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No banco com os misters

Esta é a nova forma de Carlos Carvalhal pensar o treino e o jogo: “Os sistemas, aquilo que definimos como 4-4-2 e 4-3-3, são castradores”

O Rio Ave marcou a Liga 2019/20, não só pela pontuação histórica para o clube, mas também pela qualidade de jogo. Em entrevista à Tribuna Expresso, Carlos Carvalhal explica (detalhadamente) que tudo se baseou numa nova e "ousada" forma de treinar e num modo "disruptivo" de olhar para o jogo, que lhe surgiu depois dos anos em Inglaterra: "Temos inteligência suficiente para perceber que o jogo está sempre em evolução. Se pararmos no tempo, ficamos iguais aos outros e nós não queremos ser iguais aos outros, queremos ser diferenciados". É assim, também, que o novo treinador do Sporting Clube de Braga vai encarar a época 2020/21, em busca de construir uma "equipa completa", que não se baseia num sistema de jogo e em que "a identidade é a flexibilidade"

Mariana Cabral

Fernando Veludo

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Estou triste contigo. Não me trouxeste um pastel de nata nem um bolinho.
[risos] Olha, por acaso tenho ali duas garrafas de vinho para ti, portanto já começaste mal. Não acertaste no porta-aviões, foi ao lado [risos].

Reformulando: quando estiveste em Inglaterra foste notícia por ofereceres pastéis aos jornalistas e por fazeres analogias engraçadas com frases tipicamente portuguesas. Sentes que isso mudou a perceção que as pessoas tinham de ti?
Sinceramente, não tanto pelas analogias. A Inglaterra é o país do futebol, sem dúvida nenhuma, todos nós reconhecemos isso. O futebol tem um impacto fortíssimo na sociedade, mas não há lá a análise exaustiva que temos aqui, não há nenhum jornal desportivo em Inglaterra, por exemplo. Há jornais generalistas com informação desportiva, embora o futebol esteja intimamente ligado à vida das pessoas, desde as crianças aos idosos de 90 anos, que adoram futebol e têm paixão pelo jogo. Acho que ser reconhecido num país destes não é fácil para qualquer estrangeiro, muito menos para um português. Acho que foi esse reconhecimento que causou mais impacto aqui, o facto de ainda hoje não haver semana que passe em que não seja solicitado para fazer algum comentário nos melhores orgãos de comunicação social ingleses.

A forma como se fala de futebol em Inglaterra é muito diferente de Portugal?
Não é muito diferente, porque nós temos aqui excelentes analistas e excelentes jornalistas. Temos jornalistas em Portugal que são extremamente conhecedores. Mas a forma de abordagem aos profissionais em Inglaterra é diferente, isso necessariamente muda logo as coisas. As aparições que tive na televisão de lá, e na rádio, são remuneradas e isso pressupõe logo que há uma relação profissional entre as partes. Ninguém está a fazer fretes nem favores a ninguém. Isso é fundamental, é um princípio que considero muito importante, porque há uma separação entre o lado profissional e o resto, não estou a fazer um favor a ninguém a ir falar à Sky. Eu vou à Sky porque me pagam, e bem pago, eu e qualquer outro colega. Claro que também há relações pessoais, mas a relação profissional não é confundida com isso. Em Portugal, como disse, temos excelentes jornalistas e analistas, muitíssimo bons. Mas em Inglaterra não permitem que haja toxicidade no futebol, porque não há essa cultura na sociedade. Começa logo na própria ação. Há bem pouco tempo o Bruno Fernandes teve uma situação de uma tentativa de engano num penálti e foi altamente criticado pelas próprias pessoas do Manchester United. Isto é cultural. Não é admissível sequer que haja transgressão à natureza do jogo. Aqui em Portugal, sabes que estamos a falar de 50% de análises extremamente completas, ao melhor nível que há no mundo, porque há gente espetacular a olhar para o jogo, mas depois há os outros 50% de análises enviesadas, poluídas pela clubite. Isso não tem a ver com futebol, tem a ver com clubite e quando há clubite fala-se de tudo menos do jogo e do futebol.

Fernando Veludo

Criticaste a Liga portuguesa no início da época pela falta de jogos e pela calendarização.
Critiquei o calendário, sim, porque a dificuldade do Rio Ave no arranque teve a ver com isto. Nós fazíamos dois ou três jogos e parávamos. Isto não dá. Para nós, treinadores, o grau de aferição das coisas são os jogos competitivos. É aí que sabemos onde estamos. Não são os treinos nem os jogos de treino, é nos jogos a sério, porque aí conseguimos aferir as coisas para conseguir evoluir a equipa. Nessa altura tive alguma dificuldade em fazer evoluir a equipa porque não tinha referências da competição. Sem isso, e com paragens de semanas, é difícil.

Mesmo com jogos particulares?
Não servem de aferidor, só o mínimo. A natureza competitiva é diferente, porque o jogador aí joga sempre nos limites, enquanto nos jogos de treino, também dependendo do adversário e do resultado, as coisas alteram-se com muita facilidade. Se compararmos então com Inglaterra, particularmente no Championship [2ª Divisão]... Lembro-me perfeitamente de ter começado a jogar a 5 de agosto e no final do mês já tinha sete jogos. Sete jogos. Já íamos na 7ª jornada em agosto.

Isso também não é um exagero? Ficas sem tempo para treinar, só recuperas.
Pode ser, mas é uma prova de fogo. Aí é que se vê a importância da pré-época, num campeonato que tem uma densidade competitiva muito grande. É muito importante sob a perspetiva de ganhares fundamentos táticos para a competição. Porque depois de entrares na competição... Se eventualmente pensasse que ia retificar coisas do ponto de vista tático nas paragens, chegava ali e não tinha hipóteses, porque tinha seis ou sete jogadores que iam para as seleções, são os jogadores que normalmente jogam, que são a base da equipa. Portanto, a base tática que tens de adquirir logo na pré-época, muito mais do que a base física, é o que te vai servir de suporte para uma época que nunca mais para, em que há jogos de três em três dias. É um desafio para um treinador, estamos sempre nos limites. O Championship deve ser a competição mais dura do mundo. Falaste-me inicialmente da Premier League mas estou aqui a meter o Championship porque é uma competição que na minha perspetiva é mais aliciante, sob o ponto de vista da operacionalidade, para um treinador, até pela heterogeneidade dos competidores.

Por exemplo?
Por exemplo, jogámos num sábado no Newcastle, fomos lá ganhar 1-0 e fizemos um jogo brilhante, e na terça-feira recebemos o Rotherham, que ia em último, que joga um jogo direto, muito físico, e ganhámos com um golo aos 94 minutos. Ou seja, foi muito mais difícil do que contra o Newcastle. E preparar uma equipa dentro desta heterogeneidade e ter de jogar para ganhar os jogos todos, com a densidade competitiva de jogar de três em três dias, é um desafio para rangers, para comandos, sempre disse que aquilo não é para meninos. Depois passado um ano - passei dois anos e meio no Championship - sais de lá muito mais treinador, muito mais competente, porque tens de estar com os sentidos sempre apurados. Isto fez parte da minha evolução recente, porque terminas um jogo e vamos jogar, sei lá, a Londres, e depois estamos a voltar no autocarro ou no comboio e já estamos com a análise do próximo jogo, de sábado para terça-feira, o que não nos permite sequer um momento de descanso. Estás permanentemente em cima do jogo e tu sabes que isto tremendo, porque um jogo é um desgaste muito grande para um treinador. Aprendes a ter de gerir isto, a ter de entrar logo no jogo seguinte, a reformular, a não perder a tua identidade, mas a perceber que o Newcastle te obrigou a jogar numa perspetiva de o desmontar com um determinado tipo de jogo e a ter de condicioná-lo de uma forma quando perdes a bola e, passados três dias, com a mesma base e com os mesmos jogadores, vais enfrentar um adversário que também tem de ser desmontado mas com problemas completamente opostos, porque vai jogar direto e procurar segundas bolas e sob o ponto de vista físico é muito mais forte. Tens de ter a astúcia de pensar nisto tudo e reformular estratégias. Foi isso que me levou cada vez mais a pensar que se calhar os sistemas de jogo, aquilo que definimos como 4-4-2, 4-3-3, na minha opinião, são castradores, porque muitas vezes é o próprio sistema que castra as dinâmicas das equipas. Hoje chego a essa conclusão. É a mesma coisa que digo relativamente aos objetivos. Muitas vezes define-se um determinado tipo de objetivo, mas os objetivos muitas vezes são castradores, ao contrário do que muita gente pensa.

