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27 de março de 2018: o dia em que uma lixa lixou o críquete australiano

Há dois anos, a Austrália acordava para o maior dos opróbrios: os bons rapazes do críquete, nas suas roupas impecáveis, afinal também enganam. Esta é uma história que envolve uma bola, uma lixa e a desonra de três jogadores

Lídia Paralta Gomes

Cameron Bancroft e Steve Smith a assumirem as suas culpas

STR/Getty

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Cidade do Cabo, África do Sul, março de 2018. As seleções de críquete da Austrália e da África do Sul jogam uma daquelas intermináveis partidas quando as câmaras de televisão se viram para Cameron Bancroft, uma das estrelas da equipa australiana do jogo que se pratica com bastões e umas bolinhas pequeninas, velozes e duras.

Nas imagens, Bancroft parece estar a esfregar a bola com um pequeno objeto amarelo. De seguida, com cara suspeita, como quem sabe que foi apanhado a fazer o que não devia, Bancroft surge de novo no direto televisivo a dar um jeitinho às calças do equipamento.

Os árbitros acham estranho. Pedem a Bancroft que lhes mostre a bola e tudo o que tem nos bolsos. A única coisa que o australiano lhes oferece é uma capa de proteção dos óculos escuros. Os juízes inspecionam a bola mas decidem não trocá-la. O jogo segue.

É claro que numa era em que tudo pode ser visto e revisto, aquelas imagens foram dissecadas até à exaustão. E no final do dia, Bancroft, ao lado do capitão da Austrália, Steve Smith, surge de semblante pesado em conferência de imprensa para confessar a desonra: de facto estava a tentar modificar a bola com um pedaço de fita-cola.

Tentar contornar regras num jogo centenário e clássico como o críquete, para mais na Austrália, onde é um dos desportos nacionais, é a maior das ignominias. Bancroft, o capitão Steve Smith e o vice-capitão David Warner foram mandados de volta para a Austrália. Antigos jogadores mostraram-se perplexos, o então primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, confessou-se "muito desapontado". A Austrália aprendia que aqueles bons rapazes do críquete nas suas roupas sempre impecáveis, também enganavam.

Mas mal eles sabiam que a história ainda não tinha terminado.

Porque começou então a investigação da federação de críquete da Austrália e a 27 de março, há dois anos, portanto, Cameron Bancroft confessaria que o pequeno objeto amarelo com que amaciava a bola não era uma simples fita adesiva mas sim lixa, a mesma que os jogadores usam para cuidar dos seus bastões. O fim era deixar a bola mais susceptível a efeitos durante o voo.

A investigação concluiu ainda que a mastermind por detrás do plano havia sido o vice-capitão David Warner, que terá mesmo dado um pequeno tutorial a Bancroft de como modificar a bola com a lixa. Além da autoria moral, Warner foi ainda acusado de nada ter feito para parar o plano, de ter iludido os árbitros do jogo e ainda de não ter voluntariamente assumido o seu papel na moscambilha.

Já sobre Steve Smith ficou provado que, para lá de saber das intenções dos colegas, instruiu Bancroft a esconder a lixa dentro das calças. Ambos os capitães foram banidos do críquete nacional e internacional por 12 meses, além de terem ficado impedidos de assumir qualquer posto de capitão no regresso à competição. Bancroft, como autor material, foi suspenso por 9 meses. O trio foi ainda obrigado a fazer 100 horas de trabalho comunitário. O treinador da Austrália, Darren Lehmann, mesmo nada sabendo das intenções dos jogadores, despediu-se do cargo.

Com a opinião pública australiana em choque, na medida em que o críquete está longe de ser conhecido como um desporto em que não impera o respeito e o fair-play, os três jogadores foram bombardeados pela imprensa à chegada à Austrália. Numa conferência de imprensa improvisada logo no aeroporto de Sydney, Steve Smith, em lágrimas, assumiu o seu falhanço enquanto capitão: "Foi um falhanço da liderança, da minha liderança. Peço desculpa aos meus colegas de equipa, aos adeptos do críquete por esse mundo fora e a todos os australianos que neste momento estão desapontados e furiosos. Sei que me vou arrepender disto para sempre, estou muito desgostoso comigo. Espero que com o tempo possa voltar a ganhar o vosso respeito e perdão".

Ainda que o incidente não tenha afetado as relações comerciais da seleção australiana, os três jogadores perderam vários patrocinadores individuais. No fim das suspensões, todos voltaram a representar a Austrália.

O caso foi de tal forma significativo na Austrália e para o mundo do críquete (algo que nós, não habitantes em países da Commonwealth, talvez não consigamos compreender) que deu mesmo origem a uma série da Amazon Video Prime, "The Test: A New Era for Australia's Team", que estreou há duas semanas.