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No banco com os misters

“Se nos vês a discutir no café, parecemos malucos, a simular ações”: de educador de infância a treinador de guarda-redes no Equador

O gosto pelo ensino levou-a ser educador de infância e estudar psicologia, mas a paixão pelo futebol empurrou-o para treinador de uma posição onde admite que não teve grande sucesso: "O sonho era atingir como treinador o nível que não consegui atingir como guarda-redes". Depois de vários anos no Benfica, Ricardo Pereira acompanhou Sá Pinto no Al Fateh, no Standard Liège e no Légia de Varsóvia, antes de rumar, sozinho, ao Independiente del Valle, no Equador, que agora vai ser orientado por Renato Paiva. À Tribuna Expresso, explica ao detalhe a posição mais específica do futebol, que apaixona quem trata dela: "Se nos vês, um bando de treinadores de guarda-redes, a discutir no café, nós somos malucos. Levantamo-nos permanentemente a simular ações e posicionamentos"

Mariana Cabral

António Pedro Ferreira

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Esta não era a minha primeira pergunta, mas já que estamos aqui na Mata de Benfica rodeados por galinhas, pergunto-te se te irrita a qualificação de "frango" a certos golos sofridos.
Faz parte de uma cultura. Nós falamos do frango, na Polónia há outra palavra qualquer que já não me recordo, mas que faz parte e que nos remete de imediato para aquilo que é a forma como a sociedade vê o guarda-redes. Não me irrita particularmente, é algo com que me habituei a lidar. Quando jogas 25 anos na baliza é assim, habituas-te à expressão, quer queiras, quer não. Penso que isso nos remete para algo que pretendemos que os guarda-redes aprendam desde muito cedo, que é ter uma capacidade de resiliência muito forte, conseguir lidar com esse ser diferente, num lugar em que nem todos querem jogar e em que nem todos têm personalidade para conseguir jogar. Desde muito cedo é muito importante que eles aprendam a lidar com isso. Uma vez perguntaram ao Valdés [ex-guarda-redes do Barcelona] qual a maior dificuldade em ser guarda-redes e ele disse que é a solidão. Aprendes desde muito cedo o que é o apontar do dedo. Quando falhas, os teus colegas de escola, os pais dos teus colegas, todos apontam o dedo. "Foi por causa dele que nós perdemos". Faz parte de uma cultura que, naturalmente, é a do povo, mas não pode ser a nossa, dentro do que é uma estrutura de uma equipa técnica e de um grupo de trabalho, porque se há responsabilidades individuais, há sempre muita responsabilidade coletiva até acontecer esse denominado frango.

Nessa solidão, o único parceiro do guarda-redes é o treinador de guarda-redes?
O treinador de guarda-redes é um apoio do guarda-redes. Mesmo entendendo o jogo de uma maneira coletiva, e eu não tenho outra forma de entendê-lo, há um momento em que és só tu. És tu para decidir em função dos teus companheiros, do posicionamento da bola, de todos os sinais que antecipas dos adversários. No momento dessas decisões de uma ação técnica há toda uma solidão efetiva, porque jamais alguém vai resolver aquilo por ti, és tu que tens de resolver individualmente. Agora, se há alguém que entende tudo o que é o antes, ou que já está a ver no antes tudo o que é o posicionamento e o que há para correr bem ou menos bem, porque são dois passos à frente ou dois passos atrás, algo que ninguém vê, que o adepto não tem de ver, porque só vê se defendeu ou não defendeu, se a bola entrou ou não entrou na baliza... Essa interpretação, essa leitura, esse apoio ao guarda-redes é dado porque quem trabalha com ele diariamente. Por muito que estejamos completamente integrados numa equipa técnica, costumo dizer que nós, treinadores de guarda-redes, estamos no meio de uma ponte. Uma ponte entre o nosso trabalho e a nossa relação com um grupo de guarda-redes e a nossa relação e lealdade com uma equipa técnica. Gerimos estas relações no meio desta ponte e somos parte fundamental do sucesso deste equilíbrio. Porque ao final de uns meses de trabalho, nós conhecemos os guarda-redes se calhar até melhor do que eles se conhecem a eles próprios. Percebes rapidamente, como muitos deles percebem, que determinados golos acontecem devido ao que aconteceu antes. Esse passo que deveria ter dado em frente não foi dado, estava mais atrás, porque não conseguiu ler antes, ou, simplesmente no momento do remate não teve aquilo que é das coisas mais fundamentais num guarda-redes: o equilíbrio posicional. Já por alguma sabotagem do seu cérebro, aquele equilíbrio posicional já se tinha perdido por completo, porque ele quis antecipar alguma coisa.

Uma das coisas que se costuma dizer é que os guarda-redes nunca podem cair para trás, com o rabo no chão, a defender, que o peso do corpo tem de estar para a frente.
Sim, se vais para trás é porque alguma coisa falhou no equilíbrio. É um tema interessante, que nos dava para horas de discussão, e que nos dá a nós, departamentos de guarda-redes, como tenho no Equador. Procuro explicar que esse equilíbrio posicional e esses maneirismos e tiques que os guarda-redes têm, e que quase todos eles têm, mesmo no futebol sénior, é algo que temos de endereçar, sem robotizar os guarda-redes, porque isso é das piores coisas que podemos fazer aos miúdos. Há coisas que nós podemos evitar e essa robotização normalmente é feita por nós, quando há um treino demasiado técnico, não deixando os miúdos serem naturais, querendo que eles coloquem as mãos desta maneira, com os pés daquela maneira, isso faz com que percam toda a naturalidade e faz com que sejam robôs no futuro. E torna-se muito difícil, depois de passar esse processo de formação, corrigir coisas.

Por exemplo?
Posso dar dois exemplos muito concretos. Há muitos guarda-redes, e já enfrentei isso duas ou três vezes no futebol sénior, que têm posições base fantásticas, antes do remate, mas no momento em que o jogador arma a perna para rematar, eles elevam o seu tronco, antecipando uma bola que para eles iria sair acima e ela sai abaixo. No momento em que fazes uma coisas destas, o teu corpo faz um movimento compensatório, nós chamamos-lhe um movimento banana, em que tu nunca mais chegas cá abaixo. Outro: tu tens uma determinada abertura de pernas, que te permitiria sair perfeitamente para qualquer um dos lados e, no momento em que sai o remate, abres mais as pernas. Ou seja, daí já não sais para lado nenhum. Isto são os detalhes e, não querendo tornar isto demasiado técnico, são coisas que nos apaixonam. Nós trabalhamos até ao dedinho da mão, entre aspas, daquilo que são os hábitos dos guarda-redes.