Porquê?
Por exemplo, nós, no Championship: defines chegar ao play-off. Mas imagina que o andamento da competição, com cada jogo que vais vivendo e vais ganhando, se calhar chegas ao final da época e dizes assim: se não jogássemos com esta ideia de fundo de chegar ao play-off e tivéssemos a liberdade de em cada jogo fazermos o jogo da nossa vida, se calhar podíamos ter subido diretamente à Premier League. No fundo, este objetivo acabou por ser castrador para a equipa. E eu hoje entendo que não devo castrar. Não castrei a equipa do Rio Ave. O que disse sempre, e já o fiz anteriormente, é que nós temos o dever, seja com que adversário for, seja onde for, lutar pelos três pontos e conseguirmos ser melhores do que os adversários. Se conseguirmos fazer isto em cada jogo, vamos atingir, no final da época, o nosso limite. Logo se verá qual é o nosso limite. No caso do Rio Ave foi o 5º lugar, poderia ter sido o 4º, poderia ter sido o 3º, poderia ter sido o 7º ou o 8º.

Fernando Veludo

E agora, no Braga?
Vai ser exatamente a mesma coisa. Não quero castrar a equipa com objetivos. O que quero é uma equipa que seja capaz de olhar olhos nos olhos para qualquer adversário, em qualquer estádio, para vencer o jogo, partindo do pressuposto que o jogo mais importante é o primeiro. E a seguir será o segundo e haverá Liga Europa e haverá outras competições, e tentaremos ir o mais longe possível em todas.

O que pediu o presidente António Salvador?
Disse-me exatamente isto. O lugar do Braga tem sido nos quatro primeiros lugares e temos de fazer o nosso campeonato o melhor possível para chegar o mais à frente possível.

Relativamente ao que disseste sobre os sistemas serem castradores, e de não treinares assim, o que é algo disruptivo...
[interrompe] É disruptivo.

Quando é que começas a pensar que a operacionalização da tua forma de jogar não necessita de um sistema como base?
Isto já vem de reflexões anteriores. Quero frisar isto: não estou a dizer que somos piores ou melhores do que ninguém, atenção. Há muitas formas de preparar uma equipa, não estamos agora a dizer que descobrimos a pólvora. Não é isso. A realidade é esta: comecei a treinar com 32 anos e transgredi completamente. Esta é a realidade. Na altura fui um transgressor ao método tradicional de treino e os meus jogadores são testemunhas disso. Comecei a treinar no Espinho de uma forma que nunca tinha treinado nem tinha visto ninguém treinar assim. Na altura ouvia falar do Eriksson, que tinha trazido métodos diferentes para o Benfica, mas não fazia ideia nenhuma de quais eram esses métodos. Tinha a minha vivência prática e a minha formação com alguém de quem tenho o prazer de ser amigo, o professor Vítor Frade, que me abriu horizontes relativamente a muitas coisas, e outras fui construindo por mim. Estamos a falar... Já tenho 54, tinha 32, é só fazer contas [risos]. Já foi há muitos anos.

Nunca treinaste assim enquanto jogador?
Nada, absolutamente. Nunca vivi nada daquilo. Nem vi, sequer. Quando começo a treinar, elaboro a forma como queria que a equipa jogasse e a partir dali começo a operacionalizar as minhas ideias dentro do campo desde o primeiro dia. Foi estranho para os jogadores, sem dúvida. Tive a felicidade de, na altura, de lidar com pessoas com uma cultura avançada, que não me questionaram.

Nem sobre a forma física?
Chegaram se calhar a fazer uma ou outra pergunta: "Então e a mata? Não há corridas?" Preparámos a equipa para jogar e os resultados foram ajudando, mas evidentemente quando se perde um jogo ou outro há sempre algum questionamento, mas sempre tudo com muita elevação, aliás, o Espinho tinha uma escola de dirigentes muito grande, com muita elevação. Consegui pôr em prática as minhas ideias e os jogadores absorveram isso muito bem. Isso também aconteceu em Inglaterra. Tive a ajuda de ter alguns jogadores portugueses lá, o Semedo... E havia um ou outro jogador que já tinha tido um treinador mais europeu, principalmente o capitão, o Gleen Loovens, e o Barry Bannan. Mas para a maioria dos britânicos no Sheffield Wednesday a nossa forma de treinar também foi uma surpresa. Não foi fácil, no início. Mas, quando começaram a perceber, principalmente pela qualidade de jogo, porque no primeiro ano o Sheffield Wednesday foi a equipa que melhor jogou no Championship, isto foi unânime. No segundo ano nem tanto, também tivemos algumas lesões e o fator surpresa condicionou-nos, as equipas aí já jogaram mais fechadas. Mas esse primeiro ano, no fundo, não foi uma transgressão, porque nessa altura já havia muita experiência como treinador, mas houve algum choque cultural que foi ultrapassado.

És flexível caso os jogadores te peçam para dar umas corridas, por exemplo?
Sempre. Chamo isso o treino do melhoral: nem faz bem nem faz mal [risos]. Quero é que os jogadores façam esse trabalho extra em consonância com os dias da minha matriz de treino. Imagina, temos jogo domingo e domingo. Se um jogador quer, na quarta-feira, fazer aberturas de 60 metros, não permito. Mas permito que faça acelerações e desacelerações em espaços muito curtos. Se ele na quinta-feira quiser fazer umas aberturas, permito. Só tem de respeitar a matriz. Daí eu ser algo crítico em relação aos personal trainers dos jogadores, precisamente por esta dessincronização, que depois pode ser grave, porque pode provocar lesões musculares nos jogadores. Dou essa abertura porque acima de tudo quero que os meus jogadores estejam bem da cabeça para chegar ao jogo e jogar.

Sempre deixaste que fizessem isso ou foste aprendendo a compreender?
Posso dizer que sempre fui deixando, se calhar com exceção da Grécia, quando ainda era um passarinho, um treinador jovem, que não conhecia bem a mentalidade, se calhar cometi ali alguns erros. Mas aprendi rapidamente e já chego ao Besiktas completamente diferente.

Por exemplo?
Não tive tempo para conhecer a cultura grega, a forma como eles olhavam para o jogo e para o treino. Era uma cultura muito virada para o ginásio e para o trabalho físico, e chegar um treinador e fechar o ginásio e levar a chave para casa e eles andarem a bater com a cabeça na parede... [risos]. O não trabalhar o lado físico mais puro foi um choque muito grande para eles. Entraria hoje muito mais devagar. Por isso é que eu digo que é o melhoral: hoje em dia temos ferramentas acessórias que são importantes, como o GPS, e quando tenho um jogador que diz que quer fazer umas aberturas de 60 metros, às vezes até me dá vontade de rir, porque esse mesmo jogador fez 30 a 40 corridas de 60 metros no próprio treino, em situações de jogo. Mas aquelas três ou quatro que ele quer fazer sozinho fazem bem à cabeça, porque ele tem necessidade de fazer, é a cabeça a pedir e nós temos de respeitar esse histórico. É o que eu digo: eu quero é que os meus jogadores estejam bem da cabeça. Se no início da época tenho uns 10 crentes nisso, se calhar no final da época já só tenho um ou dois crentes.

