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27 de abril de 1983: URSS ganha 5-0 a um Portugal sem fruta, nem leite, mas com “debilidade, pasmaceira e pés como chumbo”

Faz 37 anos que a seleção nacional foi a Moscovo ser goleada e sofrer a única derrota na caminhada para o Europeu de 1984, onde só pararia nas meias-finais. O choque, à época, foi pano para crítica, como se recorda no pedaço de jornal que o "Diário de Lisboa" dedicou ao resultado. E foi piorado com as declarações de Manuel Bento, o guarda-redes do Benfica que se queixou de falta de fruta e leite no dia anterior ao jogo

Diogo Pombo

Manuel Bento, guarda-redes da seleção nacional, a celebrar a qualificação para o Europeu de 1984, no Estádio da Luz, meses depois da humilhação na União Soviética.

Getty Images

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Eram noventa mil almas soviéticas aos berros, toda uma arena a torcer contra, gritos tão imperceptíveis na tradução quanto claros no significado. O contexto contradizia fortemente quem era português e o estado das coisas no Estádio Lenine, em Moscovo, não estava afim de se colocar a jeito para que Portugal dali retirasse uma alegria futebolística da qual ressacava há quase 20 anos.

Além da Finlândia e da Polónia, na fria constelação de equipas que calhou no grupo da seleção nacional havia a União Soviética, a favorita para dali sair e chegar ao Europeu de 1984. A época tinha-a como uma das equipas mais fortes do continente, a reputação justificava-se por o treinador ser o inovador Valeriy Lobanovskyi e o craque Oleh Blokhin, do Dínamo de Kiev.

Lá tiveram os portugueses que visitar os soviéticos, onde acabariam engolidos pela apoteose que se ergueu contra eles. Pietra, Bastos Lopes, João Cardoso, o capitão Humberto Coelho, Fernando Festas, João Alves, Carlos Manuel, Jaime Pacheco, Nené, Fernando Gomes e Costa perderiam por 5-0, humilhação numérica e vistosa na letargia com que Portugal foi atropelado a 27 de abril de 1983.

No dia seguinte, com a hipótese de um regresso às provas de seleções a escurecer, José Neves de Sousa pintou no "Diário de Lisboa" um negro retrato. “De um lado, viu-se velocidade, ação, entrega, expediente, soberania. Na outra trincheira, apenas debilidade e pasmaceira, sonolência e pés como chumbo. A falta (mais que nítida) de preparação física para ombrear com uma turma que tinha asas nas botas”, foram as taciturnas palavras.

Diário de Lisboa

Julgava-se que a barrigada de golos encaixados eram tempos idos. Em 1934 foram 9-0 da Espanha, em 1947 houve os 10-0 da Inglaterra e, em 1953, também a Áustria encheu as duas mãos. Portugal já tinha ido pomposo a um Mundial, a seleção mostrara-se com o poderio de Eusébio, mas, desde então, temia-se uma nova decadência, que o jogo em Moscovo aproximou da realidade.

Pareceu “um jogo altamente sofisticado, como se a nossa moçada funcionasse apenas como leve parceiro de treino e os soviéticos fossem teleguiados para o melhor sentido das jogadas por um invisível transistor dirigido da lateral pelo responsável, assim a modos que Lobanovski de megafone e Otto [Glória, selecionador nacional da altura] com rolha na boca”.

O relato, assim, até doía mais que o relatado.

E as coisas piorariam em falatório, polémica, crítica e apontamento de dedos quando a Manuel Bento perguntaram as razões para tal derrota. Respondeu o guarda-redes do Benfica e da seleção que “gostava era que a União Soviética passassem em Portugal” aquilo que os jogadores passaram em Moscovo: “Até fome chegámos a passar. Não havia líquidos, não havia leite, não havia fruta e tivemos muitas privações”.

Podia soar a música vinda do argumentário das desculpas, uma tentativa de bigodear vinda do guardião de bigode do Benfica, que teve de aguentar com as consequências das suas palavras.

Os jornais escreveram que, durante vários dias, à porta da loja pronto-a-vestir de Manuel Bento, no Barreiro, onde vivia, tinham sido colocados fardos de palha. O Barreiro era um bastião comunista e suspeitava-se que o que dissera o guarda-redes não fora ali ouvido com gosto.

A galhofa cruzada com a crítica foi engordando como a goleada encaixada em Moscovo, que durou até novembro, quando, no Estádio da Luz, a seleção nacional logrou uma desforra com maior significado do que os números: só tinha de ganhar por um golo à URSS, ganhou por 1-0 e garantiu o apuramento para o Campeonato da Europa, ficando os soviéticos de fora.

Mais tarde, Bento abordaria o que explicou ser um mito urbano: “Limitei-me a dizer a verdade, aliás não seria preciso esperar muito tempo para se perceber bem que não mentia. Mas essas histórias da loja destruída e dos fardos de palha foi muito mal contada. Um homem como eu continuaria a viver e a amar o Barreiro se isso se tivesse passado? Eu é que, para promoção das calças de ganga, fiz montras com fardos de palha como adereços e alguém confundiu tudo e lançou a boato”.

Em 1983, o guarda-redes não falou de líquidos, leite e fruta como se justificar, disse não querer que tal servisse “de desculpa para o resultado, mas que foi uma ajuda, disso [estava] convencido”. De uma derrota, Manuel Bento ganhou ser personagem de uma estória popular. Desde então que a seleção não mais perdeu por tantos: “O que falhámos não sei, não consigo encontrar uma explicação para isso. A verdade é que a equipa portuguesa parecia que tinha chumbo nos pés”.