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No banco com os misters

Folha: “Preparo a minha equipa para jogar sem medo de perder. Gosto de um jogo de ataque e gosto que as minhas equipas produzam bom futebol”

À entrada para a 7ª jornada da Liga, o Portimonense era o último classificado, com quatro pontos, uma vitória, um empate, seis golos marcados e treze sofridos. Mas a posição na tabela não afetou a forma de jogar que o treinador António Folha mais diz valorizar: a ofensiva. Foi assim que a equipa algarvia venceu o Sporting, por 4-2, e ascendeu ao 15º lugar. E é assim que vai continuar a jogar, porque é tudo uma questão de “mentalidade”, explica à Tribuna Expresso o ex-treinador do FC Porto B: “Até parece que é proibido uma equipa pequena jogar ao ataque”

Mariana Cabral

António Folha estreou-se como treinador principal na Liga portuguesa no Portimonense, esta época

Filipe Farinha/Stills

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António Folha não é propriamente um novato nestas andanças. Internacional português, foi campeão por diversas vezes no FC Porto, antes de se aventurar, em 2005/06, por uma carreira de treinador, então como adjunto do Penafiel. Subiu pelas camadas jovens portistas até chegar ao FC Porto B, onde se destacou pelo futebol de cariz ofensivo que preconizava, adotando um sistema pouco visto em Portugal: 3-4-3. Mesmo assim, com tanta experiência e sucesso, o treinador do Portimonense, que se estreou esta época na Liga, aos 47 anos, não gosta de entrevistas. Reservado, resistiu à fotografia e à conversa, porque diz preferir que sejam as suas equipas “a falar em campo”, mas foi soltando as amarras quando começou a discorrer sobre aquilo que verdadeiramente o apaixona: o jogo. Jogo esse que, diz ele, nada tem a ver com o jogo que tinha na cabeça quando era jogador: “Não sabia nada naquela altura. É incrível”.

Tenho um apreço especial por treinadores ofensivos, mas tenho um amigo que é resultadista, por isso nas últimas semanas tinha sempre ouvido: “Então o Folha? Em último, não é?” Curiosamente, esta semana não disse nada. Notaste diferenças depois de vencerem o Sporting?
É normal haver essa conversa. Em Portugal valoriza-se muito o resultado e às vezes esquece-se o resto. Mas foi uma semana como as outras, com as pessoas obviamente felizes, porque o Portimonense não tinha uma vitória assim, contra o Sporting, há 29 anos.

O que mudaste na semana de treinos antes do jogo?
Fizemos o mesmo, o que tínhamos vindo a fazer: trabalhar os nossos princípios de jogo e aquilo que íamos ser capazes de fazer no jogo. Ou seja, o foco estava virado para nós, porque sabíamos que se fizéssemos as coisas bem feitas podíamos criar dificuldades ao Sporting. Obviamente sabendo sempre que o Sporting é uma equipa que luta pelo título e está recheada de excelentes jogadores, pelo que a qualquer momento podia criar-nos dificuldades - e sabíamos bem por onde. Essencialmente preparei - e preparo - a minha equipa para não ter medo de jogar, não ter medo de perder, para jogar com confiança e poder abordar o jogo olhos nos olhos. E poder ganhar.

Qual é o peso que a estratégia tem na forma como abordas os jogos?
Não é o principal foco das minhas equipas, mas claramente que tem peso. O lado estratégico tem sempre peso nos jogos. Obviamente que eu, enquanto treinador, acho que o modelo de jogo, para sustentar uma forma de jogar, é sempre o mais importante. Mas o lado estratégico tem sempre a sua importância, porque conhecendo melhor os adversários, sabendo o que eles fazem, podemos alertar os jogadores para isso. Sem tirar o foco do que é nosso, porque o principal objetivo da equipa é aquilo que nós queremos e conseguimos fazer.

Começaste no Portimonense com um sistema de três centrais, como no FC Porto B. Mas entretanto mudaste.
Sim. Tínhamos a ideia de implementar esse sistema, porque vimos que tínhamos jogadores com características para fazê-lo naquele momento.

Os sistemas dependem dos jogadores?
Sim, dependem claramente. Começámos bem a pré-época, com bons jogos e com os jogadores a fazer bem as suas posições, dentro desse sistema. Mas, a determinada altura, ficámos sem alguns centrais e sem ponta. E isso, associado à chegada de alguns jogadores no fecho do mercado, principalmente médios com muita qualidade, fez-nos perceber que o melhor era mudar. E mudámos. E a equipa está a crescer neste sistema, 4-3-3, e estamos muito contentes com isso.