Fernando Veludo

Voltando atrás: como surgiu afinal o treinar sobre conceitos e não sobre sistemas?
Sim, eu estava a historiar isto, por causa da transgressão. Tinha vindo a falar com os meus adjuntos sobre isso, com o Bruno [Lage], com o Luís [Nascimento], mas fundamentalmente com o João Mário, que é o meu braço direito e a pessoa com quem eu mais falo sobre estas coisas: "Ó João, eu acho que isto é castrador, nós temos de preparar as coisas de forma diferente." Não só o ir ao encontro das potencialidades do jogador, mas é procurar uma dinâmica que perceba que o jogo tem adversários dentro do campo e os jogadores estão com determinado tipo de posicionamentos, e a nossa ideia, desde sempre, contra qualquer adversário, é sempre esta: como é que vamos desbloquear o adversário? Mesmo jogando contra o Manchester City, contra o Liverpool, contra o Arsenal. Ganhámos ao Arsenal e ao Liverpool e perdemos com o City e com o United. Mas a intenção é sempre essa. O adversário depois pode é não permitir que consigamos isso, pela sua valia, isso é outra coisa. Nós olhamos para o campo, para o tabuleiro, é a forma como nós olhamos hoje para o jogo, e vemos jogadores da equipa adversária e procuramos com bola tentar fazer uma saída limpa desde trás, para chegar à baliza. Eu consigo hoje ver o futebol sem olhar para os jogadores dentro de um sistema, mas dentro de uma dinâmica onde identificamos as falências do adversário, relativamente a determinados espaços, ou onde nós podemos criar a abertura de determinado tipo de espaços, até em função das características dos adversários.

Por exemplo?
Um central que faz com facilidade encurtamentos [no avançado adversário] e abandona a posição e abandona o espaço, ou então um central que funciona em recuo permanente e vai abrir o espaço à frente dele, ou um lateral que fecha mal o espaço interior, ou uma equipa que só tem um pivô e liberta os espaços à esquerda e à direita dele, ou uma equipa que joga com duplo pivô com um jogador à frente, e há espaço à direita e à esquerda dele, ou os avançados da equipa adversária que pressionam à frente e somos nós que temos de saber como criar o espaço, ou uma equipa que não tem capacidade de pressão à frente, então os espaços já estão conseguidos por natureza... Hoje em dia nós vemos o jogo assim e isto não tem muito a ver com o sistema, tem a ver com os espaços que se libertam e com os espaços que nós vamos criar. Depois tem a ver com a forma como vamos atacar os espaços e como é que vamos criar as dinâmicas. E no meio de tudo isto há uma coisa que é fundamental, que eu acho que é a pedra filosofal de qualquer treinador: é conseguir que tenhamos dentro do campo 11 jogadores a olhar uns para os outros. Isto é o mais difícil, é conseguir que os jogadores estejam a olhar uns para os outros, a jogar em interdependência. Só assim é que nós conseguimos funcionar para aproveitar os espaços, criar roturas no adversário, entrar por dentro das equipas adversárias... Penso que sabes que houve uma análise, acho que da Goalpoint, que disse nós éramos a sexta equipa na Europa que fazia mais passes verticais e isso tem muito a ver com isto que te estou a explicar, e com a dinâmica que nós criamos no treino. O que dizia a análise é que somos uma equipa de posse, mas dentro da posse fazemos muitos passes verticais para entrar dentro da equipa adversária. É exatamente isto, é provocar espaços, para entrar dentro, para ir para fora, para tornar a vir para trás, para tornar a entrar dentro, para ir por fora, para criar roturas... Andamos permanentemente a tentar fazer isto ao adversário, a puxá-lo, a levá-lo para fora, se ele fecha fora, a entrar para dentro, se fecha dentro, vamos para fora, se abre atrás, exploramos as costas... Pronto, começamos a perceber que o jogo se calhar faz muito mais sentido assim e isto é uma rotura na nossa própria visão sobre o jogo, sem dúvida.

Foi por isso que vieste para o Rio Ave?
Nós tínhamos alguma certeza de que isto iria funcionar e daí também a nossa opção pelo Rio Ave. Obviamente pelo próprio Rio Ave, que sabíamos que tinha uma estrutura calma, com o presidente António Campos, que é sem dúvida um grande presidente, com pessoas à volta que também percebem de futebol. É uma estrutura leve mas que suporta muito esta situação, sem grande pressão. Entendemos que o Rio Ave seria o sítio ideal para a rotura da forma de preparar a equipa. Essa proposta foi lançada aos jogadores logo de início, foi uma proposta ousadíssima. No início, por não haver muitos jogos e pela proposta ser muito ousada houve alguma dificuldade, porque o Rio Ave à 7ª ou 8ª jornada andava ali no meio da tabela.

Como reagiram os jogadores?
Ter um capitão de equipa como o Tarantini é um privilégio, porque tem sentido crítico. Recordo-me perfeitamente que ele um dia veio ter comigo: "Ó mister, você não acha que isto é uma proposta de jogo demasiado ousada para o nível do Rio Ave? Você veja lá, pá. Estou a ver malta com algumas dificuldades..."

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Sentiste os jogadores desconfortáveis?
Ele veio alertar-me, mas eu estava a sentir evolução. Mas percebia que aquelas eram preocupações legítimas, porque era de facto muito ousado.

Também há jogadores que fazem e não refletem muito sobre o que estão a fazer.
Pois, mas tiveram aqui um challenge muito alto e foram obrigados a perceber o jogo. Esse era o desafio. Porque sem perceber o jogo...

Não podiam só decorar o que tinham de fazer na respetiva posição.
Exatamente. Tinham mesmo de perceber o jogo. Isto foi o desafio que lançámos e isto não é fácil. Partir de uma situação estereotipada, em que eu sou o defesa esquerdo e a minha função é defender o corredor e fechar dentro, é uma coisa, outra é de repente ter de atacar por dentro, equilibrar a minha equipa como um médio, ter de fechar como terceiro defesa, construir a três, ir à linha cruzar... E isto é só o plano do defesa esquerdo. Ou seja, é tudo muito mais complexo, vai muito além do sistema, do 4-3-3 ou do 4-4-2. Numa linha de quatro ou de três, fecho, abro, faço movimentações aqui e ali, ok. Mas é muito para além disto. É saber fechar a três, fechar a quatro, abrir a quatro, abrir a três, fazer o corredor quando for necessário, mesmo jogando a três, entrar pelas equipas adversárias dentro para chamar médios para jogar; quando estamos a atacar, se houver necessidade, equilibrar a equipa como médio, entrando no espaço interior e equilibrando no momento da perda da bola, em função do adversário... Evidentemente este repto criou algum questionamento, como esse do Tarantini. Aliás, aproveitei logo esse dia para falar com os jogadores: "Olhem, o Tarantini veio falar comigo, passa-se isto e isto, e neste momento apesar de saber que os resultados não estão a ser os melhores, sei que os indicadores estão a ser excelentes. Há uma evolução, estamos perto de conseguir isto e não vamos abandonar isto. Vamos continuar a insistir porque sabemos que vocês são capazes de lá chegar." E conseguimos. Chegámos a um ponto de maturidade de tal forma alto que houve uma análise bem feita - atenção que refiro as análises quando são bem feitas, podiam ser críticas e não elogiosas - que disse que o Rio Ave era uma equipa completa, e de facto foi esse o desafio que nós lançámos aos jogadores no início.

Mas essa ideia vem de onde?
Isto veio de onde? Veio um bocadinho... Mais uma vez digo que não estamos aqui a dizer que descobrimos a pólvora. Quando nós jogámos - e ganhámos - ao Liverpool, eu disse que o Liverpool tinha condições de discutir o título naquela altura, apesar de ter de melhorar, na minha opinião, no ataque posicional, que foi onde evoluíram depois. De resto, defende muito bem, transita defensivamente bem e ofensivamente então é a melhor equipa do mundo, só o ataque posicional não era tão forte. Quando jogas com o Manchester City, vês que a equipa ataca muitíssimo bem, defende muito bem, equilibra-se muito bem e nas transições são fortíssimos: muito candidato ao título. Jogámos com o Chelsea, idêntico também, por ser uma equipa muito equilibrada em todos os processos. Jogámos com o Tottenham, e é engraçado, porque até perdemos, em casa, mas era uma equipa competentíssima a atacar, competente a transitar ofensivamente, mas não defendia muito bem, principalmente quando perdia a bola, porque era uma equipa pouco equilibrada. Notavas claramente que aquela equipa não podia lutar pelo título em Inglaterra porque tinha aquela debilidade. Isto faz-nos refletir. Porque uma equipa para conseguir um objetivo alto não pode ser uma equipa que só seja boa na posse de bola - isto é limitador. É tão limitador como uma equipa que defende muito bem e só joga em transições, porque acabas por ter um padrão, mas vais esbarrar, em algum momento, quando lutas por um objetivo alto. Uma equipa que luta por alguma coisa alta tem de ser muito forte em tudo: nos esquemas táticos, a atacar muito bem, a defender muito bem e muito forte nas transições. Tem de ser uma equipa o mais completa possível. À escala, eu creio que o Rio Ave fez isso. O Rio Ave era uma equipa que sabia fazer tudo, fazia tudo isto. Esta foi a proposta que lançámos no início do ano: sermos uma equipa que sabia fazer tudo bem.

