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No banco com os misters

Luís Freire: “A gente queria era dar espetáculo, mas quando perdia a bola era uma desgraça. Tanto ganhávamos 4-0 como levávamos 7-3”

Aos 34 anos, Luís Freire atingiu a I Liga, liderando o Nacional da Madeira, depois de também ter conseguido subidas com Mafra, Pêro Pinheiro e Ericeirense, clubes por onde começou a ganhar "zero euros" e foi aperfeiçoando a sua ideia de jogo inicial, com a ajuda de treinadores que estudou a fundo, como Jorge Jesus, Pep Guardiola e Paulo Sousa: "Passei de ser um treinador de contra-ataque para ser um treinador ofensivo, a mandar tudo para a frente. Fizemos as coisas muito focadas em organização ofensiva e esquecemo-nos dos outros momentos do jogo"

Mariana Cabral

Luís Freire começou a carreira de treinador em 2012/13, no Ericeirense, clube em que permaneceu durante três épocas. Seguiram-se dois anos no Pêro Pinheiro, um ano no Mafra, seis meses no Estoril e, por fim, um ano no Nacional da Madeira

Gregório Cunha

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Se Vítor Oliveira é conhecido em Portugal por ser o “rei das subidas”, Luís Freire já pode ser o príncipe. Subiu o Ericeirense, onde começou a ser treinador em 2012/13, nos distritais, subiu o Pêro Pinheiro até ao Campeonato de Portugal, subiu o Mafra até à II Liga e, agora, subiu o Nacional da Madeira. Aos 34 anos, chega à I Liga, num percurso tão rápido que ainda nem lhe permitiu tirar os níveis III e IV de treinador, como explica à Tribuna Expresso, numa conversa em que recorda o percurso de uma carreira sempre a subir, mas que também já o fez ir parar ao hospital, "completamente exausto".

Que tal essa festa de subida em contexto de pandemia?
O sabor é muito semelhante, apesar do contexto. Só faltou mesmo ter os adeptos connosco. Estamos cá desde 2 de julho do ano passado e começámos a preparar a época no final de maio, portanto é um trabalho já de 10 ou 11 meses. Lembramo-nos daquilo por que passámos, ainda por cima neste momento difícil da pandemia. Pelo menos passámos por isto tudo juntos, dando apoio uns aos outros, e isso acabou por fortalecer ainda mais o espírito de grupo. Fomos a equipa que mais pontos fez, que mais golos marcou, que menos golos sofreu. Acho que fomos a equipa mais regular, que perdeu menos vezes, e fizemos uma pontuação já muito meritória, com 50 pontos em 24 jogos, penso que estávamo smuito bem encaminhados. Fico muito feliz por termos conseguido, porque era o objetivo do clube, e fico feliz pelos meus jogadores, que vão comprovar o seu valor na I Liga, depois de já o terem feito na II Liga.

Como é que soubeste que tinham subido?
Soubemos pelo administrador da SAD que normalmente está perto de nós. Trouxe-nos a notícia e houve aqui uma pequena explosão de alegria.

Houve poncha?
[risos] Houve poncha, sim, e também houve champanhe. Houve uma grande alegria, acima de tudo, de todos os responsáveis e dos jogadores, que sentiram que valeu a pena fazer sacrifícios e valeu a pena esta espera, que gera sempre ansiedade, acabou por ser recompensada. Não estávamos em campo a jogar, mas sabíamos que tínhamos boas probabilidades de subir de divisão, pelo que tínhamos feito dentro do campo anteriormente.

O objetivo do Nacional sempre foi subir. Sentiste muito o peso de ter sempre de ganhar?
Nós, na equipa técnica, já nos fomos habituando a estar em alguns projetos de subida, alguns com maior pressão, outros com menor pressão. O projeto do Nacional acarretava, sem dúvida, muita responsabilidade, porque, como é lógico, queria voltar a ser um clube de I Liga e sentimos isso desde o início. Mas também sentimos neste clube, além das condições, qualidades humanas com as quais me identifiquei de imediato, junto do presidente, da administração da SAD, do departamento médico, rouparia, técnicos da relva... Havia toda uma estrutura à volta pronta para ajudar o treinador e senti-me muito apoiado nesse sentido, portanto a responsabilidade foi sempre partilhada com quem estava à volta da equipa. Depois tivemos jogadores que também assumiram essa responsabilidade dentro do campo, que tiveram essa coragem e essa capacidade. Quando vamos para um clube destes, que tem objetivos de ganhar, temos de tentar ao máximo que as coisas sejam naturais e que a vitória faça parte da nossa mentalidade. Ao longo deste trajeto, habituei-me em pensar em jogar para ganhar, em jogar para conseguir os objetivos, e assumir isso dentro do campo, do primeiro ao último minuto. Penso que isso caracterizou o Nacional esta época. Foi uma equipa que assumiu uma forma de pressionar muito forte e acabou por ser o melhor ataque, derivado não só da construção de jogo elaborada, mas também de uma capacidade de conseguir desequilibrar o adversário nos vários momentos do jogo, pressionando sempre muito alto. Tivemos um ataque organizado que permitia criar situações de golo com cinco ou seis jogadores perto da área adversária, reagíamos muito forte à perda da bola e defendíamos bem e utilizávamos o contra-ataque. Fomos uma equipa completa. O grande objetivo era construir um Nacional de I Liga.

Tens contrato para a próxima época?
Não. Neste momento vamos iniciar as conversas em relação à próxima época, porque o meu contrato era de um ano. Tenho contrato até 30 de junho.

Assumindo que continuas com o Nacional, achas que essa ideia de jogo que descreveste pode manter-se na 1ª Liga?
Teremos sempre esta ideia de jogo por onde passarmos. Já estivemos em clubes de menor dimensão e fomos sempre conseguindo destaque pela qualidade de jogo e pelas ideias um bocadinho fora da caixa para o contexto. Sempre apresentámos isso dentro do campo. Como é lógico, já estudámos o contexto da I Liga, fizemos isso ao longo desta paragem. Agora, uma certeza eu deixo: as equipas do Luís Freire e da sua equipa técnica acabam por ter sempre alguma coisa interessante para ver. É isso que queremos apresentar, até para valorizar os nossos jogadores. Vamos querer os resultados que o clube trace, mas através do que nós acreditamos ser o melhor para o contexto, através de um futebol que procuramos que seja atrativo. Vamos de certeza absoluta levar essa marca.

