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Lembra-se disto? “No norte estão os trabalhadores. No centro os estudantes. No sul, ou seja, em Lisboa, gasta-se o dinheiro”

Estávamos em abril de 2012 quando Marc Janko percebeu que tinha metido a chuteira na poça: então no FC Porto, o avançado austríaco definiu a rivalidade entre norte e sul de Portugal com "algo que ouvira nas ruas" e não demorou a ser criticado

Mariana Cabral

Marc Janko jogou no FC Porto em 2011/12

MIGUEL RIOPA

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Marc Janko. No grande esquema das coisas, para traduzir à letra uma excelente expressão anglo-saxónica, não se pode dizer que este nome perdure na memória de adeptos que festejaram com Falcao, Jackson e Hulk, só para citar alguns dos contemporâneos do avançado austríaco.

Em 2011/12, aterrado no FC Porto no mercado de janeiro, precisamente para fazer esquecer Falcao (spoiler alert: não conseguiu), Janko ficou-se por uns inócuos cinco golos em 12 jogos, registo bem inferior ao que até então tinha obtido na Holanda, pelo Twente, com 18 golos em 28 jogos.

De titular em fevereiro a suplente em março, cada vez menos utilizado pelo exigente Vítor Pereira, o gigante de 1,96m e 29 anos provavelmente ter-se-ia perdido na espuma dos dias, entre críticas às suas prestações pouco felizes, caso não tivesse proferido uma série de considerações que perturbou a pacatez da sua existência no Porto.

Instado pela revista austríaca Sport-Woche a descrever a sua vida na realidade futebolística portuguesa, Janko disse o seguinte: “Na Áustria nunca vivi nada assim, porque as emoções não são tão extremas. Ódio talvez seja uma palavra demasiado forte, mas as relações entre os rivais são difíceis. Isso tem a ver com a história de Portugal. No norte, estão os trabalhadores. Ao centro, os estudantes. No sul, ou seja, em Lisboa, gasta-se o dinheiro”.

E ainda acrescentou: "Até pedi à minha namorada, por exemplo, para não levar roupas vermelhas quando for ao Estádio do Dragão".

AFP

As considerações socioeconómicas de Janko não caíram, como seria expectável, no goto de quem morava abaixo de Coimbra e o avançado austríaco passou a ser criticado também por aquilo que fazia fora de campo (já agora, em relação às críticas sobre o que fazia dentro de campo, Janko disse então isto: “É uma luta contra moinhos de vento e não quero participar nisso”).

O assunto foi sendo empolado e, no início de abril de 2012, o jogador recorreu às redes sociais para se desculpar. Bom, mais ou menos. "Limitei-me, à falta de termos precisos e específicos, a dar como exemplo algo que ouvira nas ruas. Nunca foi minha intenção desrespeitar as pessoas e o país que me acolheu para seguir a minha carreira no futebol", escreveu então no Facebook.

"Vivo no Porto apenas há algumas semanas, portanto como podia ter um conhecimento tão profundo sobre os temas políticos do passado e do presente?", questionou, na mesma publicação em que justificou alguns dos posts jocosos que ia publicando sobre o rival, como aconteceu após a derrota do Benfica perante o Sporting, que deixou o FC Porto com mais quatro pontos do que os benfiquistas.

"Como jogador do FC Porto quero sempre ajudar o clube a atingir os seus objetivos. Como homem do desporto é também natural que esteja atento a todos os outros jogos, por isso é normal que registe com agrado o facto de os oponentes diretos não renderem como esperado. Isto não tem nada a ver com fair play ou respeito. De resto, respeito muito o jogo e os adversários, mas uma competição é sempre algo entre vencedores e vencidos. Quem não entender isto não sente o que é a verdadeira paixão do futebol", concluiu.

No final da época, Janko disse adeus ao FC Porto - com uma medalha de campeão na bagagem - e a Portugal. Viajou para a Turquia, para o Trabzonspor, por duas épocas, mas também foi pouco feliz por lá. Mudou-se então para uma época na Austrália, pelo Sydney FC, onde já marcou 16 golos em 24 jogos, e voltou à Europa para jogar no Basileia, na Suíça, em duas épocas bem mais consistentes. Em 2017/18, dividiu a temporada entre o Sparta de Praga, na República Checa, e o Lugano, novamente na Suíça, e foi aí mesmo que encerrou a carreira, em 2018/19.