Tribuna Expresso

Perfil

No banco com os misters

Hugo Oliveira: "Os melhores guarda-redes do mundo são o Oblak e o Ederson. Nem há volta a dar. Têm algo que só grandes têm, como o Júlio"

Hugo Oliveira é, como o próprio diz, uma peça no motor que é uma equipa técnica. Apaixonado pela baliza, é treinador de guarda-redes há quase duas décadas, passou pelas seleções nacionais e pelo Benfica, antes de chegar à Premier League com Marco Silva, atualmente no Everton, onde diz que o jogo é totalmente diferente: "Defender cantos e livres em Portugal é como limpar o rabo a meninos. Em Inglaterra é como ir para a trincheira na 2ª Guerra Mundial. Porque eles não marcam nada. É doloroso até"

Mariana Cabral

RUI DUARTE SILVA

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Ele diz que não foi bom guarda-redes, mas quem o conhece diz que é dos melhores treinadores de guarda-redes. Aos 40 anos, Hugo Oliveira faz parte da equipa de técnica de Marco Silva no Everton, onde treina o internacional inglês Jordan Pickford, que diz que está a caminho do patamar dos melhores do mundo: Oblak e Ederson, pois claro, dois guarda-redes que Hugo Oliveira treinou no Benfica, onde esteve entre 2011/12 e 2015/16. "Têm uma coisa que os grandes têm, como tinha o Júlio César e como quero que o Jordan vá tendo: uma capacidade de trabalho tremenda e a capacidade de olhar para si próprios e perceber quando erram."

Normalmente quem anda no futebol prefere Porsches ou Ferraris, mas chegaste aqui de Renault 4L.
[risos] Se calhar até poderia aparecer num desses, mas seria um Porsche de 40 ou 50 anos. Gosto de carros com história. Gosto da história das coisas. Acho que nós falamos demasiado do presente e olhamos muito para o futuro, sem perceber que o que somos e que muito do que está ou vai acontecer é reflexo daquilo que já se passou. Em quase todas as áreas, as coisas acontecem por ciclos e muitas vezes cometemos os mesmos erros porque não percebemos os ciclos do passado, quer do ponto de vista económico, quer histórico. O futebol já passou por fases extremamente resultadistas, há muitos anos atrás, e depois chegou a momentos de romantismo, se olharmos para as décadas de 60 e 70. O jogo é quase olhado como uma arte...

Depois na década de 90 já não.
Em 90 voltámos ao resultadismo, à questão de encarar apenas o fim, sem pensar no meio. É por isso que gosto de olhar para trás, antes de olhar para a frente. Portanto, com os carros penso que é um pouco isso. Posso chegar ao mesmo sítio, mas se calhar desfruto mais do caminho assim [risos].

Falavas dos vários momentos do futebol: como achas que está atualmente?
Bom, estamos num momento importante. Vivemos numa era, estando o futebol agregado à sociedade, em que o resultado é extremamente importante. Porque o jogo está ligado a questões financeiras: as equipas e os clubes usufruem, consoante os seus resultados finais, de benefícios financeiros. Os jogadores, com as suas performances, usufruem de benefícios financeiros. E isso faz com que, às vezes, o fim deturpe o meio. O jogo está um pouco assim neste momento. Estamos a pensar em chegar extremamente rápido ao resultado, sem pensar que chegar rápido nem sempre é chegar bem, e o jogo, na sua essência, pode perder-se por aí. Acredito e sinto que há algumas equipas, treinadores e pensadores a olhar o jogo novamente com uma vertente diferente, mais ligada ao que é a arte do jogo. Ou seja, para chegar ao resultado existem muitos caminhos. Não acho que exista só um caminho para o jogo. Há muitas formas de viver e, no jogo, há muitas formas de jogar. O objetivo é sempre o mesmo: quero marcar mais golos do que o adversário e ganhar. O jogo acarreta sempre o querer ganhar e há muitas formas de fazer esse caminho. Na minha opinião, acho que estamos outra vez a ter em alguns países, alguns treinadores e alguns pensadores que estão a demonstrar que quiçá o melhor caminho, na minha ótica, é ter essa vertente de domínio através da bola, que faz chegar com mais segurança e de uma forma mais eficaz ao objetivo do jogo, que é o golo.

É assim que preferes ver o jogo?
Prefiro ver um jogo em que as equipas preferem ser intérpretes, querem dominar, querem ter a bola para jogar, querem ganhar. Acima de tudo, acho que é isso: se quero ganhar, onde é que estou mais perto de ganhar? Estou mais perto de ganhar se for eu a ter a bola, não é? Tenho de pensar o jogo como um todo, mas naquela que é a minha função prática, que tem muito a ver com a especificidade daquilo que é o papel do guarda-redes no jogo, que é um papel que está muito diferente daquilo que era no passado, tal como o jogo está diferente. As regras que têm vindo a ser alteradas no futebol têm muito a ver com o papel do guarda-redes, se pensarmos nisso. Os guarda-redes estão a intervir em todos os momentos do jogo de forma a ajudar a equipa a atingir o fim. Há dois momentos no jogo fundamentais: como inicias e como terminas. Se reparares, o guarda-redes interfere nesses dois momentos. Como inicias o teu jogar diz-me quem és, logo, quem toma essa decisão inicial? Quando temos um pontapé de baliza, quem é que decide para onde é que vamos jogar? Se vamos jogar curto, se vamos jogar longo, se vamos jogar por fora, se vamos jogar por dentro. Todas essas decisões do guarda-redes interferem no jogar da equipa, da mesma maneira que, no outro momento que mencionei, o momento de parar, de defender a baliza, o guarda-redes interfere não só através do seu posicionamento mas também nas relações que tem com a equipa. Por isso, se pensarmos, o jogo tem vindo a modificar-se de uma forma que dá ainda mais responsabilidades ao guarda-redes.

O guarda-redes decide como se inicia, mas, antes disso, há...
[interrompe] Há uma ideia. Não entendo um processo que não seja um processo como um todo, de uma forma holística. O treinador tem de ter uma ideia, assente num pensar...

Sim, mas a minha questão é se o treinador de guarda-redes tem de se submeter a essa ideia do treinador principal.
O futebol é um jogo coletivo, não podemos esquecer isto. É feito de associações entre os jogadores, que procuram colocar dentro do campo a ideia do treinador, para ganhar esse jogo. Nesse sentido, o que entendo é que, durante a semana... Treinar é criar constrangimentos para chegar a essa ideia. No meu entendimento, treinar é criar hábitos, para chegar a essa ideia. Durante a semana, preparas o guarda-redes para tomar essas decisões, de acordo com o pensar da tua equipa e de acordo com a estratégia para o jogo, para o adversário. Mas, perante aquilo que está a acontecer no jogo, o guarda-redes toma decisões por si só. O que acho que menos pode acontecer e que quiçá tem vindo a acontecer, principalmente na formação, é a robotização dos jogadores, particularmente dos guarda-redes. É ele que tem de tomar decisões, porque se o adversário não está a condicionar a saída é diferente de haver uma pressão alta a condicionar. Imagina que tenho os dois centrais abertos para jogar e condicionam-me com dois adversários e depois ainda há outro a condicionar o nosso médio. Tenho de saber que o principal papel do guarda-redes nesse momento é ajudar à criação de superioridades. Nesse sentido, é importante que ele tome boas decisões para depois ganharmos superioridades. Aquilo que acho que é importante é isto: existe uma ideia coletiva, existe uma função individual, mas depois, lá dentro, quem toma as decisões são os jogadores, mas nunca sem esquecer o ADN da própria equipa e aquilo que é o objetivo do jogo. Onde é que quero chegar naquele momento? Tenho de saber isso, para saber por onde quero iniciar. E aí é fundamental, como em tudo, o treino, para que as coisas saiam de forma mais simples e fluida. O que não pode acontecer é a anarquia: o guarda-redes decidir sem saber onde vão estar posicionados os colegas de equipas e os colegas de equipa não saberem por onde vai o guarda-redes iniciar e nem o que vai acontecer depois dele jogar. Se o objetivo é criar superioridade então ele tem de saber que o que ele vai fazer vai ter repercussões no jogo, quer no jogo da equipa quer no jogo do adversário, mas depois há ferramentas coletivas para sair daquela posição. O guarda-redes tem de ser sempre um elo de superioridade, porque o adversário normalmente acaba por fechar os jogadores de campo e libertar o guarda-redes e, quando saltam ao guarda-redes, libertam outro jogador - seja curto ou à distância, há sempre uma homem livre.

