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Elogio da Mão de Vata Matanu Garcia, a quem imploro: assuma o ato, é moralmente aceitável roubar um francês (por Bruno Vieira Amaral)

Aconteceu há exatos 30 anos, contra o Marselha, e foi com a mão. Convém esclarecer antes que apareça por aí um Honesto da Silva Ferreira em alegações de ombros e peitos. Foi com a mão e foi muito bem feito. Tivesse sido com o pé ou com uma parte, para efeitos futebolísticos, menos nobre da anatomia, e já o teríamos esquecido. Ao golo e ao seu autor, Vata Matanu Garcia

Bruno Vieira Amaral

Vata, homem-mito

D.R.

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Foi com a mão. Convém esclarecer antes que apareça por aí um Honesto da Silva Ferreira em alegações de ombros e peitos. Foi com a mão e foi muito bem feito. Tivesse sido com o pé ou com uma parte, para efeitos futebolísticos, menos nobre da anatomia, e já o teríamos esquecido. Ao golo e ao seu autor, Vata Matanu Garcia.

O que leva este homem, de quem os benfiquistas só se lembram por ter vencido uma Bola de Prata com o anorético pecúlio de 16 golos, por ter sido contratado ao Varzim enquanto o homem-forte do futebol do Benfica, Gaspar Ramos, andava pelo Brasil a tentar contratar Romário (em vez do “baixinho” trouxe na bagagem Adesvaldo José de Lima, o mesmo que sair para comprar um Rolex e voltar para casa com um Roscoff no pulso), e pelos seus três sinfónicos nomes que eu sabia por causa das cadernetas de cromos (note-se que, para mim, o central Mozer era José Carlos Nepomuceno Mozer e o artista Valdo era Valdo Cândido Filho; Aldair, por razões que desconheço, é que era só mesmo Aldair), o que leva este homem, perguntava eu, a dar entrevistas em que jura ter metido a bola na baliza de Castañeda com o peito ou o ombro?

Será que não percebe que a grandeza daquele golo, o golo mais importante da sua discreta carreira, reside precisamente na sua óbvia ilegalidade, em tê-lo marcado, com descaramento e em desespero, com a mão?

O que seria um banalíssimo golo, ainda que dando o bilhete para uma final europeia, tornou-se uma obra de arte, um golpe digno de figurar na história universal da infâmia e elevar o seu desengonçado autor à galeria onde Borges reuniu ladrões de cavalos, piratas chinesas e falsários. E isto porque o golo foi marcado com a mão.

Corrijo.

O golo foi feito à mão e é sabido que os objetos feitos à mão são mais valiosos do que qualquer artefacto industrial. Imagino-me sentado aqui, trinta anos depois daquela noite de abril, a escrever sobre “um golo marcado na sequência de um pontapé de canto” por um jogador mediano cujo nome eu já teria esquecido. O que poderia eu escrever sobre esse golo vulgar?

Mas Vata meteu a mão e aqui estamos nós, trinta anos depois, a gabar-lhe a audácia. E sabem que mais? Vata também sabe que foi com a mão. Eis o relato que Eriksson, na altura treinador do Benfica, fez na sua autobiografia: “Os jogadores do Marselha acusavam Vata de ter marcado com a mão. Na cabina, fui ter com ele e perguntei-lhe como tinha sido. Não respondeu. Não respondeu. Só olhou para o chão. Disse-lhe que não estava zangado. Pelo contrário. Havíamos ganho e estávamos na final. Vata levantou-se e mostrou-me como tinha tocado na bola com o braço. “Okay”, disse eu. E até lhe dei uma palmada no ombro.”

Quando li estas palavras pela primeira vez fiquei em choque. Os olhos no chão! Uma palmada no ombro! Eis o que acontece quando à humildade de um filho do Uíge se junta a reserva escandinava de um antigo professor de Educação Física de Örebro. A equipa apurara-se para a final da Taça dos Campeões e ali estavam estas duas criaturas oriundas de latitudes tão distintas em festejos envergonhados, cheios de culpa católica e pruridos protestantes.

Acaso não sabiam que, sendo o adversário quem era, todas os métodos para o derrotar eram legais? Meus amigos, há apenas duas situações em que o roubo é moralmente aceitável: quando se rouba para matar a fome e quando se rouba um francês.

Como o francês se chamava Bernard Tapie, o roubo não era apenas aceitável, mas um imperativo de consciência. Lembro os mais novos ou mais esquecidos, que Tapie, o irascível presidente do Marselha, aterrou em Lisboa convencido de que a vitória não lhe escaparia. O excesso de confiança era geral. O treinador, Gérard Gili, chegou mesmo a dizer que já tinham reservado hotel em Viena, cidade que acolheria a final. Diga-se que a jactância puramente futebolística, descontando já a bazófia gaulesa, não era injustificada.

