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28 de abril de 1967: O dia em que Muhammad Ali disse quatro vezes não à Guerra do Vietname. E ficou quatro anos sem combater

Foi há 53 anos que Muhammad Ali deixou de ser apenas o melhor pugilista do Mundo para se tornar também numa das caras da luta contra a guerra e a discriminação. E assim nasceu o ícone. Mesmo que com custos para a sua carreira

Lídia Paralta Gomes

John Malmin/Getty

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Chamaram o seu nome três vezes. E das três vezes Muhammad Ali ficou quieto, sem mexer um músculo que fosse, a antítese daquilo que fazia nos ringues, onde era tão rápido de mãos e pés, com aqueles reflexos de gato - "planava como uma borboleta e picava como uma abelha", diziam. Das três vezes, Ali renunciou aquilo que lhe parecia inexplicável, sair do seu país, deixar o boxe, para pegar numa arma e ir matar vietnamitas. A guerra não era sua, Ali recusou-a, embora isso fosse crime punível até cinco anos de cadeia, como lhe disse o oficial naquele centro do exército norte-americano em Houston.

E à quarta, Ali voltou a não dar um passo em frente. Foi preso. Nesse mesmo dia, 28 de abril de 1967, perdeu a licença para combater e os seus títulos mundiais foram-lhe retirados pela Associação Mundial de Boxe. E nos três anos seguintes, Muhammad Ali, "The Greatest", não pode ser o maior nos ringues.

Aquela manhã de abril de 1967 era o culminar de meses e meses de guerra fria entre Ali, a consciência de Ali e uma América que ele não aceitava. No início de 1966, e apesar do estatuto de campeão mundial de pesos-pesados, Muhammad Ali foi colocado no grupo de norte-americanos elegíveis a serem chamados para o exército, o que naquela altura significava guia de marcha para a selva do Vietname.

Ali recusou, considerou-se um objetor de consciência. As razões foram religiosas - Ali já se tinha então convertido ao Islão - mas era também uma questão de direitos humanos. "Eu não tenho nada contra os vietcong. Eles nunca me chamaram preto", diria. Ou ainda: "Porque haveriam de me pedir para vestir um uniforme, viajar milhares de quilómetros para lançar bombas e espetar tiros às pessoas do Vietname quando os chamados pretos de Louisvile continuam a ser tratados como cães, sem os mais simples direitos civis?".

Depois de dizer quatro vezes não ao Exército, Ali foi presente a um tribunal de júri totalmente branco, que em 21 minutos ditou a sentença: culpado por violar a lei militar.

Bettmann/Getty

O caso só veria a luz do recurso quatro anos depois e nesses quatro anos Ali não passou pela prisão, mas tão-pouco pode competir. Entre os 25 e os 29 anos, talvez no pico da sua capacidade física, tornou-se um pária para os patriotas, mas um símbolo para todas as vozes que se insurgiam contra a guerra, a favor dos direitos civis, pelo fim da discriminação à qual os negros continuavam a ser subjugados em território norte-americano.

Só em 1970 Ali foi de novo autorizado a combater. Só em 1971, com os EUA já cansados da guerra, a condenação de Ali foi finalmente revertida. E só depois da travessia no deserto, Ali foi o Ali do Combate do Século, do Rumble in the Jungle, do Thrilla in Manila.

Mas terão sido os anos em que a sua consciência não lhe permitiu calçar as luvas de boxe que tornaram Muhammad Ali num ícone, para lá do pugilista mais preponderante da história, ainda que espoliado dos seus melhores anos por uma decisão de um tribunal de homens brancos. "As ações de Ali mudaram os meus critérios para aquilo que considero ser a grandeza num atleta. Ter um lançamento assassino ou a capacidade de parar um golo já não chegava. O que fizeste para libertar o teu povo? O que fizeste para ajudar o teu país a viver de acordo com os princípios do seus fundadores?", escreveu em tempos o jornalista negro William Rhoden no "The New York Times".

Isso sim, chama-se grandeza.