Luís Freire, 34 anos, está no Nacional da Madeira desde o início da época

Luís Freire, 34 anos, está no Nacional da Madeira desde o início da época

Gregório Cunha

Chateia-te o facto de ainda só teres o segundo nível de treinador, sendo necessário o terceiro nível na II Liga e o quarto nível na I Liga?
Obviamente. Mais do que chatear, revoltou-me, porque já fui prejudicado por causa disso e possivelmente ainda sou prejudicado por causa disso. É a minha vida e a vida de quem está comigo que está em jogo, porque o nosso trabalho também depende da habilitação que temos. Há clubes que são mais corajosos, como o Nacional, e que reconhecem qualidade e valor e apostam na mesma, há outros que podem sentir-se menos corajosos. Mas o facto de não ter o terceiro nível nada tem a ver comigo, porque tudo o que pude fazer para chegar à I Liga já habilitado, fiz. Tentei. O problema é que neste momento temos a formação de treinadores fechada. Não só por causa da pandemia, está fechada para treinadores como eu já desde 2017. Foi aí que coloquei a minha candidatura e rejeitaram-na porque eu não tinha dois anos de presença em campeonatos nacionais. Entretanto subimos o Mafra e subimos o Nacional e continuam sem abrir os cursos. Ou nós fomos muito rápidos a subir ou quem está à frente dessas situações não está a respeitar o tempo certo para abrir os cursos. Espero que haja essa sensibilidade e que se faça justiça, que as pessoas também reconheçam o mérito e deixem que possamos progredir na carreira a um ritmo que penso que todos têm de reconhecer que é justo. Portanto, abram os cursos e deixem-nos tirar os níveis. E quando digo nós não é só o Luís Freire, refiro-me a todos os treinadores que têm percursos semelhantes e que têm feito o seu caminho. A formação é um direito universal. Quer dizer, tenho curso universitário, licenciatura, mestrado, ainda ia tirando o segundo mestrado... Estar preso por um nível quatro de treinador que dura três ou quatro meses...

Foi um percurso rápido.
Comecei a tirar o curso de treinador aos 20 e poucos anos e como comecei na distrital... Tenho o e-mail da candidatura e a resposta deles, mas depois nunca mais abriram nada. E pronto. No Estoril estive sempre sentado no banco e no Nacional também.

É complicado passar o jogo sem te poderes levantar do banco?
Custou-me muito no Estoril, porque tinha acabado de vir de um contexto em que podia estar sempre em pé, mais perto da equipa. Não estava nada habituado. Depois fiz a minha reflexão e convenci-me a mim próprio, porque percebi que não havia nada que pudesse fazer. O que interessava era ganhar os jogos dentro do campo para depois poder falar sobre estes assuntos. Foi assim que me mentalizei. Fiquei muito mais frio naquilo que é a minha postura no banco, acho que também aprendi alguma coisa ao ficar sentado. Mas de vez em quando acho que um treinador precisa de estar em pé, quando a equipa precisa de perceber que tem ali alguém que está com eles, seja para o bom ou para o mau.

Ias falando com o adjunto que estava em pé e ele transmitia a mensagem para dentro de campo?
Sim. É uma pessoa que já conheço há muitos anos, o [Joaquim] Rodrigues, que esteve comigo no Tondela, já há dez anos. Escolhi-o este ano porque sabia que ele tinha uma capacidade de liderança forte, é alguém que já foi treinador principal, que está habituado a estar de pé e a dar indicações. Ele conhece-me muito bem, sabe quais são as ideias e o que pretendemos. Foi jogador de futebol e os jogadores também respeitam isso. Tem 50 anos, tem muita experiência e era isso que procurava, alguém que nos ajudasse neste processo e tivesse competência à altura deste desafio, sabendo que não é fácil estar a intervir e ter de fazer a ponte entre mim e os jogadores.

O treinador adjunto Joaquim Rodrigues, em pé, à esquerda

O treinador adjunto Joaquim Rodrigues, em pé, à esquerda

Gualter Fatia

Foste jogador também?
[risos] Só joguei até aos juniores, no Ericeirense e no Mafra. Ainda fiz ali uma pré-época nos seniores, mas depois fui estudar e já não deu para jogar mais. Nem me interessei mais por isso, percebi que não tinha qualidade. Se tivesse os pés deles, era craque [risos].

Aí já pensavas em ser treinador ou essa ideia só surgiu mais tarde?
Quando parei de jogar, tinha duas opções: ou ia para professor de educação física ou para treinador de futebol. Entrei na universidade, em Évora, e quando comecei a ter futebol... E eu já era apaixonado por futebol, completamente maluquinho por futebol.

De quem gostavas naquela altura?
Quando entrei na universidade, em 2005, o Mourinho estava a explodir completamente. Era top - e é. Em 2004 ele tinha conquistado a Champions, portanto o meu início de carreira foi muito inspirado pelo Mourinho e pela vertente estratégica que ele utilizava, a mentalidade que incutia nas equipas, aquela forma de ser e de estar dele, aquela irreverência. Sempre fui muito irreverente, também, naquilo que fazia. O Mourinho inspirou-me a ser treinador. Depois, ao longo do tempo, fui tendo outras referências, como o Ricardo Duarte, que foi meu professor na universidade e puxou muito por nós.

Como começas a carreira de treinador?
Estava a estudar em Évora, a tirar a licenciatura, portanto só ia a casa, a Mafra, ao fim de semana. Dei treinos no Juventude de Évora, aos miúdos, mas um dia estava a olhar para o campo, já era de noite, lá no pelado do Juventude de Évora, e disse para um colega meu: "Nós assim não vamos chegar lá. Aqui não temos visibilidade nenhuma. Por muito que treinemos bem em Évora..." Tínhamos de arranjar outras soluções. Então pensei em estudar em Évora durante a semana e ao fim de semana oferecer o meu trabalho ao Mafra. Na altura estavam lá o Pedro Bonifácio e o Rúben, que eram dois jogadores que conhecia muito bem, que jogaram comigo e que são meus amigos. Falei com eles: "Eh pá, o vosso treinador é bom?" Resposta: "É, é, trabalha bem, é muito exigente..." Então tentei: "Achas que vai ter abertura para eu ir lá ver uns treinos, fazer um relatório?" E eles disseram que lhe davam um toque e para eu ir lá tentar. Cheguei lá, vi o treino, o mister ia muito apressado, mas fui ter com ele: "Mister, desculpe lá, sou o Luís, gostava de ver os seus treinos, se me permitir, e depois faço um relatório..." E ele: "Eh pá, como te chamas?" E eu: "Luís". E ele: "Eh pá, não tenho tempo para falar agora contigo, vem cá noutro dia e depois falamos". Eu fiquei assim um bocado... Bolas, nem uma palavra nem nada. Pronto, ok. No dia seguinte lá fui outra vez e ele já teve um bocado mais de paciência e disse que sim, que podia ver os treinos, e perguntou-me o que eu fazia. Fiz então os treinos, mas não tinha grande proximidade com o treinador, por isso não pensei que aquilo fosse dar alguma coisa. Depois deixei com eles o relatório do que achava dos treinos e ele passado três ou quatro dias ligou-me: "Olá, Luís. Então mas o que é que tu fazes mesmo?" [risos] Expliquei que estava em Évora a acabar o curso, mas que era de Mafra e gostava de seguir futebol, por isso estava disposto a ajudar. "Eh pá, gostei do relatório, queres fazer estes relatórios para nós?" Claro que disse que sim, que fazia com todo o gosto. "Então é assim: vais ser nosso observador, mas não tenho dinheiro para te pagar, não tenho nada para te dar. Tens de investir na carreira". Pronto, está bem. Pedi aos meus pais dinheiro para comprar uma máquina de filmar e lá fui para os campos. Cheguei a ir a Coimbra gravar jogos, tudo do meu bolso, para ajudar a equipa, o mister e conseguir entrar para o futebol sénior, porque o que eu queria mesmo era futebol sénior. Eu sabia que já tinha um trajeto consolidado como aluno na faculdade, por isso queria era ir para prática e foi isso que fiz. Também foi bom para mim fazer isso ali em Mafra, porque conhecia as pessoas e isso ajudava. Tinha 22, 23 anos e acabou por ser bom para começar.

