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28 de março de 1993: nasce o rei de Roma, Francesco Totti

Tão nervoso estava que nem demorou 10 segundos a aquecer. Entrou, tocou duas vezes na bola e pronto. Neste dia, com 16 anos, seis meses e um dia vividos, Francesco Totti estreou-se pela Roma, clube e cidade onde reinaria até 2017, sem devaneios para outros lados, sempre fiel, até se retirar como o últimos dos moicanos românticos do futebol

Diogo Pombo

Claudio Villa/Getty

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Há uns anos, um bom amigo, tornado de uma viagem a Itália, ofereceu-me um livro de bolso. É do tamanho de uma mão. Tem “101 pillole di saggezza” na capa, em baixo há três linhas, escritas em italiano, com juramentos romanistas na primeira pessoa. Em baixo, uma ilustração da Loba Capitolina a alimentar os pequenos Rômulo e Remo, o irmão que mataria o outro e fundaria Roma.

A loba e os rapazolas são de bronze e vêm de uma estátua una. Simbolizam uma cidade, representam-na com a lenda que carregam. Mas não é o mais destacável na capa. No topo, em letras negras e garrafais, lê-se “Totti”. É um diminuto livro com uma centena de pedaços de sabedoria e mais um que já lhe saíram da boca e a mais grisalha de tempo é esta:

“Tenho que obter a minha licença em setembro, pois agora viajo de moto como os meus amigos do bairro: o Giancarlo, o Banbino, o Stefano e o Antonio.

Eles ainda entram na curva aos domingos, no Comando, mas quando estamos na sala de jogos nada nos pode dividir. Apenas o placard do pinball: eu sempre faço mais do que deles.”

Disse-a Francesco Totti em setembro de 1994, ao “Guerin Sportivo”, teria 17 anos ou andaria pelas redondezas. Fala de sala de jogos e de pinball, resquícios de três décadas atrás e do século anterior, passatempos antigos que dão mais peso à tonelada de tempo a que isto foi e situam a altura em que o adolescente autor já era alguém que interessava ouvir, mesmo que fosse para dizer algo tão sensaborão.

Já tinha acontecido o 28 de março de 1993, racha no calendário que se acentuou de significado por tudo o que Totti, depois, viria a fazer da sua vida. Nesse dia, com 16 anos, era o humano imberbe sentado num banco, em Brescia, onde a AS Roma estava a jogar e a ganhar por 0-2 e, quase no fim, foi chamado por Vujadin Boskov, o treinador.

De tão inesperado, Francesco estranhou e duvidou. “Quando me disse para ir aquecer pensei que estava a falar com o Roberto Muzzi, que estava sentado ao meu lado”, diria. Não, era mesmo ele, que zarpou dali e aqueceu “nem uns 10 segundos”. Entrou em campo, lembra-se de tocar duas vezes na bola, tudo o resto ficou nublado: “Estava demasiado feliz e excitado”.

Shaun Botterill/Getty

Foram, tão só, dois minutos em campo, muito empurrados por Sinisa Mihajlovic, que sugeriu ao mister "fazer entrar o ragazzino". Participaria em outro jogo dessa época e teve que esperar até outubro, já na seguinte, para se estrear o Estádio Olímpico de Roma, à frente da curva para onde iam os amigos, com a camisola colada à pele da família, pela qual a mãe, anos antes, dera com a porta na cara a responsáveis do AC Milan, descidos até à capital para capturar o rapaz.

Era franzino e frágil, com a pequenez no corpo que fez alguém, cego pelo preconceito, deixá-lo de fora de um jogo do Trastevere, tímida equipa da cidade, onde Totti ficou a dar toques na bola, sozinho, ao lado do campo. Estava lá um olheiro da Roma. “Chamou-me e levou-me para a Roma sem sequer me ver jogar”, recordaria.

O resto são palavras a chover no molhado. Quatro épocas depois da estreia, Totti virou capitão de equipa, aos 21 anos, liderando-a até aos 40, depois de 25 temporadas, 786 jogos, 307 golos, uma Série A e quatro taças, cuja não enumeração é perdoável por ser o que menos interessa no homem que dedicou a carreira, os dias e a vida à Roma, clube, e a Roma, cidade.

O jogador dos olhos gentis, a fúria no pé direito, a língua das chuteiras puxada bem à frente, a calma na companhia da bola, a inspiração nos golos contra a rival Lazio, no ferro que levou no perónio para o Mundial ganho com a Itália, em 2006, na romântica fidelidade que ele nunca castrou, nem quando foi o Real Madrid a querer tê-lo longe dali.

Roma, para ele, “é o mundo”. E o mundo conheceu-lhe a sabedoria naquele 28 de março de 1993.