António Pedro Ferreira

É um exagero de antecipação? Por exemplo, quando o portador está numa posição mais lateral na área, em que tanto pode cruzar como rematar, diz-se que aquela bola, a ser rematada, nunca pode passar entre o primeiro poste e o guarda-redes. Havendo erro, passa por querer adivinhar o que vai acontecer?
Bom, aí temos de novo pano para mangas. Em primeiro lugar, a frase "a bola nunca pode entrar ao primeiro poste" é um dos tais vários estereótipos que temos relativamente ao guarda-redes. "O guarda-redes tem de proteger o primeiro poste" é o que se ouve. E eu pergunto: e o outro poste de quem é? Porque o guarda-redes efetivamente tem de proteger uma baliza. Por isso é que se fala tanto numa colocação e numa bissetriz, que nem sempre é fácil de encontrar, mesmo em guarda-redes muito experientes, porque graças a Deus o jogo é dinâmico, os adversários movem-se, os defesas movem-se... Encontrar essa bissetriz e às vezes estar fora dela, porque confiamos no colega e ele com uma parte do corpo está a proteger uma parte da baliza e o nosso melhor caminho nesse momento é proteger outra parte da baliza, isto também acontece. São opções e são decisões táticas já de grande complexidade. Mas pegando na primeira coisa que mencionaste, esse é um dos vários estereótipos que há. No que diz respeito à antecipação, em guarda-redes e não só, ela tem de ser mental, quase um jogo de probabilidades em relação ao que tem maior probabilidade de acontecer. Isso não deverá fazer com que eu antecipe com o meu corpo uma coisa que ainda não aconteceu. Há coisas que são apenas maneirismos. Por exemplo, os guarda-redes alemães têm o hábito de dar aqueles grandes saltos, de puxar e parecer que vão levantar voo antes de efetivamente levantarem, e perderem muito tempo neste salto preparatório. E este salto preparatório, que o nosso Rui Patrício, por exemplo, tem muito baixinho e é um verdadeiro salto preparatório, é uma forma de te manteres ativo antes de um remate. É diferente de um salto de meio metro em que a bola já saiu e ainda estás no ar. Isto são maneirismos que até sabemos explicar se formos à procura do processo de formação destes miúdos. A outra questão em relação à antecipação tem a ver com os hábitos e com os reforços positivos que eles se calhar foram tendo ao fazerem coisas destas, porque efetivamente três ou quatro remates saíram para cima e eu levantei o meu tronco e tive muito sucesso. O problema é quando a bola sai efetivamente para baixo e tu nunca mais lá chegas. São estes detalhes que são apaixonantes para um treinador, observar um guarda-redes ao detalhe e perceber num sénior que coisas destas é que ainda faz sentido mudar, porque podem trazer grandes perdas de rendimento, ou se já não faz sentido mudar, porque há sucesso daquela forma. Isto é um ponto técnico, porque a posição base é um aspeto técnico, agora, onde é que essa posição se exerce, se é mais à frente ou mais atrás, já é um aspeto tático. E há muitos guarda-redes seniores em que nós vamos mexer muito mais em aspetos táticos do que em aspetos técnicos. Mas às vezes há coisas que os prejudicam tanto e eles têm tanta vontade de mudar que é possível mudar. Andam ali a comer algumas semanas feijão com arroz, como nós dizemos, e é possível fazer isso.

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Tendo o guarda-redes essa capacidade de leitura e antecipação, não é uma ótima posição para evoluir para treinador principal?
Aí está outro dos estereótipos do futebol por onde podemos pegar, que os guarda-redes não dão treinadores de futebol. Felizmente temos aí muitos exemplos interessantes a contrariar completamente essa teoria. A resposta é sim e não. É verdade que te habituas e se fores um guarda-redes de grande capacidade de decisão, que permanentemente está a analisar o jogo, que está a jogar em função dos seus companheiros, dos adversários, sem dúvida que desenvolves aí capacidades que no futuro e ainda mesmo durante o tempo em que jogas te podem fazer pensar no treino. Mas depende muito do gosto que tenhas, porque também sinto que não há uma marca efetiva no futebol. Por exemplo, podemos pensar que jogadores que foram grandes avançados vão ter um cariz de jogo muito ofensivo mas pode perfeitamente passar-se o contrário, quereres uma equipa muito mais equilibrada, de contenção. O que sei é que quando acabas uma carreira de jogador, a carreira de treinador é algo completamente diferente. Costumo dizer que aprendes a treinar, treinando, com muita base de investigação e muito estudo por trás, com muita dedicação ao que mais te ensina, que é o jogo. Às vezes digo aos meus amigos que ninguém gosta de ver jogos de futebol ao pé de mim, porque o meu melhor amigo a ver um jogo de futebol é o comando na mão, a parar e a pôr para trás. E se não for na televisão é no computador, a ver a mesma jogada frame por frame, a decompô-la. Não me julgo o super-homem da análise e a verdade é que preciso de ver muitas vezes a mesma situação. E não falo só do que é a ação do guarda-redes, falo do jogo jogado, porque até aquela bola lá chegar temos de perceber os posicionamentos de toda a gente e o que influenciou o posicionamento do guarda-redes naquele momento. Por que razão é que se sofre um golo em que o remate é na entrada da área e o guarda-redes estava na linha da pequena área e não na linha de golo para defender o remate? É muito fácil analisar depois de acontecer, mas entender efetivamente que o guarda-redes estava na linha da pequena área porque esperava um passe de rutura e confiou no seu defesa, que aquela bola estaria coberta e que se passasse ele estaria próximo para chegar para o um contra um...

São mais detalhes específicos da posição.
São situações que envolvem conhecer o jogo e que nos vão apaixonando, porque isto depois é decidido no detalhe. Se nos vês, um bando de treinadores de guarda-redes, a discutir no café, nós somos malucos. Levantamo-nos permanentemente a simular ações e posicionamentos [risos]. Voltando então ao que perguntaste: é um plano privilegiado, seguramente, de visão e de decisão e de capacidade analítica. Já é muito difícil, no alto nível, jogares só pela tua capacidade física, se não tiveres a inteligência, a capacidade de raciocínio e de tomadas de decisão muito rápidas. É preciso ler tudo o que se está a passar mas também tudo o que se pode vir a passar, sem te desposicionares ou desequilibrares. Há guarda-redes que estão a tomar decisões e estão a caminhar, para a frente ou para trás, com o equilíbrio mantido, e no momento da ação eles já estão parados para decidir. Porque esta coisa de se gostar de ver os guarda-redes muito vivos, muito aos saltitos... O guarda-redes muitas vezes decide parado ou a caminhar. Não gosto muito de ver guarda-redes a correr muito antes da ação. Só na baliza, porque é a capacidade de te deslocares, dares passos laterais para voar.