E depois continuaste a ser observador do Filipe Moreira, em Tondela e no Oriental.
Sim, como ele gostou do meu trabalho convidou-me para ir para Tondela.

Aí já te pagavam?
Sim, mas pouco. Dava para pagar a renda da casa e dava para comer. Não dava para mais nada. Vivia lá com o mister Pepa, que agora está no Paços, mas depois ele foi para o Benfica e então fiquei com o Rodrigues, que agora está comigo aqui no Nacional. Já era uma equipa técnica de II Divisão B na altura, estávamos a lutar para subir à II Liga. Eu com 23, 24 anos apanhei ali o Márcio Sousa, o Fernando Ferreira, o Diego Galo, o Piojo, o Rui Marques... malta já com experiência e qualidade. E acabei por aprender muito com eles. Foi um ano em que passei de ser menino para virar homem. Já tinha estado em Évora, mas Tondela é mais isolado e foi uma experiência única, fez-me crescer muito, muito. Ia ver jogos a todo o lado, comecei a perceber cada vez mais o jogo, fui ver jogos ao Porto, mesmo ainda sendo longe, mas queria estar bem preparado. Acabámos em 2º lugar e foi aí que comecei a ver que o futebol era duro, porque nós se ganhássemos o jogo íamos ao playoff de subida, mas, como empatámos, fomos despedidos passado um dia. Eu a pensar que ia disputar o playoff de subida e no dia a seguir estava a fazer as malas para voltar para Mafra. Percebi claramente que no futebol é importantíssimo ganhar ou não temos hipótese.

Depois foram para o Oriental, em 2011/12.
Depois fomos para o Oriental com o mister Filipe, mas aí já não havia dinheiro outra vez. Em Tondela tinha estado no campo, no Oriental era observador outra vez, fora do campo, e a custo zero. Por isso decidi ir dar treinos para o Ericeirense, para me fixar mais na minha zona de residência, e comecei a tirar o mestrado na FMH, onde conheci colegas que estão agora comigo, como o João Ferreira. O meu professor de Évora, o Ricardo Duarte, também já dava aulas em Lisboa, por isso voltei a tê-lo, e sentia-me bem, já fazia muita coisa, também já davas aulas de educação física nas escolas primárias...

Gregório Cunha

Como se dá a passagem para treinador principal, em 2012/13?
Tive uma grande desilusão a nível financeiro quando saio de Tondela e percebo que estou a zeros outra vez. Tive de reconstruir a minha vida e aquilo abalou-me, na perspetiva de pensar: "Bolas, já é o terceiro ano e não estou a ganhar nada com o futebol". Então decidi que tinha de começar a dar aulas, tinha de começar a dar treinos a outras equipas e foi isso que fiz. Depois o mister Filipe convida-me para o Sporting da Covilhã, na II Liga, com uma proposta que já me permitia estar mais ou menos ao nível que tinha estado em Tondela, mas não aceitei, porque disse ao Ericeirense que estava a pensar sair e eles disseram: "Ó Luís, os seniores vão ficar sem treinador e nós gostávamos que fosses tu a pegar neles. Só que não temos dinheiro" [risos]. Como eu dava aulas ali em Mafra nas escolas e já conseguia ganhar 400, 500 euros e não tinha de pagar casa... Falei com os meus adjuntos, o Nuno Silva, o Tiago Louzeiro, o Carlos Braz, que ainda estão comigo, e o Vítor Gazimba, que agora está na Noruega, porque se eles me acompanhassem, eu ficava. Então ficámos e decidimos criar ali o projeto "ser Ericeira", que era um projeto muito assente na formação, porque nós não íamos ganhar nada nos seniores, mas todos nós treinávamos na formação, portanto o nosso objetivo era aumentar o número de miúdos inscritos, para conseguir aumentar as verbas. Conseguimos criar uma rede de patrocínios, porque o presidente estava demissionário, então criámos uma comissão desportiva com os capitães de equipa.

Nesse caso não eras apenas treinador.
Pois não. O Marinho, que agora é presidente do clube e na altura era meu capitão de equipa, era o coordenador da formação e nós, com ele, fizemos o tal projeto, que tinha o objetivo de unir o clube por dentro, formação e seniores, e ligar o Ericeirense à Ericeira. Fui de computador às costas apresentar o projeto "ser Ericeira" às pessoas. A primeira pessoa que apostou em nós foi um senhor luxemburguês que tem um restaurante na Ericeira, o senhor Gérard: deu-nos €2 mil. E por aí fora. Metíamos no Facebook quem se associava ao projeto e foi assim que fomos arranjando umas verbas para pagar a água, a luz, o gás. Lá conseguimos formar uma equipa, ia eu ter com os jogadores aos cafés, com a folha para eles assinarem, e nós é que íamos pôr as folhas à associação de futebol. Construímos um grupo forte e, como disse, o capitão da altura e o vice-capitão são agora presidente e vice-presidente do clube. Conseguimos juntar ali uma boa equipa, mas tudo a custo zero, ninguém ganhava um euro. Nesse primeiro ano, subimos de divisão e já tínhamos 2 mil pessoas a ver-nos. Depois, nos dois anos seguintes, foi dar continuidade a esse trabalho. Na segunda época, não subimos por dois pontos. Conseguimos €23 mil de apoios e todos os jogadores ficaram a ganhar €75. Eu continuava a ganhar zero [risos], mas treinava os miúdos - e o resto da equipa técnica também - e continuava a dar aulas.

Mas levavas aquilo a sério.
Às vezes tinha amigos que me diziam: "Anda sair a noite". E eu: "Não, tenho jogo amanhã". E eles: "Mas tu não recebes nada, deixa lá isso." Não ia, nem pensar nisso. "Amanhã tenho jogo e tenho de ganhar". Era muito exigente. No terceiro ano já conseguimos montar uma equipa com três ou quatro jogadores de fora daquela zona da Ericeira, escolhidos por nós, porque já conhecíamos bem aquela divisão, e conseguimos a subir novamente, no último jogo, no último minuto. Marcámos e houve uma invasão de campo, foi um festa incrível, com quatro mil pessoas. Acho que nunca tive uma festa com tanta gente, foi uma brutalidade de gente, mesmo nas ruas.

Foi um início de carreira duro.
Sim, com muitas histórias. Por exemplo, chegarmos lá e não haver luz. Tivemos de tratar dos papéis e andar a reunir apoios, porque a luz afinal não estava paga... Não foi fácil. Foi um início de carreira mesmo a puxar ferro.

Esse tipo de adversidades logo no início deixaram-te mais preparado? É por este tipo de situações que se diz que o treinador português se desenrasca bem em qualquer lado?
Penso que sim, que temos essa capacidade de criar em qualquer contexto, conseguimos ser criativos. No meu caso, fui mesmo em busca de um sonho e eu sou assim: ou me meto a sério nas coisas ou não me meto nas coisas. Quando o nosso nome está associado às coisas, temos de dar o exemplo e deixar a nossa marca. Eu queria ser treinador, queria levar o clube para a frente, queria que as pessoas acreditassem que o Ericeirense tinha futuro e agora graças a Deus está aí.

