TV1) na I Liga, depois do Famalicão-Portimonense (15h30, Sport TV1) e do Arouca-Boavista (18h, Sport TV3).

Domingo, 28

⚽ Mais jogos da I Liga e o dia arranca com o Marítimo-Paços de Ferreira (15h30, Sport TV1), seguido do Sporting-Tondela (18h, Sport TV2) e do FC Porto-V. Guimarães (20h30, Sport TV1). Pelo meio, na Premier League, haverá o Chelsea-Manchester United (16h30, Sport TV3), primeiro jogo dos duros para quem vier tomar conta dos red devils após a saída de Ole Gunnar Solskjaer.

Hoje deu-nos para isto

Solskjaer foi durando como treinador do Manchester United

Solskjaer foi durando como treinador do Manchester United

John Peters/Getty

O capital de crédito nem sempre tem relação umbilical com a capacidade necessária para se fazer um trabalho e inglesar esta lógica, recorrendo ao getting the job done, é útil. Às vezes, toma-se o feito em tempos por garante de feitura nos tempos que correm e desde o início do retorno de Ole Gunnar Solskjaer ao Manchester United que quem o convidou para treinar a equipa confiou no oxigénio garantido pelas façanhas passadas do norueguês.

Trazer o homem que revirou tantos jogos vindo do banco de suplentes, durante anos, incluindo dos mais icónicos que a Liga dos Campeões já teve — aquela reviravolta em três minutos contra o Bayern de Munique, em 1999, vinda do nada, está plantada no ideário de uma geração de consumidores da bola —, sempre pareceu ter mais de compra de tempo glorificado para o que der e vier, do que propriamente de aposta em provadas qualidades técnicas, de gestão e trabalho de campo para orientar um clube endinheirado a querer reerguer-se.

Mesmo que tenha tardado três anos e pouco, confiar no estatuto heroico de um homem muito mais provado enquanto jogador do que na vida de treinador foi empurrando com a barriga um problema há muito nítido: o norueguês não era o tipo certo e capaz de dar ao Manchester United uma equipa condizente com o estatuto do clube e o dinheiro que lhe foi dado para a montar. E, na sombra, a ser questionado por conselhos e bênçãos ao ex-pupilo, houve sempre Alex Ferguson a adensar a nuvem de melancolia amarrada ao passado.

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“Vocês sabem o que este clube significa para mim”: o adeus incomum de um treinador dispensado

Ao longo de quase 12 minutos, Ole Gunnar Solskjær sentou-se com a televisão do Manchester United e desabafou o que havia para desabafar. Entre memórias, lamentos e esperanças, o treinador norueguês ofereceu um lado quase nunca visto neste desporto: dignidade no adeus

A tentativa com Solskjaer não correu bem, é factual, mas tal não implica que se encurte a memória, empoeirem as recordações e se manche o passado com o presente. Nisto, o United fez-se exemplo, honrando a lenda que há no homem: publicou uma entrevista de despedida do norueguês despedido e o vídeo está cheio da elevação. Ou, se quisermos, de humanismo que muitas vezes é esquecido na rebarbadora de pessoas que é o futebol.

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