E em relação à comunicação verbal? Só em construção?
Q.b. Penso que o tempo do "'bora lá" ou do "vamos" já passou. Deve ser uma comunicação que acrescente sempre alguma coisa, não apenas verbal, mas também não verbal, por exemplo, em momento de construção, como disseste, quando queres pedir um passe. É muito importante, já que há barulho nos estádios - bom, agora não há -, mas o colega tem de ter uma linha de passe. Qualquer colega que atrase uma bola, idealmente, quase sem olhar para o guarda-redes deveria saber onde é que ele está. Isso demonstra o mecanismo de trabalho da equipa, porque o jogador sabe, antes de atrasar uma bola, onde está o guarda-redes, provavelmente não na mesma linha do colega, mas numa linha oposta, porque tu, guarda-redes, já leste que a pressão vai demorar mais três segundos a chegar daqui até ali, porque analisaste antes que só há um jogador possível para pressionar. Ora isso comunica-se verbalmente... Há quem assobie, por exemplo. Este ano, no Equador, tinha um guarda-redes que assobiava e os colegas sabiam perfeitamente onde ele estava [risos]. Depois, esta comunicação verbal vai muito mais além, então em equipas de posse mais ainda. Continuamente a equipa ataca e o guarda-redes tem um papel primordial nos equilíbrios e nos alertas que dá, porque podes ter defesas centrais que se esquecem onde está o avançado porque estão a ver também o ataque. Apesar de haver gente no banco com esta missão do equilíbrio, do balanço defensivo - isto já é um bocadinho espanhol -, o guarda-redes tem de ser o primeiro a preocupar-se com isto, é fundamental.

Franklin Jacome

Na formação isso é mais difícil.
Sim, para os miúdos isto é muito difícil devido à quantidade de coisas em que tens de estar concentrado: a bola, o adversário, os colegas, o teu próprio posicionamento. E depois ainda tens de conseguir comunicar... Não é fácil. Há exercícios de treino que estimulam a comunicação do guarda-redes. Dou um exemplo que fazíamos no Benfica: depois de passares a bola, seja em pontapé de baliza ou em situação de atraso, já entregaste a bola, e parece que o teu trabalho acabou aí, mas não acabou, continua. Depois de passares essa bola, tens de te perguntar: reposicionas-te ou manténs a posição? A ajuda que podes dar a esse jogador que acabou de receber a bola também passa por alertá-lo para qualquer perigo ou dar-lhe uma ajuda sobre onde pode jogar a seguir, e nisto a comunicação verbal é fundamental.

Quando fizeste a passagem de guarda-redes para treinador de guarda-redes, que conhecimentos é que tinhas sobre a posição e sobre o jogo?
Há uma grande diferença, claro, em primeiro lugar porque joguei a um nível relativamente baixo, entre terceiras divisões e futebol distrital, muitas vezes sem treinador de guarda-redes. Era o guarda-redes da terceirinha, como dizemos a brincar [risos]. Era muito do grito, da raça e com um conhecimento de jogo baixo, que não tem nada a ver com aquilo que precisas para seres treinador de futebol. Digo de futebol porque em primeiro lugar somos treinadores de futebol, sem dúvida nenhuma. Para uma dada forma de treinar, se não conheceres o jogo, vais continuar a fazer apenas o exercíciozinho básico, que não te estimula do ponto de vista de conhecimento do jogo, que não te vai acrescentar nada no processo de aprendizagem. Este conhecimento, obviamente, eu não tinha e joguei quase até aos 40 anos. Tenho cerca de oito anos e meio de treinador e quando estava na formação do Benfica ainda continuava a jogar, porque tinha paixão, mas hoje vejo jogos meus e tenho vergonha de alguns dos posicionamentos, porque eram das coisas mais feias que se possa imaginar [risos]. A malta que jogou ao meu nível diz que não, que eu era muito bom guarda-redes e subi de divisão, mas nem pouco mais ou menos. Quando decidi ser treinador, sabia que o conhecimento que tinha não servia para aquilo que era... acho que era um sonho apenas, nem sequer era ainda uma ambição. Pensava que gostava de atingir como treinador o nível que não consegui atingir como guarda-redes. Não sou daqueles que se agarra a lesões ou coisas do género: eu não tinha nível suficiente. E quando começas a trabalhar com guarda-redes profissionais percebes bem por que razão não chegaste lá. Tenho isso muito bem resolvido na cabeça.

Então o que fizeste quando começaste?
Senti que o primeiro passo tinha de ser o de aprender e estudar. Decidi fazer todos os cursos, todos os seminários, tudo o que havia em Portugal. Fui à Escócia e fiz os cursos de treinador e durante quase um ano foi isso que fiz: tentei preparar-me. Isto quase dá vontade de rir, mas uma das primeiras novidades, para mim, foi perceber que nos cruzamentos à retaguarda, os guarda-redes com algum nível - nomeadamente da formação do Sporting, porque os professores desse curso de alto rendimento de guarda-redes que fiz eram de lá - cruzam os apoios para ir buscar a bola. Eu, quando era jogador, ia de costas, quase a partir a coluna, para conseguir sacar aquele cruzamento ao segundo poste. Aí começas a perceber bem as tuas limitações. Havia um aspeto interessante para a minha aprendizagem: como ainda continuava a jogar, passei a ser a minha própria cobaia. Via as coisas e comecei a ter uma capacidade analítica que não tinha até ali, porque começava a perceber como é que sofria este ou aquele golo, o que poderia fazer de diferente no meu posicionamento...

Começaste então a fazer deslocamento cruzado.
Comecei a tentar fazer, algumas vezes a tropeçar nos próprios pés [risos]. Mas foi uma descoberta grande.

