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29 de março de 2003: quem não viu Deco, não viu futebol

A 29 de março de 2003, entre críticas e elogios, o médio que nasceu no Brasil e se naturalizou português estreou-se pela seleção, e logo com uma história digna de filme: entrou na 2ª parte e marcou o golo da vitória, frente ao... Brasil

Mariana Cabral

Andreas Rentz

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Foi há meia dúzia de dias: recuperando um vídeo antigo da final da Taça UEFA conquistada, a 21 de maio de 2003, pelo FC Porto frente ao Celtic, Gonçalo Paciência escreveu, no Twitter, uma frase lapidar:

"Quem não viu Deco, não viu futebol".

Do princípio até ao fim: no Corinthians (1996), no Alverca (1997/98), no Salgueiros (1998/99), no FC Porto (1998/99 a 2003/04), no Barcelona (2004/05 a 2007/08), no Chelsea (2008/09 a 2009/10) e, por fim, no Fluminense (2010 a 2013), Anderson Luís de Souza espalhou magia e conquistou 22 títulos, incluindo duas Ligas dos Campeões e a já referida Taça UEFA.

Pelo meio, ainda que sem títulos para comprová-lo, brilhou pela seleção portuguesa, depois de um longo debate nacional sobre a naturalização de quem nasceu em São Bernardo do Campo, em São Paulo.

Chamado pela primeira vez para a seleção por Luiz Felipe Scolari, em 2003, Deco teve mesmo de ouvir opiniões contrárias à naturalização de jogadores dentro do próprio grupo que o recebeu: tanto Luís Figo como Rui Costa, mesmo especificando não estarem contra o médio do FC Porto, revelaram publicamente que eram contra um processo que "desvirtuava" o espírito das seleções nacionais.

Na altura, Deco tentou desvalorizar o debate - "o apoio que tenho recebido das pessoas em geral, desde que se colocou esta situação, deixa-me mais tranquilo. A verdade é que me sinto tão português como brasileiro" -, mas a questão foi ainda mais exacerbada pelo que seria o adversário de Portugal no amigável marcado para as Antas, a 29 de março daquele ano: o Brasil.

"Vai ser um sentimento diferente jogar contra o país onde nasci. Não deixei de ser brasileiro por me naturalizar português, mas Portugal diz-me muito. Só eu sei o que Portugal representa para mim", disse então Deco, antes do jogo.

Naquela noite chuvosa, que acentuou o que foi um jogo rasgadinho (Roberto Carlos acabou expulso depois de refilar com o árbitro), Portugal marcou primeiro, por intermédio de Pauleta, logo aos oito minutos, e o Brasil empatou na 2ª parte, por Ronaldinho, de penálti.

Mas o momento da noite estaria guardado para os 62 minutos: foi Sérgio Conceição, que tinha feito a assistência para o primeiro golo, a ceder o lugar para a estreia de Deco, o novo número 20 português.

A primeira das 75 internacionalizações que o médio iria somar ao longo dos sete anos seguintes ficaria ainda mais marcante aos 82 minutos: Deco sofreu uma falta à entrada da área, preparou-se para bater o livre, rematou por baixo da barreira e... marcou.

Aquele seria o golo da vitória portuguesa e o primeiro dos cinco golos que Deco marcaria por Portugal, seleção que representou no Euro 2004 - no qual foi o melhor jogador -, no Euro 2008, no Mundial 2006 e no Mundial 2010.

Voltando às palavras de Gonçalo Paciência: se ainda não viram Deco (ou se já não se lembram assim tão bem...), "que aproveitem a quarentena para o fazer".

Deco: “E o Eusébio? Essa discussão da naturalização sempre me pareceu estúpida. Escolhi Portugal para jogar com os meus amigos”

Anderson Luís de Souza, o mágico Deco, que “chutava com os dois pés, melhor do que Pelé”, como cantavam os adeptos durante os mais de cinco anos em que envergou a camisola azul e branca, está de volta a Portugal. É agente de jogadores, tem um clube no Brasil e colabora com o “maior vendedor do mundo”, Jorge Mendes. Chegou em 1997 para jogar no Benfica, foi parar ao Alverca a ganhar metade do prometido por Vale e Azevedo. Ainda passou pelo Salgueiros antes de chegar às Antas, há precisamente 20 anos, a tempo de se sagrar pentacampeão nacional. Aos 41 anos, conta como quase tudo aconteceu