Tribuna Expresso

Perfil

O dia em que...

6 de abril de 1991: o dia em que a maldita cocaína tirou Maradona dos relvados

Foi há 29 anos que a FIFA não teve contemplações com Maradona, apanhado com cocaína num controlo anti-doping umas semanas antes. Quinze meses sem jogar, naquele que foi o triste episódio final da história de amor e queda do argentino em Nápoles

Lídia Paralta Gomes

Getty Images

Partilhar

É possível que sem Nápoles continuasse a existir hoje Diego Maradona, um dos melhores de sempre. Mas, sem Nápoles, não existiria Maradona, a figura de culto, o herói caído, o anjo pecador. Porque não há cidade tão Maradona como Nápoles, nas suas ruas labirínticas, na sua beleza suja, nos seus edifícios precários, no seu sistema para lá do sistema, nas suas regras, uma cidade informal dentro de um país oficial, tantas vezes olhada de lado e de nariz empinado pelos seus patrícios endinheirados do norte, que gozam do seu cheiro e suas das maneiras, talvez por saberem que podem ser muito lavadinhos, mas nunca terão aquela fluidez natural das cidades com leis próprias.

Pois bem, Maradona ali estava em casa, quase tão em casa como no bairro pobre de Lanús onde cresceu, lá do outro lado do mar, em Buenos Aires, mas o que nos é familiar também pode ser perigoso, porque olhamos menos para trás e deixamos entrar a vertigem sem fazer grandes perguntas. Quando Maradona chegou a Nápoles, em 1984, de helicóptero, e viu que o San Paolo estava cheio de 80 mil pessoas só para o ver, terá percebido logo ali que não precisava de fazer muito para ser o rei daquela cidade faroesteana no sul de Itália. É diferente ter-se 80 mil pessoas à espera em Madrid, como teve Ronaldo, do que ter 80 mil em Nápoles. Madrid será Madrid, com ou sem Ronaldo, o Real Madrid continuará a ser o Real Madrid, a Castellana continuará no seu buliço. Já Nápoles tinha pobreza e violência, um clube simpático mas sem títulos e uma necessidade de moralidade como de pão para a boca, a necessidade de um herói que legitimasse aquele sul destratado pelas elites arrogantes do norte industrial.

E Maradona foi isso mesmo naqueles primeiros anos em Nápoles, ainda que o primeiro campeonato só tenha aparecido em 1986/87, ao qual o clube juntou a Taça de Itália, um ano depois de Maradona ter feito aquilo que sabemos no Mundial de 1986, quando levou a Argentina aos pés para o título mundial, no México. As celebrações do primeiro título da história do Nápoles encheu as ruas de cidade durante cinco dias, num festejo ininterrupto. Era o auge do futebol de Maradona, herói na sua terra natal, rei na sua cidadã de adoção, com a sua cara escarrapachada em tudo o que era mural, bar ou loja de quinquilharia. Em Nápoles, Diego podia ser quem quisesse, não existia a disciplina de uma Juventus ou de um Milan e o argentino movia-se pela vida da cidade, fazendo parte dela, entre admiradores, jornalistas, adeptos, homens de negócios, gente importante ou menos importante.

Até que se fartou. Fartou-se de não poder sair à rua, de ter todo o peso de uma cidade tão pesada quanto Nápoles aos seus ombros. "Eu adoro Nápoles, mas mal consigo respirar, quero ser livre para passear. Sou um rapaz como qualquer outro", confessaria à imprensa local.

Icon Sport/Getty

Quando chegou naquele helicóptero a Nápoles, Maradona já trazia consigo de Barcelona uma queda pelo abismo. Das casas noturnas, da cocaína. Foi na Catalunha, onde nem tudo lhe correu bem e de onde saiu depois de ter sido um dos atores principais da batalha campal em que se tornou a final da Taça do Rei de 1984, frente ao Athletic Bilbao, que o número 10 experimentou pela primeira vez aquele pó branco, um vício que lhe foi pedindo mais e mais em Nápoles, onde a Camorra controlava todo o negócio da droga e prostituição. Maradona passou assim a ser visita de casa de alguns dos mais importantes generais da máfia napolitana, convidado de honra de baptizados e casamentos. Rodeou-se de gente pouco aconselhável, que lhe dava acesso a tudo. Começou a faltar a treinos e a jogos e o próprio Nápoles já não conseguia aceitar que aquele jogador, por muito que fosse o melhor e fosse maior que o clube. No documentário realizado por Asif Kapadia há um ano, o argentino descrevia assim a sua rotina em Nápoles: de domingo a quarta-feira, festas, cocaína; de quarta-feira até ao jogo seguinte, sóbrio, a treinar-se e a tentar voltar à forma.

Ainda assim, seguindo esta espécie de regime distorcido, Maradona ainda levou o Nápoles a mais dois importantes títulos, a Taça UEFA em 1988/89 e mais um campeonato italiano em 1989/90. Mas esse título de 1990 é a última alegria de Maradona em Nápoles. No Mundial que se seguiu, quis o destino que Argentina e Itália disputassem as meias-finais precisamente no San Paolo. A Argentina venceu, nas grandes penalidades, com Maradona a marcar o pénalti decisivo. Itália e Nápoles não lhe perdoaram. E também não gostaram particularmente que a sua voz estivesse nas 10 mil horas de escutas telefónicas da polícia napolitana, que investigava os negócios ilícitos locais, onde o capitão do Nápoles surgia a solicitar prostitutas e cocaína.

Em março de 1991, após um jogo com o Bari, foram encontrados vestígios de cocaína na urina de Maradona, que por essa altura já não era o menino de ouro da Camorra. Era o triste capítulo final para o argentino em Nápoles. A 6 de abril de 1991, a FIFA baniu Maradona durante 15 meses.

Acusado ainda pelas autoridades de Nápoles de tráfico ilegal de substâncias, por ter oferecido cocaína a três prostitutas, Maradona escapou à prisão e deixou definitivamente Itália. Duas semanas depois, nesse 1991 negro, seria detido em Buenos Aires por posse de drogas.

Maradona, sabemos todos, voltaria a jogar. Mas aqueles dias de Nápoles nunca mais se repetiriam. Nem era possível que se repetissem. Maradona sem Nápoles não era tão Maradona.