DR

E começaste a ser treinador no Real.
Foi o primeiro clube que me abriu as portas para começar a treinar, nos sub-17, já com guarda-redes com um nível muito interessante. Depois no Benfica, onde comecei nos sub-13 e sub-14, começo a perceber, com muito bons treinadores, um bocadinho mais do jogo. Começo a ganhar mais maturidade, porque, como te disse, eu era o guarda-redes da raça e da agressividade, do ganhar a todo o custo, com todas as manhas e artimanhas do antijogo a serem utilizadas para isso. Mas ali cheguei a um clube com uma forma de estar completamente diferente, em que a educação dos jovens era fundamental e o como se ganhava era muitas vezes bem mais importante do que o simples ganhar. Isso moldou-me e preparou-me para o que depois comecei a ser já como treinador de guarda-redes profissional. Aprendi muito, percebi que andei lá 25 anos mas sabia pouco de futebol. Mas é claro que as minhas vivências, nomeadamente as emocionais, foram muito importantes.

Como é que isso te ajuda hoje?
Por exemplo, num aquecimento de jogo. Não preciso que os guarda-redes me digam nada no aquecimento porque sei perfeitamente identificar o que precisam no aquecimento. É uma ativação mental, é uma coisa para te tornar disponível para entrar no jogo.

Então não achas que seja relevante quais os exercícios que escolhes para o aquecimento?
O aquecimento de jogo é muitas vezes sobrevalorizado. A forma como se monta o aquecimento de jogo, em primeiro lugar, tem de ser algo que deixe o guarda-redes confortável para jogar. Portanto não vale a pena o treinador de guarda-redes ter o seu aquecimento de jogo completamente estereotipado e aquilo não dar ao guarda-redes o que ele precisa de sentir, nomeadamente a nível emocional, para jogar. Acho que a escolha dos exercícios deve passar pelos momentos do jogo, portanto jogar com os pés, jogar com as mãos, sentir o contacto com o solo, sentir a velocidade da relva, que é algo fundamental... Mas é todo um sentir. Acho que o essencial é o guarda-redes sentir, sentir a bola na mão, a bola a colar, essa confiança de que precisa para jogar. Dou-te um exemplo interessante: o guarda-redes com quem trabalhei este ano tem uma capacidade de jogar com os pés muito interessante. Mas esta capacidade está toda aqui [aponta para a cabeça], numa interpretação e num trabalho nosso de saber onde é que ele tem de se posicionar e onde é que estão os espaços, porque a técnica não é, nem de perto nem de longe, uma boa técnica quando o vês a treinar ou até quando o vês no aquecimento. Eu levo seis ou oito bolas para aquecer e logo na primeira situação de passe curto as bolas desaparecem por todo o lado. Se tu valorizasses excessivamente o aquecimento, ias ficar em pânico ou ele ia ficar em pânico. Ele sabe que assim que se começar a jogar a decisão está lá toda, assim como a capacidade de concentração. Tem tudo a ver com o guarda-redes, há uns que precisam de aquecer com mais intensidade do que outros, sentir mais repetições, para se sentirem mais ativos, mas há outros que basta o contacto com a bola e estão prontos para jogar.

António Pedro Ferreira

Antes de seres treinador, tiraste uma licenciatura em psicologia e foste educador de infância. O que é que isso te trouxe para o que fazes?
Acho que isto passa tudo por um sonho. Joguei toda a minha vida, mas nunca tinha treinado e estava num projeto que me encantava: era coordenador pedagógico de um projeto que existe para miúdos, a Kidzania, e estava muito bem, porque me dava imenso gozo. Preparava-me para deixar de jogar, mais ano, menos ano, e tinha esse tal sonho de poder ensinar e poder proporcionar a outros o que eu muitas vezes não tive. Quando te digo que sentia dificuldades a jogar, eu não sabia explicá-las, não sabia por que razão sofria determinados golos ou falhava. A minha paixão pelo futebol, aliada à paixão por ensinar, já que o meu primeiro curso foi de educação de infância e eu trabalhei como educador de infância vários anos, completamente apaixonado, fez-me avançar. E também trabalhei enquanto psicólogo. Já fiz várias coisas e o que sei é que preciso de sentir paixão e estar envolvido no que estou a fazer, mas isso não me chega. A paixão permite-nos ter uma grande entusiasmo, mas eu só me sinto bem tendo um grande conhecimento por trás, que depois me permita fazer as coisas seguro. Não queria ser treinador de guarda-redes sem ter a preparação adequada. A transição fez-se e as coisas foram acontecendo. A partir do momento em que comecei a treinar, senti que nunca mais queria deixar de fazer isto.

No Benfica vais subindo até chegares à equipa B, onde começas a ser profissional.
Sim. Estive três anos nos juvenis...

Com o Renato Paiva?
Exatamente. E depois passei para a equipa B. Foram decisões do Hugo Oliveira, que era o coordenador do departamento de guarda-redes, que tu também já entrevistaste, e que foi alguém muito importante para mim. Este departamento era a menina dos olhos do Hugo e fez-me crescer muito a este nível. A entrada no Benfica aconteceu por causa dele e do Miguel Miranda, foi um convite para ser estagiário e as coisas foram acontecendo. Estive três anos nos juvenis com o Renato e apanhámos muitos daqueles jogadores que estão aí hoje em dia já enquanto grandes jogadores...

Por exemplo?
Rúben Dias, Diogo Gonçalves, Guga, Renato Sanches... São tantos dessa geração que não dá para dizer todos. O André Ferreira, que foi meu guarda-redes, tal como o Ivan Zlobin. São muitos miúdos que agora andam por aí. Depois fiz então um ano de equipa B, numa época que foi das mais difíceis, porque estivemos quase até ao final para não descer, com o mister Hélder Cristovão, foi um ano de grande crescimento para aqueles miúdos.

Como é que sais do Benfica?
Estava a preparar-me para fazer mais um ano na equipa B quando surge um convite do mister Ricardo Sá Pinto, porque ele tinha na sua equipa técnica um adjunto que tinha trabalhado comigo no Benfica. Conhecemo-nos, conversámos, tivemos de alguma forma uma comunhão de ideias, eu entendi aquilo que o mister Ricardo queria para os seus guarda-redes e estou muito grato por essa oportunidade, porque foi, no fundo, a oportunidade de começar, ainda que a equipa B do Benfica já fosse profissional.