Mas na perspetiva do trabalho prático... Com certeza já estiveste integrado em equipas técnicas com ideias distintas entre si. Como é que se encaixa aí o papel do treinador de guarda-redes?
Como elemento da equipa técnica, acho que devemos entender que participando ativamente estamos sempre mais perto de atingir os nossos objetivos. Há muitos treinadores de guarda-redes que não querem muito saber como vai jogar a equipa ou quem vai jogar, mas isso para mim é tanga. É fundamental que eu esteja completamente por dentro daquilo que é a ideia da equipa, do que é o jogar da equipa, para perceber o que tenho de periodizar. Não faz sentido chegar ao jogo sem saber o que temos de fazer nem faz sentido não preparar o que vai acontecer no jogo, mesmo sabendo que depois muito do que acontece é aleatório, porque o jogo não tem nenhum fio condutor definido por antecipação. Na equipa técnica tens de ter uma voz ativa naquilo que é o aconselhamento, mas depois a decisão do treinador é a decisão final, é a decisão da equipa técnica, e nós, enquanto assistentes, ajudamos a que o processo seja preparado no campo nesse sentido. Acho que é uma vantagem quando vais jogar e sabes o que queres fazer: sabes como queres começar e sabes como queres acabar. Por isso é que é fundamental que o treinador de guarda-redes esteja completamente por dentro da ideia. Repara, um exemplo: se a minha ideia é sair curto para atrair e depois ir buscar superioridades mais à frente, é igual se sair curto pela direita ou pela esquerda? Não é igual, porque os jogadores que estão lá são diferentes, as características são diferentes. Enquanto treinador de guarda-redes, tenho de ajudar o guarda-redes a ter perceção disso, porque as associações são feitas de maneira diferente. Se tenho um jogador que tem dificuldades em receber e orientar para fora, se tenho outro que o faz para dentro, se tenho outro que prefere receber no espaço... É fundamental que eu, enquanto elemento da equipa técnica, mesmo sendo treinador de guarda-redes, saiba quem vai jogar, saiba qual é a estratégia e tenha opinião sobre isso. Mas, atenção, depois do treinador definir o caminho, o caminho é aquele e mais nenhum. É assim que tenho vivido e é assim que acho que deve ser. Porque o jogo é coletivo, o pensamento é do treinador e da equipa técnica e é um pensamento de um só caminho, sem descurar toda a discussão que possa haver até ao momento da decisão final, porque há muitas visões e as visões diferentes às vezes ajudam à criação de uma ideia melhor e mais sustentada.

RUI DUARTE SILVA

A propósito da construção e criação de superioridades a partir do guarda-redes: não sei se viste, mas recentemente o Artur Moraes disse, no canal 11, que achava que achava que o treino de guarda-redes era excessivamente focado no jogo de pés.
Não vi, mas ouvi falar disso. Acho que é fundamental que se olhe para o jogo e se perceba quais são as missões do guarda-redes no jogo. O guarda-redes, naquele que é o jogo atual, tem uma interferência muito grande no processo ofensivo e no processo defensivo. Quem não entender isto, não entende o jogo. Se é assim que acontece no jogo, acho que no treino também tem de acontecer assim. O que tem vindo a acontecer, e quiçá foi isso que o Artur quis dizer, é que alguns treinadores podem ter vindo a esquecer aquilo que é a base e o fundamental do trabalho do guarda-redes, que é a defesa da baliza. Pode ter sido isso que ele quis passar. A base do guarda-redes é defender a sua baliza. E mesmo o que apaixona os miúdos a quererem ser guarda-redes não é jogar, não é participar com os pés - se não queriam ser jogadore -, é defender, é voar. O sonho de um guarda-redes é voar. Não podemos esquecer isso. É ser um anti-herói do jogo, não é? O grande objetivo do jogo é o golo, mas o guarda-redes é alguém que diz assim: 'Não, não, espera aí, ninguém vai festejar'. Por isso é que nós, nesta área, somos todos um bocadinho do contra [risos]. Creio que na formação é que se tem descurado aquilo que é a defesa da baliza e quase robotizado aquilo que é o perfil de um guarda-redes para determinados jogares. Eu não acredito nisso, não acho que a formação do guarda-redes seja feita para um determinado jogar, para uma determinada equipa. Por exemplo, há clubes em que 80% do jogar é ofensivo, é um jogar em que têm a bola e que têm departamentos de formação de altíssima qualidade. E eu pergunto: onde estão os grandes guarda-redes formados nesses clubes? Quiçá a ideia foi formar e preparar os guarda-redes para um determinado jogar. Se calhar esse jogar ao qual se referia o Artur, no qual a participação no jogo com o passe atrasado, a iniciação do jogo no processo de construção era exacerbado. Nesse sentido, quando chegam ao que é o futebol atual - não gosto da designação moderno, porque evoluir nem sempre quer dizer isso - quiçá não estão preparados, porque não têm bases sólidas relativas à defesa da baliza. Mas jogar, participar com no passe atrasado, iniciar a construção... hoje isso é fundamental e obrigatório num guarda-redes de elite. Quem não entender isso, não está a ver o jogo como ele é hoje em dia. É uma responsabilidade e às vezes exacerbamos o erro, e a repercussão que esse erro tem, por isso é que depois se diz que o guarda-redes sente pressão. Pressão não é mais do que defraudar as expetativas que têm de ti. Podes ser tu a defraudar as tuas expetativas, podes defraudar as expetativas que a tua família tem de ti, podes defraudar as expetativas que a própria sociedade tem de ti. Nesse sentido, é importante que estejas tranquilo para tomar decisões no jogo. Há guarda-redes que se sentem melhor na defesa da baliza do que no passe atrasado, mesmo cumprindo os requisitos essenciais.

E depois há guarda-redes como o Ederson, com um jogo de pés muito acima da média.
O Ederson sempre teve um grande à vontade para jogar com os pés, para participar no processo de construção.

Por ter mais qualidade técnica ou pelos fatores cognitivos e emocionais?
As coisas nunca se podem dissociar, isso é impossível. Há grandes exemplos no futebol mundial de guarda-redes que dominam todas as técnicas, têm todas as ferramentas, mas depois quando lá estão, quando a chapa esquenta, têm grandes dificuldades em estar predispostos para tomar grandes decisões. Uma das coisas com que mais me preocupo, quiçá até no jogo global, mas neste caso específico do guarda-redes, é com o facto de achar que falta pausa ao jogo. O Ederson tinha - e tem - essa pausa, no seu viver e no seu jogar. E é engraçado, porque tinha pausa para jogar com os pés, mas nem sempre tinha essa pausa para jogar quando estava no momento de defesa da baliza, porque queria comer este mundo e o outro, em processos de defesa do espaço e até nos cruzamentos. Foi importante perceber que ele foi evoluindo nesse sentido e ganhando pausa noutros momentos. O que sentimos no City com a entrada dele é um encaixar do puzzle, é fabuloso. Quando sentes que as associações individuais, ligadas a uma ideia de jogo coletiva, batem certo, tudo sai como uma fluidez quase natural, nada é forçado, e assim voltamos à simplicidade, que é o mais belo que existe. Pensa assim: os treinadores só têm intenções. Têm uma ideia, claro, porque se não tiverem uma ideia, não sabem para onde é que estão a ir. E depois têm intenções, enquanto os jogadores têm possibilidades. E quando nós encaixamos as intenções do treinador com as possibilidades do jogador, é fabuloso. No City, sentes que a intenção coletiva é de jogar, dominar através da posse da bola e da criação de superioridades, e aquele jogar individual do Ederson associa-se de forma fabulosa com aquele pensamento coletivo. Por isso é que se sente tanta paz quando se vê o jogo, porque ele tem pausa. O difícil é quando sentes a pressão a chegar de um lado ou do outro, do lado aberto ou do lado fechado, e teres pausa para perceberes de onde é que podes sair.

O mais fácil é colocar a bola para longe.
Exato. Por isso é necessário sentir quase essa 'paz', que também vem de fora. Lembro-me que algumas pessoas tinham algumas dúvidas em relação ao jogar do Ederson e ao Manchester City, porque o Ederson tinha um jogo à distância fabuloso, mas nem sempre se via no jogo curto. Porque no Benfica não era preciso ter jogo curto, as equipas não vinham pressionar. Na Liga portuguesa as equipas não iam pressionar, mas as pessoas nem sempre conseguem ver a realidade de uma forma clara, cada um vê aquilo que conhece. Quando há essas dúvidas sobre o jogo curto, a resposta tem a ver com isto: é mais fácil jogar quando sabes o que está a acontecer do que quando tens de decidir no meio do acontecimento. Quando o Ederson recebe, ele sabe que tem obrigatoriamente uma solução por dentro, um solução por fora e uma solução à frente, e que o objetivo é ir buscar o terceiro homem. Simples, tão simples quanto isso. Agora, se não tiver essa pausa e se não tiver ferramenta, vai conseguir fazê-lo? Vai ter dificuldades. Mas ele tem ferramenta para fazê-lo. A técnica é fundamental, é a técnica que vai fazer com que uma boa decisão seja uma boa ação. Tu podes tomar uma boa decisão, mas depois se não executares com qualidade, esquece. Por isso é que o Ederson encaixa como uma luva no City. E podemos dizer que ainda tem um caminho para evoluir e vai evoluir no seu jogar global, não só no processo ofensivo mas defensivo.