Gualter Fatia

Olhando para trás, a forma de jogar do Ericeirense era muito diferente da que tens hoje no Nacional?
Sim. A ideia de jogo nos dois primeiros anos é completamente diferente da que tenho agora. Jogávamos normalmente em 4-4-2 losango e era uma equipa que apostava muito em transições rápidas e em organização defensiva. Se hoje olhar para os jogos dessa equipa, não vou ver coisas de que goste [risos]. Era uma equipa sempre muito forte defensivamente, muito estratégica, muito focada no contra-ataque e muito forte em casa, porque éramos os "guerreiros do mar", a atitude que tínhamos em campo era extraordinária. A equipa tinha muita alma e muito menos organização do que a de agora, era uma ideia muito menos elaborada.

Nesse contexto já observavam os adversários?
Sim, nós tínhamos vários observadores que nos foram ajudando, ou a custo zero ou então comigo a pagar €25 do meu bolso para as deslocações. Por exemplo, um miúdo da formação ou alguém que ainda estivesse na faculdade e não tivesse acabado o curso... Tínhamos essa abertura. Eles gravavam os jogos e depois nós analisávamos. Só um jogo por adversário, não tínhamos direito a mais. Não havia Wyscout nem Instat [risos].

Como é que essa ideia de jogo começa a evoluir?
Já no último ano no Ericeirense mudou bastante. Arriscámos muito e sofremos mais golos do que aqueles que marcámos. Já jogávamos bom futebol, com princípios ofensivos muito interessantes, a querer jogar em corredor central, com muita mobilidade... Só que a mobilidade depois era tanta que o equilíbrio era pouco. Tínhamos jogadas espetaculares, mas depois perdíamos a bola e sofríamos golo. Era muito fundamentalista. Acho que passámos do oito para o oitenta [risos]. De repente corríamos os riscos todos, os jogadores parecia que tinham outro treinador. Passei de ser um treinador de contra-ataque para ser um treinador ofensivo, a mandar tudo para a frente.

De onde veio essa ideia?
O João Ferreira, que entra na nossa equipa técnica quando o Vítor Gazimba vai para a Noruega, trouxe ideias novas, mais ligadas ao norte, porque ele esteve na Dragon Force, e nós começámos a ver treinadores que jogavam um futebol mais atrativo, começámos a estudar alguns treinadores. Na altura era mais mais o Guardiola. Só que fizemos as coisas muito focadas em organização ofensiva e esquecemo-nos dos outros momentos do jogo. A gente queria era dar espetáculo, mas depois quando perdia a bola era uma desgraça. Tanto ganhávamos 4-0 como levávamos 7-3, parecia hóquei em patins. Mas pronto, depois fomos para o Pêro Pinheiro, na 1ª divisão distrital, e, nessa pré-época, fizemos um estudo de várias equipas que jogavam bem. Lembro-me de na altura estudar o Benfica do Jorge Jesus e a nossa equipa no primeiro ano era muito parecida com essa forma de jogar. Jogávamos em 4-4-2, com os dois avançados, os dois extremos por dentro, os laterais projetados, um '6' a entrar na linha de defensiva e o outro a ficar à frente, ou então em 2+2, e dominámos completamente esse campeonato. Tínhamos uma grande equipa, tínhamos escolhido os jogadores, com a ajuda da direção, e aquele já era um projeto com responsabilidade de subida e subimos para o Pro-Nacional. No ano seguinte, a direção deu-nos carta branca para escolhermos quem queríamos e o objetivo não era subir, porque tínhamos acabado de subir, era ficar ali nos quatro ou cinco primeiros lugares, fazendo um bom campeonato. Reforçámo-nos com jogadores que já conhecíamos, porque, como tentamos sempre fazer, já tínhamos estudado aquela divisão, porque estudamos sempre o contexto a seguir, para estarmos preparados.

A forma de jogar voltou a mudar?
Começámos a jogar de maneira diferente nesse segundo ano, porque achávamos que havia coisas para melhorar e também para dar um novo desafio aos jogadores, porque muitos deles eram os mesmos. A verdade é que resultou em cheio. Aí já tivemos uma forma de jogar muito parecida com o que depois fizemos no Mafra e no Estoril: tínhamos o lateral direito a organizar com os dois centrais, o extremo direito aberto e o lateral esquerdo aberto, os dois '6' em construção, o extremo esquerdo por dentro e o ponta de lança à frente. Era um 3-4-3 em organização ofensiva. Essa ideia de jogo na distrital deu muito nas vistas, foi uma mais-valia.

Falaste no Jesus: eras um treinador com uma personalidade semelhante à dele?
Sim, eu era muito exigente mesmo. Dentro do trabalho sou mesmo muito exigente, depois fora do trabalho já sou mais brincalhão. Quando é para trabalhar é para trabalhar, quando é para brincar, é para brincar. Digo sempre isto às minhas equipas. Eu já era assim na distrital, se calhar até mais do que sou hoje. O que mudou foi algum controlo emocional, tenho muito mais capacidade emocional. O que me afetava há três e quatro anos já não me afeta hoje.

Por exemplo?
Por exemplo, na distrital fui expulso sete vezes [risos]. Agora já não sou expulso há três anos, portanto mudou qualquer coisa. Tenho muito mais controlo emocional. Antes tinha muito mais sangue na guelra, era complicado. Eu vinha do nada e queria conseguir os objetivos. Agora já aprendi a gerar as emoções de maneira diferente. A maturidade é isso mesmo. Uma coisa é teres 26 e outra coisa é teres 34 anos. Já passei por várias experiências. Eu fui do mais autoritário para o mais simpático. Era muito autoritário na Ericeira, depois no Pêro Pinheiro já não era tanto...

Autoritário de que género?
O contexto também era diferente, porque os jogadores não recebiam nada. Se eu não fosse mais exigente, eles não se iam comprometer. Era autoritário porque um jogador chegava um minuto atrasado e o autocarro arrancava e ele tinha de ir de carro lá ter. Mesmo sem ganhar dinheiro nenhum. Se chegasses atrasado ao almoço da equipa, deixavas de estar convocado. Era muito exigente nesse sentido. Se chegasses atrasado a um treino, na distrital, sem ganhares um tostão e sabendo que antes tinhas estado a trabalhar, eu dava-te uma descasca em frente a toda a gente. Se eu percebesse que não tinhas comido, que não tinhas lanchado, e estavas mal para treinar, eu dava-te uma rebocada [risos]. Era lixado. Se faltassem aos treinos, nem sequer convocados eram nos próximos tempos, não era só naquela semana. E nós tínhamos uma média de 23, 24 jogadores no treino. Por isso é que conseguimos fazer isto.

Voltando ao jogo: falavas da construção com o lateral direito por dentro e com os centrais. Como é que isso surgiu?
Vimos o Guardiola no Bayern de Munique, vimos o Paulo Sousa na Fiorentina, foi por essa altura.

E aí só construíam dessa forma ou também construíam de outras formas, como agora no Nacional?
Sim, só construíamos dessa forma, com o lateral por dentro. Privilegiávamos muito o corredor central, o ataque posicional não era muito móvel, era mais estático, mas com constantes soluções, linhas de passe por dentro e por fora, já com uma grande capacidade de entrar em ataque organizado, de jogar no meio-campo ofensivo, de reagir de forma forte à perda da bola. Defensivamente estávamos organizados em 4-4-2 clássico e éramos das melhores defesas, assim como dos melhores ataques, portanto o Pêro Pinheiro já era facilmente uma equipa com uma organização do nível do Campeonato de Portugal. Era muito parecido com o que depois fizemos no Mafra. Portanto, primeiro partimos do Jesus, depois passamos pelo Guardiola e pelo Paulo Sousa, e também um bocado pelo Tuchel, e pronto, foi assim que fomos seguindo.

