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O Real Madrid dos recordes e gestos feios é campeão

Há oito anos, o título espanhol ia para a máquina vertiginosa de ataque aos espaços, das jogadas com poucos toques e apenas com o número de passes absolutamente necessário. Era o Real Madrid dos 100 pontos e 121 golos (46 de Ronaldo), acicatado pelas pirraças de José Mourinho e o dedo no olho do treinador adjunto do Barcelona de Pep Guardiola, que o português conseguiu derrotar

Diogo Pombo

Angel Martinez/Getty

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Özil arranca em corrida reta, só que o passe não entra. O olhar de Di María cola-se na bola e os olhos dos adversários nele se colam, atrai-os e Özil vê-os, adapta a marcha, começa a correr de costas e faz por colar-se à linha do Camp Nou. Confia que lhe chegará o que não chegou há segundos e, chegada a bola, está já bem ciente de onde a quer fazer chegar dentro de um segundo e com dois toques.

Há no gesto a diligência calculada do carteiro que tem as moradas esculpidas na cabeça, mas é-lhe entediante memorizar os roteiros, por isso inventa, olha onde outros não vêem, recria-se na criatividade que tem criando caminhos como o indicado pelo pé esquerdo, que pisa a bola, a passa e a encaminha para se cruzar, lá mais à frente, no caminho previsto de um velocista.

Ronaldo já contraíra todas as fibras de músculo para o turbo que o acelera nas costas de Puyol e Mascherano, pobres lentos, coitados pela distração que os obriga a assistir à entrega da encomenda no quintal de Valdés, ultrapassado pelos dois toques de Cristiano: recebe a bola para a frente, remata-a logo de seguida.

É o 1-2 do Real Madrid no coliseu do rival, o prelúdio da vitória contra quem nunca se antagonizara tanto. E Ronaldo pede calma, a mão a achatar uma força invisível contra a relva, os lábios a dizer que está ali. Há no gesto o desplante da arrogância, a queda de qualquer pudor e desportivismo, a impiedade de quem marcou o 53.º golo da época e sabe que pode muito bem significar uma supremacia que persegue há anos.

É o gesto que toda a gente recorda, mas não foi esse gesto que atiçou a história.

Denis Doyle/Getty

No mesmo estádio, meses antes da capitulação do melhor Barcelona já visto e da quase certeza que o título de campeão ia para Madrid, houve a segunda mão da Supertaça de Espanha. O jogo foi animado, viram-se cinco golos, eram muitos e excelentes futebolistas a defrontarem-se, com os dois inumanos lá metidos. Foi rasgado como sempre é e o caneco ficou na Catalunha.

Mas, mesmo no final da partida, montou-se uma zaragata perto dos bancos de suplentes, tudo à molhada, fé na confusão, jogadores a empurrarem-se, alguns esperançosos a tentarem apaziguar e, confiando na proteção do caos, José Mourinho esticou o braço para, pelas costas, enfiar um dedo no olho de Tito Vilanova, o adjunto de Pep Guardiola a quem chamou ‘Pito’, na conferência de imprensa que se seguiu.

Intencional ou inocente, a troca do nome original do técnico por uma palavra que, em castelhano, significa “pénis”, se nos ficarmos pela mais simpática tradução, cavou ainda mais a fossa das Marianas em que o português, de forma muito mais propositada do que inofensiva, insistia.

Mourinho já era o antagonista-mor de tudo o que vinha de Barcelona e significava barcelonismo. Padecendo do mal que afeta qualquer treinador, impotente a partir do momento em que os jogadores entram em campo, José tornou-se, com o tempo, um guerrilheiro de conferências de imprensa e intervenções públicas.

Nas palavras teve as armas que disparava contra Guardiola, o Barça, a sua forma de jogar, os jogadores, os árbitros e, quando tudo isso redundava em nada, até aos próprios futebolistas do Real apontou, criticando-os pela amizade com os campeões da Europa e do Mundo que a Espanha juntou e Mourinho queria separar.

Porque eles estavam em e no Barcelona, a cidade onde consensualizou haver qualquer coisa futebolisticamente romântica a cair das árvores, o clube que ensinava um estilo de jogar aos miúdos e o tentava praticar nos graúdos que mais amores unânimes parecia atrair em quem os via a jogá-lo. Que com Guardiola, Messi, Iniesta, Xavi e Busquets parecia atingir o apogeu - já eram três campeonatos espanhóis seguidos e duas Ligas dos Campeões - e ser imparável, vulgarizando muito boa gente.