Vimos o Rio Ave a atacar em 4-2-3-1, 4-4-2, 3-4-2-1, a defender em 4-4-2 e em 5-4-1...
A defender com cinco, salvo erro, foram só duas vezes.

Com o FC Porto e com o Sporting de Braga.
Declaradamente, sim.

Todas estas variantes são difíceis de treinar, para os jogadores. No início, não te baseias num sistema para operacionalizar? Começas por onde?
No treino, começo sempre por ter a bola. É assim que preparo as minhas equipas. Depois a forma de conseguir chegar a isto, não é por milagres, é pelos exercícios. Exercícios que, ao contrário do que muita gente pensa, não são extremamente complexos, são extremamente simples, porque eu acho que a simplicidade das coisas permite um melhor entendimento. O futebol acaba por ser um jogo simples. Antes do confinamento, o Rio Ave acedeu a que fossem lá umas pessoas assistir aos nossos treinos e eu senti que no final havia ali mais necessidade de perguntar sobre o que viram, porque acabam por ver coisas extremamente simples. "Como é que estes gajos chegam ao domingo e jogam noutro nível, se treinam estas coisas?" Sentia a necessidade deles em perguntarem o que nós tínhamos como objetivos, o que queríamos dali. Isso é o fundamental. Há duas coisas importantes no treino, na minha opinião. É teres exercícios simples, que te permitem jogar a um nível elevado, o que é difícil, porque pôr os jogadores a pensar em demasiado sobre as regras do exercício significa que enquanto estás a pensar em regras limitas o teu futebol. Quanto mais abertos forem os exercícios e permitam arranjar soluções para resolver os problemas, melhor. É melhor do que estares a condicioná-los.

Então não explicas um exercício dizendo, por exemplo, "vamos fazer isto para atacar a profundidade"?
Isso fazemos, sim. Os exercícios têm objetivos, mas depois a dinâmica do exercício é que faz com que os jogadores cheguem a determinadas coisas. Depois há um outro aspeto que é cada vez mais fundamental, que é o grau emocional que tens para fazer - creio que não vou dizer um palavrão - o que se chama um marcador somático. Vamos imaginar que tu estás a fazer um determinado tipo de exercício, em que tens os mesmos jogadores e as mesmas regras do que eu, que estou a fazer o mesmo exercício ao lado. Mas o meu marcador vai ser diferenciado do teu. Ou seja, nós procuramos que os exercícios sejam completos, que não se esgotem só no momento de atacar ou só no momento de defender. Imagina que estou a contemplar a organização ofensiva, mas o exercício contempla também a perda de bola e a recuperação do posicionamento. Assim torna-se um exercício mais completo, porque o jogo é contínuo, é fluido, não se esgota. Procuramos dar o máximo de continuidade aos exercícios, pelo menos a 90% deles. Mas, como eu dizia, aquilo que me vai diferenciar de ti, que estás ao lado a orientar o mesmo exercício do que eu, é o marcador que vais dar em determinada altura. O que é que quero dizer com isto: é o feedback que vais dar em determinado momento, em que vais dizer "bem", "muito bem", "é isto mesmo que eu quero", mas de uma forma emocional. Este captar de emoções sobre aquilo que tu queres marcar é determinante nos exercícios. No fundo, é dar um feedback positivo sobre uma coisa que acontece no treino e que é exatamente o que tu queres, de uma forma que toda a gente perceba que o treinador ficou extremamente satisfeito com aquilo. Porque no jogo, quando aquilo acontecer - é isso que se chama um marcador somático -, a intervenção que tiveste foi de tal forma positiva emocionalmente que quando aquilo acontece, o jogador instintivamente vai buscar aquilo e é dentro daquilo que ele decide. Não vou dizer que faz exatamente igual, porque as situações de jogo são abertas e nunca acontecem exatamente as mesmas, mas é dentro do plano. E essas situações são muito importantes para marcar. Eu percebo o alcance da tua questão, queres ir mais a fundo para perceber a forma como nós operacionalizamos isto. Mas volto a dizer: é olhar para o tabuleiro, onde tens 11 peças e o teu objetivo é desmontar aquelas 11 peças para conseguir chegar ao golo [ver o vídeo mais abaixo]. Temos de nos movimentar de forma a conseguir uma saída limpa a partir de trás e chegarmos juntos, se possível, à baliza adversária. Isto pressupõe, acima de tudo, criar espaços, atacar espaços, atacar defesas, buscar espaços, libertar espaços por dentro e por fora - é saber fazer isto. No fundo, isto é tão simples que às vezes penso: como é que não cheguei a isto há mais tempo?

Ainda assim, pode parecer complexo.
Não, acaba por ser simples. Neste momento é simples verificar isto. O adversário aperta-nos as linhas, então dá espaço atrás. Não posso, no meu plano de jogo, andar uma semana inteira a dizer que este adversário aperta as linhas e nós temos de desmontar as linhas explorando o espaço nas costas. Não é assim. Porque isto dura cinco minutos. O jogo começa e cinco minutos depois, na segunda vez em que lançarmos uma bola para as costas da linha defensiva adversária, a linha já desceu 20 metros. E se tu não tens competências, e se através do treino não colocas os teus jogadores a raciocinar que o problema do jogo afinal já é diferente, o teu plano de jogo esgota-se em cinco minutos. É tudo isto que acho que é importante o jogador incorporar, é perceber o jogo, perceber onde estão os espaços e agir em conformidade. Isto obriga a pensar, obviamente.

Isso já te aconteceu?
Olha, um jogo de que me lembro perfeitamente, aqui em Braga. Viemos aqui com o Besiktas, ganhámos 2-0 e jogámos com o [Ricardo] Quaresma a ponta de lança, não jogou o Hugo Almeida nesse jogo. O que é que nós tínhamos verificado: a linha defensiva do Braga, sempre que nós ganhávamos a bola, recuava. Então colocámos ali o Quaresma porque vinha sempre buscar a bola entre linhas, quando eles recuavam. Ele fartou-se de receber bolas ali e depois lançava o Simão pela esquerda e lançava já não me lembro quem pela direita. Surpreendemos o Braga e fizemos dois golos assim. Nós tínhamos um conhecimento profundo da equipa do Braga, era o Leonardo Jardim o treinador, e quando jogámos na Turquia, o Braga surpreendeu-nos. Jogou com a linha defensiva em cima do meio-campo e estabilizou-se ali. Nunca o tinha feito. Tivemos uma dificuldade tremenda, lá está. Porquê? Porque nos preparámos para jogar num espaço entre linhas que agora já não existia. E não houve resposta para conseguirmos fazer coisas diferentes.

Hoje já não aconteceria?
Hoje isso já não aconteceria. No Rio Ave isto não aconteceria. A partir do momento em que nos apertavam à frente, nós dávamos resposta para ir buscar atrás. E se eles iam atrás, nós daríamos resposta para ir buscar o espaço entre linhas. Percebes? Portanto, no fundo, diria que é colocar os jogadores a pensar. No final da época, nós temos como rescaldo disto os jogadores do Rio Ave muito valorizados. Aliás, têm feito capas de jornais todos os dias. E digo-te que este foi um ponto de partida, não foi um ponto de chegada. Senti, com toda a sinceridade, que o Rio Ave foi um upgrade em relação ao passado e este é um novo começo. Porque a ideia de transgredir no Rio Ave em função disto que estou a dizer, dizia também respeito à nossa própria motivação, enquanto equipa técnica, para nos prepararmos para o futuro, para tentarmos evoluir e fazer coisas diferentes. Porque nós também necessitamos de estar constantemente em evolução e com novos desafios, senão também nos desmotivamos.