Em 2017/18, o Mafra venceu o Campeonato de Portugal e subiu à II Liga

Em 2017/18, o Mafra venceu o Campeonato de Portugal e subiu à II Liga

Gualter Fatia

A época no Mafra, em 2017/18, foi a mais dura, num Campeonato de Portugal que é muito longo?
Sim, esse campeonato foi o mais difícil que apanhei, porque o Campeonato de Portugal foram 40 jogos e, além disso, foram 12, aliás, 13 meses de trabalho, porque começamos a trabalhar em maio. Estivemos três ou quatro semanas a estudar o Campeonato de Portugal, as equipas, para conhecer os jogadores. O Mafra marcou acho que 76 golos nesse época, quase média de dois golos por jogo, foi uma equipa feita à medida para o que nós queríamos. Queria sair a jogar quase sempre, sentia-se bem sob pressão, sendo uma equipa sem a pressão dos resultados, porque nem sequer ao playoff de subida tinha ido no ano anterior e houve um desinvestimento financeiro do clube. Trouxemos três jogadores do distrital para o Mafra e dois foram titulares. Tivemos a sorte de encontrar um balneário fantástico, com grandes capitães, um presidente que nos deixou trabalhar à vontade e que nos deu todas as condições para nós desenvolvermos a nossa ideia, tínhamos também o Quim Zé a ajudar-nos e fomos uma equipa sempre muito competente desde início. Uma equipa de ataque organizado, já com mobilidade, principalmente nos três da frente, no Bruninho, no Mauro e no Campanholo, e no Rodrigues, que agora está no Estoril. Era uma equipa com muita mobilidade na frente e com jogadores que provaram o seu valor. Havia ali muita gente que agora está na II Liga. Foi o trabalho mais doloroso de todos, porque a seguir ao final da série D houve o playoff de subida, onde nós vamos ganhar a Vila Verde e depois empatamos em Leiria a dez minutos do fim.

Desgastou-te muito?
Foi uma época que me deixou completamente exausto. Eu sentia muito o clube, porque era o clube onde eu tinha começado, como treinador adjunto, e moro a dois quilómetros do campo. Conseguimos que os jogadores seguissem o processo e a mensagem, o que não é nada fácil num regime semiprofissional. Na minha opinião, fomos justos campeões, apesar de termos sido uma equipa completamente outsider, que foi progredindo. Éramos o 15º ou 16º candidato à subida, mas conseguimos subir à II Liga.

Acabaste exausto, mas saltaste logo a seguir para o Estoril, na 2ª Liga. Sem férias?
Sem férias. Posso dizer que nessa altura a minha saúde tremeu, comecei ali a ter situações de tensão alta e às tantas fui parar ao hospital. Nessa altura do playoff do Mafra estava completamente exausto, porque tinham sido muitos anos a dar tudo e a levar as coisas às costas, muitas vezes. E cedi ali naquela altura. Senti que precisava de descansar, mas não havia tempo para descansar. O Estoril entrou em contacto quando estávamos a terminar a época no Mafra e acabámos por preparar a final do Campeonato de Portugal, contra o Farense, já comprometidos com o Estoril. Ou seja, muitas vezes estava quase a trabalhar para os dois clubes ao mesmo tempo. Pelo menos a minha cabeça estava a fazê-lo. Mas prometi aos jogadores do Mafra que tudo o que pudesse fazer para ganharmos a final, ia fazer. Ali uma semana antes da final só me concentrei mesmo no jogo. Ganhámos e quando acabou a final o Estoril queria apresentar-me o mais rápido possível. Acabei no Mafra no dia 10 de junho, festejei à noite e às 11h da manhã de dia 11 estou a ser apresentado no Estoril [risos].

Nem deu para festejar como deve ser.
E é difícil saíres das emoções pelas quais passaste pelo Mafra, assim como das pessoas com quem viveste aquilo tudo, e estares de repente a falar em nome do Estoril. Ainda não tiveste tempo para sentir o que é o Estoril, o clube, as pessoas. Mas eu aí também fui responsável, porque pus a época a começar muito cedo e deveria ter posto a época mais tarde. Começou logo a 20 de junho e podia ter começado em julho, mas eu é que quis começar mais cedo - e admito que fiz mal. Porque não descansei. Mas porquê? Porque queria ter uma boa pré-época, queria ter uma boa adaptação à II Liga. Queria passar bem as ideias, perceber bem o contexto e por isso queria estar a trabalhar, para estar por dentro do que era a II Liga. A verdade é que começámos bem, ganhámos 15 ou 16 jogos logo de início, a jogar bom futebol logo naquela altura. Fomos a Alcochete ganhar, fomos jogar com o Setúbal e ganhámos... Fizemos uma pré-época muito boa. O clube também estava em revolução na altura, o Pedro Alves convidou-me para lá, foi um voto de confiança. Fizemos o plantel e eu ainda não conhecia tão bem os jogadores da II Liga nem o contexto, porque não tive tempo suficiente para me preparar, como tinha tido no Mafra. Fui fazendo o plantel com o Pedro, conseguimos muitos jogadores jovens de qualidade, mérito da administração do Estoril, porque eu não os conhecia bem. Mas acho que, olhando para trás, se tivesse tido mais tempo, de certeza absoluta que teria conseguido fazer um melhor trabalho logo desde o início.

Em janeiro de 2019, Luís Freire saiu do Estoril, com 24 jogos realizados pelo clube na II Liga (13 vitórias, quatro empates e sete derrotas)

Em janeiro de 2019, Luís Freire saiu do Estoril, com 24 jogos realizados pelo clube na II Liga (13 vitórias, quatro empates e sete derrotas)

Gualter Fatia

Mas até começaram bem a época.
Sim, começámos bem, com grandes resultados e grandes exibições. Acho que foi das equipas que jogou melhor futebol nas minhas mãos. Tivemos jogos fantásticos, inclusivamente na Taça da Liga. No campeonato andámos sempre perto da zona de subida, a um ou dois pontos, portanto dentro dos objetivos traçados. Só que, pá... Em dezembro estamos muito bem colocados, a um ponto da subida - e a subida era mesmo o objetivo -, mas em janeiro tivemos quatro jogos negativos seguidos. E pronto, para os responsáveis foi o suficiente para nós sairmos, a 19 de janeiro, penso eu. Acabámos por sair assim, mas penso que houve o reconhecimento do nosso trabalho e os jogadores foram valorizados. Houve mérito do Pedro Alves, porque ele consegue identificar muito bem os talentos e lança-os constantemente, tanto jogadores como treinadores, porque nós éramos desconhecidos e agora vamos chegar à I Liga. Também foi ele que foi buscar o Vasco Seabra para os sub-23.

Mas não achas precipitado dispensar um treinador por quatro resultados menos positivos?
Não vou avaliar o trabalho das outras pessoas. Fizeram o que achavam que era certo na altura. Agora podemos olhar para trás e dizer que realmente foi precipitado. Mas se calhar na altura fazia sentido. Eu próprio, com quatro jogos sem vencer, a ver a equipa a oito pontos do segundo lugar, compreendi a situação, apesar de termos tido jogos muito bons e de termos valorizado o Estoril. Era uma equipa que tinha uma capacidade de sair da pressão muito acima da média e era o melhor ataque na altura, tal como conseguimos no Mafra e agora no Nacional. O Estoril tinha um ataque posicional muito bom e tinha princípios bem trabalhados, tinha uma capacidade de passe para 1ª e 2ª linhas muito forte, tinha muito mobilidade na frente, jogava a um ou dois toques com muita facilidade e queria mandar no jogo.