RUI DUARTE SILVA

O City quando iniciou a época com o Liverpool - por acaso até era o Bravo e não o Ederson - utilizou o guarda-redes como central no pontapé de baliza, já que agora a regra mudou [a bola agora não precisa de sair da área para estar jogável], para superar a pressão a três do Liverpool. Essa mudança vai envolver ainda mais os guarda-redes na saída?
Claro, tem a ver com o que te estava a dizer. O jogo mudou muito na década de 90, quando o guarda-redes deixou de poder agarrar a bola depois de um passe atrasado. E quem é que esteve no meio da decisão? O guarda-redes [risos]. Agora, o jogo voltou a ter uma nova nuance com esta mudança no pontapé de baliza. Repara: o jogo tem tudo a ver com tempo e espaço. Essa nova lei permite-te ganhar tempo e espaço, vem dar vantagem a quem quer jogar, a quem quer iniciar o jogo. Essa lei vai dar-te, fazendo as contas de cabeça, pegas na área e medes as distâncias, portanto dá-te mais 665 metros quadrados de espaço, e vai dar-te mais tempo, o tempo que tens quando tocas na bola e até eles conseguirem entrar dentro da área. Se conseguir iniciar bem, vou conseguir acabar melhor. Se alguém me saltar na pressão, é nesse meu colega livre que vou tocar e inicio com vantagem. E, repara, isso nem sempre quer dizer que tenhas de sair curto, porque se alguém te saltar de uma forma eficaz à pressão, saltando tanto a ti como aos jogadores mais próximos, então estão a libertar jogadores à frente, e é fundamental que o guarda-redes tenha capacidade para gerar jogo de forma longa também. Nós temos essa vantagem com o Jordan Pickford [no Everton], por exemplo. Se sentimos que podemos ganhar vantagem à frente, vamos lá. Porque ainda é só onze contra onze e ainda ninguém evoluiu no sentido de pôr o guarda-redes adversário a fazer pressão no avançado. Se eles quiserem saltar todos à pressão, vão libertar algo. O que tem vindo a acontecer é que as equipas têm saltado à pressão mais à frente e tem criado igualdades mais atrás. Vemos muitas situações de três contra três ou dois contra dois lá atrás, consoante a coragem. Ou seja, se o guarda-redes tiver essa pausa para ver o curto e o longo, podemos gerar vantagem. Repara: se agora colocássemos as estradas com mais uma faixa e a velocidade máxima aumentava para 180 km/hora. Íamos aumentar o espaço e dar mais velocidade. Dizes-me assim: "Ah, vai haver mais acidentes". Não, ia haver acidentes se tu não soubesses o que estás a fazer, se pusesses um carro que nem consegue andar a 100 a andar a 180. Se souberes o que estás a fazer, se tiveres uma ideia, se souberes o caminho que queres percorrer e se tiveres jogadores com ferramenta, então corre bem.

O Pickford não é um guarda-redes com muita pausa.
Não, mas está a trabalhar para isso [risos]. É engraçado que o Pickford jogava num contexto... Foi muito rápido. Ele fez as divisões todas mais baixas dos campeonatos ingleses sempre a jogar, fabuloso. Chegou ao Everton muito jovem, com um processo de jogo sempre extremamente baixo, quase sem espaço para defender, que exacerbava o que ele tem de forte, que é uma capacidade de grande velocidade na defesa da baliza. Nós chegámos ao Everton e o Marco [Silva] gosta de um jogar dominador, gosta de um jogar corajoso, ofensivo, em que a última linha quando não tem a bola está lá à frente, existindo muito espaço entre o guarda-redes e a última linha e, nesse sentido, foi uma adaptação para o Pickford. E esta época ele tem sido fabuloso.

Na seleção inglesa tem um contexto semelhante.
Sim, ele esta época tem sido fabuloso, quer connosco quer com a seleção. Percebe que é preciso ter pausa para tomar boas decisões e para perceber o que é defender o espaço, porque é muito mais difícil defenderes 30 ou 40 metros do que estares ali na linha da baliza à espera que as coisas aconteçam. Ele tem evoluído o seu jogo e isso ajuda coletivamente a equipa.

Lynne Cameron

É difícil um treinador de guarda-redes convencer os guarda-redes a saírem do espaço de conforto junto à baliza?
Claro que eles se sentem mais confortáveis onde passam mais tempo. Como disse, nós temos intenções e eles têm as suas possibilidades. Há determinados perfis, mas podes aprender em qualquer idade.

Consegues distinguir um guarda-redes que facilmente...
[interrompe] Tem é de ter coragem. Nós vivemos numa era em que existem muitos guarda-redes que não querem que a bola chegue lá, o que é extremamente preocupante. Quiçá isso advém da própria educação que damos aos nossos filhos, em que os protegemos de tudo, não queremos que eles tenham problemas, tudo é fácil... E o trabalho do guarda-redes é extremamente difícil. Há guarda-redes que não querem que a bola chegue e, por isso, para jogar em mais espaço, é preciso ter essa coragem, para dominar o espaço. Como te dizia, nós, enquanto treinadores, temos essa intenção de mostrar um mundo novo e mostrar que ele tanto ele como a equipa saem beneficiados com essa forma de jogar. E os guarda-redes, como qualquer jogador, têm de entender que fazem parte de um coletivo e o objetivo é sempre o coletivo. Por isso, é fundamental que eles entendam que esse forma de estar é a melhor para o coletivo. Agora estamos a falar de um momento que eu chamo de 'zona espaço', que no fundo é a defesa do espaço, e isso vai levar a uma coisa que, na minha opinião, é uma das maiores demonstrações de inteligência, que é a prevenção. Se posso impedir que a equipa adversária chute à baliza, não vou fazer isso? Se não quero sofrer golos... Se posso impedir que um passe entre nas costas da defesa, não vou impedir? Claro, se previno, estou a retirar problemas. Rio-me imenso com análises que fazem à prestação dos guarda-redes. Gosto de ler as redes sociais e acompanho os programas de televisão - esta é a sociedade em que nós vivemos e tenho de entendê-la. Se não a quiser entender, vivo numa bolha à parte e acho que o pessoal do futebol não vive numa bolha, vivemos todos no mesmo mundo, com as mesmas ambições e sonhos. Nesse sentido, rio-me com muitas análises... Com avaliações do género: "Ah, o guarda-redes não teve trabalho". Ou: "exibição fácil".

Porque não teve momentos de defesa da baliza.
Exatamente, porque não fez aquelas grandes defesas. E, atenção, a maior parte das defesas às quais as pessoas dão mais valor normalmente são recursos, porque se estiveres bem posicionado consegues prevenir muito do que vai acontecer e podes tornar fácil aquilo que para muitos dá mais nas vistas se for feito de maneira difícil. Lá está, mais uma vez tem a ver com aquilo que é a sociedade hoje em dia: este exagero de informação, este exagero de complexidade é que dá qualidade às coisas? [Finge que lê uma folha] "Eh pá, isto está fabuloso! Porquê? Porque nem consigo entender". Está tão confuso que deve ser espetacular. O mais complexo dos processos é o simples.

Por exemplo?
Dou um exemplo, sem qualquer tipo de problema: o Oblak faz as coisas tornarem-se tão fáceis, não achas? Nós jogámos a meia-final da Liga Europa no estádio de Turim, frente à Juventus, chovia imenso, é dos jogos que mais tenho presentes na minha mente, porque a vida são momentos que tu vives com sentimento. Ficámos com menos um jogador, difícil, a Juventus jogava a final em casa, se passasse, e tinha uma equipa cheia de astros. Lembro-me que eles criavam e chutavam, chutava o Pirlo, chutavam outros, cruzavam... O jogo acabou e, no final, estava eu com o Jan [Oblak] e ele depois entrou no balneário e o Pirlo veio ter comigo e disse: "Acha que nós estávamos a chutar devagar? Como é que ele faz aquilo?" O estar no espaço adequado, no tempo certo, com essa pausa, faz com que as coisas pareçam mais simples, mas isso tem muito de complexo por trás. Acho que esse é um dos grandes trunfos dos grandes, tem a ver com o posicionamento: a defesa do espaço, onde estar. Quando um bom médio ofensivo quer meter o passe nas costas da defesa adversária e está a ver aquele espaço que ninguém vê (cada vez há menos jogadores desses), ele está a ver a linha defensiva, está a ver o que o colega pode fazer e está a imaginar o que pode acontecer, mas se o guarda-redes estiver lá... se calhar ele já não mete o passe a passa a bola para o lado. E eles andam ali a tocar para o lado. E eu estou sentado no banco e penso assim: "Que grande defesa". Porque preveniste uma situação de um contra um. O passe podia ter entrado no espaço, havia uma situação de um contra um, ele driblava o guarda-redes e fazia golo, e depois quem analisa os guarda-redes ia dizer assim: "Não podia fazer mais nada". Mas se estivesse um metro mais à frente, se calhar aquele passe já não funcionava. Por isso é que essa perceção do que é o papel do guarda-redes não pode ser só visto à luz de um ou outro momento, assim estamos a radicalizar. Uns pensam na defesa da baliza, outros no passe atrasado. Não existem só estes dois mundos, o jogo é a relação de todos os momentos, e depois ainda há o momento do cruzamento, do um contra um, dos esquemas táticos, em que cada vez mais o guarda-redes ganha preponderância, não só nos defensivos mas também nos ofensivos. Repara, muitos dos esquemas táticos ofensivos são iniciados pelo guarda-redes na construção. Da mesma maneira, voltando ao posicionamento, a forma como se posiciona o guarda-redes no esquema tático defensivo diz muito da prevenção que a equipa faz nesse momento. Onde é que estou no canto, se o batedor está com o pé esquerdo ou direito? Como é que oriento a linha? Por isso é que o guarda-redes tem de conhecer o jogo e as ideias da equipa, em termos coletivos, para saber onde fica cada jogador e como é cada jogador. Por isso é que bato nesta tecla: eu, treinador de guarda-redes, tenho de saber como é que joga a minha equipa, qual é a ideia de jogo do treinador, qual é a estratégia para este jogo, quais os posicionamentos nos esquemas táticos, para eu poder ajudar o guarda-redes. Depois, no jogo, tem de ser ele a tomar as suas decisões. Cada adulto toma cerca de 35 mil decisões por dia, atenção. E depois há outra coisa: dessas 35 mil, a maior parte são emocionais. Isto de dizermos que somos animais racionais... [risos] Ok, somos animais racionais, mas, atenção: se disseram que a maior parte das nossas decisões são racionais, é tanga. Antes de pensar, nós sentimos. E é por isso que nós enquanto treinadores criemos contextos, é o que eu digo, constrangimentos para criar hábitos, para que esse sentimento, esses impulsos, essas decisões emocionais surjam de uma forma que vá ao encontro dessa ideia coletiva. Por isso, no treino, parte do meu objetivo é quase criar marcadores, como diz Damásio, marcadores somáticos.