Dás muita liberdade individual, ofensivamente falando?
Dou liberdade, sim, dentro daquilo que queremos para o nosso jogo. Dou liberdade de decisão aos jogadores e não sou um treinador que ande, como se diz, com o comando da Playstation na mão. Para mim é muito relevante potenciar, dentro do desenvolvimento da equipa, o crescimento individual dos jogadores - e no futebol atual isso é cada vez mais importante. Importa-me mais quem rodeia o jogador que tem a bola, para criar condições para continuar a tê-la ou pressionar rápido, e estarmos equilibrados atrás para não sermos surpreendidos. Mas sou um treinador que defende que o jogador que tem a bola tem toda a liberdade para poder decidir.

Não achas que essa liberdade pode prejudicar em termos de transição defensiva?
Não, desde que os jogadores saibam ocupar as posições que queremos, para termos largura e profundidade, mas também para estarmos equilibrados quando perdermos a bola. Acho que não prejudica, porque a liberdade, dentro daquilo que é ter a bola, não é uma liberdade anárquica, a nossa organização não é anárquica. O jogador tem que decidir face ao que está a acontecer no campo e face ao que nós treinamos. Não há nada que force mais a adaptação ao jogo que o próprio jogo.Tentamos implementar a nossa ideia de jogo, por tentativa-erro, crescer sobre isso e acho que é a melhor maneira para eles se tornarem jogadores mais competentes e valiosos.

António Folha começou a carreira de treinador como adjunto do Penafiel, em 2005/06. Depois passou pelos sub-14, sub-15 e sub-19 do FC Porto, até subir para a equipa B portista, em 2016/17

António Folha começou a carreira de treinador como adjunto do Penafiel, em 2005/06. Depois passou pelos sub-14, sub-15 e sub-19 do FC Porto, até subir para a equipa B portista, em 2016/17

Filipe Farinha

O Portimonense tem o pior registo da Liga em termos de golos sofridos. Acontece porque, como disseste no final do jogo com o Sporting, és um treinador que não joga para o pontinho?
Sim, claramente que gosto de um jogo de ataque. Gosto que as minhas equipas produzam bom futebol. Aliás, acho que toda a gente gosta, mas... Vemos um treinador a jogar ao ataque e até parece que é proibido uma equipa pequena jogar ao ataque. Parece que em Portugal isso é crime. Toda a gente começa a dizer que a outra equipa é que jogou mal, quer dizer... Nestas coisas é que acho que tem que mudar a mentalidade. Não é por acaso que num ranking estatístico que saiu agora, Portugal é dos mais fracos em todos os parâmetros nos campeonatos por aí fora na Europa [i.e. ranking da Goalpoint a comparar número de ataques, dribles, etc]. Em termos de pontos, por exemplo, em três jogos: se perco dois e ganho um, faço três pontos; se, por outro lado, em três jogos perco só um, mas empato dois, faço só dois pontos. Claro que o adversário, quando empatamos, também perde pontos, mas isto é uma questão de mentalidade... Toda a gente gosta da Liga inglesa, admira o futebol inglês, os intervenientes, os árbitros, mas depois aqui ninguém faz nada para que isto mude para melhor. Se o árbitro não marcar uma ou duas faltas, não presta; vemos os árbitros em Inglaterra a não marcar e a conversa é “são bons, deixam jogar”. E aqui são fracos? Acho que todos os intervenientes do jogo têm que mudar a mentalidade. Não pode ser dizer “ah gostamos de Inglaterra, a Premier League é que é futebol do bom". Nós estamos aqui e devemos tentar que isto seja melhor.

Defendes o futebol espectáculo, mas, por exemplo, o Sérgio Conceição recentemente disse aos adeptos para irem ao teatro se queriam espectáculo.
Aquilo que o Sérgio disse é momentâneo, ou seja, é uma fase. Porque qualquer equipa no mundo às vezes tem um ou outro jogo em que não joga bem, e o importante aí é ganhar, principalmente em equipas que lutam pelo título. Nem sempre é possível dar espectáculo. Acho que foi nesse contexto que ele o disse. Conheço bem o Sérgio, é meu amigo e compadre, e claramente que ele quer que a equipa dele dê espectáculo - e ela dá espectáculo, o ano passado foi avassaladora, por isso é que foi campeã. Este ano, foi um desabafo momentâneo, porque ele quer ganhar e a jogar bem, como sempre fez. É um desabafo num jogo que se calhar não foi tão bem conseguido, mas em que conseguiu os três pontos e acho que toda a gente percebeu isso. É um treinador que gosta de jogar muito ao ataque, com muita gente a entrar na área e a poder fazer muitos golos. Nós também fomos às Aves jogar como sempre jogamos, ofensivamente e para o espetáculo, e levámos três.

Preferes perder 4-5 ou 0-1?
Prefiro ganhar 5-4 a ganhar 1-0 [risos].