Era a preparação para a perda que não funcionava tão bem?
Sim, uma das coisas que não funcionou bem foi essa, porque na II Liga as equipas já têm muito mais qualidade, muito mais do que no Campeonato de Portugal. No Campeonato de Portugal o desfasamento das equipas é quase como na I Liga, ou seja, o FC Porto ou o Benfica ou o Sporting jogam contra o último e nota-se muito a diferença, o que nos acontecia no Campeonato de Portugal, só havia três ou quatro equipas do nosso nível. E na II Liga não. Na II Liga uma equipa tem €3 milhões e outra tem €1,5 milhões, a diferença é menor. Qualquer equipa tem jogadores que podem desequilibrar a outra. No Estoril tínhamos uma transição defensiva pouco controlada do lado contrário, porque projetávamos os dois laterais completamente, sem nos preocuparmos com o lado contrário, e muitas vezes atacavam-nos por aí. E não nos preocupávamos, a atacar, com as referências de transição do adversário, e isso fazia com que as equipas conseguissem, por vezes, sair da pressão e criar perigo, quando nos deixavam mais gente na frente. Tínhamos pouco controlo do espaço entre linhas na transição, portanto era claro que tínhamos problemas na transição defensiva e na organização defensiva, tanto que fomos mudando ao longo dessa época. Em organização defensiva, tínhamos um 4-4-2 muito passivo, pouco pressionante, a controlar mal o espaço entre linhas. Fomos percebendo que o contexto tinha mudado, que era um campeonato mais difícil. Não tanto a nível ofensivo, mas nos outros momentos do jogo. Não era uma equipa tão forte como se calhar o Nacional é este ano.

O que fizeram quando saíram?
Refletimos muito sobre o que tinha falhado. Não só sobre isso que já disse, mas também sobre a transição ofensiva, que era feita muitas vezes para trás, para ficar com bola, o que nos tirava alguma objetividade. Marcávamos muitas vezes em ataque continuado, poucas vezes em contra-ataque. Também apanhámos muitas vezes linhas de seis e sete contra nós e não conseguimos resolver bem no último terço. Refletimos sobre tudo isso e percebemos que o último terço tinha de ser melhor, o controlo das referências adversárias em transição tinha de ser melhor, o equilíbrio do lado contrário tinha de ser melhor, a organização defensiva tinha de ser melhor.

No Nacional já marcam essas referências individualmente? E quantos jogadores deixam agora a preparar a perda?
O Nacional foi fruto destas reflexões e de uma outra também: temos de nos adaptar um pouco também, porque nós temos a nossa ideia de jogo, mas ela tem de ser maleável aos jogadores que nós temos. O que quero dizer com isto é: quero ser uma equipa de controlo de bola, de controlo do jogo e domínio do jogo, quero jogar em ataque organizado preferencialmente, quero pressionar alto, quero reagir forte na perda, quero ser rápido a sair para a frente quando recupero a bola. Quando chegámos ao Nacional, deparámo-nos com esta situação: tínhamos jogadores muito rápidos nos corredores laterais, principalmente os nossos laterais, por isso decidimos que não valia a pena deixar um lateral por trás, tínhamos o Kalindi, o Vigário, o Witi, o Campos. Decidimos então projetar os dois laterais e ter o '6', esse sim, a construir a três com os centrais. Mudámos várias coisas no Nacional: a nossa construção de jogo foi mais móvel, alternámos construir a dois ou a três, percebemos durante a pré-época que os jogadores do meio-campo tinham uma capacidade de organização boa, de construção de jogo, e tinham de apoiar os defesas centrais, que estavam pouco habituados a jogar sob pressão. Apanhámos uma equipa que estava habituada a jogar com laterais por trás, centrais que jogavam de forma muito lateralizada, preferencialmente pelo corredor lateral, com os '8' na rutura, '6' sendo a única referência direta de construção. Nós mudámos isso tudo, com os extremos a jogar por dentro, os laterais por fora projetados, os centrais a organizar por trás, com apoios perto dos médios, para terem mais segurança na construção do jogo, porque eles tinham receio de perder a bola em zonas de risco e queríamos ajudá-los.

Gualter Fatia

Não estando os centrais confortáveis com essa construção no início, aceitas que batam a bola de forma longa? Como evolui esse processo?
No início, na chegada ao clube, temos de passar logo a nossa ideia aos jogadores e convencê-los de que aquele é o melhor caminho para vencermos jogos. Há uma maneira simples de ver isto: as melhores equipas do mundo não jogam à defesa, na expectativa. Tomam a iniciativa. Se nós queremos subir de divisão, temos de ter coragem para assumir isso em campo, não é só estar a dizer. As nossas ações têm de ir em direção ao nosso objetivo. Eles perceberam que queríamos ter a bola para marcar golos e para conseguir ganhar jogos. E isto constrói-se é no treino, é aí que vamos influenciando o jogador. No treino, não sou exigente com eles se perderem a bola. Tens de dar confiança ao jogador. Se ele perder a bola, ele tem de sentir que o treinador está a ensinar: "Ok, perdeste a bola, mas tinhas ali aquela linha de passe. Calma e nós vamos chegar lá". Temos de criar exercícios que proporcionem sucesso ao jogador, para ele sentir que tem sucesso no que está a fazer no treino. Se ele começar a ganhar essa confiança no treino, com progressões nos exercícios, desde os princípios funcionais, seja o passe interior, seja a provocação com bola, sejam os apoios na condução de bola não serem logo lateralizados e vão para corredor central... Nós trabalhamos essas situações desde o aquecimento, com situações mais micro. Depois passamos para estruturas meso, ou seja, com maior relação numérica, e acabamos em macros, situações de ainda maior relação numérica, perto do 10 contra 10. O jogador vai passando por isso tudo e vai tendo feedback, vai tendo reforço, vai tendo situações de treino competitivas onde vai tendo sucesso a jogar assim. E depois é começar a pré-época com jogos teoricamente mais fáceis e ir aumentando o nível de dificuldade até o nível ser superior até ao que vão apanhar. E é analisar as coisas com eles, conversando e em vídeo, para ir provando que é o melhor caminho. Se nós marcarmos um golo com 20 passes na pré-época, eles vão começar a acreditar que é um bom caminho. É isso que tentamos fazer nas nossas equipas, dar-lhes experiências positivas no treino para que eles ganhem confiança para o jogo. E tentamos tirar-lhes esses estigmas que, por vezes, os defesas centrais e os guarda-redes têm. Porque quando eles batem a bola para a frente, muitas vezes estão só a dar a bola ao adversário e depois vão ter de estar a defender e correr muito mais tempo atrás da bola. Cada vez que eles conseguem uma boa jogada a partir de trás, o defesa central começa a ganhar alguma confiança e já lhes dá um certo prazer serem eles a construir o jogo e a conseguir desequilibrar ofensivamente. O setor defensivo tem de trazer vantagens aos outros setores.