Mas, fazendo de advogada do diabo, como é que consegues uma equipa com uma identidade clara e um modelo claro, se ela joga de uma maneira e de outra?
Porque essa é a identidade.

Jogar de várias maneiras?
Essa é a identidade. A nossa identidade é a flexibilidade. Fizeram-me uma questão pertinente um dia destes, num fórum. Perguntaram-me sobre o peso da estratégia no nosso jogo. Eu respondi assim: o peso da estratégia é todo e nenhum.

Porque os constrangimentos que o adversário pode apresentar já estão contemplados dentro do próprio modelo?
Eu digo que o peso é todo, porque nós vamos à busca dos espaços quando temos bola, porque sabemos que o adversário os dá ou porque vamos provocá-los para desbloqueá-los. Por exemplo, o Arsenal deixa espaços diferentes do Brighton, nós sabemos isto. Mas, ao mesmo tempo, as dinâmicas que nós temos e o nosso sentido posicional não se altera ao fazer isto, porque nós temos uma dinâmica que assenta num bom sentido posicional. Tu não vias os jogadores do Rio Ave muito fora da posição. Vias era dinâmicas diferentes, de jogo para jogo, mas elas fazem parte do treino e da própria identidade. Na parte defensiva havia maior rigidez, porque aí não há muita criatividade.

Carlos Carvalhal recebeu o Expresso no Estádio Municipal de Braga, antes de partir para umas curtas férias com a família, já que o Braga começa a época 2020/21 a 13 de agosto

Carlos Carvalhal recebeu o Expresso no Estádio Municipal de Braga, antes de partir para umas curtas férias com a família, já que o Braga começa a época 2020/21 a 13 de agosto

Fernando Veludo

Dá-me um exemplo. A equipa está a iniciar a construção por trás e onde é que está o estímulo para decidir de que forma vão construir? Se a dois, a três, se vem um médio, um lateral...
Sim. Nós vamos para um jogo e vemos que, pelas nossas análises, o adversário não tem capacidade de pressão. E nós normalmente até saímos a três a jogar...

Aí saem a dois?
Vamos sair a dois. E depois os jogadores criam dinâmicas... Mas as dinâmicas podem ser bloqueadas, certo? Vamos sair a dois, mas bloqueiam-nos as saídas. Então os jogadores percebem que a saída está bloqueada e aparece o terceiro homem. Mas o terceiro homem não tem de ser necessariamente o mesmo. Porque muitas vezes se sais sempre com o mesmo, os adversários - nós temos excelentes treinadores em Portugal, que fazem isto muito bem - bloqueiam-te a saída do terceiro homem. Mas se a saída do terceiro homem estiver bloqueada, pode haver um outro terceiro homem, não tem de ser necessariamente aquele. Podes dar alternância a isto. Agora, os jogadores têm é de estar muito bem posicionados. Lá está, é a capacidade de conseguirem olhar uns para os outros. Porque se tu jogas com dois médios e se tiras um médio da linha média para vir atrás construir, ficas só com um médio. Mas tens dois interiores, certo? Esses dois passam a ser o médio. E se isto acontecer e já tiveres o lateral a atirar-se em profundidade, então tens um ala que não pode estar no corredor, tem de vir para o espaço interior - têm de olhar uns para os outros. Então o espaço que era ocupado pelo interior, que passou a ser médio, é ocupado pelo ala que veio para dentro. Agora, tens é de operacionalizar isto, certo? É o mais difícil [risos]. Agora, não tem necessariamente de ser com um sistema nem tem de ser sempre com os mesmos. Têm é de olhar uns para os outros e nós temos de criar exercícios para que isto aconteça. Se um vem, quem é que vem, quem é que vai. Os espaços têm de estar ocupados, porque se tu rodas à esquerda e se o teu interior direito não te baixa, a bola não roda para a direita, vai bloquear o jogo ali. É perceber isto. Lá está, tens de ter capacidade de pôr os jogadores a pensar sobre isto e de ter exercícios que possam ter isto. É um pensar até mais de intuição, porque quando colocamos um jogador a parar para pensar, esta fração de segundo já serve para perder timings que são necessários. Portanto isto entra no domínio já do subconsciente, na dinâmica dos exercícios, no estarmos ligados uns aos outros. Uma das situações que me ocorreu... Nós fomos jogar ao Manchester City, com o Swansea, e eu, na brincadeira, disse para o João Mário, o meu adjunto: "Ó João, f... conseguimos aguentar cinco minutos sem estar a perder" [risos]. E começámos a rir os dois. Ao sexto minuto, há uma bola larga do lateral direito que se mete para dentro, e o De Bruyne, que era o interior direito, estava aberto na esquerda, depois faz um passe interior e resulta dali um golo. Lá está... Até pedi o iPad para ver aquilo. Comecei a olhar para aquilo e vejo que fizeram uma superioridade numérica de quatro contra três no lado esquerdo. "Mas este gajo é interior direito e aparece-me ali no corredor esquerdo?" Isto deixa-nos a refletir. Não é o nosso caso, porque não colocamos o nosso interior direito na esquerda, não fazemos isso. Mas esta situação de tu lidares com a imprevisibilidade do adversário, com a qual não estás a contar, desmonta-te.

Por exemplo?
Um exemplo concreto: fomos jogar ao Boavista. A intencionalidade era sair a jogar a três. O que é que nós queríamos? Queríamos que os jogadores do Boavista se referenciassem por nós, de forma mais individualizada. Quando eles fizessem isso, o que é que nós íamos fazer? A partir de determinada altura, ali pelos cinco minutos, nós íamos abandonar a linha de três e íamos começar a jogar a dois, atirando o nosso lateral esquerdo em profundidade. Para quê? Para confundir, em função do relacionamento individual que os jogadores tinham connosco. Desestruturávamos o adversário pela surpresa da dinâmica diferente que queria colocar. Mas disse aos jogadores: "Se sairmos a jogar a três e se eventualmente estivermos por cima do jogo, não alterem para dois, deixem estar." Porque estaríamos a construir algo de positivo e não haveria essa necessidade. Mas se eles se referenciassem e bloqueassem o nosso jogo, aí sim, começávamos a arranjar alternância. O que é que aconteceu no jogo? Nós saímos a três, os jogadores do Boavista referenciaram-se, mas não fizeram pressão sobre os nossos três defesas como estávamos à espera. Então, estávamos com bola, estávamos confortáveis e eu não disse nada para dentro do campo. Os jogadores sentiram-se bem e não alteraram nada. Se eventualmente o jogo fosse bloqueado, eu não tinha de dizer nada, os jogadores estavam preparados para alterar dinâmicas a partir de trás, para sair.

Mas tens dinâmicas que são padrão contra qualquer adversário, certo? Os alas receberem por dentro na construção ou prepararem-se para receber segunda bola quando há lançamento aéreo para o avançado, por exemplo?
Sim, mas isso já são sub-dinâmicas. São situações que nós até nos aquecimentos aproveitamos para fazer. A busca do terceiro homem, por exemplo, ou o aclaramento de jogadores pelas costas... Já são sub-dinâmicas que são treinadas, é a natureza do teu jogo. Estruturalmente nós temos um padrão que nos define. Agora, o jogo é feito de espaços e tu queres desestruturar as equipas adversárias, por isso tens de aproveitar os espaços ou criar os espaços. Nós jogamos com isso, essencialmente. E não perdemos posição, atenção. Porque isto poderia ser feito de uma forma caótica. Como o De Bruyne aparecer aberto na esquerda. Nós não temos muito isso, procuramos que os jogadores mantenham o sentido posicional, com o jogo a ter largura e profundidade suficientes, e dinâmica suficiente para chamar jogadores e libertar outros.

