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7 de maio de 2006. O último passeio no jardim de Henry

Reduzir 93 anos de história a um mero latifúndio na posse de um avançado francês que passava golos, em jeito, para a baliza, poderá ser redutor, mas Thierry Henry terá sido o melhor, mais dominador e ostensivamente superior jogador que passou com a camisola do Arsenal pelo estádio de Highbury, que há 14 anos acolhia o último jogo antes de ser demolido pela modernidade - e por um hat-trick

Diogo Pombo

David Davies - PA Images

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Não, não pode, Lehmann, que fazes tu, julgador por antecipação de uma bola que prevês vir curvada, de longe, e cruzada para a área, mas que sai com curva mais apertada, segue pelo atalho rápido até à baliza e és apanhado na curva do desamparo, que não é raro existir algures no circuito dos guarda-redes que tentam adivinhar em vez de acautelar o que não controlam.

É por tua causa, literalmente, que o pé de um tal David Thompson, careca, trintão, baixote, inexpressivo no mundo da bola e a dois anos de se retirar no esquecimento, é o remetente do 1-2 para o Wigan, este Wigan, que acabará a época como o décimo ocupante de espaço na escala da Premier League, onde o lugar que pisa neste momento é dos que mais simbolismo ocupa na prova e nós, fosse este um texto igualmente adivinhador do que saltitou pela cabeça dos adeptos do Arsenal, na tarde de 7 de maio de 2006.

Estavam milhares deles engalfinhados em Highbury, alinhados simetricamente por filas de vermelho e branco, toda a gente a vestir a t-shirt da cor certa, no lugar certo da bancada, cada pessoa com o "eu estava lá" estampado na frente, bem visível, por cima de letras mais pequenas, demasiado minúsculas para se lerem à distância de uma fotografia, mas não diziam, com certeza, que todos iriam poder dizer que estavam lá quando o Arsenal perdeu o último jogo de sempre no estádio que era deles desde 1913.

Era urgente reverter o desplante do Wigan, ali a jogar por nada que não os três pontos, porque além da glória, do simbolismo, da memória e tudo o mais que fazia pulsar o coração e pelo qual o Arsenal jogava, era a derradeira jornada da Premier League e tinha de vencer para garantir o acesso à Liga dos Campeões, fazendo figas para que, à mesma hora, um rival citadino (West Ham) derrotasse o maior dos seus rivais (Tottenham).

Tudo isso era colocado em causa pelo um-a-dois ao trigésimo terceiro minuto do jogo e causou o aparecimento de quem mais vezes aparecia em Highbury em momentos de aperto. A urgência despertou Thierry Henry.

No minuto seguinte, uma bola que o Arsenal rouba pouco depois de a perder é lançada por Robert Pirès para o passada galopante do capitão, que ao segundo toque executa a marca que a sua pessoa mais registou: ajeitou o corpo para o lado, a postura reta e endireitada pela classe, e ajeitou o pé para passar à baliza, na direção do poste mais distante.

Mais golo à Henry era impossível.

O que marcou a seguir foi uma oferenda do tal David Thompson, o gracejado desgraçado por um passe atrasado sem olhar, que isolou o avançado francês diante do guarda-redes que desgraçou com uma finta antes de rematar o 3-2. Depois, houve o penálti que chutou sem problemas baliza dentro para celebrar não festejando, como tão henryamente fazia, correndo lentamente mas em passos curtos no seu próprio desplante, até se ajoelhar na pequena área e beijar a relva.

Era o fiel jardineiro a despedir-se do jardim onde deixou 114 dos 175 golos marcados na Premier League, entre os 228 que marcaria pelo Arsenal, com quem partilhou sete anos em Highbury, grande parte dos quais dedicado a ser a maior proeza da equipa. O melhor jogador. Quem puxava o nível bem cá para cima e fazia do teto uma noção abstrata, sem limites.

Durante esses sete anos também houve Patrick Vieira, Cesc Fàbregas, Robert Pirès, Robin Van Persie ou sobretudo Dennis Bergkamp, a serena lenda que ali jogar pela última vez na carreira, cuja entrada em campo foi recebida com uma apoteose inflacionada pela coincidência: o West Ham marcou ao Tottenham enquanto o holandês corria para dentro de campo e os adeptos rejubilaram.

O Arsenal ganhou por 4-2 ao Wigan, tomou o acesso à Champions do rival, o capitão e melhor marcador da história fez um hat-trick e os 93 anos de Highbury tiveram "um final à Hollywood", como explicaria o homem a quem ergueram uma estátua à porta do novo estádio: "Ninguém o poderia ter escrito de melhor. Se perguntares a qualquer adepto, era o final que tinham sonhado".

Thierry Henry jogou no Arsenal durante apenas 7,5% do tempo em que o estádio de Highbury existiu em Londres. Foram sete épocas de um começo titubeante (demorou oito jogos até marcar o primeiro golo) e com nem tantos troféus quanto isso (sete, embora um seja o da Premier League sem derrotas, dos Invincibles), mas o francês fez do recinto a sua casa, simplesmente, porque foi lá que se tornou num dos melhores avançados de sempre.

Ao estádio pequeno, rodeado por prédios e casas de bairro londrino, com um relógio no cimo de uma bancada e público colada à relva, ele chamava, carinhosamente, de "meu jardim". Há 14 anos, esse jardim murchou à força, o Arsenal mudou-se para um jardim maior, mais moderno e adaptado aos tempos e um pedaço do fiel jardineiro ficou naquela terra - "Uma parte de mim morreu naquele dia. Beijei a relva porque sabia que nunca mais jogaria no meu jardim".