Voltando atrás, que acabámos por não ir aí: como melhoraram a questão da preparação para a perda?
Nós alternamos muitas vezes o nosso ataque posicional. Começámos com dois centrais e três médios na construção, com laterais projetados, extremos e ponta de lança dentro, e depois mudámos para três por trás, com o '6' a entrar entre os centrais, um '8' mais em construção, que era o Rúben, e o Vítor com mais liberdade de ir embora, para ligar o jogo entre linhas, perto do ponta de lança, ou em rutura. Depois mudámos as características do ponta de lança, que passou a ser o Riascos, que acabou por ameaçar muito mais o adversário nas costas e deu-nos mais espaço entre linhas também, porque a defesa adversária ficava com mais problemas em controlar - se queria defender alto, tinha mais problemas nas costas, se queria ficar mais baixa, dava-nos completamente a iniciativa. Depois introduzimos a mobilidade no corredor lateral, ou seja, para favorecer os nossos extremos, que estavam mais habituados a jogar por fora, e que nós tínhamos a jogar por dentro, aproveitámos que eram rápidos e fortes no um contra um, e então os nossos extremos iam trocando com os nossos laterais, dentro e fora, quando já estamos instalados em meio-campo ofensivo. Demos liberdade também para o extremo vir à primeira linha tocar, caso o '10' ficasse perto do ponta de lança, portanto tínhamos 3-1-3 no corredor central, mas com alguém a baixar muitas vezes para fazer 3+2 na construção. Começámos a criar esta mobilidade e a equipa agora recentemente já estava muito mais identificada com isto tudo, o jogo já estava mais evoluído. Também tivemos uma reconstrução da mentalidade, porque a equipa vinha de uma época com muitas derrotas e tinha jogadores que estavam mesmo de rastos no início da época, porque desceram - e alguns já tinham descido duas vezes. Tivemos de trabalhar muito essa parte emocional para a equipa apresentar-se forte e tivemos a ajuda dos capitães, o Rúben Micael foi muito importante.

Acabaste por não explicar a preparação para a perda e a transição defensiva.
A nossa preocupação foi ter a equipa a andar sempre junta no campo, com pouco espaço entre os setores, mesmo a atacar. Se fosse preciso os nossos centrais estarem 10 metros à frente do meio-campo, estavam, para controlar o ponta adversário ou o extremo. O nosso lateral dava largura máxima mas a uma profundidade que lhe permitisse controlar o extremo adversário que ficava para a transição. O nosso '6', caso eles jogassem com dois pontas de lança, normalmente mantinha-se no meio dos centrais, mas se eles jogassem só com um ponta de lança, o '6' saía do meio dos centrais e ia mais à frente controlar a zona do corredor central. Portanto, passávamos de uma estrutura de 3+1, com o lateral 3+2, para uma estrutura de 2+3, com os dois centrais, dois médios e um lateral, era essa a estrutura de equilíbrio. Defensivamente, também mudámos, passámos para um 4-3-3 com os médios em 1+2, com muita agressividade na pressão, tanto a pressionar por dentro, com os médios, como por fora, com os extremos, alternando muito a forma de pressão conforme o adversário. Se o adversário fosse forte no jogo interior, nós pressionávamos com o extremo, se o adversário fosse forte no jogo exterior, nós pressionávamos com o '8' e com o ponta, para conseguirmos proteger os sítios em que o adversário era mais forte, basicamente. Se eles são fortes a jogar pelo meio, não vamos tirar ninguém do meio e vamos pressionar por fora, se eles forem fortes no corredor lateral, não vamos tirar ninguém de lá. Estávamos bem, cada vez mais identificados com a bola coberta e descoberta, com os apoios, a linha defensiva bem controlada... Evoluímos bastante na organização defensiva e fomos a melhor defesa.

Relativamente à organização ofensiva, no Mafra-Nacional apostaram recorrentemente na variação longa para o corredor lateral oposto, em profundidade. Isso foi uma questão estratégica?
Sim, sim, foi trabalhado. Porque o Mafra defende num 4-4-2 e se tu atraíres bem ao lado e fores rodar rápido ao lado contrário encontras espaço. E há outra situação: o Mafra, ao constranger muito o espaço entre linhas, joga com uma defesa com 30 ou 40 metros nas costas. Os nossos jogadores são muito rápidos e sabíamos que a qualquer momento a defesa do Mafra também poderia cometer algum erro de posicionamento que podíamos aproveitar. Houve essa intenção, até para que o Mafra ficasse em sentido, na perspetiva de não nos pressionar demasiado alto, de ficar com algum receio. A nossa equipa nesse jogo entrou um bocado ansiosa com bola mas depois ao longo do jogo começou a assentar mais e na 2ª parte já teve mais critério. Acabámos por conseguir o empate, depois de estarmos a perder, e defensivamente acho que estivemos bem, apesar de o Mafra ter tido oportunidades, porque tinha muita qualidade.

Como se enquadra a estratégia na vossa semana de trabalho?
Nós temos a nossa forma de jogar, temos o nosso ataque posicional bem definido, temos os nossos princípios de jogo, sabemos muito bem o que queremos quanto temos a bola. Depois há adversários que baixam, há adversários que vão pressionar alto, há adversários que marcam quase homem a homem, portanto vais trabalhando situações para desmontar esse tipo de situações. Basicamente, nós olhamos para o adversário para perceber de que forma é que nos poderão contrariar e trabalhamos isso durante a semana. E também olhamos para o adversário para perceber como é que podemos pressioná-los de forma a que eles fiquem pouco confortáveis. Analisamos os adversários nos vários momentos e depois isso tem influência na estratégia, são pequenos pormenores na nossa organização que vamos ajustando em função disso.

Como estruturas a semana de trabalho, assumindo que é de domingo a domingo?
Normalmente damos folga aos jogadores na segunda-feira, para recuperarem a nível físico e emocional, e aqui na Madeira temos as viagens, o que acaba por ser desgastante. Começamos a planear a semana de trabalho depois de vermos o jogo anterior e já temos a análise do adversário. Na terça-feira temos treino de recuperação no campo e os que jogaram têm treino com menos volume, fazem meia-hora de treino, mais ou menos, com exercícios sempre ligados ao que nós queremos, e trabalhamos sempre organização ofensiva à terça-feira. Os não utilizados no jogo anterior é que fazem um treino já com volume normal, também para que possamos equilibrar as cargas, para que depois no final da semana todos estejam preparados para jogar, num nível físico aceitável. Na quarta-feira, trabalhamos em espaços reduzidos, com pouca duração, relações numéricas pequenas, e mesmo quando há relações numéricas maiores, no fim do treino, são em espaços condicionados. Também fazem trabalho de força, mais específico, às vezes misturámos uma forma jogada com um circuito de saltos, mudanças de direção, etc. Normalmente é um dia mais de transições, mais de transição defensiva e organização ofensiva, mas sempre com os espaços condicionados, para a intensidade ser grande e para haver mudanças de direção, travagens, duelos... Trabalhamos também um exercício de organização defensiva normalmente. Na quinta-feira, já em espaços maiores, com mais tempo de treino também, mais virado para a resistência, com os exercícios já a durarem mais, à volta de 18 minutos, com uma pausa de um minuto, exercícios competitivos mas já com algumas nuances estratégicas. É a partir de quinta-feira que entra a parte estratégica, começamos a dar as primeiras indicações sobre o adversário, na transição defensiva onde controlar as referências, no ataque posicional o que podemos fazer para ganhar mais vantagens, trabalhamos também a construção sob pressão e muita organização defensiva também, em espaços maiores. Trabalhamos a pressão que vamos fazer no adversário, a primeira e segunda bolas defensivas, a saída para contra-ataque... É um treino duro já. Na sexta-feira, é velocidade, com um treino de curta duração, até porque faltam dois dias para o jogo. Trabalhamos finalização, trabalhamos muito o último terço, o preenchimento da área ofensiva, a transição defensiva se perdermos a bola em zonas perigosas e depois acabamos com um joguinho, plano A e plano B para o jogo, normalmente à partida com a equipa que vai jogar, mas pouco tempo, cinco minutos mais cinco minutos. Não queremos é criar fadiga, até porque depois ainda temos as viagens, o que nos condiciona um pouco, e não queremos que a equipa chegue cansada ao jogo. Também na sexta-feira, no final, costumamos fazer bola parada ofensiva, analítica, com os jogadores a entrar por posições, distribuídos em dois grupos, com os batedores a baterem algumas bolas. No sábado, damos mais primazia à bola parada defensiva, estrategicamente em relação ao adversário, com um treino mais relaxado, 45 minutos no máximo. E as bolas paradas ofensivas já com oposição, mas poucas bolas, para não massacrar muito. Livres diretos, penáltis, lançamentos de linha lateral também, mas sempre com baixa intensidade para não ter desgaste. Depois no dia de jogo os não convocados têm treino.