Por exemplo, contra o Sporting, esses movimentos de apoio e aclaramento deram em jogadas de golo.
E porquê? Porque o sentido era puxar jogadores do Sporting para nos virem pressionar, tentar fazer movimentos verticais para apoio, para libertar os nossos jogadores que têm características para aproveitar o espaço, nomeadamente o Mehdi [Taremi], que caía, naquele jogo, fundamentalmente para a esquerda. E nós, para libertarmos o Mehdi, tínhamos de chamar a atenção do lateral direito, para ele estar condicionado. Lá está, é a tal situação dos espaços. O nosso ala podia estar eventualmente em profundidade, mas queríamos que viesse em apoio para libertar o espaço, para deixar o Taremi em situação de um contra um contra o central direito do Sporting. Aí, com uma defesa subida, sabendo que o Mehdi é muito rápido, a bola podia entrar nas costas. É mais uma situação de aproveitamento dos espaços que o adversário deixa, mas tens de saber criá-los. Se o nosso ala estivesse em profundidade, então o defesa direito adversário estava em coordenação mais fácil com o central. Como tu puxas o adversário, neste caso em função do posicionamento do Nuno Santos, para mais baixo, das duas umas: ou o lateral acompanha para pressionar, ou não acompanha e o Nuno recebe a bola no pé. Também podia acontecer o ala vir dentro, tocar no médio e ser ele a lançar o Mehdi, porque o Sporting na altura tinha as linhas subidas. Lá está, isto não tem nada a ver com o sistema, tem a ver com o puxar jogadores e libertar jogadores para outras coisas.

A questão é que, habitualmente, tendo um sistema como base, os jogadores já sabem onde têm os colegas. Assim, como fazem?
Essa é uma boa questão. O jogador está sempre lá: pode é não estar o Manel e estar o Joaquim. Mas está sempre lá um jogador, daí eu dizer-te que nós mantemos a identidade. "Ah eu não sei se o Manel está lá". Pois não, mas se o Manel não estiver, está lá o Joaquim. Garanto-te a ti. E se o Joaquim está no posicionamento do Francisco, estará o António no posicionamento dele. Volto a dizer: não estamos aqui a vender que somos a melhor equipa do mundo. Temos as nossas ideias e a nossa personalidade, e temos inteligência suficiente para perceber que o jogo está sempre em evolução e temos de evoluir. Se pararmos no tempo, ficamos iguais aos outros e nós não queremos ser iguais aos outros, queremos ser diferenciados. Foi um risco, foi novo, mas tínhamos convicção de que isto iria ser bem sucedido. Independentemente de conseguirmos chegar à Europa. Porque o que eu sei é que nós ainda não tínhamos conseguido chegar à Europa e já havia muita gente de fora a querer comprar, entre aspas, o conceito do jogo do Rio Ave e isso para mim foi uma satisfação muito grande. Foi a forma de jogar do Rio Ave que começou a ser vista e houve conversações e convites, e aquilo que nos disseram foi que isso não teve a ver com a classificação: "Nós gostámos muito da forma de jogar da sua equipa e gostávamos que a nossa equipa jogasse como o Rio Ave joga".

Relativamente ao que disseste sobre as características individuais dos jogadores, se tiveres, por exemplo, alas que têm dificuldade em jogar por dentro, entre linhas, e enquadrar naquele espaço, como fazes?
Boa pergunta também. Estás a fazer boas perguntas hoje [risos]. Se analisares a evolução do Rio Ave, vais ver o Nuno Santos a jogar na direita, a vir para dentro, na esquerda, a vir para dentro, e depois vai chegar uma altura em que vês o Nuno Santos aberto na esquerda. Encontrámos o espaço do Nuno, ou o Nuno encontrou o seu espaço, dentro da nossa forma de jogar. Passou a jogar no lugar em que estava mais confortável e nada melhor para um jogador do que jogar no sítio e nos espaços em que se sente mais confortável. Nós levaríamos anos a pôr o Nuno Santos a ser um bom jogador no espaço interior. Mas conseguimos, num ano, potencializar o Nuno Santos a jogar por fora a um nível elevadíssimo. Por exemplo, muitas vezes há a ideia de conseguir fazer com que um jogador que não é rápido, fazendo muitos treinos de velocidade, melhore. Ele vai melhorar 0,5% em dois anos de trabalho, ou 1%, para ser otimista. Muitas vezes um jogador tem na sua natureza um determinado tipo de características, nas quais ele pode ser muitíssimo bom, e se nós o metemos a jogar onde ele está desconfortável, nunca será um bom jogador. Esse é um bom exemplo. O Nuno teve essa passagem e rapidamente acabou por jogar no sítio onde acho que ele é diferenciado, que é no corredor esquerdo.

Carlos Rodrigues/Getty

Por falar no Nuno Santos, penso que foi ele contra o Sporting de Braga e o Diogo Figueiras contra o FC Porto a descerem para formar uma linha de cinco a defender. Porquê?
Olha, nesse jogo com o FC Porto não jogou o Diego, que normalmente era o nosso interior esquerdo, e em função disso jogou o Pedro Amaral, salvo erro, a lateral esquerdo, e o Nuno a interior esquerdo. E o que é que nós fizemos: jogou o Figueiras, sim, a fazer o corredor direito, mas o Figueiras tinha dois momentos distintos. Havia o momento em que o FC Porto estava com a bola no guarda-redes ou na linha defensiva, em que o Figueiras avançava para jogar como ala, para tentarmos condicionar o FC Porto. Mas se o FC Porto tivesse a capacidade, como teve, várias vezes, de conseguir passar esta primeira linha de pressão, o Figueiras adotava outro comportamento, que era vir para a linha defensiva, fazendo uma linha de cinco.

E porquê?
Porque entendemos que jogar com três atrás, naquele jogo... E fizemos uma alteração estratégica, o que não é muito comum, mas jogámos com o Toni [Borek] a central do lado esquerdo, ele normalmente joga na direita. Porque o posicionamento do Marega era pela esquerda e ele é extremamente rápido a criar desequilíbrios, por isso o Toni, que é um central rápido, jogou pela esquerda. Foi bastante eficiente no que tinha de fazer. Depois o Marega até foi para o outro lado, mas ele do outro lado não é tão perigoso como a jogar na direita. Entendemos que era importante ter a linha de cinco a defender e a atacar, nesse jogo, fundamentalmente a atacar, para desestrurar o FC Porto. Mas percebemos que poderíamos jogar demasiado baixos se muito rapidamente viéssemos para a linha de cinco. Se fizéssemos a linha de cinco a qualquer momento, o FC Porto ia instalar-se no meio-campo ofensivo e a intenção não era essa, era manter a matriz. Por isso é que adiantámos o Figueiras e ficávamos com três jogadores na linha ofensiva, como gostamos de estar, e com mais três médios, e instalávamos no meio-campo adversário para tentar condicionar a primeira fase deles o máximo possível, sustendo ali o adversário o máximo possível. Mas também é importante notar isto: tens a capacidade de ser altamente pressionante e passado dez segundos sabes defender em bloco médio/baixo e tens uma eficiência muito grande a fazê-lo. Da mesma forma que o Figueiras pressionava, se passassem a linha de pressão, baixávamos as linhas e ficávamos juntos e difíceis de sermos batidos, dez segundos depois. Agora as respostas ao ganho de bola também são completamente distintas.

Dependendo da zona do campo?
Uma coisa é ganhares bola perto da baliza adversária e teres ações de acordo com isso, mas não é por seres uma equipa de posse que cada vez que ganhas uma bola e estás no teu meio-campo defensivo és obrigado a fazer um passe para trás, para os centrais, e sair limpinho a jogar, etc. Não. Por isso é que digo que queremos ser uma equipa completa. Podemos ser uma equipa de posse e gostar de ter a bola, mas se as circunstâncias do jogo nos obrigaram a jogar em baixo, temos de ser fortes a transitar, porque temos espaço e jogadores para transitar ofensivamente, portanto vamos aproveitá-lo. Como é que se treina isto? Dá muito trabalho [risos]. No fundo, é fazer, no treino, e pôr os jogadores a pensar e a pressionar num bloco médio, a baixar... Volto a dizê-lo: é a simplicidade de ter os jogadores todos a olharem uns para os outros.