OLIVIER MORIN

Como?
Imagina, quero que numa situação de passe nas costas da linha defensiva em que se cria uma situação de um contra um, quero que se a receção do adversário não for a melhor, ou se o primeiro toque for muito adiantado, quero que ele ataque. Gosto de um guarda-redes de redução, que chegue. Mas, se o avançado tiver a situação controlada, que pare e diga: então vamos lá. Agora é um duelo de cowboys: quem é que tira primeiro a pistola? [risos] É um pouco isto. Então tenho de criar condições no treino, obviamente do mais simples para o mais complexo. Tenho de construir isso no treino e quando corre bem, pá [bate uma palma], eu meto um marcador. Dou um grito, faço uma relação, qualquer coisa, porque ele tem de sentir, ele tem de ter sentimento. Tem de perceber que aquilo foi o adequado. Às vezes não sei se é ver para crer ou crer para ver. Tenho de lhes mostrar que eles saem beneficiados. É ir de um momento consciente até ao momento inconsciente, para ficar lá gravado, porque se a maioria das decisões são emocionais, elas vêm do inconsciente. Não pensas se vais apertar o primeiro o sapato do pé direito ou do pé esquerdo, isso sai de forma inconsciente. No jogo, se o cruzamento está a sair e estão cinco ou seis gigantones a saltar para cima de mim, a decisão de sair ou não é dura - porque este ainda é o momento mais difícil do jogo para o guarda-redes, é o cruzamento, porque tem todos os outros momentos juntos e a definição de espaço e tempo é muito mais curta e tem muito mais obstáculos. Essa decisão, se fosse completamente racional, tinha de ter tempo para parar e pensar e fazer análise... e entretanto já tinha sido golo e a decisão que tinha de tomar era se ia buscar a bola com a mão direita ou com a mão esquerda dentro da baliza. O guarda-redes tem de ter uma decisão que venha rapidamente do seu inconsciente, por isso é que o treino tem de criar esses hábitos.

O jogo, por si só, não chega para treinar um guarda-redes...
[interrompe] Não.

Se a parte da defesa do cruzamento é a mais difícil, precisas dos outros para treinar, não consegues fazer isso apenas em treino específico, certo?
Primeiro ponto: no jogo e no treino... Vamos lá ver, nós não vivemos em Portugal e o guarda-redes vive nos Açores [risos], não está sozinho numa ilha.

Passa lá férias e depois volta.
[risos] Passa, mas se passar muito tempo, então alguma coisa está errada, porque começa a perder a velocidade em que a sociedade no continente vive, porque normalmente nas ilhas a vida é um bocadinho mais lenta. Como ele não vive numa ilha, vive dentro de um todo, ele tem de estar dentro desse todo. A utilização da expressão "treino específico" a maior parte das vezes é mal adequada. O específico para o guarda-redes é jogar, não é estar num canto, a treinar em três metros quadrados, cai, levanta, cai, levanta, cai, levanta. Isso não é trabalho específico, anda muita gente enganada. Específico é fazer aquilo que envolve a tua especificidade no jogo e isso é jogar, no processo ofensivo e no processo defensivo, e nas transições. Do mais simples ao mais complexo, tens de preparar um processo de aprendizagem em relação às ferramentas que são necessárias nesses momentos do jogo, desde a posição corporal à orientação dos apoios, com que pé fazes a chamada e atacas a bola, as técnicas de receção da bola... E depois estares a fazer algo que sabes como vai acabar e terminares em algo que não sabes como vai acabar. Mas isso, à parte, não te chega, tens de te ligar com a equipa e, hoje em dia, os guarda-redes têm de passar muito tempo com a equipa. Mas não são só os guarda-redes, são os treinadores de guarda-redes também. Umas das coisas que não entendo é a seguinte: normalmente as equipas têm mais que dois guarda-redes e os treinadores chamam dois para situação de jogo e depois fica um guarda-redes à parte. E o treinador de guarda-redes fica à parte e depois roda os guarda-redes, e assim ele não viu nada do que se passou no treino. Ele não interferiu em nada, não analisou nada. Como é que ele ajuda o guarda-redes? Muitas equipas de topo do futebol mundial já estão a optar por ter dois treinadores de guarda-redes.

Já sentiste essa necessidade?
Ainda não tenho sentido essa necessidade, tenho conseguido estar presente nesses momentos.

Como?
Através do planeamento. Porque eles podem estar a interferir os três, se criares uma situação dessas e, às vezes, ganha mais um guarda-redes a estar comigo a analisar o colega, porque analisar é treinar. Agora, as pessoas acham que, cada vez mais, analisar é pôr alguém em frente a um vídeo. Não, analisar, é analisar aquele momento. Voltamos outra vez à sociedade: vivemos numa sociedade em que achamos que tudo o que é rápido é que é bom. Achamos então que treinar rápido é que é muito bom. Costumo dizer isto: no treino do guarda-redes nós vivemos a era do tuning, anda tudo tuningado, porque estamos numa época em que todos gostam de fazer vídeos para o Youtube...

Falas daqueles exercícios com muitas bolas de diferentes formas e tabelas e saltos?
Muitas vezes não entendo se o objetivo é jogar futebol ou não. Claro que podes criar estímulos e, do ponto de vista fisiológico, há muitas ferramentas que podes utilizar para o teu treino, mas nunca podes descurar o jogo. O verdadeiro treino para a especificidade é quando o guarda-redes está com a equipa - e o treinador de guarda-redes tem de estar presente nesse treino e tem de interferir, no guarda-redes e às vezes até no processo coletivo. Tenho beneficiado por trabalhar com pessoas que pensam dessa maneira e que me ajudam. No processo em que trabalhamos agora, o treinador sabe da importância que o guarda-redes tem no jogo. Quando ele pensa o jogo, pensa com o guarda-redes. Se penso no jogo, também tem de pensar no treino. O guarda-redes está inserido na preparação, sem esquecer, claro, a preparação comigo, em questões que achamos que são importantes.

RUI DUARTE SILVA

Toda a gente diz que o guarda-redes tem a posição mais ingrata. É mesmo assim ou é só um cliché que se repete no futebol?
O nosso cérebro tem muitos vieses. Para explicar de forma mais simplista: nós vivemos agarrados a muitos preconceitos. Por duas razões: primeiro, porque sustentam as ideias que temos e, depois, porque se o meu vizinho diz, ou se a sociedade diz, é porque deve ser assim. Então partimos do princípio que é assim. É essa, é ideia de que para ser guarda-redes tens de ser maluco... Posso até ir mais longe e ser mais radical: a ideia de que não podem haver bons guarda-redes de cor, a ideia de que a pequena área é toda do guarda-redes, a ideia de que não se pode sofrer golos ao primeiro poste... Isso são tudo imagens e preconceitos que fomos ganhando através dos tempos e, como não dominamos os assuntos, temos tendência a partir do princípio que está correto, da mesma maneira que se diz que as mulheres loiras são menos inteligentes ou que as pessoas no Alentejo não gostam de trabalhar. O guarda-redes tem - pelo menos para mim, quiçá porque sou tão apaixonado - a posição mais bela do jogo. E acho que quem interfere no futebol deve concordar, porque, como te disse, cada vez se dá mais importância à posição. Se reparares, tudo o que de belo há no desporto, o guarda-redes tem: a capacidade acrobática, a força, a inteligência... Eles estão presentes na maior parte das decisões do jogo, portanto têm de ser extremamente inteligentes, ter uma grande perceção do jogo. Outro preconceito... Lá está, nós utilizamos muito pouco do nosso cérebro, vamos muito atrás da carneirada, não é? Acho que vai começar a haver cada vez mais treinadores que foram guarda-redes. Como está a acontecer: Nuno, Lopetegui...

Valdés... Outro tema muito debatido é a altura mínima para um guarda-redes. Tem de ser alto?
O perfil do guarda-redes para o jogo atual tem algumas características que ajudam, tanto do ponto de vista cognitivo como do ponto de vista fisiológico. Se fores mais alto, podes beneficiar, se estiveres no sítio certo à hora certa, aí beneficias de ser mais alto, e tens de tomar a decisão certa e ainda tens de utilizar a técnica correta. Se olharmos para as grandes competições e para os grandes clubes, os guarda-redes têm uma média de alturas semelhante. Agora, não acho que tenha de se levar ao exagero, quer na escolha, quer no mínimo de altura, porque se forem muito altos também têm dificuldades noutros momentos do jogo. O equilíbrio é fundamental.