É relevante para ti a forma como o treinador principal quer que os seus guarda-redes joguem ou estás disponível para te adaptar ao que o treinador entender que é a melhor forma de jogar para a equipa e, consequentemente, para os guarda-redes?
Nós não temos de ser, enquanto treinadores de guarda-redes, nem mais nem menos do que aquilo que somos. Podemos ter as nossas ideias e as nossas predileções sobre uma dada maneira de jogar, e eu tenho-as, cada vez mais, e tendo um modelo de guarda-redes, mas mesmo nos aspetos defensivos, onde os treinadores se metem menos um bocadinho, porque há uma parte do conhecimento específico que é nosso, mas mesmo aqui, defender é um processo coletivo. E há toda uma influência se o guarda-redes se se posicionar mais dentro ou mais fora, num cruzamento ou num esquema tático defensivo, porque isso está completamente relacionado com aquilo que é o defender da equipa. Temos de ter capacidade de adaptação e temos de perceber essencialmente uma coisa: por muito que tenhamos as nossas ideias, temos de ver que tipo de guarda-redes é que estamos a meter lá dentro. O que é que ele é realmente capaz de fazer, o que é que ele não faz mas é capaz de vir a fazer, ou aquilo que nós depois de muito trabalho percebemos que ele não é capaz de fazer.

Por exemplo?
Por exemplo, isto pode fazer-te alterar um posicionamento de uma linha defensiva num livre lateral. O sítio onde tens a linha posicionada...

Matt McNulty - Manchester City

Queria fazer-te essa pergunta, porque agora há muitas equipas a defender os livres laterais fora da área, com muito espaço em relação ao guarda-redes.
Podes tê-la alta, na linha da área, ou podes tê-la mais baixa, porque percebes que a tua linha, primeiro, tem uma grande capacidade de atacar de frente a bola e assim não obrigas os jogadores a um deslocamento lateral cruzado à retaguarda. Se calhar sabes que o guarda-redes não vai conseguir cobrir aquele espaço todo e só tem facilidade em cobrir um espacinho mais pequeno. Se ele realmente for um animal e conseguir estar aqui fora, mas o estar aqui fora não pode ser só figurativo, ele tem de cobrir aquele espaço, então se calhar podes optar por tê-lo ali. Portanto, tudo isto tem sempre a ver com as relações com a equipa.

Então depende do guarda-redes?
Depende de um conjunto de fatores. Preferências, eu tenho, mas tenho também capacidade de adaptação ao que podem ser as ideias do treinador. Mas também não me adapto sem realmente debater as ideias e demonstrar, às vezes, que se calhar não é a melhor opção. Não adianta demonstrarmos sem argumentos e os argumentos não podem ser só colocados comigo a falar da minha quintinha, que é o guarda-redes, é falar da própria capacidade da linha defensiva da equipa.

Qual é então a tua preferência?
A não ser que o guarda-rede sinta um tremendo desconforto com o posicionamento baixo, nos livres laterais prefiro que os jogadores estejam mais baixos e possam atacar a bola de frente.

Isso não cria mais confusão na área?
Se estás a defender à zona, prefiro este ataque à bola de frente, em que cada um é responsável pelo seu espaço. Quando tens de correr todos estes metros para trás... Depende muito das características do guarda-redes e da capacidade de sair, como te digo, e da articulação com a linha defensiva, porque há um espaço que não é de ninguém e que é muito fácil de atacar. Tivemos esta experiência este ano no Independiente, quando muitos dos nossos livres laterais defensivos eram defendidos de forma mais baixa e sabíamos perfeitamente qual era o espaço de cada um dos defesas e qual o espaço do guarda-redes.

Isosport/MB Media

Voltando atrás: continuaste com o Sá Pinto no Standard Liège e treinaste o Guillermo Ochoa. Como foi essa experiência?
Foi muito fácil, em primeiro lugar, pela capacidade de trabalho do Memo, pela humildade e pela inteligência. Para ele, desde que entendesse o porquê das coisas, a justificação de propormos algo diferente, ficava tudo certo. Depois pode é ser mais fácil ou mais difícil executá-lo no campo. Dou-te um exemplo concreto, que é muito conhecido no Memo: sabemos da sua grande capacidade de parador, com uma velocidade de reação inacreditável, com um equilíbrio posicional muito forte, que lhe permite chegar a bolas inacreditáveis, com uma envergadura muito interessante e com uma mão que não se imagina num guarda-redes daqueles e que permite que muitas das bolas sejam desviadas com a ponta dos dedos. Mas a questão mais premente que lhe é apontada é a questão do jogo aéreo. Ele tem tudo para poder fazê-lo. Tem equilíbrio, tem velocidade de deslocamento, tem perceção de trajetória, tem inteligência para se posicionar bem... Mas muitas vezes o Memo não sai por uma questão de decisão própria, que não vou pormenorizar, mas estando a bola à mercê de outros companheiros, ele sente que há mais vantagens em ficar na linha e defender a linha. Sabe bem quais são os seus fortes. Mas foi uma experiência fantástica e é alguém com quem até hoje mantenho uma relação muito forte e muito boa, porque se calhar foi o nome mais sonante com quem trabalhei e na altura não tinha tanta experiência assim, mas foi um momento em que senti que independentemente do nosso currículo e da nossa experiência, quando eles nos reconhecem competência e quando a relação do ponto de vista pessoal flui numa base de verdade e coerência... E isto não é ser amigo dos guarda-redes, é ter a capacidade de dizer a alguém que tinha 100 internacionalizações pelo México coisas que ele não estava a ver ou que não queria ver. Se não tiveres esta frontalidade, não estás a ajudá-lo, porque o mais fácil é sermos uns gajos porreiros, os amigos deles, e não lhes dizermos o mais difícil.

Como é que foste parar ao Equador? O Renato diz que lhe disseram que era o fim do mundo.
Não, é o meio do mundo [risos]. Olha, os convites têm aparecido por parte de sítios e pessoas surpreendentes. Neste caso, apareceu por parte do coordenador do departamento de guarda-redes do Independiente, que estava a preparar a sua saída, porque o clube tem essa filosofia muito própria. Ele entendeu lançar-me esse desafio, mas ele só fez o contacto no dia em que eu estava a chegar a Inglaterra para trabalhar no Nottingham Forest [risos]. Como deves imaginar, estás a chegar a Inglaterra e convidam-te para ires para o Equador, e é daquelas coisas que não te passam minimamente pela cabeça. Mas a partir daí, todos os contactos que foram feitos, pelo diretor desportivo, pelo Miguel Ángel Ramírez, que era o treinador na altura, acabaram por me impressionar. Para quem está tão habituado em Portugal a que meritocracia não valha assim tanto e que as pessoas apareçam no lugar X ou Y e não entendes bem como, aqui esta pessoa conhecia-me apenas de dois congressos internacionais em que estivemos juntos, onde eu fiz apresentações, e é assim que surge o contacto inicial. Quando fui à procura do projeto comecei a enamorar-me efetivamente. Mas depois, para entrar no clube, havia mais candidatos, tive de fazer três ou quatro análises táticas.