Mas tens de treinar tudo: formas de entrar em blocos baixos, como atacar a profundidade...
Sim. Nós dividimos as coisas assim, já o fazemos há muitos anos: tenho um treinador focado na organização defensiva, que é o João Mário, depois o Sérgio [Ferreira] está mais vocacionado para a dinâmica ofensiva, o João Mário mais para as transições defensivas e o Sérgio mais para as transições ofensivas. O [João] Meireles fica na parte inicial que, como já te disse, dá para perceber que está conectada com a nossa forma de jogar, porque nos aquecimentos já há alguns indicadores de sub-dinâmicas. Assim como o treinador de guarda-redes está intimamente ligado com o nosso processo defensivo. Só para te dar um exemplo desta ligação: nesse jogo que referiste, do FC Porto, sabes quanto é que correu o Pawel Kieszek, o nosso guarda-redes? Normalmente os defesas correm nove ou 10 quilómetros...

Cinco quilómetros?
Correu 7.7 quilómetros. E não correu a defender, correu a dar linhas de passe, porque precisámos dele a fazer isso no jogo, correu a tirar profundidade... Corre sempre muito precisamente porque também está a jogar. Isto é um trabalho... Chegar, fazer 55 pontos numa equipa como o Rio Ave - que tinha o máximo de 51 -, atingir a Europa e num ano muito difícil, porque normalmente os 51 chegam para atingir a Europa, jogar ao nível que nós jogámos: isto só é possível se tiveres bons jogadores, obviamente, comprometidos, e se tiveres uma ideia evoluída para lá chegar, se não não tens hipótese. E estabilidade do clube em si, que também é extremamente importante. Tudo isto levou-nos à melhor época de sempre do Rio Ave.

Relativamente aos adjuntos, já tiveste contigo muitos treinadores que agora são treinadores principais.
Tem havido ao longo dos tempos, penso que é normal, alguns jovens que pedem para observar os treinos. O Bruno Lage e o Renato Paiva, quando eu estava no Vitória de Setúbal, assistiram praticamente a todos os treinos da época e quando fui para o Belenenses também. Isso tem sido recorrente. Já tive o Miguel Cardoso como adjunto, fui buscá-lo a formação do FC Porto, também tive o Miguel Leal, depois o Bruno, o Luís Nascimento, agora o Sérgio... A ideia é sempre ir buscar jovens com talento, que possam acrescentar à equipa técnica e que ao mesmo tempo que aprendem venham com espírito crítico, porque trabalhar na formação é necessariamente diferente de trabalhar no futebol profissional. O que procuramos fazer é tentar puxar por jovens com talento e dar-lhes a possibilidade de perceberem como agimos e interagimos com os jogadores. Percebo que eles trazem coisas mas também levam muitas coisas e, ao fim de um determinado ciclo, porque esse é o compromisso, estão com liberdade total para poderem treinar e seguir uma carreia a solo. Beneficiamos todos e tenho sabido escolher, porque o critério é muito apertado: o critério número um é a competência e temos tido pessoas competentes a acompanhar-nos.

MÁRIO CRUZ

Se eu agora quiser antecipar como é que o Braga vai jogar, o que é que posso dizer?
O Braga vai jogar com os mesmos fundamentos que tivemos, a fazer evoluir o que nós começámos. Nós, no Rio Ave, começámos. Tivemos uma experiência muito grande no passado, mesmo em competições internacionais, no Besiktas, no Sporting, no Braga...

Sentes-te um treinador muito diferente?
Sim, hoje sinto-me um treinador completamente diferente. A situação do Sporting e do Besiktas foram importantes sob o ponto de vista da capacidade de resiliência. Vivi situações nos dois clubes que fizeram de mim um treinador hiper resistente. Não falo sobre o ponto de vista tático, estratégico, da preparação da equipa, nessa altura ainda estávamos em evolução e demos respostas ao que nos pediram. Creio que o Sporting praticou um grande futebol a determinada altura, com problemas dentro, mas tenho a convicção que praticámos um grande futebol e precisámos ali de um ou outro ajustamento que não foi possível, mas tínhamos uma equipa boa. O meu Besiktas jogava muitíssimo bem, as pessoas ainda hoje falam disso, fizemos um trajeto espetacular, principalmente nas competições europeias. O Sheffield Wednesday jogava muitíssimo bem, por isso é que ainda hoje tenho algum crédito, modéstia à parte, em Inglaterra. Foi pela forma de jogar, não só pela forma de abordagem nas aparições públicas [risos]. Mas há sem dúvida nenhuma aqui um momento, não vou dizer que é um corte, porque não é, mas é um upgrade relativamente ao passado recente, que foi agora no Rio Ave, que acho sinceramente que nos atirou para outro nível. E agora queremos dar sequência a isso.

Fernando Veludo

Não achas que a tua imagem saiu prejudicada, principalmente pela passagem pelo Sporting?
Não. Como é que eu vou dizer isto.... Tenho uma relação excelente com muita gente importante, em muitas áreas. Mas as relações que tenho são pessoais, têm a ver com a minha natureza. Sou uma pessoa que não é fácil, neste sentido: estou num clube e se eu entender que este jogador que eventualmente o clube quer contratar não interessa, eu digo que não interessa. E sei que muitas vezes dizer "aqui" que não interessa, depois vai prejudicar-me "ali". Percebes? Era muito mais fácil para mim, se calhar, sim, senhor, faz favor, está aqui a passadeira. Eu não faço isso, ajo em consciência. Às ponho-me a refletir que eventualmente já merecia, nos momentos em que tenho épocas excecionais, em que ninguém fez o que foi feito, como Leixões, que vai à final da Taça de Portugal, Vitória de Setúbal, que vence a Taça da Liga, e agora no Rio Ave... Ainda agora no final desta época tive convites de vários países. Mas nenhum veio de um empurrão que poderia ter vindo, de pessoas que conheço e que me poderiam empurrar. Então eu faço este trabalho, há análises a elogiar, há equipas estrangeiras a vir falar comigo, pessoas entusiasmadas com a minha forma de jogar, e aqui no meu país não tenho alguém que me dê um empurrãozito aqui e ali, pá, como muitos colegas meus têm? Não tem a ver com relacionamento, porque o meu relacionamento é excelente com toda a gente, só que eu não sou uma pessoa cómoda, percebes? Eu não faço fretes a ninguém. Não estou a dizer que os outros fazem, mas eu não faço e isso tem prejudicado a minha ascensão mais rápida. Mas prefiro assim, porque já treinei na 3ª divisão em Portugal, na 2ª, na 1ª, levei equipas às competições europeias, nunca lutei pelo título em Portugal porque não pude, porque quando cheguei ao Sporting a equipa estava em 9º lugar. Treinei em condições estratosféricas no Besiktas, um dia escrevo um livro sobre aquilo. Estava sozinho ali, com uma língua diferente, com uma equipa técnica que era do treinador anterior, que estava preso, e que depois veio da cadeia e queria ficar com a equipa, mas os adeptos não deixam, ficou como diretor desportivo mas a querer ser treinador... Foi uma coisa... Depois vou para o Sheffield, reparam em mim e vou para o Swansea, venho para o Rio Ave, talvez pela primeira vez, aqui em Portugal, numa situação em que eu estava hiper confortável, em função do meu passado, e venho agora para o Braga na mesma circunstância. Chego ao Braga hiper confortável, muito bem comigo, já com estatuto, mas nunca levei um catalisador, percebes? E eu deveria ter levado um catalisador e deveria estar a treinar na Premier League um bom clube, digo isto com toda a sinceridade, devia estar aí e não estou porque não tenho catalisador. Mas eu vou chegar lá. Agora vou fazer dois excelentes anos no Braga e depois volto para a Premier League. Mas vou por mim, ninguém me vai ajudar. E digo isto com uma ponta de orgulho, mas ao mesmo tempo sabendo que tenho uma excelente relação com todos, presidentes, agentes e jornalistas, mas de cordialidade. Agora, fazer favores, não faço. As pessoas sabem disso. Mesmo os jornalistas amigos, que às vezes me pedem uma informação: amizade é uma coisa, profissionalismo é outra. Sei que vou ser penalizado amanhã e o que estou a dizer é real, sei que vou ser penalizado. Se calhar uma pessoa menos bem formada pensa: "Não me deste a informação e agora vou dar-te aqui uma bicada". Já me aconteceu isto no passado. Faço o meu trabalho e vou por mim. É como a equipa, é não colocar limites. Até onde puder ir, é ir. Tem sido um trajeto sinuoso porque nós gostamos de ir para onde nos querem.