Normalmente o exemplo que se menciona em Portugal é o Beto, que é mais baixo [tem 1.80m].
Não é assim tão baixinho [risos]. O Anthony Lopes [1.84m] também é um dos melhores guarda-redes do campeonato francês e não é assim tão alto. O Oblak [1,88m] também não é gigante. Acho que um adulto normal agora... estas novas gerações são muito altas, os pais puxam pelas orelhas [risos]. Pedir que um cidadão adulto tenha entre 1.85m e 1.89m acho que não é pedir muito. Isso do tempo em que tínhamos 1.70m já lá vai, a papa Cerelac puxa a malta para cima [risos]. Lá está, é uma questão secundária, acho que há coisas muito mais importantes do que isso. Como te disse, quero é alguém que queira que a bola chegue, que queira participar no jogo. Cada vez há menos guarda-redes assim, porque os miúdos têm medo que a bola chegue, principalmente porque o processo de formação tem vindo a perder essa qualidade de fazer com que os guarda-redes sejam intervenientes no jogo de uma forma corajosa, sem criar robotizações daquilo que é o perfil do guarda-redes - se calhar exacerbado por essa procura da altura. O treino deve interligar o conhecimento que hoje em dia existe do ponto de vista tático com a intuição que existia no passado. Havia muito mais paixão no treino de guarda-redes no passado. Havia muito mais golpe de asa, que é uma expressão de que gosto. Os treinadores tinham mais golpe de asa, os jogadores tinham mais golpe de asa e depois quem tinha de ter mais asa era o guarda-redes. Temos de sacar esse golpe de asa, que vem dessa intuição, dessas situações do inconsciente. Isso não vem das robotizações. Por isso existem mil e uma coisas com a mesma importância da altura e quiçá até mais importantes.

Sempre se falou muito do melhor jogador do mundo, depois passou a falar-se do melhor treinador do mundo... Vamos chegar a uma altura em que se vai discutir quem é o melhor treinador de guarda-redes do mundo?
Ah, não acredito nisso. Nós somos partes de um todo. Imagina um motor, que tem as suas peças. As peças ajudam a que o motor funcione bem. Cada ser humano tem as suas ambições e a sua fome, e o futebol tem estado a tornar-se, com esta questão resultadista e dos números, num exagero em relação às quantificações. Quem é o melhor disto, quem é o melhor daquilo - e muitas vezes achando que o melhor é encontrado com dados objetivos e há coisas que se perdem. Repara, já trabalhei com muitos guarda-redes e com muitos treinadores, e se me perguntares qual é a satisfação que se tira, é a satisfação dos momentos que vives e de conseguires ajudar alguém a alavancar a sua vida profissional e pessoal. O Beto, o Oblak, o Ederson, a felicidade do Júlio [César] ou do Gomes no Watford, já mais maduros... A sensação que tenho com eles foi a mesma que tive com o Hugo Marques, quando começa a jogar no Gil Vicente, ou chegar ao Hull City e o Eldin Jakupovic, que só tinha feito meia dúzia de jogos, fazer seis meses fabulosos e conseguir o contrato de uma vida no Leicester e ajudar a sua família. A satisfação é essa, não é quem é o melhor disto ou o melhor daquilo. Olhando pelas gerações mais novas, até vês isto pelas redes sociais, parece que o futebol é a coisa mais importante do mundo. Não é nada. Isso é tanga. Eu estava no União de Leiria, na 2ª Liga, e nós até dezembro ou janeiro tínhamos um plantel de qualidade, o guarda-redes era um brasileiro chamado Fernando Prass, fantástico, com muita ferramenta e muito inteligente. Não sei por que razão não jogou num grande em Portugal, há coisas que não acontecem. Nós quase não ganhávamos jogos e o Fernando era quase sempre o melhor em campo. Queríamos subir de divisão, havia uma pressão tremenda, chegámos ali a janeiro e o presidente mudou tudo. O Fernando tinha uma proposta do grande clube do Brasil e quis sair, e foi fabuloso para o clube. Nós tínhamos um guarda-redes: era o Ricardo [Nunes]. Nós perdemos um grupo de jogadores importantes, mas o Ricardo começou a jogar e subimos de divisão, não subiu o Santa Clara, na última jornada. O Ricardo foi para a Académica, lá ganhou uma Taça de Portugal, chegou ao FC Porto e hoje está no Chaves. Agora tem um problema de saúde e vocês vão dizer-me que o futebol é a coisa mais importante no mundo? Não. A coisa mais importante do mundo é a família. Claro que as tuas atividades, como o futebol, ajudam-te a chegar à tua "fome": para uns a "fome" é dinheiro, para outros é poder, para outros é vivenciar momentos. A sociedade atual vê as coisas de uma maneira que é... espuma. Não vemos o que está por baixo.

RUI DUARTE SILVA

Quando eras miúdo ias à baliza?
Ia, ia. Gostava de jogar ou na baliza ou a ponta de lança [risos]. Joguei no Paredes, muitos anos, era júnior e já treinava com os seniores...

Eras bom?
Não, não era bom guarda-redes. Era ágil, tinha alguma perceção dos momentos, mas tinha uma incapacidade, às vezes física e às vezes sendo demasiado... consciente. Se calhar era demasiado racional para jogar à baliza [risos]. Porque pensava e fazia muitas perguntas - e também é por isso que, mais tarde, entro no treino, porque um dos meus treinadores, o Fernando Valente, também me chateou para dar esse passo. Tenho 40 anos e estou quase a chegar ao 20º ano de carreira. É engraçado. Sempre gostei muito. Hoje em dia acho que a malta do treino de guarda-redes tem a tentação de proteger demasiado o guarda-redes. Às vezes quando se sofrem golos e se cometem erros, tenta-se encontra ali sempre qualquer coisa para dizer que não, não foi um erro. Quando queres ajudar, tens de ser sério na análise e, para fazer os outros evoluir, tens de perceber esse mundo real.

Fernando Valente: “Quem tem a ousadia de tentar jogar está sempre sob suspeita. O futebol em Portugal é muito sofrimento. A bola sofre”

Depois de dois anos na China, Fernando Valente voltou para Portugal, para treinar o Varzim, da 2ª Liga, tal e qual como treinava na China ou noutro sítio qualquer: "Sou apologista de que os jogadores têm de jogar o jogo que quero. Acho que o Setién também diz isso. Os jogadores têm de jogar o jogo que os treinadores querem. É isso que tento provar com imagens, porque costumo dizer que sou o Zé da merda cá do sítio, ninguém me conhece, porque se for um determinado fulano a dizer isto, toda a gente vai gostar e copiar. Eu não, portanto tenho de fundamentar através de quê? Das imagens". Para Valente, o futebol português precisa de mudar: "O futebol em Portugal é muito sofrimento, não é? Sangue, suor e lágrimas. A bola é que sofre mais, mas tenho pena é dos jogadores"

Quem eram os teus guarda-redes preferidos?
Vou dizer isto sem sentir vergonha: eu gostava do [René] Higuita. Gostava muito do Higuita porque gostava de coragem e, como te disse, na altura vivíamos numa altura mais ligada a esse romantismo. O Higuita fazia coisas que faziam algum sentido, na defesa do espaço e no início da construção, mas ele não sabia porquê, e depois caía num erro: no meio da anarquia, ele ainda era mais anárquico. Também gostava do Amadeo Carrizo, argentino, estava à frente do tempo, porque prevenia, iniciava jogo e interpretava. Quando comecei a ter mais consciência, adorava a dicotomia Baía-Preud'homme. Repara nisto: nós somos um país com um nível de exigência tremendo para os guarda-redes, com olho para a importância do guarda-redes no jogo. Qual é o país que teve Preud'homme, Schmeichel, Júlio César, Casillas, Enke, Ederson, Oblak... Todos guarda-redes que, nas suas gerações, estiveram no top mundial. Num país pequeno como o nosso... Acho que temos perceção da importância desta posição e somos extremamente exigentes em relação a ela. Mas Portugal é dos poucos países da Europa que ainda não tem uma licença de treino de guarda-redes da UEFA. Vai ter que ter. Neste momento a UEFA já trabalha com 40 países, das 55 federações. A Federação portuguesa tem de dar esse passo - e vai dar, tenho a certeza que vai dar. Mas os treinadores de guarda-redes existentes são extremamente apaixonados. Desde 2008 até agora procurei sempre ajudar a criar momentos de partilha em relação à área, e há cinco anos que fazemos um congresso internacional e trazemos cá os melhores treinadores de guarda-redes do mundo e normalmente homenageamos sempre alguém. Já foi o Júlio César, o Helton, Peter Shilton, e o primeiro foi... Baía e Preud'homme. Juntámos os dois e foi uma delícia ouvi-los. Eles próprios admitiram que jogarem um contra o outro e quererem ser melhores do que o outro ajudou-os imenso. Imaginas o que era para um jovem como eu ver o Domingo Desportivo e ver esses dois monstros da baliza.

Mas ainda não pensavas em ser treinador.
Não. Sempre quis estar próximo do jogo, porque venho de uma família apaixonada por futebol, que acompanhava um clube da 3ª divisão, que entretanto acabou. Fizesse chuva ou sol, todos os domingos estávamos lá. Era um clube chamado José Alves, que estava ligado a uma antiga empresa. Acho que uma das primeiras fotografias que tirei foi para o cartão de sócio. Obviamente quando somos pequenos e estamos neste ambiente, isso vai criando uma paixão e vai criando aquilo que tu és. Imaginava-me a fazer parte do jogo, dentro ou fora dele. Fazia muitas perguntas, queria perceber e isso direcionou-me para essa área. Houve pessoas que me disseram que tinha perfil e alavancaram-me.