Duas semanas antes, o Benfica escapara milagrosamente de um massacre com bolas no poste e penáltis não assinalados. A derrota por 2-1 (com o golo do Benfica a ser marcado pelo tal Lima que Gaspar Ramos trouxera como despojo da sua investida brasileira) tinha sido um presente dos deuses, mesmo que Mozer, então a defender a equipa francesa, tenha escapado a uma punição severa quando, ao experimentar uma forma marcial de quiropraxia, espetou o joelho nas costas de Hernâni.

Dizer que o Marselha era melhor é pouco. No meio-campo e no ataque tinha Jean Tigana, Chris Waddle, Enzo Francescoli e Jean-Pierre Papin. Isto era o Cirque du Soleil contra uma trupe esfarrapada de velhos saltimbancos, faquires zarolhos, trapezistas gordos e ventríloquos mudos recrutados em saldos nas feiras de província. Os outros semifinalistas daquela edição eram os colossos Milan e Bayern.

Como é que o otimismo capitalista de Tapie podia olhar para o Benfica e ver mais do que um inseto insignificante no caminho da inédita glória marselhesa? Com o seu bronzeado de vendedor ambulante ou de apresentador de programa de variedades na RAI, bronzeado que sugeria esquemas ilícitos e que um juiz mais excêntrico aceitaria como prova de corrupção, deve ter pensado que a segunda mão era um exercício fútil e desnecessário, tal a superioridade da equipa que ele construíra com engenho e muitos milhões de francos.

Na véspera do jogo, declarou não temer o ruído das 110 mil almas que encheriam a Luz: “nem a mim, nem aos atletas do Olympique, faz qualquer diferença aquilo a que os portugueses chamam “Inferno da Luz”. Os rapazes jogam com os pés e com a cabeça, não é com os ouvidos. E como somos superiores, o triunfo irá para Marselha.”

Reparem: os rapazes jogam com os pés e com a cabeça, proclamou Tapie. E não é que foi derrotado por uma mão irregular? Segundo os jornais da altura, após o jogo, o presidente do Marselha estava furioso, “pior que uma barata de pernas para o ar”, e gritava, enquanto entrava e saía do autocarro: “Ladrões! Bandidos! Malandros! Gatunos! Piratas! Que vergonha…”

Enlouquecido, berrou que os portugueses eram todos uns porcos e proferiu palavras de que poucos se lembram, mas que a esta distância parecem futurologia: “Somos ingénuos e aprendemos agora com o Benfica o que devemos fazer no futuro.” Quatro anos depois, foi condenado por corrupção.

Naquela noite, a fúria dele caiu sobre o árbitro belga, Marcel van Langenhove, que, nas palavras do imortal Neves de Sousa, era considerado “um cidadão com certa vulnerabilidade perante os prazeres do mundo.” Tapie estava convencido de que o Benfica comprara o árbitro. O escândalo foi de tal magnitude que até o primeiro-ministro francês, Michel Rocard, escreveu uma carta aberta a Tapie, mencionando os “erros evidentes de arbitragem” e as injustiças “imperdoáveis e incompreensíveis”. O próprio Van Langenhove comentou o caso este ano. Diz que na altura foi alvo de ameaças de morte e embora compreenda que os adeptos não vão ao estádio para aplaudir o árbitro, pergunta-se porque é que ninguém se virou contra o verdadeiro “ladrão”, o “batoteiro”, Vata Matanu Garcia?

O árbitro belga tem razão. Não foi ele o “ladrão”. Ele foi apenas incompetente (ou talvez, e esta é uma teoria minha, tenha escrito direito por linhas tortas – não é a justiça que tem uma venda a tapar-lhe os olhos? – castigando antecipadamente o patrão do Marselha).

O ladrão, e isso é que é extraordinário, foi Vata. Bastavam as reações descabeladas de Tapie e dos franceses, primeiro-ministro incluído, para que erguessem uma estátua de Vata ao lado da de Eusébio ou, pelo menos, fizessem como as estrelas no Passeio da Fama e permitissem que a mão do angolano ficasse para sempre gravada no chão do Estádio da Luz. Se isto não acontecer, então imploro ao antigo jogador angolano que assuma finalmente a autoria do roubo do século.

É que não foi um roubo qualquer. Não foi um roubo de igreja, nem de catedral. Foi um roubo de museu. Do Louvre. Vata entrou, pegou na Mona Lisa e saiu pela porta principal com a obra-prima de Da Vinci debaixo do braço à vista de 110 mil cúmplices eufóricos, três belgas ceguetas e um bando de gauleses gloriosamente enganados. Está na hora de reconhecer a paternidade do prodígio. Um golo assim, feito à mão desarmada, não se enjeita.