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Benfica campeão

Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

O Benfica é o sistema: explicando como o 4x4x2 libertou o talento

O treinador Blessing Lumueno analisa, elogia e critica o que de bom, mau e mais ou menos tem este Benfica campeão do ponto de vista tático e estratégico, partindo da premissa que está no título

Blessing Lumueno

Rafael Marchante

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Antes de chegar a ser apontado para a equipa principal do Benfica, Bruno Lage apresentava um 1-4-3-3 assimétrico, onde os médios tinham muito protagonismo. Da construção à criação, tudo passava pelos pés dos médios que podiam livremente exprimir o seu talento dentro e fora dos blocos defensivos mais, ou menos, congestionados. A promessa era a de um futebol de posse e de competência na forma de romper com blocos densos que estacionam perto da baliza que defendem.

Porém, desde o dia em que assumiu, o treinador do Benfica afirmou que a equipa principal iria jogar em 1-4-4-2. E se é o sistema mais utilizado no campeonato português, também é aquele que permitiu ao treinador juntar a maioria dos melhores executantes no mesmo onze. Bruno Lage soltou o talento que tão poucos acreditam existir no plantel encarnado, libertou vários jogadores ostracizados pelo comando anterior, e trouxe de volta o entusiasmo perdido pelo público da Luz.

Parece fácil

A dinâmica de jogo começou por surpreender os adversários pela velocidade e facilidade com que os jogadores executavam os movimentos. Como ninguém sabia exactamente que movimentos eram aqueles, quais eram os objectivos dos mesmos, e se eram ou não circunstanciais, a dificuldade em parar o ímpeto ofensivo encarnado era imensa.

Ajudou, neste caso, os jogadores não estarem demasiado familiarizados com os requisitos do treinador para o momento ofensivo, tendo isso permitido que o ataque fosse mais imprevisível do que é hoje.

A equipa melhorou muito no momento ofensivo e no momento defensivo, pela forma agressiva como encarou as transições – da defesa para o ataque e do ataque para a defesa -, e perdeu fulgor pela menor capacidade de ferir os adversários, passado o efeito surpresa, em organização ofensiva. E ao dia de hoje, poderemos ver um Benfica campeão sem grandes competências nos momentos de organização defensiva e em ataque posicional.

Como o Benfica de Bruno Lage é melhor do que a maioria dos outros, do ponto de vista da qualidade individual, soma uma percentagem de vitórias bastante superior às derrotas e empates.

Porquê o 4x4x2?

A escolha do sistema não foi inocente, e se existiram momentos de vendaval das águias estes apareceram registados no nome de João Félix. Foi o grande beneficiado pela mudança de sistema e um grande responsável por quase tudo que de bom se tem visto do Benfica. A aposta em Félix foi clara e concisa, e o seu treinador está a colher o que plantou: colocou os melhores a jogar nas posições onde mais rendem. Rafa à esquerda, Félix no meio, Pizzi a partir da ala para o corredor central, Florentino em campo, Ferro como central do lado esquerdo, Seferovic como ponta de lança.

O miúdo rebentou ao início por aparecer mais vezes no corredor central, preocupado com tarefas colectivas de construção, criação e finalização. Notava-se o seu impacto por ser o elemento mais diferenciado que a equipa tinha em campo a jogar dentro do bloco adversário.

Quando passou a aparecer mais vezes no corredor lateral na preparação e na definição, quando deixou de ser tão importante para ligar a equipa nesses momentos, perdeu fulgor e a equipa ressentiu-se disso. Hoje, apesar de continuar a ser decisivo, não representa a mesma ameaça do que quando o treinador dava os primeiros passos.

Apesar de tudo...

Não se deixe enganar pelas minhas críticas, porém; se a turma do Seixal levantar o caneco o grande mérito será do seu treinador. Herdou uma equipa colapsada do ponto de vista mental por falta de estímulos adequados no treino. Em campo ninguém se percebia, ninguém parecia saber o que fazer. Não existia comunhão entre os jogadores e a equipa técnica anterior, nem entre a equipa e os adeptos.