De quê?
Por exemplo, do processo ofensivo, a partir do guarda-redes, da Roma do Paulo Fonseca. Fiz essas análises, tive três ou quatro entrevistas de uma hora e meia e depois ainda teve de haver a chancela do Miguel Ángel, que era a pessoa com quem ia trabalhar, e fiquei com o departamento de guarda-redes do clube, o que também envolveu a entrega de um outro documento com as minhas ideias para a formação do clube.

MAURO PIMENTEL

E que clube é este?
É um clube especial. Logo pela sua história, porque é o sonho de alguns empresários de sucesso do Equador, que parecem quase adeptos normais, pese embora todo o investimento que fizeram no clube, por todo o relacionamento que estabelecem contigo. É um clube que tem uma fatia gigante do seu orçamento para o futebol de formação, com mais de uma centena de jovens a viverem nas suas instalações, indo buscá-los muitas vezes a zonas do Equador que são do mais recôndito e do mais pobre que possas imaginar, e que são a salvação de muitas famílias. Depois investe muito nos seus treinadores da formação, investe muito na educação social destes meninos e tenta emancipá-los e lançá-los na equipa principal, o que os faz aparecer a uma escala como o Moisés Caicedo ou o Ángelo Preciado, com grande maturidade. Há uma linha condutora e o Miguel Ángel teve um grande mérito neste fio condutor de um jogar que existe realmente desde baixo até cá acima, de uma forma transversal.

Qual é o jogar?
É um jogar ofensivo, apoiado, um dominar o adversário com a bola...

E com o guarda-redes na construção a ser quase um defesa central, para ganhar superioridade numérica. Isso vinha do clube ou do treinador ou de ti?
Era algo de que eu já gostava, mas sou muito mais competente no final desta época que passei com eles, porque as ideias eram muito claras. Nós dizemos que um guarda-redes joga bem com os pés, mas este jogar bem com os pés ganhou uma dimensão totalmente diferente para mim hoje em dia. Porque podes olhar para o guarda-redes e achar que ele joga bem com os pés no que é a execução, no colocar a bola limpa no lateral, conseguir fazer um passe para a zona pré-definida onde está o ponta de lança a segurar ou pentear - isto pode ser jogar bem com os pés. Respondendo ao que perguntaste, isto era um processo que já vinha a ser implementado, portanto seria hipocrisia dizer que isto é só trabalho do Ricardo Pereira ou é só deste ano, porque já vinha a ser trabalhado no clube no ano anterior. Mas acho que este ano afinámos o processo e ele atingiu o seu expoente máximo com os nossos guarda-redes algumas vezes, como não lhes saltavam na pressão, a levar a bola até ao meio-campo, à espera que a pressão saltasse, para conseguirmos descobrir o homem livre, gerarmos um terceiro homem e fazer uma saída limpa, que era algo em que trabalhávamos muito. Só que muitas vezes os adversários deixavam de nos pressionar, porque perceberam que não valia muito a pena. Portanto, não é algo meu, era algo que eu já apreciava, mas aprendi muito com esta equipa técnica para depois poder ensiná-lo aos meus guarda-redes e poder melhorar ainda mais.

Envolve muito mais do que apenas a execução técnica.
O processo era muitas vezes tão complexo ao nível da decisão, e às vezes estratégico, porque trabalhávamos em função do adversário, para vermos como íamos sair com a bola parada, ou seja, a partir do pontapé de baliza, e já em jogo. Os nossos guarda-redes faziam coisas como: se não fosse necessário baixar o nosso médio defensivo, com ele a poder ficar nas costas do homem ou dos dois homens que nos saíam a pressionar, a construção a três era feita com o guarda-redes metido na linha dos defesas centrais, até que um destes defesas pudesse comer as costas desta pressão. Também tivemos alguns jogos em que queríamos projetar um dos laterais, e então - e há quem goste, há quem não goste; e há quem considere que é uma loucura - o quarto pasillo, como eles lhe chamam, é dado pelo guarda-redes, ou seja, tu queres fazer uma construção com os dois centrais, queres projetar um dos laterais e tens o outro lateral baixo, portanto a quarta linha de passe é dada pelo guarda-redes, fazes deslocar o guarda-redes para fora. Tens outros momentos em que, além de termos o guarda-redes a iniciar a construção, já em jogo jogado, ainda queres que seja ele a atrair e a fixar a pressão, portanto enquanto não lhe saltar a pressão, ele não vai jogar. E onde é que ele vai jogar? Em quem fica livre pela saída na pressão. Às vezes entregava a bola ao nosso '6' - que lá é '5', e neste caso era o Pellerano que o fazia -, que estava pressionado, mas que já entendia perfeitamente quem tinha saltado na pressão e jogava de primeira no homem livre para poder receber. Ora isto obriga, do ponto de vista específico, a que trabalhemos tudo isto não só em termos técnicos, porque é óbvio que queres que ele esteja confortável em termos técnicos, com o pé direito, com o pé esquerdo, e que jogue muitas vezes de primeira, mas também em termos de tomada de decisão. E muitos dos meus exercícios passaram a ser construídos em função disto. Qual é a ideia? Qual é a ideia, às vezes, para aquela semana? Porque são pequenas nuances. Quando falamos no estratégico, parece que estamos a falar em grandes alterações, mas são pequenas coisas que realmente se vão passar mais vezes naquela semana de treinos. Até no próprio primeiro treino, de recuperação, já estás a trabalhar aquilo, de uma forma técnica só, porque sabes que é aquilo que lhe vais pedir no fim de semana. Isto já era algo que tinha como paixão, mas neste momento estou muito grato porque cresci muito no processo de construção e sinto-me agora muito mais capaz para desenvolvê-lo. Agora, se for trabalhar com um treinador novo - não é o caso do Renato, porque conheço bem as ideias dele -, noutro clube, que o quer é que a bola saia longa para uma zona pré-definida, ou que seja longa quando haja atraso, então é isto que tenho de dar, com conforto ao guarda-redes. Primeiro, onde se posiciona para receber, porque isto é a base de tudo. No ano passado vi muito pouco futebol português, mas vi dois erros de guarda-redes nossos...

FRANKLIN JACOME

Quem?
Não interessa quem, mas foram feitos dois passes interiores e os dois deram golo. Ou seja, foi feito um atraso e o guarda-redes quis jogar por dentro, houve perda de bola e deu golo. Nós olhamos a decisão e a execução que deu golo. Mas tudo o que está atrás, tudo o que poderia ter sido feito no posicionamento destes guarda-redes nos cinco segundos antes de a bola lá chegar, é tão ou mais relevante do que depois a decisão que tomou e a execução que permitisse que se roubasse a bola.

