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19 de abril de 2000. O dia em que Berg caiu Redondo no chão

Há exatamente 20 anos, Fernando Redondo mostrou todos os seus truques numa exibição memorável em Old Trafford. Este texto é sobre esse dia, mas sobretudo sobre o médio que transformou a especialidade do trinco num ofício artístico

Pedro Candeias

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Às vinte horas e cinquenta e três minutos do dia dezanove de abril do ano dois mil, Don Fernando Carlos Redondo Rio - vão perdoar-me a figalguia nos termos, mas falamos de aristocracia futebolística - foi Nureyev e Baryshnikov e Nijinsky ou outro qualquer outro bailarino lendário que nos queiramos lembrar.

Com uma bola colada ao formidável pé esquerdo, naquele elegantérrimo passo de corrida que era só seu, Don Fernando virou as costas a Henning Berg, pôs-lhe a bola por baixo das pernas, foi buscá-la ao outro lado, apressou-se para a linha de fundo, levantou a cabeça e cruzou para o golo de Raúl perante o enganado Stam que em circunstância alguma poderia adivinhar o que sairia dali. O poderoso holandês, um dia cosido a frio numa pálpebra rebentada, baixou os braços, tal como os seus colegas baixaram, sovado pelo peso de um lance inimitável que todos perceberam, logo ali, que ficaria na história.

Sucedeu na segunda-mão dos quartos de final da Liga dos Campeões, em Old Trafford, tendo o Real Madrid batido o Manchester United por 3-2 (1.ª mão, 1-0 para os merengues), prometendo um desfecho notável, que foi concretizado com os triunfos diante do Bayern de Munique, nas meias-finais (2-0 e 1-2), e do Valencia, na final (3-0) do Stade de France, em Paris.

Mas isso foi já muito à frente; não desperdicemos então a oportunidade de escrever sobre Don Fernando Redondo, o médio defensivo mais sofisticado a alguma vez ter pisado os relvados.

Digamos que foi uma espécie de Sócrates Brasileiro, com músculo e sem a barba e sem o chopp (e também sem a revolução no sangue), alto (1,86m), corpulento (76kg), e com fibras retraídas prontas a explodir na passada larga que deixava os adversários baralhados, a perguntarem-se como era possível aquilo ter-lhes acontecido.

Porque o que se passou com o pobre Berg, que nunca poderia ser um opositor digno para Don Fernando, passou-se com muitos outros ao longo de uma carreira que acabou estupidamente antes de tempo, com um joelho destruído, torniquetes e sangue inútil.

Na era dos pitbulls e dos aguadeiros, como Dunga, Roy Keane, Diego Simeone, Edgar Davids e Deschamps, Don Fernando transformou uma especialidade pouco romântica - a de roubar a bola com uma faca nos dentes - num ofício artístico.

Hoje, no Youtube, não faltam segmentos de vídeo onde podemos recordar todas as maravilhas executadas por Redondo: cuecas, fintas de corpo, passes longos e diagonais, golos e intensidade. Espreitem. Asseguro-vos que não perdem tempo.