Chegaste a dizer que para voltares a um grande precisavam de te ir buscar pela mão...
Exatamente. Vim pela mão.

O presidente António Salvador foi a casa buscar-te pela mão?
Foi a casa buscar-me pela mão, metaforicamente, sim. Sem dúvida alguma. Isso foi determinante para estar agora aqui no Sporting Clube de Braga. O presidente disse: "Gostava muito que viesses, és a nossa única opção". E mesmo que tivesse outra, não havia problema, porque esta seria sempre a melhor, portanto para mim dava-me igual se havia mais opções [risos]. Estou a brincar. Também temos de ter a nossa autoestima. Não foi nenhum empresário, com muito respeito. O presidente tem o meu número, ligou-me: "Preciso de falar contigo, gostava que viesses treinar o Sporting Clube de Braga". 90% já estava resolvido. Os 10% foram os pormenores. No Rio Ave também foi assim, 90% foram pela chamada do presidente António Campos e o Marco Aurélio é um amigo de longa data. Para mim, é fundamental entrar num clube assim.

Dizias que ainda não tiveste uma equipa para lutar por ser campeão. Com os reforços que o Braga já anunciou, já tens equipa para isso?
Eu percebo a pergunta e, aliás, vou levar com essa pergunta ao longo do ano e ser metralhado com ela, mas vou responder sempre da mesma forma.

Mas é o melhor plantel que já tiveste?
O Besiktas tinha um grande plantel, muito bom também, com muitos internacionais. E o Sporting também, Moutinho, Veloso, Liedson, Izmailov - craque... Vou responder-te dentro do que já disse há pouco: não imponho limites mas também não balizo nada a longo prazo. Temos de tentar perceber até onde podemos ir. Agora, o que é certo é que perdemos o Trincão, que vai ser realmente um jogador de eleição, e eventualmente estou preparado para perder o Paulinho. Estes dois juntos devem ter feito 40 golos, convém dizer isto. Vamos ter de colmatar. Mas isto não tira ambição, estou apenas a descrever a realidade. Vamos tentar ganhar os jogos todos, jogo a jogo, e ver até onde é que a equipa pode chegar.

Pensando nessa falta de opções no ataque, pediste ao presidente para o Taremi vir para o Braga?
Sim, sim, obviamente que sim. Se eu dissesse o contrário, as pessoas iriam estranhar. Foi um jogador que fui buscar e apostei nele.

Onde é que o viste?
Via muitas vezes a jogar, porque sigo o Carlos Queiroz, tenho apreço e amizade por ele, o Irão, e o Mehdi jogava fundamentalmente da esquerda para dentro. Era um jogador com características muito boas. Depois vi-o numa viagem que fiz a Doha, para ver a Aspire, porque havia uma possibilidade de trabalhar lá e fiquei uma semana. Vi um jogo em que o Mehdi jogou como avançado e gostei muito dele. Dele e de um guarda-redes que estava na seleção do Irão. Tentámos os dois para o Rio Ave. Demorámos quase um mês a convencer o Mehdi a vir para Portugal. Falei com ele, pedi ajuda ao Carlos Queiroz, ele depois entrou em contacto com o tradutor, que também deu uma grande ajuda. Ele queria vir para a Europa, porque ele tinha uma proposta da ex-equipa do Rui Faria, que era muito alta do ponto de vista financeiro. Ele é uma pessoa diferenciada. Creio que ele está um bocadinho para o futebol como eu: gosta do jogo, tem paixão pelo jogo, não põe o dinheiro à frente, gosta de pessoas que o agarrem pelo braço e que o tragam, e que o façam sentir. Conheço bem as pessoas do Irão, são pessoas que falam muito do coração, dizem muito: "És meu amigo do coração". E ele é realmente uma pessoa de afetos. Gosta de se sentir desejado e acabou por aceitar vir para um clube... Com muito respeito pelo Rio Ave, mas era um jogador com um nível completamente diferente.

Acreditas que vai jogar no Braga?
O futuro não sei. Não o tenho prisioneiro a mim, obviamente. Se gostava que ele viesse? Sim, muito. Se vier, muito bem, acrescenta, se não vier, o Sporting Clube de Braga continua a ser uma grande equipa.

O Gaitán também acrescenta?
Se vier, acrescenta, sim. Tive oportunidade de falar com ele, o que é importante para perceber o que vai na cabeça do jogador, e vi um jogador extremamente motivado, cheio de vontade. Conheço bem o perfil dos jogadores que têm na casa dos 31, 32, 33 anos. Há três tipos de combustíveis, não é no futebol, é na vida: pessoas que se movem pelo dinheiro, pessoas que se movem pelo medo e pessoas que se movem naturalmente, pelo orgulho que têm naquilo que fazem, independentemente do medo ou de não haver dinheiro, até para ordenados, e o Gaitán pareceu-me claramente um jogador deste registo, de orgulho, tipicamente argentino. Estes jogadores que são grandes jogadores, chegam à casa dos 30 anos e querem prosseguir a carreira o máximo possível, porque gostam de jogar e querem mostrar a toda a gente que continuam bem, e têm até às vezes maior ambição do que miúdos de 18 e 19 anos. Senti o Gaitán assim.

Foi opinião mais ou menos unânime em relação à época que passou: tirando o Rio Ave e o Famalicão, talvez as equipas que mais se destacaram, não houve grande qualidade de jogo na Liga. Na próxima época, contigo no Braga, com o regresso de Jorge Jesus ao Benfica e com a entrada de treinadores jovens, como o Vasco Seabra e o Mário Silva, vês condições para a Liga ser mais interessante?
Os bons treinadores são bem-vindos. Ainda esta semana estava a falar com um amigo e pensámos nisto: imagina se 70% dos treinadores portugueses regressassem a Portugal. Não havia clubes para todos, obviamente [risos], mas considerando apenas os melhores treinadores, assim como os melhores jogadores portugueses que temos no estrangeiro: tínhamos uma Liga top. Esta é que é a realidade. Ou seja, temos treinadores e temos jogadores, temos dirigentes, temos bom jornalismo, de análise, competente, mas tratamos mal o futebol. Nós tratamos muito mal o futebol. Temos esta pecha, não sabemos valorizar aquilo que temos de bom, numa indústria que exporta milhões de euros, como se viu agora com o Trincão, e com o João Félix no ano passado. São milhões de euros que colocamos no estrangeiro e às vezes levamos isto de forma leviana. Relativamente à qualidade, os treinadores são bem-vindos e o regresso de Jesus é bem-vindo, porque é um excelente treinador, que vai trazer qualidade à Liga, obviamente. E há também jovens treinadores que querem provar que têm qualidade. Espero, aliás, tenho a certeza que a Liga para a próxima época vai ser melhor. Realmente, o nível das equipas que lutaram pelo título este ano não esteve no habitual. Vamos esperar que todas as equipas possam produzir melhor futebol, com mais qualidade, porque realmente não foi um bom ano. O Rio Ave e o Famalicão, concordo, diferenciaram-se pela qualidade de jogo. O FC Porto, pelo ganhar, porque também temos de olhar um pouco para os recursos do treinador, porque gerir os recursos que temos é uma forma inteligente de conseguir os objetivos. Mas, no geral, a qualidade da Liga acabou por ser mediana e todos nós temos de fazer melhor na próxima época.

Versão alargada da entrevista originalmente publicada na edição semanal do Expresso de 8 de agosto de 2020