Então muito desse treino do guarda-redes tem de ser um treino integrado com a equipa. Como equilibras isso com o treino específico no microciclo semanal?
Em primeiro lugar, digo-te que o treino de guarda-redes é, ou devia ser, uma simulação do jogo. Como nós não o podemos treinar todo ao mesmo tempo, decompomo-lo e arrumamo-lo por prateleiras.

Tal e qual como com uma equipa.
Exatamente. E isso começa logo na formação, o conseguir interpretar se aquela é uma situação de um contra um, ou se aquela situação que aparentemente era de remate passa a ser de um contra um na área e como é que vou reagir...

Contra o guarda-redes costuma dizer-se que é um contra zero [1x0+GR]...
Não há um contra zero nenhum, estás a provocar [risos]. Estas situações são uma decomposição do jogo, portanto obrigam-me a olhar para o jogo e a perceber não só o que é que o guarda-redes necessita de fazer, em termos do que são as suas ações técnicas, mas tudo o que está prévio e subjacente, os seus posicionamentos anteriores. Isto é algo de que gosto muito e que o Hugo Oliveira dizia muito no Benfica: onde é que eu estou? Para onde é que eu vou? Como é que eu me desloco? E como é que eu travo? Para depois, aí sim, poder acontecer a ação. É isto que nós fazemos no treino de guarda-redes. Seja para trabalhares a proteção de uma baliza, seja para trabalhares a proteção do espaço, ou seja, o controlo de profundidade, o um contra um, o controlo de cruzamento, que é um espaço onde tens de tomar uma multiplicidade de decisões. Tudo isto é trabalhado por nós no específico, umas vezes com cariz mais técnico, mas muitas vezes já com teor global, por isso usas outros guarda-redes.

Alexandre Simoes

E jogadores?
E três ou quatro jogadores, se te derem, e acho que este é o futuro, porque assim estás a trabalhar num contexto ainda mais real. Por exemplo, no Independiente fazíamos isso muitas vezes: davam-me alguns avançados para eu poder criar exercícios de finalização nos quais sei perfeitamente o que quero para o meu guarda-redes. Então se me derem defesas e avançados, mais contente fico ainda, porque este é o jogo.

Agora começamos a ver algumas equipas com dois treinadores de guarda-redes. Também é o futuro?
Sim, mas deixa-me só concluir a questão anterior. Como te dizia, eu preciso do jogo, porque se não estou só ali a fazer de microondas, como costumamos dizer. Se me derem 15 minutos para treinar, eu consigo treinar e fazer coisas com alguma qualidade, mas acho que os motores nem sequer aqueceram aí. Tu precisas de predispor o corpo para o trabalho que vais fazer, precisas de predispor a cabeça para o que vais fazer. Portanto, se não tenho tempo, invento. Vou mais cedo, porque preciso em média de 40 a 45 minutos para fazer bem o meu trabalho com alguma qualidade.

Em todos os treinos?
Sim. Agora, isto feito em função da gestão de quantos dias faltam para o jogo, do que fiz no dia anterior, do que a equipa fez, do que é que a equipa vai fazer... A interação com os treinadores principais é fundamental, porque se sei o que vai ser pedido ao guarda-redes naquele dia, por exemplo em termos ofensivos, se tenho programado um trabalho de jogo de pés, então porque é que o meu trabalho já não começa a ajudar, do ponto de vista decisional e posicional, ao que sei que a equipa vai pedir 45 minutos depois? Esta é uma forma de trabalhar, mas não substitui a minha presença depois no treino integrado, a ajudar o guarda-redes em termos de feedback. Todos nós falamos muito na tomada de decisão hoje e não é por ser moda, é por sabermos perfeitamente, daquilo que é o nosso conhecimento das neurociências, que quando tu tens no jogo um estímulo que já é reconhecido, ao qual já estiveste exposto, a tua decisão vai ser mais rápida milésimos de segundo e isso vai fazer diferença. Não estou a dizer que as situações são iguais, porque elas são todas irrepetíveis, mas há um conjunto de sinais similares que vais reconhecer e que te fazem tomar decisões que muitas vezes nem estão no teu consciente, estão aqui noutra parte fantástica do cérebro e fazem-te ser uns milésimos de segundo mais rápido. Porque já viste aquele filme e já o repetiste. Para mim, a riqueza do treino específico é muito importante, porque olho para o jogo e procuro treinar de uma forma a simular o jogo, mas não deixo de ter preocupações técnicas, mesmo em atletas seniores, quando sinto que aquilo lhes perturba o rendimento e que são falhas de base, às vezes mesmo de uma forma individual. Porque quero que ele se sinta confiante no que faz. Por exemplo, a forma como ataca o jogo aéreo. Se calhar ele até queria ir e estava posicionado para ir, mas sabe que os seus deslocamentos não lhe permitem chegar no tempo correto da bola. Então isto obriga-me a fazer um trabalho individual para poder ajudá-lo. E isto é o jogo? Não, porque ali é tudo fácil, controlas tudo, mas fazes uma ponte e dás-lhe confiança para depois ele, no mundo real, ou seja, no treino com a equipa, poder estar confortável.

Serena Taylor

Há então vantagens em ter dois treinadores de guarda-redes numa equipa?
Quem nos ouvir a nós, treinadores de guarda-redes, a pedir um segundo treinador de guarda-redes... Dizem que já é um luxo ter um, quanto mais dois. Em todos os contextos em que seja possível, acho que é de uma utilidade incrível, porque permite que um de nós esteja permanentemente no treino integrado e que o outro se possa ocupar dos guarda-redes que estão de fora. É verdade que podes ter apenas um guarda-redes fora e ele estar ao teu lado a analisar o jogo contigo, mas guarda-redes que é guarda-redes gosta muito de trabalhar. E gosta de ocupar o seu tempo nas suas funções, como aquele trabalho específico que pode fazer ali durante 20 minutos, que é diferente do trabalho específico que depois vai fazer o outro colega que estava no treino integrado.