Não imaginaste ser treinador principal?
A paixão pela baliza é muito grande. Eu sou muito apaixonado, divirto-me imenso no dia a dia, no treino, naquilo que é o meu trabalho. Viver é a procura da transcendência. E a minha transcendência é na área do treino de guarda-redes. O meu balão de oxigénio está aí.

Nick Potts - EMPICS

Como é que chegas ao Benfica?
Estive no Rebordosa, Marco, Gil Vicente, Leiria e quando subimos de divisão no Leiria ligou-me o Carlos Queiroz para ir para a seleção nacional. Fui, depois entretanto Queiroz sai e fico nas seleções jovens. É nessa altura que me liga o presidente Luís Filipe Vieira. Não conhecia ninguém no Benfica. Fiquei satisfeito, claro, e disse-lhe que tínhamos de pensar, porque o treino de guarda-redes num clube daquela dimensão não podia ter o treinador de guarda-redes só a pensar na equipa principal, tinha de pensar em todo o clube. E ele disse que aquela era uma das razões pelas quais estava a ligar. Foi por isso que fui para o Benfica, onde tive cinco anos e meio fabulosos.

Houve alguma mudança no trabalho diário, pela pressão de entrar num clube grande?
A diferença é externa. O trabalho num grande clube dá outra visibilidade, quiçá, mas eu estava na seleção nacional, não senti grande diferença. Claro que na seleção não trabalhava de forma diária, mas são grandes projetos. O Benfica tem a sua própria grandeza, como o FC Porto e o Sporting, o que faz com que tudo o que acontece tenha repercussões na sociedade, porque o futebol é extremamente importante em Portugal.

Entras no clube, também com essa perspetiva de coordenação, mas depois és inserido numa equipa técnica com um treinador que não conheces. Como é essa integração?
Repara, até chegar ao Marco Silva, em que, aí sim, decidi fazer parte da equipa técnica - e estou extremamente feliz com essa decisão, foi o momento certo, com as pessoas certas -, trabalhei sempre um pouco, entre aspas, sozinho. Ou seja, eram os clubes que ligavam e contratavam. Foi assim no Marco, no Gil Vicente, na seleção, no Benfica. Tens de ter quase uma certa humildade intelectual. Acho que essa é a expressão adequada. Tu é que chegaste, tu é que tens de te adaptar, sem perderes a tua natureza. Tive de me sentar com o treinador, na altura o Jorge Jesus, e perceber qual era o jogar, qual era a função do guarda-redes no jogar, qual era o caminho. E tinha de me adaptar ao pensar do treinador. Quando chegou o Rui Vitória, igual. Na formação foi diferente, porque aí foi a criação de algo que não existia, que foi o projeto "Eagle One", a criação de um departamento de guarda-redes. Foi das coisas mais bonitas que vivi até hoje porque foi fazer nascer, do nada, uma metodologia relacionada com o treino de guarda-redes e com o papel do treinador de guarda-redes. A satisfação de ver isso agora à distância é a de perceber que se alavancou a carreira de alguns guarda-redes. Qual é o clube que, nos últimos anos, tem guarda-redes que formou espalhados por outros clubes? André Ferreira no Santa Clara, Bruno Varela no Ajax, Miguel Santos na Roménia, o Zlobin que subiu à equipa principal, o José Costa que está no Cova da Piedade, e outros que levaram partes desse entendimento, como o Mika, que está na Académica, ou o Ederson, no City, e o Oblak, no Atlético de Madrid. A satisfação de saberes que ajudaste esses guarda-redes com uma forma estruturada é muita. E tivemos um grupo fantástico de treinadores jovens que semana atrás de semana partia pedra e ia fazendo crescer um entendimento, e eles próprios foram crescendo enquanto treinadores de guarda-redes.

Como o Fernando Ferreira, que agora subiu para a equipa principal do Benfica.
Esse é um dos papéis das instituições e foi uma das minhas metas e obrigações: ajudar a fazer crescer os profissionais do treino de guarda-redes no clube, no sentido de que no dia, como aconteceu e eu sabia que iria acontecer, que eu fosse para um outro projeto, as pessoas iriam continuar por lá. Um deles é treinador da equipa profissional, como disseste, outro foi roubado, entre aspas, pelo Sporting e é o coordenador do departamento de guarda-redes lá [Miguel Miranda], um está na Aspire, o Ricardo Pereira... E há outros que são aliciados muitas vezes, porque também têm muita competência, como o Ricardo Leite e outros. Isso é uma satisfação para mim. Tal como é com os guarda-redes, que foram formados para o futebol atual e não apenas para um determinado jogar, porque tu podes estar num clube e muda um treinador e muda completamente o jogar. O guarda-redes tem de estar preparado para todas as formas de jogar, para o futebol. Também não mencionei o Virgínia, que saiu para o Arsenal e agora está a jogar no Reading. O Benfica está hoje com um treinador de guarda-redes de altíssimo nível. E é engraçado porque muitos dos guarda-redes que apanhei são agora treinadores de guarda-redes: o Serrão no Santa Clara, o Celso no Belenenses, o Ricardo na formação do FC Porto, o Jorge Baptista no Reading, o Paulo Lopes no próprio Benfica.

Já que falaste no Paulo Lopes, houve uma época em que ele não foi utilizado por Jorge Jesus e acabou por não ser campeão. E houve também uma altura em que a a entrada de Oblak no onze estava difícil. A minha pergunta é: qual é a influência do treinador de guarda-redes na escolha do guarda-redes que deve ser utilizado no jogo?
Isto é preto no branco: em todos os processos, com todos os treinadores, comigo, é sempre igual. Dou o meu aconselhamento, as decisões são dos treinadores. A decisão do treinador... estou com ela até ao fim. Preparo-a e defendo-a com unhas e dentes, porque faço parte, sou um elo, da equipa técnica e do clube, faço parte de um projeto coletivo. Tenho de ter, para ficar bem comigo próprio, e para ajudar ao processo também, porque não acredito que os "yes men" sejam benéficos, a minha opinião, mas a decisão final é sempre do treinador. Os treinadores optaram por jogar com A ou B, sem qualquer tipo de problema. Penso que os treinadores assistentes têm a obrigação de ajudar a simplificar e desbloquear muitas situações nos grupos, para que elas não cheguem aos treinadores principais. Nesse sentido, uma das satisfações que tenho, durante todos estes anos de carreira, é não ter tido problemas nas relações entre os guarda-redes e com os treinadores. Claro que há sempre histórias de momentos piores e momentos melhores, mas sem conflitos. Agradeço a todos com os quais trabalhei e que me fizeram evoluir. A análise de Daniel Pacheco, a intuição de Regadas, a humildade de Paulo Alves, a confiança de Manuel Fernandes, o carisma de Ilídio Vale, o planeamento e a inteligência intelectual de Queiroz, a vinculação tática de Jesus ou a motivação de momento de Rui Vitória deram-me muito conhecimento para o que sou hoje, para pôr ao serviço de um treinador que domina o que o futebol atual de formal global, dentro e fora do campo, como Marco Silva, ofensivo, corajoso e gestor do fenómeno de alto nível. Estas vivências deram-me conhecimento a todo o nível do jogo ofensivo e defensivo. Aprendi com todos e retirei muito e espero que quem saia beneficiado sejam os guarda-redes.

Tony McArdle - Everton FC

O que destacas como melhor momento?
Há muitos momentos. São muito anos a virar frangos [risos]. Estou no Marco, num momento difícil do clube, estivemos seis meses sem receber, jogava o Beto - e que bem que estava a jogar. A minha carreira também foi sempre beneficiando daquilo que eles foram fazendo, tenho de lhes agradecer. Lembro-me de estar sentado lá com ele e queixávamo-nos que a vida estava difícil, que aquilo era o fim do mundo, o que é que estávamos ali a fazer... Mas conseguimos foco através do jogar. Anos mais tarde encontrámo-nos na seleção [sorri]. É um pouco isso. São momentos assim que marcam. Depois saio do Marco, quando a época está quase a acabar, para ir para o Gil Vicente, e o clube estava já muito empurrado para a descida de divisão, mas acabámos por conseguir a manutenção na última jornada, contra o Belenenses, e aí foi um momento importante pelo trabalho efetuado - se bem que depois tudo iria cair por terra com o famoso caso Mateus. Mas que me fez criar uma relação forte com o clube, com o presidente, com as gentes da cidade... São esses momentos que marcam a vida. No ano seguinte, estamos numa sexta-feira para jogar na 1ª divisão, depois no domingo não jogas, porque tens de jogar na 2ª Liga. Depois jogas na 2ª Liga e quase sobes de divisão, mesmo começando com pontos negativos. Os momentos são vividos com pessoas. O futebol não é o estádio, os campos de treino e a instituição. São as pessoas do clube e são os adeptos, que são a alma do clube. Podes mudar as direções e a essência do clube não muda, mas o caminho que o clube segue muda, porque isso tem a ver com as pessoas. Tenho tido sorte de passar por gente boa. Depois do Gil, outro momento marcante para mim foi a estreia na seleção nacional. O primeiro jogo foi na Dinamarca, empatámos 1-1, golo do Liedson, empatou de cabeça. Nunca mais me vou esquecer do início do jogo. É a primeira vez que canto o hino naquela situação. Os dinamarqueses super educados, em silêncio absoluto, e havia lá uma margem de adeptos portugueses. Foi a primeira vez que senti aquele espírito emigrante, daquelas pessoas que estavam lá, do que é sentir-se português. Quiçá até lá não tinha assim tanta identificação com o país, porque as novas gerações, acho que começando na minha, já têm a mania que somos cidadãos do mundo e esquecemo-nos da história deste país fabuloso que já foi fundamental para o mundo. Depois há esses momentos todos no Benfica também. Não só os jogos e as festas, mas o percurso. A satisfação de ver um guarda-redes a sentir que está no caminho certo.

