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5 de abril de 1962: "Por mais gigantesco que parecesse o querer dos ingleses, os homens do Benfica primaram por uma notável presença"

No dia 5 de abril, o Tottenham recebeu o Benfica, no White Hart Lane, para a segunda mão da Taça dos Campeões Europeus. A vertigem e o querer, para dar a cambalhota à eliminatória, não foram muito diferentes do que se viu na Johan Cruijff Arena na época passada, contra o Ajax, quando o clube inglês garantiu a passagem à final da Liga dos Campeões. A Tribuna Expresso republica este artigo, pois há 58 anos jogou-se este Tottenham-Benfica

Hugo Tavares da Silva

PA Images/Getty Images

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Há uma imagem assombrosa que resiste aos escombros do Ajax-Tottenham. Parece retirada de um cenário de guerra ou da ressaca a quente de um qualquer desastre natural. Há homens pelo chão, destroçados, na alma e na carne. Derrotados. Nicolás Tagliafico, o lateral argentino que diz que no clube holandês olham de lado para quem dá chutão na frente, ficou de pé a sentir aquela brisa de desesperança.

Os spurs, orientados pelo honesto Mauricio Pochettino, rasgaram o coração dos rapazes de Amesterdão, que sonhavam imitar o que homens como os Johan, Cruijff e Neeskens, os irmãos de Boer, Kluivert e Finidi fizeram nos seus tempos. Aquela segunda parte furiosa, sem Wanyama e com Llorente, roubou a serenidade ao caos holandês, transformando-o em mero caos e dúvida. Os londrinos, que já tinham feito algo especial nos “quartos” contra o City de Guardiola, voltariam a fazer história, com um golo de Lucas Moura aos 96’. A gravidade, claro, foi mais pesada do que nunca e os homens de branco e vermelho, desolados, beijaram a relva com o corpo todo.

A história

Na longínqua temporada de 1961/62, o Tottenham do lendário James Greaves chegava pela primeira vez às meias-finais da Taça dos Campeões Europeus e tinha pela frente o campeão em título, o Benfica de Béla Guttmann. A primeira mão sorriu aos lisboetas: 3-1 (Simões, José Augusto-2; Bobby Smith).

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Pedia-se uma noite épica para dar a cambalhota no destino e aquela imagem de Tagliafico podia ter acontecido no dia 5 de abril de 62.

“O Benfica não só não foi recebido com aplausos como foi alvo de um tumultuoso ‘buuu’ quando entrou no terreno: houvera um atraso e a equipa portuguesa saíra dos vestiários com minutos de atraso”, começa a contar a edição do “Diário de Lisboa” de 6 de abril de 62. “Houvera antes a tradicional e colorida fase dos chefes de claque e dos seus grupos de apoio, com os seus cartazes e slogans. Um desses cartazes era um trocadinho: ‘Portugal grieves tonight.” Era uma referência a James Greaves, que entre 1957 e 1971 marcou 422 golos.

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Os visitantes até começaram a vencer esta segunda mão. “Quando [José] Águas marcou o golo português”, continua o diário, “fez-se no estádio um silêncio de morte, que a alegria do número reduzido de portugueses entre a assistência não chegava a abalar”.

Mas aquela fúria, a vertigem, o que vimos na quarta-feira à noite 57 anos depois, corre-lhes no sangue. E tudo, mesmo tudo, até um resultado que parece super-favorável, é colocado em causa. Basta ver o resumo, com a beleza do preto e branco, e transportar para ali as correrias de Dele Ali, Lucas Moura e Son Heung-min. Ou os apertos das defesas, tanto de Ajax como do Benfica, com a verticalidade do futebol londrino.

A “verdadeira trovoada” chegou com o golo anulado a Greaves. O White Hart Lane irritou-se ainda mais. Bobby Smith empatou antes do intervalo, “numa jogada calma”. Costa Pereira, Germano, José Augusto, Simões e Eusébio iam encantando este cronista. Do outro lado, era Dave Mackay, Maurice Norman e Cliff Jones.

“No segundo tempo, houve a grande penalidade que daria o segundo golo aos spurs. Coluna, para travar [John] White, fê-lo deslizar na lama como barco de vela. O remate de [Danny] Blanchflower não perdoou.”

Depois, Simões viu um golo ser-lhe anulado e Águas, que continuaria a ser “uma espinha na carne dos spurs”, voltou a estar perto do golo. Costa Pereira “ainda esteve melhor do que antes do intervalo”. Os londrinos, que levariam uma bola a estalar a barra, continuaram a apertar, a tentar, a tentar e forçar. Mas nada feito: 2-1. Faltou um golo aos londrinos para empatarem a eliminatória e, quem sabe, sonharem com a final de Amesterdão. O cabeçalho da página do “Diário de Lisboa” resume: “Vitória dos homens tranquilos sobre os homens frenéticos”.

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O defesa Mackay, “o elemento mais influente” e que até piscaria o olho a jogar no Benfica, esboçou uma explicação para o desaire. “Demos quanto podíamos, em esforço, mas concordo que a equipa poderia ter atuado de forma mais inteligente e mais calma. Mas quando os problemas são grandes nem sempre se acerta com o melhor rendimento.”

Calma e inteligência.

A explicação é curiosa. Não imaginam Ernesto Valverde ou Erik ten Hag a dizer o mesmo? Quando os jogos roçam a loucura, como vimos no Liverpool-Barcelona e no Ajax-Tottenham, os jogadores têm de aprender rapidamente a viver em fast forward e no caos. Normalmente, quando existem equipas menos calmas, digamos assim, é quando o futebol é transformado num tesouro apaixonante, chutando para longe as ideias trágicas de inventar uma elite das elites. Sem consciência e memória. All-in. Futebol.

"Diário de Lisboa"

"Diário de Lisboa"

“Formidável espírito de luta”, escrevia Fernando Soromenho numa mini-crónica, a desancar nesta coisa de ver um jogo pela televisão, sem a “cor do cheiro do futebol”, com “imagens esborratadas” e uma "espécie de fantasmas londrinos”. “A «invasão spuriana», com fases de autêntica loucura, encontrou pela frente onze rochas de granito. Lutar, lutar, lutar sempre. (...)”. Afinal, “por mais gigantesco que parecesse o querer dos ingleses - que pareciam diabólicos super-latinos -, os homens do Benfica primaram por uma notável presença”.

O Tottenham não mudou assim tanto desde 1962.

Fonte: (1962), "Diário de Lisboa", nº 14121, Ano 41, Sexta, 6 de Abril de 1962, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_15566 (2019-5-9)