Cada um tem o seu treino?
É aqui que acho que devem entrar os planos de desenvolvimento individual, porque o que faz o A, o B não tem de fazer, porque as necessidades de um e outro são diferentes. Dou-te um exemplo concreto que me aconteceu mas que me roubou muito tempo do treino integrado, que é onde eu acredito que a minha presença é mais importante. No Standard Liège, tínhamos o Memo e o Gillet, portanto dois guarda-redes experientes, e eram eles que estavam no integrado a maior parte do tempo. Depois havia um miúdo, o Bodart, que hoje é o titular do Standard, que acho que foi o guarda-redes que mais trabalhou comigo, porque estava muitas vezes em trabalho individual com ele. Não me satisfaz totalmente quando sinto que não estive no treino da equipa. O que é que te faz decidir estar num sítio ou noutro? Aquilo que é a tarefa da equipa. Mas quando tens uma equipa técnica em que tudo o que está a ser jogado no integrado é de grande riqueza, era ali que devias estar. Mas depois tens também este jovem a precisar de ti... Agora imagina um cenário com três guarda-redes com condições para jogar. Dois deles provavelmente ainda estão com alguma azia e este último ainda tem de ficar ali ao teu lado sentado a ver os colegas jogar... Isso é uma gestão emocional que também tens de saber fazer. Não te digo que estou sempre aqui ou ali, vou-me posicionando. Outra coisa que gostava de fazer, mas no Independiente não posso, é puxar os treinadores da formação, porque nós treinamos todos ao mesmo tempo.

Que influência tiveste na ida do Renato para o Independiente? Certamente não se iam lembrar dele a partir do nada.
Não, e as coisas devem ser ditas com frontalidade. Procurei não me envolver no processo da escolha do novo treinador, em primeira instância. Sou funcionário do clube e fui convidado há três ou quatro meses para dar continuidade ao contrato, porque o contrato é de três anos, mas combinámos avaliar todos os anos. Pedi um mês para pensar e procurei não me envolver no processo, porque da parte do Miguel foi sempre manifestada uma vontade, como ele disse publicamente na despedida, que eu continuasse a trabalhar com ele. Houve um convite do Palmeiras que foi público, mas tentei manter-me sempre um pouco de fora. Um dia, o clube perguntou-me por um nome em Portugal. Conheço muitas pessoas, se calhar para outro clube daria outros nomes, mas para o Independiente senti que o Renato poderia ser a pessoa ideal para substituir o Miguel. Falei dele e disse-lhes para verem, e eles assim o fizeram. Como o Renato entretanto já disse, pediram-lhe a metodologia de treino, foram vistos não sei quantos jogos das equipas dele, mas ainda assim havia mais treinadores na calha. A escolha acabou por ser o Renato e senti que poderia ser o nome mais interessante, devido ao perfil de treinador que se pretende e à ligação permanente com a formação.

Quais são os objetivos para esta época?
O grande objetivo, o grande sonho, é aquele que está gravado nos nossos cobertores, quando nos vamos deitar na Academia, onde se lê: "Independiente del Valle, futuro campeão do Equador". Portanto em todas as noites antes dos jogos, quando estamos nos estágios, vamos dormir com esta frase na cabeça. Claramente um dos grandes objetivos é este, mas é importante perceber, pela dimensão, pela história, pelos aspetos financeiros, que o Independiente nunca será favorito à conquista do título quando existem uma Liga de Quito, um Barcelona e um Emelec. Temos de nos valer por aquilo que valemos no último ano, ou seja, valermos muito mais como equipa, porque nem sempre temos acesso aos melhores jogadores equatorianos ou mesmo à capacidade financeira de ir buscar outros jogadores, como os nossos adversários têm. Mas este é um dos sonhos. O outro é conseguir entrar na fase de grupos da Libertadores e a partir daí ver o que conseguimos fazer nesta prova tão bonita, que imagino que ainda seja mais bonita com público. E obviamente temos de continuar a desenvolver jogadores e a potenciar os meninos que vêm da Academia, porque esse é um objetivo importante no clube. Aliás, no meu caso, a decisão de ficar, não sei por quanto tempo mais, no Equador, teve mais a ver com aquilo que sonho e projeto para a formação do que propriamente o que é o meu trabalho na primeira equipa, porque esse trabalho faço-o noutro clube qualquer e posso voltar para a Europa, porque há possibilidades para isso. Mas o que estou a fazer na formação se calhar não vou poder fazer em muitos clubes.

Estruturar o departamento de guarda-redes e a metodologia?
Tudo o que é estruturação, forma de treinar, formação dos treinadores de guarda-redes do clube... Em última instância, este sonho bonito de mudar vidas, neste caso dos guarda-redes. Este ano já demos dois contratos profissionais e um contrato profissional no Equador a um menino destes muda a vida de uma família de uma maneira muito diferente do que se calhar acontece na Europa.

Como é a vida no Equador?
É um país com muita pobreza, mas que também tem muita riqueza natural e cultural, e um povo absolutamente maravilhoso. É um país lindíssimo para viver. Em primeiro lugar apaixonas-te pelo clube, porque é o primeiro impacto, mas depois começas a apaixonar-te pelas gentes.

A última pergunta que não podia falhar: quem é o melhor guarda-redes do mundo?
[pausa e pensa] É difícil responder. Gosto muito do Alisson, por aquilo que foi a capacidade de evolução dele. É muito fácil nós criticarmos escolas de treino e apesar de eu achar que a escola de treino do Brasil ainda tem uma evolução grande para fazer, é verdade que muito do que eles fazem dota os guarda-redes de uma capacidade técnica fabulosa e de uma capacidade física impressionante, por muito que nós não gostemos tanto do número de repetições, dos circuitos de treino, de tudo isso. O Alisson é uma grande prova disso e é uma prova de como na Europa aumentou o seu conhecimento do jogo e é um grande guarda-redes. Depois tenho outro, que jogou no Benfica, que é o Oblak, que tem essa grande capacidade de tornar o difícil muito fácil. E tem uma coisa que eu adoro nos guarda-redes, que é a sua imensa sobriedade. Se puder agarrar, não vai desviar, é para ficar ali coladinha na mão. E depois dou o exemplo de alguém que já não joga, que não vou dizer que foi dos melhores do mundo, mas que foi determinante para mim, na compreensão do comportamento tático do guarda-redes e da qualidade da tomada de decisão, pese embora o tenham matado por um ou outro erro com os pés: o Artur Moraes. Influenciou-me muito e fiz questão um dia de conseguir um almoço com ele para lhe dizer isto cara a cara, porque era um dos guarda-redes mais inteligentes que vi a jogar e tivemos a sorte de tê-lo em Portugal. Ensinou-me muito no estádio, porque vi os jogos todos dele na Luz, e depois ainda chegava a casa e ia fazer aqueles movimentos de passar atrás e à frente, em que um jogo de 1h30 passa a durar 3h30, para dissecar todos os movimentos do guarda-redes.