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24 de março de 2007: os amadores aguentaram "quase 80 minutos a perder por 6 pontos quando não podiam perder por 7" e foram ao Mundial

Advogados, engenheiros, médicos ou estudantes foram ao Uruguai, precisamente há 13 anos, garantir a inédita qualificação de Portugal para o Mundial de râguebi, tornando-se na primeira seleção totalmente amadora a consegui-lo. O capitão era Vasco Uva, que recorda à Tribuna Expresso como, na noite anterior, alguns uruguaios foram fazer barulho para a porta do hotel e, antes do jogo, a equipa rezou uma Avé Maria no balneário, algo que nunca fizera

Diogo Pombo

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Ali vai um veterinário, atrás dele um médico, no meio há um engenheiro, uns quantos estudantes universitários misturam-se, avista-se também um advogado. São portugueses e estão cobertos com camisolas pesadas, ainda grossas no tecido e largas a assentarem no corpo. O que lhes ocupa o tempo e dá dinheiro em troca, no dia-a-dia, não é o câmbio que os leva a Montevidéu, no Uruguai.

O Gonçalo, o Rui, o António, o Frederico, o Pedro ou o Miguel pisam o campo, cantam o hino, ouvem o longo e caracteristicamente oval apito e aniquilam-se em esforço mútuo, uma e outra vez, há anos, por pura carolice, que lhes purifica a vontade e os faz correr por gosto até atravessarem o charco e chegarem a Montevidéu, com sete pontos a mais que o Uruguai e a 80 minutos de um Mundial nunca alcançado.

Os sul-americanos têm a experiência, os jogadores com Campeonatos do Mundo jogados e a devida rodagem. Esse conceito imaginário do favoritismo é deles, que são capazes de juntar 15 matulões pagos para o serem e terem a vida dedicada ao râguebi.

Mas, há duas semanas, em Lisboa, os profissionais perdiam com os amadores (12-5) que pularam o Atlântico para ali estarem, contra o derradeiro acumular de todas as improbabilidades e nas barbas de 15 mil locais a torcerem para que isso signifique alguma coisa.

O Uruguai ganha, Portugal perde e da diferença (18-12) sobra o ponto (24-23) que garante a inédita qualificação para o Mundial. É a primeira seleção totalmente amadora a consegui-lo, a ter jogadores que têm de pedir escusa do trabalho, trocar férias, remarcar exames e apelar à boa-vontade de quem os emprega para jogarem râguebi.

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O capitão dessa equipa era Vasco Uva, o barbudo avançado que continuou a liderar a seleção até França, onde jogaram e perderam contra Escócia, Nova Zelândia, Itália e Roménia. Ao mesmo tempo, ganharam a cada um deles, porque a história não dependia de vitórias e já fora escrita pelas placagens, os mauls, as mêlées, as corridas, os chutos aos postes e o sacrifício que embrulhou tudo isso ao longo dos anos.

Meses depois, os jogadores estavam a canalizar a alma e as emoções em cada hino nacional, que gritaram sem o filtro do comedimento. Marcaram um ensaio a cada adversário que encontraram, foram aplaudidos por milhares de adeptos às saídas dos hotéis, sofreram 108 pontos diante do abismo de diferenças que os separava dos neozelandeses, contra quem jogaram futebol, no final do jogo, e partilharam cerveja no balneário com tipos profissionais, que faziam do râguebi vida enquanto os portugueses viviam para conseguirem jogá-lo.

Vasco era advogado, agora é diretor financeiro. Acabou com 101 jogos pela seleção que não voltou a jogar um Mundial até hoje, dia em que estava a trabalhar e, nos entretantos laborais, arranjou tempo para recordar, por escrito, o que aconteceu no 24 de março de 2007. No fim, agradeceu, porque "adorou" recordar o dia, mas o obrigado vai em sentido contrário.

A recordação de Vasco Uva do dia em que Portugal garantiu a qualificação para o Mundial de râguebi de 2007:

A noite passou tranquila, não fosse uns adeptos Uruguaios a querer incomodar com alguns gritos à porta do hotel.

Como tantas outras vezes em estágio, partilhei o quarto com o meu primo João, que tem a capacidade de contagiar todos com a sua alegria. Acordámos mais cedo que o normal, com a certeza que ia ser um dia em grande. Seguimos para o pequeno-almoço e para o habitual passeio com bolas ao pé do hotel. A rotina foi igual a tantas outras, talvez com um pouco mais de pressão por ser um jogo para o qual esperávamos há tanto tempo.

A entrega de camisolas foi emotiva porque todos sabíamos que, caso não atingíssemos o objectivo, podia ser o fim do ciclo para alguns dos jogadores do grupo. No vídeo pré-jogo, o Tomaz [Morais, seleccionador nacional] surpreendeu-nos com algumas imagens de jogadores que tinham feito o percurso pré-Mundial com a equipa, mas que não estavam connosco no Uruguai.

O autocarro para o estádio demorou 15 minutos em vez de uma hora, como tinha sido no dia anterior. O aquecimento correu muito bem e nas bancadas do estádio ouviam-se 10.000 uruguaios contra 10 bravos portugueses que nos tinham ido ver jogar.

Mesmo antes de entrar em campo e por iniciativa do Miguel Portela fizemos uma coisa que nunca tínhamos feito enquanto equipa. Rezámos uma “Avé Maria”, pedindo ajuda para cumprir os objectivos. De seguida um discurso meu a chamar ao coração, naquele dia nada fazia parar a nossa equipa e o râguebi português. Quanto ao jogo, não foi o melhor que fizemos, mas aguentar quase 80 minutos a perder por 6 pontos quando não podíamos perder por 7 demonstra bem a força e garra da nossa equipa.

Quando o apito do arbitro soou no fim, foi um sentimento muito grande de dever cumprindo e de vontade de continuar a viver o sonho Mundial, mais ainda quando sabíamos que íamos defrontar a Nova Zelândia.

Entre umas cervejas e um churrasco a convite dos uruguaios, onde eles não apareceram à exceção do capitão, o Grande Rodrigo Capo Ortega, muitas boas histórias vivemos nesse dia. Umas podem-se contar, outras ficam connosco.

Um grande abraço com saudades aos Lobos de 2007,
VSU