Dentro disso tudo, como funciona a equipa técnica?
Normalmente a parte inicial do treino é para os treinadores adjuntos e são exercícios com os princípios individuais e com oposição. O Louzeiro é mais para organização defensiva, e é preparador físico, controla as cargas, depois nos exercícios macro corrige pormenores. O Nuno Silva e o João Ferreira estão mais com a organização ofensiva, o Nuno mais preocupado com o macro, a avaliar o ataque posicional da equipa, e o João mais preocupado com os aspetos micro, com a correção individual dos jogadores, para perceber as dificuldades que estão a ter e criar até exercícios de relação numérica baixa para ajudar em algum aspeto específico. Depois temos o Rui Sousa, que é analista de jogo da própria equipa e observador de adversários, alguém que grava o treino, dá feedback ao intervalo para o banco. O Nuno Silva acaba por ser o número dois, vá, alguém que está comigo no banco e analisa o que se vai passando, muito focado na organização ofensiva. O analista faz os vídeos e apresenta à equipa, também faz análise individual juntamente com o João Ferreira, e observa os adversários e parte o adversário em momentos para nos facilitar a visualização, além de vermos um ou dois jogos, assim ficamos com uma noção muito boa sobre a equipa.

É interessante essa separação de tarefas, parece o futebol americano que tem treinadores por setores.
[risos] Exato. Decidimos dividir os focos das tarefas para nos organizarmos melhor. Depois temos o Joaquim Rodrigues, que tem o nível três, que ajuda muito na liderança do grupo e que é responsável pelas bolas paradas. E o Braz, que é treinador de guarda-redes e que está dentro da ideia de jogo, e está connosco há oito anos. Todos nós temos as missões bem definidas. Reunimos todos à tarde, depois de cada treino, e revemos o treino, discutimos, planeamos o treino seguinte e distribuímos as tarefas. Normalmente no treino eu pego nos exercícios de maior relação numérica, normalmente quinta e sexta-feira. Na terça-feira fico mais de fora, para poupar a voz. Só pego nos que não jogaram, para dar esse apoio aos jogadores. Quando eu pego nos exercícios macro, eu fico no centro do jogo e eles têm tarefas específicas, por exemplo o Louzeiro preocupa-se com o setor defensivo ou algo do género. Eles têm todos voz ativa, dão a sua opinião em tudo, só assim faz sentido.

Disseste que no início da carreira focavas-te mais na organização defensiva e depois isso mudou. Dá mais trabalho jogar a atacar ou jogar a defender?
Dá mais trabalho jogar a atacar, porque quando assumes o jogo e tens a iniciativa, tens de te preparar bem para a perda, os teus jogadores têm de estar bem preparados a nível tático e a nível emocional também. Temos de lhes dar muita confiança para jogar assim, dá mais trabalho, logicamente, também porque posicionalmente tens de conhecer muito bem o jogo. É o desafio do gato e do rato e tu és o gato, és aquele que está sempre atrás, que quer atacar, mas tens de ter cuidado. Não é só ter a bola e não é só atacar, é atacar mas temos de estar bem preparados, para que o atacar não acabe por ser uma coisa má. Conseguir colocar cinco ou seis jogadores na área adversária e mesmo assim estar equilibrado defensivamente penso que dá muito mais trabalho do que só organizar uma equipa defensivamente. É fácil exigir esforço, mas a tomada de decisão tem de ser muito trabalhada, demora, e só evolui em contextos ricos de treino. É isso que tentamos proporcionar aos jogadores.

Assumindo que estarás na I Liga em 2020/21, serás o treinador mais jovem. Estavas à espera de conseguir isto tão cedo?
Sim, nós estávamos à espera. Digo isto porquê? Houve momentos decisivos que nos fizeram estar à espera disto. Quando nós saímos do Pêro Pinheiro para o Mafra, a partir daí começámos a acreditar. Até lá tinha sido só um sonho praticamente irrealizável.

Aí deixaste de ser professor?
Deixei de ser professor, mas os meus adjuntos ainda continuaram. Eu ganhava nessa altura como um trabalhador mediano.

O salário mínimo nacional?
Sim, era por aí. Decidi deixar de ser professor e apostar na carreira. Quando chegámos ao Mafra, fez-se uma luz: se a gente conseguisse ter sucesso naquele ano, podíamos conseguir algo mais. E quando tivemos sucesso a subir o Mafra, pensei: "Mais dia menos dia vamos chegar à I Liga". O mais difícil foi a transição do Pêro Pinheiro para Mafra e depois a subida do Mafra. A partir da subida do Mafra, senti que íamos chegar lá. Sair do Pêro Pinheiro para o Mafra é muito difícil, sair do Campeonato de Portugal é o mais difícil. Chegando à II Liga, se tiveres qualidade... Aqui já acreditávamos.

E agora já te pagam bem?
[risos] Agora já. Já consigo pagar uns almoços à minha equipa técnica quando a gente ganha três jogos seguidos. É o prémio de jogo deles, eles sabem que quando ganhamos três jogos seguidos, pago-lhes o almoço. A eles e ao roupeiro e aos fisioterapeutas. Foi a promessa que fiz.

O próximo passo é teres dinheiro para pagar almoços ao plantel todo.
É, sim, senhora. Mas isso já depende dos presidentes [risos].

Tens mais algum objetivo já fixado para a tua carreira?
Costumo dizer que o objetivo é ganhar o próximo jogo, mas tenho de facto um sonho que quero concretizar.

Qual é?
Não o vou revelar. Ainda é muito cedo. Depois chamam-me maluco [risos]. Se conseguir atingi-lo, digo-o na altura.

Então ligo-te daqui a dois ou três anos?
Não, dois ou três não chega. Este tem de ser daqui a uns 10 anos [risos].

Versão alargada da entrevista originalmente publicada na edição de 9 de maio de 2020 do Expresso