Com a esporádica humilhação à mistura, como na época anterior, quando a primeira versão do Real Madrid de Mourinho foi, ao mesmo estádio, ser vergado por 5-0 e fazer o português sofrer a primeira derrota do género na carreira: sem espinhas, sem hipóteses, sem ponta por onde se lhe pegue, sem solução possível para fazer face ao atropelo.

JAIME REINA/Getty

Foi o gatilho para o início da reação em cadeia que levou o dedo de Mourinho ao olho de Tito e acicatou ainda mais as coisas. No jogo seguinte, em casa, os ultras do Real Madrid estenderam uma tarja na bancada. “Mou, o teu dedo mostra-nos o caminho”. O clima bélico estava montado e o português tinha o ambiente mais anti-Barça que se vira a envolver o campo onde, de facto, tinha de arranjar um antídoto para superar o rival.

Havia que congeminar uma equipa e Mourinho, aos poucos, conseguiu-o, quando resolveu superar os traumas do 5-0 para, a meio do ano, fugir aos três médios de trator, enxada e trabalho que muito adotara no pós-humilhação, que os espanhóis cunharam de trivote, para desprimor de um deles, Xabi Alonso.

Passou a assentar nesse médio espanhol e na régua e no esquadro que tinha nos pés e confiou na geometria de passes que tinha para montar um Real vertical, prático e direto - não sem antes vir a público uma suposta discussão com Sergio Ramos e Iker Casillas, quando os contestou, a meio de um treino após mais uma derrota com o Barça.

Xabi passou a ser, de vez, o distribuidor de bolas, preferencialmente para o galopante Ronaldo, já na fase máxima de dedicação à baliza, ou para Benzema, o avançado que mais era uma ponte para a equipa avançar até Cristiano, e Di María, o extremo que corria e arrastava marcações pelos dois companheiros de ataque.

Os meses passaram depois do gesto polémico e o Real, de tão eficaz que se ia tornando no ataque aos espaços, nas jogadas com poucos toques e apenas com o número de passes necessário, foi mostrando, aos poucos, que a boniteza não era exclusiva a uma maneira de jogar. O estilo podia não ser tão encantador, mas era bonito de se ver.

Denis Doyle/Getty

Ronaldo marcaria 60 golos na época (a segunda melhor da carreira), tanto Benzema como Higuaín, o argentino que lhe fazia sombra, acabariam com mais de 20. Um festival de jogadas em fúria vertiginosa foi-se prolongando no tempo. E, não se encontrando logo a autoestrada de espaço mais óbvia, havia Mesut Özil e a sua aptidão genial para inventar passes rasgavam equipas inteiras como faca em manteiga no verão.

Houve 17 assistências do alemão durante a temporada, uma delas a lançar Cristiano para a glória em Camp Nou, outra mais banal, em Bilbao, a indicar a Higuaín que devia receber e rodar para marcar o primeiro dos três golos que deram a vitória contra o Athletic, à antepenúltima jornada, a 2 de maio de 2012, para o Real Madrid garantir o título de campeão espanhol.

Nessa dia, o fabrico do segundo golo encapsula o que foi o Real de Mourinho durante essa época - uma máquina de simplicidade e preferência pela via mais direta até à baliza, facilitada por todos os jogadores entenderem que tinha que trabalhar e ser coesos antes de libertarem o génio que havia nos metros mais adiantados de relva.

Foi a liga dos recordes para o Real Madrid, culpa dos 100 pontos e 121 golos marcados, cumes de uma época que além do dedo e das pirraças de José Mourinho, teve ainda a pisadela de Pepe a Messi, no Bernabéu, antes de a equipa, finalmente, ser capaz de ganhar ao Barcelona ao fim de sete tentativas e de Cristiano cristalizar o feito com o seu golo, a sua imagem, com o seu gesto.

Depois viria o declínio, com Mourinho a crucificar Iker Casillas, a desentender-se com Ronaldo, até a gerar uma agrura com Pepe e a ver o Barcelona a igualar-lhe a marca dos pontos no final da época que terá carimbado, de vez, o português de treinador conflituoso, polémico e até hoje à procura do toque de Midas perdido.