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9 de abril de 1995: Gascoigne tentou desarmar Nesta e partiu a perna em dois sítios. Um ano depois voltou a jogar pela Lazio

Há 25 anos, Paul Gascoigne voltava aos relvados após uma paragem de 12 meses, culpa de uma lesão num lance fortuito com o então adolescente Alessandro Nesta durante um treino da Lazio. Seria o princípio do fim de uma aventura cheia de peripécias do britânico em Itália, da qual ficaram muito mais histórias para contar do que exatamente títulos

Lídia Paralta Gomes

Mark Leech/Offside/Getty

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Era um simples treino da Lazio, daqueles aos quais Paul Gascoigne a custo se tinha habituado. Itália, naqueles tempos, não era Inglaterra. A Premier League ainda dava os primeiros passos quando na Serie A já se faziam treinos específicos, já se escrutinava o que os jogadores comiam, bebiam, o físico trabalhava-se tanto quanto a bola. Gascoigne sentiu a mudança.

Alessandro Nesta era então apenas um garoto de 16 anos que saltitava entre a equipa de juniores e os treinos com os grandes, porque Dino Zoff já via ali aquilo em que o central se tornaria anos depois - a saber, campeão de Itália, campeão mundial, vencedor da Liga dos Campeões, um dos centrais mais elegantes do jogo. Gascoigne, talvez para colocar o miúdo em sentido, não lhe deu tréguas naquele treino. Uma, duas entradas, nada de grave, uma pequena praxe. Mas entretanto algo corre muito mal: o britânico tenta roubar a bola a Nesta, vai com demasiada força e o choque entre ambos acaba com Gascoigne em lágrimas, agarrado à perna direita, estilhaçada em dois sítios. E com Nesta a chorar inconsolável, julgando-se culpado daquele infortúnio.

Estávamos em abril de 1994 e a vida de Paul Gascoigne em Itália já tinha peripécias para vários livros. Mas aquela perna partida era o início do fim, apesar do médio só ter deixado a Lazio quase um ano e meio depois.

Mas já lá vamos.

Paul Gascoigne, talento acima da média para aquilo que as ilhas britânicas estavam habituadas, mas um louco empedernido, era uma das figuras da First Division - a Premier League era ainda apenas uma ideia - quando Itália o chamou. Havia gente disposta a gastar muito dinheiro na península, empresários cansados dos seus negócios lucrativos mas aborrecidos. No Mundial de 1990, em Itália, precisamente, Gascoigne tinha brilhado naquela Inglaterra que chegou às meias-finais. Os italianos gostavam do talento, mas também da malandrice, do carisma e na época seguinte a Lazio acenou com um cheque de 8 milhões de libras a um Tottenham que por esses dias lutava para tirar a corda da garganta às suas contas. E Gascoigne era um dos mais excitantes jogadores daquela geração.

Já de malas feitas para Roma, Gascoigne lesionou-se gravemente num joelho na final da Taça de Inglaterra de 1991. O acordo desmoronou-se. A hipótese de Gascoigne se tornar num dos melhores jogadores do Mundo, como muitos vaticinavam, também. O britânico esteve um ano inteiro sem jogar e ainda fez o favor de atrasar a recuperação quando em finais de 1991 se envolveu numa cena de pancadaria numa discoteca no norte de Inglaterra, o seu norte de Inglaterra, onde cresceu pobre, com um pai doente uma mãe alcoólica.

Shaun Botterill/Getty

Ainda assim, a Lazio acreditou. Em 1992, Gascoigne seguiu mesmo para o Olímpico de Roma. Com o prémio de assinatura comprou casas para os pais e para as irmãs - Gascoigne era e é louco, mas sempre foi generoso. Estreou-se a 27 de setembro na Serie A, frente ao Génova.

Mas até para os latinos, Gazza, alcunha cunhada nos tempos de júnior no Newcastle, era demasiado. Na sua biografia "Gazza: My Story", o médio revela que a relação com as altas patentes da Lazio começou logo com o pé esquerdo, depois de fazer um comentário inapropriado sobre o tamanho dos seios da filha de Sergio Cragnotti, então presidente do clube. Ao próprio Cragnotti.

Já Dino Zoff, treinador, tolerava as suas maluquices, mas não a sua propensão para engordar, a forma física inconstante e as lesões que, consequentemente, apareciam. Ainda assim o britânico era um dos preferidos dos adeptos, que lhe respeitavam o carisma e a cara de pau, e até dos colegas, que elogiavam o coração mole e a capacidade de fazer os outros rir com as suas constantes partidas - chegou a colocar uma cobra morta dentro do casaco de Roberto Di Mateo. Mas o talento de Gascoigne só apareceu a espaços na Lazio.

E para história da pouco dolce vita de Gascoigne em Roma ficam mais as anedotas dos que os títulos. A 24 de janeiro de 1993, depois de Dino Zoff o deixar de fora da convocatória para o jogo frente à Juventus por não estar em condições físicas mínimas, vários jornalistas esperaram no final do jogo por uma explicação a viva voz de Gascoigne. Por essa altura, os jogadores da Lazio estavam em blackout e o britânico era alvo constante da imprensa, ora crítica ora apreciadora dos seus empreendimentos dentro e fora de campo. E quando lhe meteram um microfone à frente, Gascoigne respondeu com um sonoro arroto para o microfone da RAI. Os adeptos adoraram, Sergio Cragnotti, pouco habituado a gafes deste calibre até entre os jogadores de futebol mais mal-comportados, menos. Seguiu uma multa milionária, mas Gascoigne não perderia um pinga de rebeldia.

No início da temporada seguinte, apareceu em Roma, após um verão passado em Miami, com 89 quilos, para fúria de Dino Zoff. Para não perder o lugar na equipa, e tal como conta na sua biografia, perdeu 13 quilos e ganhou de novo a confiança do treinador, que chegou mesmo a entregar-lhe a braçadeira de capitão. Mas depois chegou abril e aquele treino, o lance com Nesta e aquela dupla fratura na perna direita.

David Cannon/Getty

Alessandro Nesta contaria, anos depois, que Gascoigne fez questão de o tranquilizar e assegurar que a culpa daquela terrível lesão tinha sido inteiramente sua e da sua imprudência no lance. E que para provar que não havia ressentimentos lhe ofereceu cinco pares de chuteiras e um kit de pesca. Gascoigne terá também ele próprio acalmado as claques da Lazio, que nas semanas seguintes ao incidente ameaçaram e assobiaram o jovem Nesta incessantemente. Generosidade, já lá diziam os colegas.

Foram 12 longos meses de recuperação até ao regresso aos relvados, a 9 de abril de 1995, na vitória da Lazio frente à Reggiana por 2-0. Mas aquela Lazio já era outra Lazio: Zoff tinha saído, Zdenek Zeman era o novo treinador e o estilo físico do técnico não encaixava em Gazza.

No final da época sairia para o Rangers, onde teria uma espécie de renascimento: ajudou os protestantes de Glasgow a ganhar dois campeonatos em três épocas, antes de regressar a Inglaterra para jogar no Middlesbrough e Everton. Nessa já amarga fase final da carreira, os problemas com o álcool tornaram-se demasiado visíveis. As entradas e saídas de clínicas de desintoxicação sucediam-se, uma das quais depois de cair redondo no chão inconsciente, depois de ter bebido 32 shots de whisky.

E daí veio a decadência e as depressões. Hoje, aos 52 anos, ficamos sempre à espera da próxima notícia sobre Gascoigne e tememos ser a última. E praticamente já nos esquecemos que ele, no seu tempo, foi o mais talentoso jogador inglês da sua geração.