Bruno Lage agarrou nas cinzas e delas fez renascer a Águia, voltando a dar sentido ao seu nome: vitória. Tudo isto com foco no treino e no jogo. É inegável que a equipa hoje é bem mais equipa do quando Rui Vitória decidiu dizer adeus: sabem o que fazer em cada momento do jogo, por força da ideia do seu treinador. Os jogadores passaram de fracassados, de pouco competentes do ponto de vista individual, a heróis, pelas vitórias conquistas com Bruno Lage ao leme.

Com bola a equipa procura fazer a bola entrar nos médios ala (Rafa e Pizzi), para que estes possam ter protagonismo na definição dos lances. Recebem a bola fora do bloco ou dentro dele, e tentam através de combinações, e/ou da condução da bola pelo corredor central fazê-la chegar à situações de último passe ou de finalização.

Também eles, no momento de atacar a finalização, aparecem a dar uma alternativa a quem procura entregar a responsabilidade de finalizar um ataque.

Não é suposto os médios centro participarem em situações de ataque que possam colocar em causa o momento da perda da bola. Florentino e Samaris (antes Samaris e Gabriel) são os responsáveis pela gestão dos equilíbrios da equipa. Salvo raras exceções, estão os dois mais preocupados em cobrir os colegas que têm a bola do que em ser uma solução de passe válida, e uma opção viável para dar seguimento ao ataque.

São eles que controlam e param a maior parte dos contra-ataques, ainda no seu meio campo ofensivo. A ausência de Gabriel, o quarter-back, tornou ainda mais evidente a pouca relevância que os médios encarnados têm no momento ofensivo.

Os centrais ora conduzem, ora soltam nos médios para que sejam estes a colocar a bola em zonas mais adiantadas. Têm liberdade para jogar longo, e não tantas condições para joga curto.

Os laterais aparecem, à vez, em largura e profundidade. Aparecem de uma segunda linha quando a bola se move de um lado à outro do campo, por força da sua posição mais central na altura em que a bola não está a ser jogada no seu corredor. Grimaldo constrói, cria, e finaliza; André Almeida tenta fazer o passe, a desmarcação, a combinação mais simples.

Os avançados participam a partir do corredor e ficam escondidos para finalizar depois. As trocas posicionais que fazem com os médios, para tentarem arranjar espaço com movimentos dissidentes, para tentarem apanhar o adversário em contra movimento, não os tem beneficiado no momento da construção e criação.

Têm a vantagem de, no momento da finalização, não estarem a ser seguidos e acompanhados pelos defesas, por não os conseguirem referenciar uma vez que eles aparecem de fora para dentro. Em contra-ataque abrem, e deixam muitas vezes que sejam os médios ala a aparecer no espaço mais enquadrado com a baliza.

Sem bola a equipa defende com três linha e meia. Os dois avançados formam a primeira linha de pressão, Pizzi, Florentino e Samaris a segunda, a linha defensiva a terceira. Falta Rafa que adopta uma posição intermédia, fica um pouco mais solto das tarefas defensivas, e prepara o contra-ataque em condução para aproveitar o espaço que o adversário lhe permitir.

A equipa da Luz joga um futebol contundente e pouco rendilhado, não é brilhante, mas está melhor trabalhada do ponto de vista táctico e há mais jogadores disponíveis para ajudar a resolver os problemas em campo do que apenas aqueles que têm somado mais minutos, e dão mais garantias ao treinador.

Está longe de ser extraordinária naquilo que faz, mas para tal é preciso tempo; um factor fundamental na aquisição de comportamentos colectivos, e na forma como o treinador consegue convencer os seus jogadores sobre qual o melhor caminho a seguir.

Bruno Lage tem repetido por inúmeras vezes que os jogadores estavam a fazer dele treinador, não menos verdade é que sem ele alguns jogadores de muita qualidade não estariam hoje com o mesmo estatuto que foram ganhando com o novo treinador.