Sim, mas pergunto na perspetiva mais controladora do treinador, porque normalmente os treinadores preferem controlar o resultado.
Para mim, 1-0 não é nada controlado, a qualquer momento posso levar um golo. Prefiro ter um jogo em que ganhamos por 5-4, porque sei que a minha equipa consegue fazer muitos golos, tem capacidade para isso, mesmo que sofra golos.

Como foste construindo essa forma de ver o jogo, enquanto treinador?
Claramente que há uma discrepância muito grande em mim enquanto jogador e enquanto treinador. Muito daquilo que me fizeram enquanto jogador, percebi que não queria fazer quando fosse treinador. Chegava ao fim dos jogos e às vezes sentia-me frustrado, porque o meu potencial nunca vinha ao de cima. Agarrava-me demasiado a marcações individuais e a determinadas coisas que me eram pedidas, andava ali num duelo constante com o adversário direto, era isso o jogo. Isso foi mexendo comigo e tento não fazê-lo com os meus jogadores, procurando sempre que, dentro de uma ideia coletiva de futebol de ataque, haja uma boa ocupação de espaços, para que de facto eles possam render mais e as suas características sejam potenciadas.

Folha foi campeão pelo FC Porto seis vezes, enquanto jogador

Folha foi campeão pelo FC Porto seis vezes, enquanto jogador

Mark Thompson/Getty

Enquanto jogador o jogo era outro?
Enquanto jogador lembro-me que corria muito e corria mal, e fico muito contente por hoje conseguir transmitir aos meus jogadores um futebol diferente: é preciso correr bem e ocupar bem os espaços para que estejam frescos para mostrarem todo o seu potencial. E consigam pressionar muito, com muita agressividade, assumirem riscos com a bola, jogarem para a frente... Não é um jogo individual, como era no meu caso. Aquilo que no meu tempo era quase um jogo de duelos, porque me ensinavam assim. E íamos correr para a mata... Como jogador não era nada do que sou como treinador. Não sabia nada do jogo naquela altura. É incrível.

O facto de teres sido treinador nos escalões de formação ajudou-te?
Sim, foi bom para mim, porque tive tempo de fazer o percurso, passo a passo, com tempo para observar, aprender, errar, é por tentativa-erro também. Se calhar às vezes em determinado dia queria fazer um exercício mas fui percebendo que aquele dia não era o mais indicado para aquilo, por exemplo...

É muito diferente treinar uma equipa B e uma equipa sénior “normal”?
Naquilo que é o nosso motor e a nossa ideia não há diferenças, porque nós acreditamos naquilo que fazemos e continuamos a fazê-lo. Acreditamos num processo com vista a desenvolver uma equipa, para competir com competência, suportando isso numa aquisição gradual de uma forma de jogar. As diferenças são ao nível da exigência, que é muito maior aqui. Estes profissionais, com a intensidade que metem no jogo... É diferente de alguns dos miúdos, que às vezes chegam dos juniores com 18 anos e entram numa equipa B. Há que haver algumas cautelas com a gestão dos esforços, com o lado individual da prevenção e da recuperação, mas naquilo que é o mais importante, que é o montar as coisas na nossa semana padrão, para que as coisas funcionem em regimes diferentes, com alta intensidade, a ideia foi sempre a mesma e é nisso que acredito.

A equipa do FC Porto B a festejar a conquista da Premier League International Cup, em 2017/18

A equipa do FC Porto B a festejar a conquista da Premier League International Cup, em 2017/18

NurPhoto

A comunicação com os jogadores mais velhos, no balneário, também é fácil?
Sim, perfeitamente normal. Desde que as pessoas sejam honestas e abertas, é fácil. Não sou um treinador de andar aos gritos, mas se for preciso, de vez em quando, também os há [risos].

Como falas com o Nakajima?
[risos] Ele já percebe algumas coisas de português, especialmente os termos mais específicos do nosso jogo, portanto conseguimos sempre comunicar. Temos também uma pessoa na estrutura que ajuda na tradução para japonês.

Ele é quase um poster perfeito para o futebol ofensivo, não só pela qualidade que tem, mas porque está sempre a sorrir, sempre feliz.
[risos] É verdade, está sempre a sorrir. Ele às vezes leva porrada, cai e levanta-se a rir. Está sempre a rir porque tem prazer naquilo que faz. É disso que nós gostamos.

Falaste muito na Premier League. Gostavas de ir para lá?
Ah, isso não sei. Estou bem onde estou, não me preocupo muito com essas coisas.

Vive-se bem em Portimão?
Não se vive mal [risos]. Mas tiveste azar, hoje está de chuva.

Entrevista originalmente publicada na edição de 13 de outubro de 2018 do Expresso.