Por exemplo?
Às vezes tentava puxar o Oblak um bocadinho mais para a frente, queria que ele reduzisse o espaço em alguns momentos. Estávamos a trabalhar em cima disso e queria que ele acreditasse, que ele desse esse passo. Isso ia mudar um pouco o jogo dele. Fomos jogar ao Belenenses e sofremos um golo em que senti que ele não deu aquele passo à frente, não reduziu... e depois o fiscal de linha levantou a bandeira, porque estava fora de jogo. No final, ele vem ter comigo e diz: "Hugo, eu sei porque é que a bola entrou. Eu sei o que é que não fiz". Pá [bate uma palma], já está. Ali estava um marcador somático, já estava dado o passo. Isso para mim é uma grande satisfação. Tal como agora em alguns jogos do Jordan [Pickford], em que estamos a iniciar a construção e ele pára e olha, antes de tomar a decisão. Deixa sair alguma pressão para depois tocar para o lado a bola. Depois chega ao final do jogo e vem ter comigo assim: "Tu gostaste daquilo, não gostaste? Eu sei que tu gostaste daquilo" [risos]. Ele é muito engraçado. Eu fico muito feliz com isso.

É mais fácil esse processo quando eles são jovens? Por comparação com o Júlio César, por exemplo.
Não, não. Porque estas coisas também me aconteceram com guarda-redes com mais maturidade, com o Júlio, com o Gomes no Watford, ambos experientíssimos. Às vezes acho que as pessoas nem têm bem noção sobre quem é Júlio César. Júlio César é o imperador. Quando Júlio César passa no Brasil o povo pára. Quando Júlio César passa em Itália o povo pára. Foi um dos melhores guarda-redes do mundo, principalmente porque também é uma pessoa fabulosa, um ser humano fantástico. O Júlio chegou ao Benfica depois de um momento difícil, em que até pensou em desistir da carreira, depois do Campeonato do Mundo no Brasil. Quando me disseram que o Júlio César vinha, fiquei feliz, não é? [risos] A felicidade de trabalhar com um astro das balizas, que eu via à distância. Rapidamente percebi o tão bom e tão simples que era. E era muito bom para este futebol atual, porque dominava todos esses momentos, desde o início de construção até às questões de prevenção, além de ser fabuloso na linha da baliza, com uma velocidade fantástica, e com uma disciplina de trabalho grande. Mas havia coisas, claro, em que se pode sempre dar passos diferentes. Foi gratificante ver o Júlio querer caminhar nesse sentido.

Por exemplo?
Vou contar uma história, acho que ele não leva a mal. Estávamos no final de ano e ele renovou e fez um jantar com os amigos, e eu estive presente, com a nossas famílias também. E ele diz assim: "Vou fazer uma pergunta: qual foi o golo que tu achas que mais me custou sofrer no Benfica?" E tu podias responder a maior bacorada, mas eu sabia qual era o golo. Porque tinha a ver com algo sobre o qual diariamente falávamos. Foi um golo com o Braga numa eliminatória da Taça de Portugal, que tinha a ver com o não antecipar, nesse duelo de cowboys. Deixa o adversário sacar a pistola primeiro e só depois é que nós matamos, porque nós vamos ver tudo. Vamos ver como vai abrir o pé, porque ele vai olhar para o chão... E o Júlio tinha uma velocidade incrível, por isso se ele tivesse estabilidade com uma posição base adequada o Júlio tirava a bola do cuco, como nós costumamos dizer, fácil e ainda dormia uma soneca pelo caminho. Nesse golo, ele achou, pela interpretação que fez, que o jogador ia colocar a bola num determinado sítio e antecipou-se. E depois a bola acabou por ir para o lado contrário. Quiçá podia nem defender, mas ele sabe que eu gosto de estabilidade, gosto de um guarda-redes... Como disse, a sociedade agora gosta de velocidade e rapidez, no jogar e no treinar, e quiçá a minha imagem de marca é ajudar a saber parar. Ajudar a estar no sítio certo e a dominar esse momento, para depois sacar a pistola [risos]. Muitos treinadores de guarda-redes têm o sonho de lançar um jovem guarda-redes, mas eu tive a mesma satisfação em ver esses jovens, como o Beto, o Ederson, o Oblak, o Jordan, do que quando via a felicidade do Júlio a jogar no Benfica - e tão útil que foi para o Benfica. Ou o Gomes, tão imbuido no espírio coletivo como estava no Watford.

Martin Rickett - PA Images

Quando é que conheces o Marco Silva e como integras a equipa técnica dele no Hull, em 2016/17?
É importante também dizer isto: o Benfica e o seu presidente fizeram tudo para que eu continuasse no clube, mas achei que era o momento de sair. As coisas são públicas: o Rui Vitória quis trazer uma pessoa que tinha trabalhado com ele, ele era a minha chefia e o clube obviamente teve de ir ao encontro da vontade da chefia. Se assim era, achei que não podia ficar no clube com outras funções, porque no meu projeto, na minha cabeça, o entendimento era que o coordenador fosse o treinador, para que os guarda-redes quando chegassem à equipa principal integrassem de uma forma que fosse fluida e correta. Foi isso que fiz perceber às pessoas, que não era bom continuar, nem para mim nem para o clube. Durante alguns meses foi incrível a força que o presidente e que o dr. Domingos Soares de Oliveira fizeram para que continuasse no clube, mas depois perceberam que não era possível. Nessa altura recebi contactos de alguns treinadores, portugueses e estrangeiros, o que foi engraçado. A minha opção foi ficar com o Marco Silva e foi uma opção que fiz de forma racional, até por identificação do jogar e da forma de estar, e tem sido uma experiência fantástica. Também porque, alavancado por ele, como é óbvio, tenho usufruído da experiência de estar num dos melhores campeonatos do mundo.

A Premier League é muito diferente?
Muito, muito. Tanto no jogo como na envolvência que tem, o que também acaba por afetar o próprio jogo. Principalmente por duas razões: pelo público e pelas arbitragens. São as duas questões que fazem com que o jogo mude. O público é extremamente apaixonado, de uma forma positiva, e as arbitragens libertam o jogo para decorrer de forma muito mais fluida. Não quer dizer que sejam melhores árbitros, atenção, quero reforçar isto. A forma de apitar é que é diferente. O facto de muitas faltas não serem marcadas faz com que haja mais percas e transições e isso cria um jogo de maior dinâmica - e acrescentando a emoção dos adeptos isso cria espetáculos fantásticos. Até para te dar um exemplo: em Portugal ou noutros países da Europa defender cantos e livres laterais para os guarda-redes é para meninos. É como limpar o rabo a meninos. Em Inglaterra é como ir para a trincheira na 2ª Guerra Mundial. Porque eles não marcam nada. É doloroso até. Não marcam nada. Podem mandar-te abaixo que eles não marcam nada, é muito difícil.

Por isso é que há equipas que tentam agora ficar o mais longe possível da área nos livres, por exemplo.
Claro, para evitar a confusão. Depois tens os melhores jogadores do mundo, tens os melhores treinadores do mundo e isso leva uma vertente tática fantástica para o jogo. E claro que a forma como preparam e vendem o produto é muito organizada e muito bem direcionada. Quer dizer, não quero que fique a ideia de que a liga é boa porque é bem vendida, não é isso. A liga é boa porque tem grandes intervenientes e obviamente a questão financeira é apetecível, porque os clubes recebem muitos investimentos, mas também porque a cultura futebolística é muito positiva, gostam do jogo, idolatram o jogador, mas ao mesmo tempo respeitam quem dá o máximo, percas ou ganhes. Claro que agora com proprietários de outras nacionalidades e uma outra relação resultadista está a chegar a questão dos vários despedimentos e da maior instabilidade, mas, em contrapartida, com os adeptos existe um grande respeito pelo profissional de futebol. Repara, até a taça, que não é organizada pela Premier, tem à mesma um ambiente fabuloso. Nós fomos jogar ao Lincoln há pouco tempo, equipa da League One, e o ambiente era fantástico. Eu desfruto imenso. Porque eu parava ao sábado à tarde, com nove ou dez anos, para ver jogos ingleses. Quando era a final da Taça então era mítico. Porque a vida não é só ganhar. Olha, outro momento marcante: o Marco fez um trabalho fantástico no Hull City. Chegámos e era um clube que estava completamente condenado. Tivemos performances de grande qualidade e lutámos até ao final pela manutenção. No último jogo... Quando os jogos terminam, nós ficamos sempre lá, a partir pedra entre nós, a conversar sobre o jogo entre a equipa técnica, por isso demoramos sempre muito a sair, cerca de duas horas. No último jogo, descemos de divisão. Quando saímos do estádio, o Marco tinha cá fora montes e montes de pessoas a pedirem-lhe para ficar na época seguinte, a cantarem o nome dele. Achas que isto era normal em Portugal? Numa equipa que tinha acabado de descer de divisão? São estes momentos que marcam e que fazem sentido, e que realmente mostram que a Premier League é diferente.

Mas tens a família longe.
Claro que o que custa mais é estar longe da família, perder algumas das coisas simples da vida, que, no fundo, são as mais importantes. Mas, ao mesmo tempo, o futebol e a profissão permitem-te ajudar a que a família tenha acesso a conhecimento, a momentos bons, por isso amo o que faço.

Quem regressou a Portugal foi o João Pedro Sousa, que fazia parte da vossa equipa técnica como adjunto. Imagino que estejam a acompanhar o Famalicão.
Claro, claro, não só acompanhamos como vemos de bandeira na mão. Famalicão, olé [risos]. Foi um passo importante na carreira do João, era algo que ele queria e teve o apoio de todos nós, claro. Tem toda a competência para ter sucesso, num clube a quem tenho de tirar o chapéu.. É mais uma demonstração que, em Portugal, quando se fazem as coisas com pés e cabeça elas acontecem naturalmente. Com o novo projeto, o Famalicão subiu de divisão e está a fazer bem as coisas na Liga, com os pés assentes no chão. É certamente um desafio aliciante para o João, mas não é fácil, porque estamos a falar da construção de um novo plantel, com atletas que vêm de todo o lado, com um nível etário baixo. Temos de dar muito mérito ao que está a fazer. Como amigo, digo-lhe já que ainda vai perder muitos jogos, mas nesses jogos terá a sua tranquilidade habitual.

O posicionamento do guarda-redes do Famalicão é sempre muito arrojado em organização ofensiva.
Sim, o João trabalhou com o Marco e ele também tem esse entendimento. O Marco é um treinador corajoso, que gosta de um futebol atrativo, ofensivo, que gosta que as suas equipas tenham a bola para mandar e, acima de tudo, é um treinador que joga para ganhar. Como todos deviam ser, não achas?

Há quem jogue para não perder.
Todos deviam jogar para ganhar. O João certamente sabe onde está, sabe as armas que tem e não tenho dúvidas que vai ter sucesso. Quero é que ele desfrute do caminho e que não se esqueça que vai perder muitos jogos, porque isso também é importante que as pessoas saibam.

NurPhoto

Ouvi dizer que tens uma biblioteca que nem cabe em casa.
[risos] Quase. Gosto muito de ler. Se calhar sou um comprador compulsivo de livros, que nem sempre consigo ler um de cada vez, porque depois chego a meio e depois abro outros.

Tens tempo?
Essa falácia do tempo... As pessoas dizem sempre que não têm tempo, mas as pessoas, às vezes, são duas coisas: preguiçosas e desorganizadas. Há sempre tempo. Mas eu também tenho uma vantagem grande: não preciso de dormir muito.

Quantas horas?
Não sei bem... No dia a dia, no máximo, seis horas. Gosto muito de ler. Nós vivemos numa altura em que há muita informação e as pessoas têm muito acesso a informação. O grande segredo para viver bem hoje em dia é saber fazer uma peneira entre o que realmente interessa e o que não interessa. Hoje em dia há muita espuma, que muitas vezes só sustenta aqueles vieses que temos no cérebro. Eu procuro saber coisas de muitas áreas diferentes, porque a vida é um todo e o futebol não é mais do que um espelho da sociedade. Queremos passar uma ideia e criar hábitos neles, para que eles acreditem e lutem por essa ideia, porque estamos a falar de homens com sentimentos, com decisões emocionais e que têm "fomes" - e convém descobrirmos a "fome" de cada um e saber que trabalhar com o Júlio é completamente diferente de trabalhar com o Oblak, trabalhar com o Jordan é completamente diferente de trabalhar com o Ricardo. O saber de muitas disciplinas permite-te retirar o melhor para ajudá-los. Se estivermos completamente obcecados com uma área, deixamos de vê-la com a distância suficiente para entendê-la. Se estamos muito próximos, não vemos com profundidade. Por isso é que gosto do mar, tem uma profundidade... Porque quando não sabes o que está a seguir, queres sempre saber mais.

Mas em Liverpool...
Não, Liverpool tem rio, é igual ao Porto. Tem o rio Mersey. Eu moro mesmo em cima do rio para depois chegar ao mar. Não falta profundidade [risos]. Como a música. Tenho formação musical que me incutiram quando era criança e sempre gostei muito. Quando estava no Gil Vicente, para fugir, aprendi saxofone. Agora no Everton aprendi guitarra elétrica. Uma hora por semana não custa muito para fugir e dar uns acordes. Porque, se reparares, a música é quase como o futebol. São das poucas linguagens que em qualquer ponto do mundo são iguais. Um dó é um dó na Rússia, em Portugal e na China. Um passe com a parte de dentro do pé é igual em qualquer lado. Essa linguagem universal acho que é fabulosa. Repara que a maior parte dos problemas que as sociedades e as pessoas têm é por falta de comunicação. Às vezes perguntam-me qual o livro que mais me marcou. Acho que não é por marcar, mas o mais importante devia ser o dicionário. Se a palavra tivesse o mesmo significado para todas as pessoas não era tudo muito mais simples? O problema é que depois a palavra tem vários significados para várias pessoas. Na conversa com um guarda-redes uma palavra mal dita pode estragar a comunicação.

E noutra língua.
E noutra língua. Por isso, conseguir saber de mais áreas e fugir da obsessão da tua vertente profissional faz-te, na minha ótica. ser melhor naquilo que realmente é importante na tua vertente profissional, porque dá-te outra sensibilidade.

Lembras-te, claro, do Klopp dizer que o jogo dele era heavy metal e o do Arsenal era mais clássico. Qual é que preferes?
Prefiro blues, porque tem muita pausa. Porque vem de quem trabalhava com muito afinco e não tinha liberdade e através da música passou mensagens fantásticas. Repara que, no blues, muitas vezes não tens som, mas para passares de uma nota para a outra há pausa. E faz sentido. Quem não tem entendimento, nem nota que não se está a tocar nada, mas faz sentido ter a pausa. Mas isto do futebol também te tira... O [John] Mayall vem ao CCB agora e não vou poder ir ver porque tenho o trabalho. Mas em contrapartida temos o City para jogar, o Arsenal, o Manchester... e essa é uma das vantagens da Premier League, porque há esses momentos. Há muitos treinadores que gostam do treino, eu gosto é do dia do jogo.

Dormes bem nesse dia?
Ah, sim, durmo sempre bem, pouco mas bem. Não tem qualquer interferência. Às vezes durmo pior é após o jogo, por causa do nível de intensidade cognitiva com que estás durante o jogo e também porque ficas a pensar nas nuances. Agora, antes, já tens a consciência de que fizeste o que podias e, particularmente, de outra coisa: o futebol é dos jogadores. Meus senhores, façam o favor de pôr em prática aquilo que nós treinamos.

Para terminar, a pergunta incontornável: quem é o melhor guarda-redes do mundo?
Ufffff... Mas por que premissas? A questão é essa. As premissas da FIFA? Da UEFA? Da sociedade, que tem a ver com os números? Os títulos? E para que jogo? O melhor guarda-redes para que tipo de jogar? O contexto é fundamental. Claro que há necessidades obrigatórias para jogar no futebol atual e há guarda-redes que jogam em qualquer equipa do mundo. Por isso, os melhores guarda-redes do mundo são o Oblak e o Ederson, neste momento. Mas nem há volta a dar a isto [risos]. E o Jordan a trabalhar para lá chegar

Porque foram treinados por ti?
Não [risos]. Porque conheço-os e têm uma coisa que os grandes têm, como tinha o Júlio e como quero que o Jordan vá tendo, para chegar a esse nível, porque tem tudo para lá chegar, que é: tem uma capacidade de trabalho tremenda e têm a capacidade de olhar para si próprios e perceberam quando erram. Isso é fundamental. Saber o que tens de melhorar. Sem qualquer dúvida, ambos sabem que podem ser melhores do que aquilo que já são e eu também sei. Por saber isso, é que acho que são os dois melhores do mundo. Sendo diferentes, são os melhores.

E na Liga Portuguesa?
Tenho gostado muito do Marchesin. Já conhecia e tenho gostado. Substituiu um grande nome do futebol mundial, que estava num bom momento. Casillas chegou e teve algumas dificuldades mas depois foi extremamente importante para o FC Porto ganhar. Os guarda-redes são sempre importantes nas performances das equipas e ele foi muito importante. O Marchesin trouxe jogo global, ofensivo e defensivo. Não quero também terminar sem te dizer isto: feliz do país que tem Virgínia, Diogo e Max a chegar; mal do país que não os aproveite. Acho que é importante dizer isto. Coragem ou loucura é apostar em guarda-redes que se vê cinco minutos num DVD, não é apostar em guarda-redes jovens. Claro que nos grandes clubes deve jogar quem dá rendimento. Eles têm potencial, têm qualidades mas têm de render, jogando onde jogarem. Ao render vão ganhar espaço. Mas sublinho: feliz do país que tem esses três. E outros que vêm a seguir.